PART 3 SOCIAL, CULTURAL AND ECONOMICAL POSSIBILITIES AND
3.3 Aspects of modern change in local water management
No final de uma tarde de Outono, quando me dirigia à Brasileira do Chiado para tomar um café, mesmo em frente da Livraria Bertrand sou abordado por uma jovem que, com um sorriso amigável, me questiona: «gosta de poesia»? Balbuciei um sim hesitante enquanto, no íntimo, me interrogava: «E esta, que quer?» Quando, adivinhando as minhas suspei- tas, me disse o que queria desafiando o meu próprio querer – «quer ler um poema meu»? – fiquei sem saber o que lhe dizer. Não se deixando perturbar pelo meu silêncio, puxou de uma pasta de plástico cheia de fo- lhas de papel e, estendendo-me uma delas, suplicou: «Veja se gosta. Leia, por favor.» Depois, baixando o tom de voz, segredou-me como se esti- vesse revelando um delito: «estou desempregada». Num impulso mergu- lhei na leitura do poema cujo ojecto era o silêncio. Disse-lhe que era bo- nito e a jovem respondeu-me que o poderia guardar. Se lhe pudesse dar um ou dois euros agradecia. Autografou o poema (Nair Leonora Correia) e colocou a data do dia que corria (20-10-10). «Tem mais poemas? Posso levar mais um?» À sorte, calhou-me Curva Oblíqua. Atravessei a rua e di- rigi-me então para a Brasileira, onde, junto à estátua de Fernando Pessoa, li o poema da jovem desempregada. Logo me lembrei da poesia intersec-
cionista de Pessoa: de Chuva Oblíqua (Orpheu), Paisagens Oblíquas (Livro
do Desassossego), Oblíqua Madrugada (Ode Marítima).
* Na realização e transcrição das entrevistas que servem de suporte a este projecto participaram as sociólogas Cristina Nunes e Rita Silva Couto, a quem agradeço a entu- siástica dedicação ao projecto. Agradecimentos são também devidos a toda a equipa da Bedeteca de Lisboa, com um especial sinal de gratidão a Marcos Farrajota, também ele artista de BD. Finalmente, expresso toda a minha gratidão aos entrevistados pela colabo- ração dado ao projecto, sem esquecer as autobiografias disponibilizadas em quadradi- nhos.
O encontro inesperado com a poetisa de rua levou-me a pensar como pode a criatividade ser mobilizada para a profissionalização. Pode um poeta sobreviver, profissionalmente, da sua poesia? Sob inspiração de Pessoa, e pensando na sua trajectória de vida, comecei a equacionar al- guns dilemas e paradoxos da profissionalização da criatividade. Numa nota biográfica (Zenith 2003), o poeta distinguia claramente a vocação da
profissão. Ele mesmo, ao reflectir sobre a sua profissão asseverava: «A de-
signação mais própria será tradutor, a mais exacta a de correspondente es-
trangeiro em casas comerciais. O ser poeta e escritor não constitui profissão
mas vocação.» No entanto, se em termos conceptuais os universos da profissão e das artes se podem separar, na prática há deslizamentos oblí- quos de um para outro. Embora Pessoa tenha rejeitado que se possa con- siderar profissão o ser poeta ou escritor, o certo é que ganhou dinheiro com o que escreveu e, por outro lado, com uma enorme persistência, procurou profissionalizar a sua criatividade – quer no campo das letras quer no campo do empreendedorismo comercial (Ferreira 2005).1Para
tanto, fez uso de um agir de obliquidade que, aliás, transparece no movi- mento literário que criou, o interseccionismo, caracterizado por atravessar simultaneamente vários níveis da realidade: o objectivo e o subjectivo, o presente e o ausente, o eu e o outro, etc. (Guimarães 1999, 71-72).
Assim, no campo editorial, fundou em 1921 a editora Olisipo e, em 1924, dirigia a Athena, por entre imensos projectos editoriais, como um «Almanach Portuguez», com informações úteis (hotéis, companhias de seguros e consulados), assim uma espécie de Páginas Amarelas do mundo empresarial. Antes da implantação da República (1910), e aproveitando uma herança recebida após o falecimento de sua avó Dionísia (em 1907), o poeta lançara-se numa aventura empresarial que o arruinou: a monta- gem de uma «tipografia a vapor» que seria a alma da sua muito sonhada Empreza Íbis, Typographica e Editora. Conta-se que, na barbearia que frequentava, ao ler o jornal (O Século) enquanto fazia a barba, e vendo o anúncio de venda de uma tipografia em Portalegre, levantou-se abrupta- mente, barba meio por fazer, e correu excitadamente em busca do con- tacto que lhe permitiria adquirir a sonhada tipografia. Poucos meses de- pois de a instalar na Rua da Conceição da Glória, em Lisboa, o projecto
1O livro de António Mega Ferreira, Fazer pela Vida. Um Retrato de Fernando Pessoa, o
Empreendedor, é um excelente estudo sobre os projectos empresariais do poeta. Nele nos
baseamos para descrever as múltiplas tentativas do poeta em profissionalizar a sua criati- vidade. Consultem-se, igualmente: Ferreira (1986), Crespo (1988), Lopes (1990), Bréchon (1996) e Sousa (2010).
O mundo em quadradinhos: o agir da obliquidade
foi por água abaixo. Endividado, viu-se obrigado a libertar-se das máqui- nas a vapor e a regressar às traduções como meio de vida.
Os dissabores empresariais não o desanimaram de insistir na profis- sionalização da sua criatividade, ainda que assaltado por dúvidas quanto à projecção da sua subjectividade nos horizontes profissionais: «Fiz de mim o que não soube / E o que podia fazer de mim não o fiz / O do- minó que vesti era errado» (A. Campos, Tabacaria). Pessoa interessou-se pelo negócio das cortiças e da exploração mineira (cobre e volfrâmio); projectou uma fábrica de preparados químicos e farmacêuticos; alimen- tou planos de instalação de uma indústria siderúrgica; projectou a criação de uma empresa que tinha por objectivo a «propaganda de produtos por- tugueses». Enfim, a sua quimera empreendedora estendeu-se a uma agên- cia multifunções – a que daria o nome de Cosmópolis – or some like name – que, para além de uma ambiciosa actividade editorial (na qual se incluía a edição de dicionários técnico-comerciais e guide-books para turistas), ofereceria ideias próprias de uma agência de publicidade, design e comu- nicação empresarial; projectos de decoração de montras e estabelecimen- tos comerciais; serviços de tradução; buscas literárias, heráldicas e genea- lógicas; revisão de provas tipográficas «segundo a ortografia que se quiser» (ou seja, imune a qualquer acordo ortográfico); ideias para nomes de mar- cas, de firmas e até de títulos de livros; projectos de arquitectura e enge- nharia; agência de empregos («excepto para criadas de servir»); enfim, projectos «de toda a espécie» que, como o próprio poeta refere, valori- zassem «tudo quanto é português ou brasileiro» no interesse dos «naturais destes dois países» (Ferreira 2005, 106).
Menção ainda para um projecto empresarial que tratava de assegurar o «registo e venda de patentes só por mim» e de «negócios ocasionais com este ou aquele indivíduo conforme convenha ou calhe». Ou seja, Fernando Pessoa era um verdadeiro caçador de oportunidades. O pro- blema é que nem sempre a profissionalização da criatividade é bem-su- cedida. Frequentemente não há receptividade à criatividade extemporâ- nea. Mesmo na publicidade, nem sempre a genialidade de Fernando Pessoa foi bem aproveitada. Não sabemos se as vendas das tintas
Berry/Loid se expandiram quando ele criou um anúncio publicitário em
que relatava a história de um carro azul que, a cada lavagem, se tornava mais «anémico» pois o esmalte teimava em emigrar para a camurça (No- gueira 1998); mas sabe-se que o anúncio à Coca-Cola («Primeiro estranha-
se, depois entranha-se») acabaria por ajudar ao desterro da marca por cerca
de três décadas, pois os inspectores sanitários viram no slogan uma clara prova da sua toxidade (Ferreira 2005, 137-138).
Para além de ter pensado estabelecer-se como «astrólogo encartado» (Simões 2011, 57), Fernando Pessoa propôs-se também, antecipando- -se ao frenesim da internacionalização que hoje atinge os meios acadé- micos, editar uma revista, exclusivamente em francês e inglês, capaz de «levar ante a Europa a nossa irreverência para com ela» (Ferreira 2005, 71). Sem sucesso. Muitas das ideias empreendedoras do poeta não ti- veram aceitabilidade à época, embora, posteriormente, viessem a ser desenvolvidas. De entre as patentes de inventos que pensava registar ganhando bom dinheiro, incluía-se um novo sistema de estenografia que designou como «aristografia»; um «jogo de futebol de mesa» que viria a dar lugar aos actualmente célebres matraquilhos (em Espanha o invento data de 1939); um sistema de apostas desportivas tendo por base os resultados do campeonato de futebol inglês (hoje em dia pro- liferam os sites de apostas desportivas); uma «carta-sobrescrito» que an- tecipou os famosos aerogramas que se popularizaram na Segunda Guerra Mundial e, em Portugal, durante a Guerra Colonial; um sistema de carretos que viria a ser aplicado às futuras máquinas de escrever eléc- tricas; pequenas «engenhocas» para resolver atoleiros burocráticos (sis- temas simplex, diríamos hoje). Por aqui vemos que a profissionalização da criatividade nem sempre se traduz em sucesso: quer por ingenuidade empresarial, quer por as ideias criativas estarem demasiadamente avan- çadas para o «espírito da época», quer ainda por falta de condições ob- jectivas para o êxito do negócio, entre as quais se salienta a manifesta falta de cooperação e de apoio. Em carta dirigida a Ofélia (datada de 11 de Junho de 1920), o poeta lamentava-se:
Olha, Nininha: hoje estou muito aborrecido [...]; principalmente, porque as cousas da minha vida, o que tenho preparado e estudado para uma, e mesmo mais que uma, empreza, se me está atrazando tudo [...]. Depois, entre os rapazes com quem me dou [...], não encontro vontade nenhuma de conjugarem os seus esforços com os meus [...]. Querem, em geral, que eu faça tudo – que eu, alem de ter as idéas e indicar a maneira de organizar, me ocupe também de arranjar os capitães, e de fazer quanto mais é preciso para pôr a empreza em marcha [Pessoa 1978 (1920), 110].
Ou seja, as ideias não bastam, é necessário que existam (ou se criem) condições de possibilidade para uma boa sementeira da criatividade na profissionalização. No caso de Fernando Pessoa, as tentativas de profis- sionalização da sua criatividade – através de múltiplos ensaios, imagina- tivos e arriscados – levaram-me a reflectir no agir da obliquidade e na pos- sível relevância deste conceito para a compreensão da conjugação que
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hoje em dia se vislumbra entre criatividade e profissionalização. Com efeito, as dificuldades de inserção profissional – particularmente sentidas entre os jovens – desafiam, cada vez mais, a profissionalização da criatividade. Mudanças profundas e múltiplos rearranjos no domínio das profissões (Burrage e Torstendahl 1990) e do profissionalismo (Evetts 2003 e Freidson 2001) associam-se a novos horizontes de realização pessoal e profissional. Por outro lado a precariedade de emprego (Jeffs e Smith 1999; Pais 2001) e a crescente flexibilização das relações contratuais entre jovens com tra- jectórias profissionais fragmentadas e nem sempre sintonizadas com os ca- pitais escolares adquiridos (Pais 2001; Fenton e Dermott 2006), têm susci- tado uma reconhecida individualização das estratégias no que respeita à inserção no mercado de trabalho (Mythen 2005; Atkinson 2010).
Algumas pesquisas têm sugerido que os jovens se movem relativa- mente bem nestes dois campos de possibilidade – o da profissionalização
da criatividade e o da criativização da profissão – nomeadamente os cha-
mados jovens trend-setters (Du Bois-Raymond 1998; 2000) que são aque- les que desenvolvem uma atitude estratégica em relação à aprendizagem, combinando tranches de capital cultural adquirido por via formal (esco- larização), com aquisição de conhecimentos por via informal (redes de sociabilidade, por exemplo).2As suas aprendizagens, de natureza cumu-
lativa, beneficiam da interpenetração de diferentes esferas da vida: escola, trabalho e lazer. Enfim, são jovens que, em geral, possuem bons ou ra- zoáveis capitais culturais e que, quando se lançam num negócio, têm uma boa retaguarda familiar, do ponto de vista financeiro. Num recente projecto de pesquisa apoiado pela Comunidade Europeia3constatámos
isso mesmo. No caso português, embora tivéssemos encontrado jovens que, não obstante a sua situação de marginalidade social, dão mostras de conseguir profissionalizar a sua criatividade – como DJs, músicos semi- profissionais ou actores esporádicos de anúncios publicitários (Pais e Blass 2004; Pais 2004; 2010, 145-173) –, o apoio familiar passa a ser relevante quando a aposta implica projectos empresariais. Assim aconteceu com dois jovens que lançaram uma empresa de turismo (Vertigem Azul) des-
2A autora propõe uma tipologia que contempla quatro categorias de jovens em re-
lação à aprendizagem: jovens intelectuais intrinsecamente motivados; mass learners ex- trinsecamente motivados; jovens extrinsecamente motivados em trajectórias de contínua requalificação; e trend-setters intrinsecamente motivados.
3Youth Policy and Participation. Potentials of Participation and Informal Learning in Young
People’s Transitions to the Labour Market. A Comparative Analysis in ten European Regions (Pro-
grama «Improving the Socio-Economic Knowledge Base» – IHP-KA1-00-1). A pesquisa decorreu entre 2001 e 2004.
tinada a promover o contacto com a natureza e a vida dos golfinhos, no estuário do rio Sado; ambos tinham formação universitária e beneficia- ram do apoio dos pais para montarem o negócio. O mesmo ocorreu com outro jovem que, amante de surf e licenciado em Ciências da Comuni- cação, teve a ideia de abrir um bar e uma escola de surf na praia de Car- cavelos (Windsurf Caffé). Outro jovem, frequentando a licenciatura de Contabilidade, também contou com apoio familiar para criar, na cidade do Porto, uma empresa (Super Cão) orientada para os cuidados de saúde e beleza canina. Em contrapartida, uma jovem licenciada em Arquitec- tura, vendo-se na situação de desemprego, não necessitou de apoio fa- miliar para «fazer dinheiro»: abandonou réguas, esquadros e compassos e decidiu ganhar a vida fazendo caricaturas de participantes em congres- sos, casamentos, aniversários, baptizados e festas. Bastou-lhe papel e lápis e o seu jeito para o desenho de bonecos e caricaturas.
O contacto com jovens que rabiscam histórias em quadradinhos4
levou--me à decisão de os tomar como objecto de estudo, tanto mais que, por conversas informais, fui-me dando conta de que o sonho de se profissionalizarem como autores de Banda Desenhada (BD), ainda que acalentado, era visto como uma remota possibilidade. Convinha então aprofundar, empiricamente, esta dissonância, já que, a verificar-se, ela co- locaria em evidência não apenas o problema da concretização duvidosa de sonhos de profissionalização da criatividade, mas também uma pro- blemática de interesse sociológico que está longe de ter sido aprofundada. Em que medida a não concretização de uma idealizada profissionalização da criatividade impede – e esta é uma inovadora hipótese que se levanta, associada ao agir da obliquidade – o deslocamento dessa criatividade para a mobilização de estratégias de inserção profissional noutros domínios? Por que linhas e travessas é que a criatividade, reivindicada e cultivada como expressão de uma subjectividade (Schaeffer 1997), transita, obli- quamente, do domínio de vocação para o da profissão?
Como veremos, se é verdade que os criadores de BD, como acontece com muitos outros artistas (Pierre-Michel 2002; 2005; 2009), descobrem que a profissionalização da sua «arte» aparece subordinada aos veredictos de um mercado de portas semicerradas, não é certo que essa dissonância seja vivida de forma angustiada. Pelo contrário, ao mesmo tempo que se
4Ou quadrinhos como se diz no Brasil. Nos Estados Unidos a designação é de comics
e em França bandes-dessinées pois as «tiras» (bandes) começaram a ser desenhadas em jornais. Em Portugal também se adoptou a designação de banda desenhada. Em Espanha os qua- dradinhos são conhecidos por historietas ou cómic.
O mundo em quadradinhos: o agir da obliquidade
constitui, frequentemente, num refúgio para os dissabores da vida, a BD transforma-se num capital que, através do agir da obliquidade, permite a exploração de pontes inovadoras entre vocação e profissão, mesmo se, ou sobretudo quando, a profissão deserta da vocação. Aliás, para alguns criadores de histórias em quadradinhos, a profissionalização pode mesmo ser vista como uma corrupção da sua vocação, embora sabendo-se que esta respeita a um domínio artístico que carrega o estigma de não mere- cer o status de «arte». A tensão entre vocação e profissão permite-nos, fi- nalmente, discutir os rumos biográficos (Mortimer et al. 2006) à luz das teorias da individualização (Beck e Beck-Gernsheim 2002; Beck, Giddens e Lash 1994), sem menosprezar os constrangimentos sociais e as estrutu- ras de oportunidade que os possibilitam ou dificultam.
A metodologia de estudo fundamentou-se em entrevistas aprofun- dadas a oito artistas de BD, com idades compreendidas entre os 21 e os 37 anos, com uma prevalência de respondentes universitários (cinco contra quatro que apenas possuem o ensino secundário) e do sexo mas- culino (seis contra três do sexo feminino).5 Foram também analisados
blogues e sítios da internet que contavam com a sua participação. Fi- nalmente, convidámos os entrevistados a escrever a sua história de vida em quadradinhos. Aliás, a autobiografia faz parte de um «género alter- nativo» da chamada novela gráfica atual, em cuja produção escoa, com persistência, a memória do vivido (Andelman 2005). Se, na verdade, os indivíduos podem ser objecto do seu próprio agir, a oportunidade dada aos artistas para se contarem a si mesmos deu-lhes também ensejo de se conceberem enquanto se contavam. Quer isto dizer que os quadradi- nhos foram usados como decifradores da subjectividade dos seus cria- dores – tornando a subjectividade um espaço de representação conscien- cializada. No fundo, pretendia saber em que medida os quadradinhos que os jovens produzem acabam por os produzir. Por outras palavras, se é certo que se pode aprender de si mesmo através das coisas que se produzem, também é verdade que os jovens podem produzir-se a si mesmos pelo que aprendem com as coisas que fazem. Sennett (2009, 22), a propósito do artesanato, aponta como exemplo a produção dos
5A masculinização dos meios bedéfilos já havia sido referida por Santos, Dona e Car-
doso (2006, 26-27) quer no que respeita aos artistas quer mesmo em relação aos públicos dos festivais de banda desenhada. As entrevistas foram realizadas em 2010 e integralmente transcritas por Cristina Nunes, socióloga. Neste contributo incorporei também a valiosa história de vida recenseada por Rita Silva Couto, minha aluna de Sociologia da Vida Quotidiana, unidade curricular que lecciono no ISCTE-IUL.
ladrilhos desde a antiga Mesopotâmia, sugerindo como trabalhadores anónimos podem deixar vestígios de si mesmos em objectos inanimados. O que sugiro é outra ocorrência: a possibilidade de os fazeres deixarem também marcas em quem os faz. Esta reflexividade interpreto-a como um efeito de obliquidade. Os criadores notabilizam-se pelos produtos que criam ao mesmo tempo que são criadores de si mesmos.