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Geographical description and analysis of the field area

PART 2 DESCRIPTION OF THE FIELD AREA AND ECO-TECHNICAL

2.1 Geographical description and analysis of the field area

Desde logo, uma importante especificidade da prática de tatuar é que ela envolve sempre a intervenção de um órgão do corpo humano – a mão do tatuador – sobre outro órgão – a pele humana. Ou seja, um su- porte vivo, vivido e em devir, que é disponibilizado por alguém que, fre- quentemente, está a pagar um serviço. A dimensão criativa da ideia a ta- tuar, ou seja, da concepção do projecto iconográfico, tende assim a ver-se comprometida pelo lugar que a acção do cliente adquire sobre o respec- tivo processo de produção.

A arte, às vezes, é associada a um conceito. [...] Há muitos tatuadores que têm a opinião de que não fazem arte porque a arte tem vários pressupostos que aqui não se cumprem. Eles reproduzem desenhos na pele, portanto, é uma questão técnica. Temos que respeitar também. [...] Porque é assim, se pusermos a parte conceptual na tatuagem, tem que partir só de quem pinta ou tatua, não é? E isso não acontece. A pessoa quando chega aqui não diz: «olhe, sou uma tela, faça o que quiser». Não acontece isso, é raro, porque traz sempre uma ideia, traz sempre qualquer coisa. Nesse aspecto, não podemos considerar que [a tatuagem] é 100% criativa, que é para trazer algo novo. A arte tem que trazer algo novo. [...] Então, nessa perspectiva, não são artistas quando fazem trabalho... Agora, são artistas quando desenham, quando pin- tam, quando criam e fazem o que lhes apetece. Pá, trabalhos excepcionais que vêm de dentro deles. E aí são artistas. E esses normalmente são os me- lhores tatuadores, são os que sabem criar e tatuar. E muito disso passa para os seus trabalhos. Por isso é que são tão considerados, e são considerados ar- tistas [Entrevista n.º 21 – organizador de convenções].

Daí a prática de tatuar continuar a ser entendida como uma actividade manual e não conceptual, ao contrário de outras actividades ditas «artísti- cas». O epíteto «arte» está hoje, em grande medida, dependente da valida- ção de uma ideia, que algumas vezes nem tem de ser concretizada, como é no caso da arte conceptual. O tatuador, porém, enquanto praticante da tatuagem, não sustenta os seus trabalhos em ideias, conceitos, categorias próprios. A definição destes é deixada ao cliente. Ao tatuador compete a missão de se preocupar com a definição e densidade dos traços, a solidez e brilho das cores, a sofisticação do detalhe e o pormenor das sombras, a adequabilidade do desenho e da sua dimensão à geografia do corpo.

Eu todos os dias desenho, sem partes teóricas. A única parte teórica que eu tenho é a que eu quero fazer, é a minha pesquisa que obviamente eu faço. E realmente estou a trabalhar com as mãos, que é isso que eu queria. [...]

Sempre desenvolvi mais a prática e principalmente, como disse, trabalhos manuais. Pintar, desenhar, colar, tudo o que é mais livre [Entrevista n.º 1 – 25 anos, licenciado em Design].

A qualidade do trabalho numa tatuagem traduz-se ao nível de sombreado que ele apresenta, se está tudo uniforme se não está, a maneira como ele dá cor, como o traço fica, se fica o traço uniforme ou não fica, se está bonita [Entrevista n.º 10 – 32 anos, licenciado em Informática de Gestão].

A tela em que se converte a pele tatuada não está apenas subordinada à mão e à criatividade do tatuador. O projecto iconográfico que ela trans- porta decorre de um trabalho de intersubjectividade entre tatuador e ta- tuado, não só a fonte de receitas do primeiro, mas também o suporte do seu trabalho, uma tela viva de que o tatuador não é o proprietário. A propriedade da pele concede ao cliente uma participação inevitável no processo que subjaz à sua decoração, começando desde logo pela sua conceptualização projectual. Espera-se de um «bom tatuador» que con- siga transpor para a epiderme a ideia conceptualizada pelo cliente. O ta- tuador é o concretizador do imaginário do cliente, é o tradutor do desejo deste. No entanto, da situação de intersubjectividade construída entre ta- tuador e tatuado resulta um trabalho de co-autoria, onde o tatuador tenta adaptar a ideia gráfica do cliente ao seu estilo próprio. O trabalho de in- terpretação do tatuador passa pela construção de um entendimento es- tético, de um sentido estilístico próprio para o conceito invocado pelo cliente, deixando margem de manobra a investimentos gráficos criativos.

Quando um cliente apresenta uma ideia, nós através disso criamos uma peça que seja... que conjugue, lá está, a nossa criatividade com as ideias do cliente. [...] Quando um cliente dá uma ideia geral e nós apresentamos a nossa interpretação dessa ideia, aí acho que estamos a ser criativos. [...] Mas às vezes é difícil porque os clientes limitam um bocado o processo, porque impõem certas barreiras e certos limites, e querem isto e aquilo. Então pri- meiro que tudo, visto que não vai ser para mim e é para um cliente, tenho que respeitar isso [Entrevista n.º 2 – 22 anos, 11.º ano (área de Artes)].

Quer isto dizer que nesse processo de tradução iconográfica não acon- tece apenas de um acto de descodificação ou de reprodução manual, mas também de codificação e de produção estética. O tatuador dá forma, dá vida à ideia inicial do cliente, molda-a graficamente ao tentar encontrar a solução formal mais adequada ao projecto e aos gostos estéticos da- quele. Abrem-se aqui muitas possibilidades à intervenção pessoal do ta-

Das belas-artes à arte de tatuar: dinâmicas recentes no mundo português da tatuagem

tuador no sentido de expandir e melhorar estilisticamente o conceito ins- pirador, sob a forma de conselhos e sugestões, a nível técnico, da ade- quação do desenho ao local do corpo que se quer preencher, da sua di- mensão e pormenores, da coerência do projecto em função de outros desenhos que já existam, etc. Esta etapa de projecto da ideia visual da ta- tuagem implica, portanto, uma criatividade colaborativa, intersubjecti- vamente gerida e negociada. A relação com o cliente é necessariamente pautada por um estilo interactivo de permanente negociação (Irwing 2000), por um esforço de colaboração onde se sucedem inúmeros com- promissos na articulação entre a visão do tatuador e os desejos do cliente, muitas vezes relativamente difusos em termos de desenho e localização.

Às vezes tens pessoas que dizem que querem exactamente aquilo por se- gurança: «bem, isto já vi como é que é e quero isto; não quero que a pessoa [o tatuador] arrisque, porque isto sei que gosto e o que ele me vai fazer, eu não sei». Mas tu, como tatuador, tens que ir buscar o teu desenho, não só por ti, mas também pelo cliente, preparar muito bem uma coisa tua. [...] Tens sempre aquilo que consegues incutir ao cliente, aquela liberdade que consegues ir buscar através da conversa, do diálogo [Entrevista n.º 1 – 25 anos, licenciado em Design].

Nesse processo de negociação existem variáveis que intervêm na li- berdade criativa deixada ao profissional pelo cliente na tradução gráfica da sua ideia. Uma delas é o conhecimento prévio que este último tem sobre o estilo de trabalho do tatuador e a confiança que esse trabalho lhe merece. O processo de negociação intersubjectiva tende a ser mais facilitado à medida que se constrói uma relação de fidelidade entre ta- tuado e tatuador, caracterizada pela procura continuada do mesmo pro- fissional por parte do cliente em cada trabalho pretendido. A construção de uma relação dessa ordem, para além de potenciar um maior grau de coerência estética no projecto corporal, também faculta as condições in- tersubjectivas necessárias para um encontro mais fácil entre o exercício da criatividade do tatuador e o gosto estético do cliente.

Clientes habituais normalmente vêm-me procurar pelo estilo que eu tatuo bem, entendes? [...] Normalmente, aquela clientela habitual que vem procurar pelo meu tipo de trabalho específico, dão-me liberdade total. [...] Clientes habituais, é liberdade total, basicamente é liberdade total. Chegam cá, dizem o que querem, deixam-me desenhar à vontade. E sabes, fazem mesmo questão de não dar muitas opiniões, porque sabem que... Confiam, dizem: «olha, deixo ao teu critério as cores, a forma do desenho». Normal-

mente esse pessoal habitual é assim, liberdade quase total [Entrevista n.º 9 – 30 anos, 9.º ano].

Para além da questão do estilo próprio do tatuador, a reputação ad- quirida pelo nome do tatuador na hierarquia interna do mundo da ta- tuagem também intervém na resolução da eventual tensão entre o inves- timento criativo do tatuador e a vontade do cliente. Apesar de haver sempre uma interacção colaborativa com o cliente, o nível de intervenção deste vê-se limitado na razão inversa do nível de reputação artística do tatuador a cujas mãos entrega o seu corpo. Os tatuadores mais reputados acabam por não ser escolhidos pelos clientes, mas são eles que escolhem os trabalhos que querem executar. Aqui, na negociação do projecto, é o valor social do nome que vale.

Temos o [mestre] que é, sem dúvida, a pessoa mais procurada aqui na loja. É talvez um dos melhores tatuadores nacionais, talvez, sem dúvida, o mais premiado em Portugal, o mais procurado talvez até aqui na zona [...] e arredores. Não faz o walk in, aquela pessoa que entra e diz: «olha, quero fazer isto agora». Normalmente não faz esse tipo de trabalhos. Estamos a falar de retratos, braços inteiros, costas, trabalhos japoneses. Coisas já maiores e mais complexas, acaba por ser ele. [...] Depois, por exemplo, letras acabam por ficar para mim, seja um colega meu a atender ou seja eu, porque realmente essa é a minha especialidade e acabo eu por ficar com isso. Muitas vezes o tradicional acaba por ficar para o meu outro colega. Ele faz um pouco de tudo também. É aquele tatuador versátil que agarra qualquer estilo. É da- queles mesmo muito, pá, mais do que eu, apaixonado pela cultura da tatua- gem [Entrevista n.º 1 – 25 anos, licenciado em Design].

Com efeito, à medida que adquirem a expertise necessária e vêem , no circuito da marcação corporal, a ressonância pública do seu nome asso- ciada a um estilo pessoal, os tatuadores tomam um papel mais activo na selecção e socialização dos seus clientes e respectivas propostas. A partir do momento em que há uma reputação artística e um estilo próprio a defender, num circuito em ampla expansão, conexão e profissionalização, não se aceitam incondicionalmente todos os trabalhos propostos. A pos- sibilidade de seleccionar, segundo os seus próprios cânones estéticos e de complexidade técnica, o tipo de projectos a que querem ver o seu nome associado, permite aos tatuadores mais reputados, logo à partida, evitar uma eventual frustração na compatibilização do seu trabalho com as exigências do cliente, sem comprometer mutuamente as suas expecta- tivas autorais e as expectativas conceptuais do consumidor.

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Poder arbitrariamente executar esse privilégio corresponde, portanto, a uma inflexão na tendência do mundo da tatuagem, da costumeira si- tuação de heterodeterminação profissional para o estatuto profissional- mente mais almejado e favorecido de endodeterminação. Esta não acon- tece apenas a nível da dimensão estética do projecto, mas também a nível da dimensão económica. Há uma (suposta) denegação do económico em nome do profissionalismo de registo autoral e da consequente cria- tividade das obras, denegação essa, porém, compensada pelo facto de a reputação social do tatuador lhe trazer ganhos acrescidos sobre a remu- neração cobrada.

Depois de tatuares bem, tens uma granda vida! Tens o teu aprendiz tam- bém, podes ganhar muito dinheiro, não o posso esconder. Não posso dizer que isso não é bom, porque sem dinheiro não posso viajar para tatuar mais, ou para conhecer convenções, ou para ter um bom espaço, ou para comprar bons materiais. Ou seja, senão como tatuador também não vais conseguir desenvolver muito. Porque ganhares muito dinheiro também significa que fazes bons trabalhos e trabalhos grandes, fazes um trabalho grande e bom. Quer dizer que estás a puxar por ti, portanto. Tudo isso está ligado, não há separação entre «hum, faço um trabalhinho qualquer só por prazer e ganho», não [Entrevista n.º 1 – 25 anos, licenciado em Design].

Já os pedidos menores e esteticamente menos interessantes, por sua vez, tendem a ser rejeitados ou distribuídos pelos noviços, tatuadores ainda debutantes no estúdio. Esta estratégia permite compatibilizar, no mesmo espaço social e económico que é o estúdio, o registo artístico de personalização mantido pelo responsável que lhe dá o nome, e o registo comercial de diluição autoral, mantido pelos seus colaboradores, renta- bilizando economicamente os recursos materiais. Muitos dos mais jovens tatuadores entrevistados não têm pejo em reconhecer que, grande parte das vezes, o desempenho rotineiro da prática se resume à prestação de um serviço comercial, um trabalho estético executado sob a orientação exclusiva da zona de gosto do cliente. Nomeadamente daquele cliente que, em grande medida, alimenta a procura deste mundo profissional: indivíduos que têm uma familiaridade mínima com os processos de pro- dução da tatuagem e com as suas novas possibilidades estilísticas, e que, até por uma série de receios que se prendem com a permanência deste meio de expressão, pedem sobretudo os formatos mais pequenos e pa- dronizados, os tradicionais flashes.

Como na loja sou o tatuador com menos currículo, digamos, deixo os trabalhos maiores e que para já para mim seriam um maior obstáculo, deixo

para os tatuadores mais experientes. E depois, dependendo dos estilos, logo se vê para quem é que vai. [...] O cliente vem, a não ser que ele peça especi- ficamente para ser tatuado por este ou aquele tatuador, apresenta a ideia, conforme a agenda e o tipo de trabalho logo se vê quem será o tatuador mais adequado para atender esse pedido [Entrevista n.º 2 – 22 anos, 11.º ano (área de Artes)].