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The cisterns; practicalities and use

PART 2 DESCRIPTION OF THE FIELD AREA AND ECO-TECHNICAL

2.3 The cisterns; practicalities and use

As circunstâncias da prática de tatuar complexificaram-se bastante em Portugal na última década. A sua mediatização intensa tem seduzido um número crescente de jovens para a sua prática profissional, com percursos bastante mais diversificados e, muitos, mais qualificados do ponto de vista da formação estética e técnica em artes gráficas. Este processo de extensão e de abertura do mundo da tatuagem tem vindo a desencadear, paralelamente, quer estratégias de profissionalização entre os tatuadores já estabelecidos, que passam pela tentativa de regulação institucional das suas entradas e certificações; quer estratégias de criativização da sua acti- vidade, de forma a garantirem um lugar de destaque num mundo cada vez mais competitivo e exigente.

Com efeito, com a entrada de novos e cada vez mais agentes prove- nientes de outros mundos artísticos, desde as mais institucionalizadas como a pintura ou a ilustração, até ao graffiti, tem-se denotado um in- tenso processo de criativização do mundo da tatuagem por via da inte- gração (não assimilação) de novos processos, técnicas, metodologias, va- lores e exigências de trabalho provenientes desses outros mundos das artes visuais. As transacções entre os mundos das artes de onde provêm e o actual mundo da tatuagem onde actuam, no âmbito das diversas or- dens identificadas, têm habilitado os novos profissionais da tatuagem a

actuarem não apenas no sentido da adequação e/ou reprodução de es- quemas corporais (manuais), materiais (dispositivos) e sociais (competên- cias) prévios e convencionais ao mundo tradicional da tatuagem, mas no sentido da transcendência das circunstâncias orgânicas, ambientais e so- ciais que enquadram a prática de tatuar, potencializando as capacidades criativas que advêm da sua «transferência de domínio». Isto, no entanto, sem rejeitar a aprendizagem e o diálogo com tradições, rotinas produtivas e convenções do mundo desta prática.

O valor da sua actividade e dos resultados gráficos que advêm do seu exercício, já não o encontram na replicação mecânica de processos pro- dutivos, competências técnicas, estilos, gestos e materiais habituais, ge- racionalmente transmitidos na relação mestre-aprendiz e adquiridos sob a forma de convenção no mundo da tatuagem. Onde a reprodução da tradição era feita de uma forma passiva e mecânica, hoje encontramos frequentemente uma atitude de activa regeneração e refundação. Sem denegar a importância dos saberes e saberes-fazer fundadores da tradição estabelecida neste mundo social, os tatuadores da nova geração trazem para aí cada vez mais aprendizagens descontextualizadas dos contextos de formação artística por que passaram e exportadas para os processos produtivos característicos da prática de tatuar. Renegociando convenções do mundo da tatuagem (históricas, estilísticas, técnicas e até materiais), e combinando-as com conhecimentos trazidos de outras áreas, com con- venções importadas de outros mundos artísticos.

É na conjugação, manipulação e aplicação prática de todos esses co- nhecimentos que os mais jovens tatuadores vão respondendo de forma diferenciada e não estandardizada ao desafio lançado pelas diferentes contingências que se interpõem nas várias etapas do processo de fazer uma tatuagem, tentando encontrar, um a um, o seu estilo próprio, num contexto hoje marcado por uma intensa competitividade, vigilância inter- pares e exigência estilística. Mais do que apenas na avaliação do resultado da tatuagem em termos de novidade (Liep 2001), a criatividade é, deste modo, dispersamente percepcionada no decurso de todo o processo que implica a prática de tatuar. Pressupõem por parte do profissional uma atitude de pesquisa, de abertura à experiência, de implicação e investi- mento pessoal, até de improvisação (responsável e controlada pela técnica e pela intenção, é certo, pois trata-se sempre do corpo de outrem).

Tudo isto no sentido de potencializar as oportunidades criativas que se abrem no decurso das várias interacções e transacções que ocorrem no processo de tatuar, de abrir e complexificar o campo de possíveis que caracterizava esta prática, e não se ficar pela reprodução das fórmulas

Das belas-artes à arte de tatuar: dinâmicas recentes no mundo português da tatuagem

e recursos já disponíveis, característica de uma atitude defensiva e uma prática conservadora. Trata-se da habilidade de tirar a prática para fora do hábito, de enfrentar situações problemáticas ou de crise (Shilling 2008), ou até de provocá-las ou estar disponível para elas, equacionando novas soluções, estéticas, técnicas, práticas, etc.

É esta disposição subjectiva que acaba por fundamentar a distinção entre o «tatuador artista», ícone da actual geração, e o «tatuador artesão», característico da geração anterior: o primeiro implicado num processo de exploração dos meios disponíveis e eventualmente de criar novos meios, o segundo interessado em fazer bem, no sentido de reproduzir as convenções históricas do mundo da tatuagem, mais orientado pela di- mensão económica e sujeito ao gosto e à expectativas depositadas pelo cliente no seu projecto de tatuagem. Neste sentido, a criatividade hoje conferida à tatuagem e ao tatuador não depende da legitimação da prática enquanto meio de expressão artística, nem da legitimação do estatuto do tatuador enquanto artista. A criatividade conferida ao trabalho de deter- minados tatuadores é legitimada pela singularidade da abordagem do ta- tuador ao processo de tatuar, no quadro das contingências que o parti- cularizam.

Fica claro como a noção de criatividade, no quadro da actividade de tatuar (mas também em outras formas de expressão artística, claro está, eventualmente mais encapotadas por sofisticadas discursividades), não decorrer das tradicionais polarizações que a tendem a caracterizar: a) a inovação contra a convenção (aliás, as convenções da tatuagem equiva- lem, muitas vezes, a um espaço de possibilidades de inovação para muitos tatuadores provenientes de outras artes visuais); seguir a tradição ou um dado estilo não implica apenas replicar as convenções que o definem e suportam, mas recriá-las, na capacidade de combinar e adequar a tradição perante os desafios que se lhe deparam; b) o indivíduo excepcional, in- vestido de poderes extraordinários, como o talento, o virtuosismo, a ge- nialidade, o intelecto ou o carisma, contra a colectividade. O tatuador não só precisa dos corpos dos seus clientes para concretizar o seu traba- lho, como a sua performance criativa não é expressão «pura» de si próprio, capacidade individual, intrínseca e mental de inovação que ele possui a

priori, mas sempre produzida em interacção socialmente situada na di-

nâmica de relações e interacções sociais onde está situado (horizontais e verticais), e pressupondo processos de socialização prévios.

A criatividade surge, sim, no decorrer de um processo colaborativo e performativo de ajustamentos constantes às contingências com que os praticantes da tatuagem se deparam, de mobilização de competências e

de negociação de margens de liberdade/manobra no decorrer de pro - cesso de projectar e fazer uma tatuagem. Acontece num processo que decorre da circulação e dos fluxos entre materiais, corpos, ideias e pessoas. A criatividade, os profissionais de tatuagem encontram-na na constante e diária recombinação interactiva de todos estes elementos. Daí a impor- tância de recuperar os processos produtivos nos estudos sobre arte e cria- tividade, objecto que muitas vezes escapa à sociologia e aos estudos cul- turais. Há, de facto, uma tendência de estes campos de estudos muitas vezes tentarem «purificar» o social. Mas há também que olhar para a re- ciprocidade do social com elementos de outras dimensões da vida, no- meadamente a material e a corporal.

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