8.2 Selection of appropriate equipment
8.2.2 Circumspective use – visible alternatives
Em 1959 a Association of Baptists for World Evangelism chegou à região do Alto Solimões com o objetivo de criar missões e converter a população regional, construindo suas primeiras igrejas nas vilas de Santo Antônio do Içá e Santa Rita do Weil, esta no município de São Paulo de Olivença. Conforme Macedo (1996), após o contato de alguns Ticuna com os missionários, estes ampliaram sua ação junto aos indígenas que passaram a freqüentar a igreja e a escola recém criada.
Coelho dos Santos (1966, p.32) observou a atuação das professoras da “Escolas Reunidas Gilberto Mestrinho” - a escola da missão batista, e constatou que recusavam os alunos
indígenas, e também, que os pais reclamavam da forte segregação sofrida por seus filhos dentro dela. Coelho dos Santos (1966) afirmava que em Santa Rita do Weill a separação entre indígenas e não-indígenas abarcava a escola e a igreja, chegando até ao campo de futebol. Para ele, a escola deveria servir exatamente para que as relações entre índios e os
considerados “civilizados” fossem mais próximas; por essa razão, criticava as atitudes dos “mestres e demais civilizados” (sic) como os responsáveis pela não integração das crianças
indígenas.
Diferentemente, Macedo (1996) apontava que os missionários ensinavam português, religião e ainda informavam sobre o mundo dos - por ele chamados - “civilizados” ampliando a possibilidade de comunicação dos indígenas. Segundo esse autor, os alunos dos pastores tornaram-se pessoas importantes na comunidade, ocupando cargos, recebendo salários, destacando-se por seu prestígio como pessoas capazes de dialogar com os tais
Anos depois, sob a organização dos norte-americanos, foram compradas terras próximas à missão de São Paulo de Olivença para a criação da comunidade indígena de Campo Alegre. Nela os Ticuna construíram uma escola para suas crianças, na qual, os antigos alunos indígenas da escola de Santa Rita ensinavam a leitura e a escrita, recebendo dos pais mantimentos como forma de pagamento. Esses são considerados os primeiros professores ticunas.
Para Cardoso de Oliveira (1972, p.114) a escola criada pela missão batista para os Ticuna
teve como objetivo maior atender a reivindicação dos que eram chamados de “civilizados” que não queriam os indígenas junto de seus filhos, nem que estes “perturbassem” a vida em
Santa Rita ou ameaçassem seus privilégios. Por outro lado, o ensino bilíngüe criado
especificamente para os indígenas, além da preparação de “professores” para atuarem junto
aos seus companheiros, resultou numa situação educacional diferenciada nessa região, com grande parte da população alfabetizada.
A avaliação do lugar atribuído ao ensino da língua, aos conhecimentos indígenas e se havia alguma participação da comunidade na escola, fica prejudicada pelo fato de apenas uma cartilha ter sido localizada entre os materiais didáticos provavelmente utilizados nessas escolas e nos cursos ministrados aos professores em formação. Essa cartilha patrocinada Ministério de Educação Pública do Peru, mas elaborada pelo Instituto Linguístico de Verão (ILV)96 em 1967 e diversas vezes reeditada, foi utilizada pelos Ticuna nos curso que receberam dos missionários batistas. A orientação desse trabalho previa o uso da língua indígena apenas como facilitadora da catequese, do aprendizado privilegiado da língua
portuguesa e dos conhecimentos da sociedade dita “civilizada”. Conforme consta na página
de apresentação da cartilha:
La integracion socioeconómica que persigue el Estado, como base para el desarrolo integral del país, sólo será posible, gracias a la educacion y el contato armónico del niño com la realidad del mundo que le rodea, aprovechando al máximo sus proprias capacidades y potencialidades.
Los libros son medios didáticos que contribuyen a la superación del educando y, en el caso específico de los niños de la selva, el libro de lectura es el primer instrumento que le hará transponer los umbrales de la ignorancia.
96
O Instituto Linguistico de Verano (ILV) era o nome dado no Peru ao Summer Institut of Linguistics - SIL foi criado nos Estados Unidos em 1934 com objetivo de estudar línguas ágrafas e a cultura dos povos que as falam para traduzir a bíblia com objetivo de conversão ao protestantismo.
O método utilizado para cumprir tal objetivo constava de realizar a alfabetização na língua indígena e, ao mesmo tempo apresentar a tradução na língua oficial (no caso o espanhol). Nesta cartilha, a segunda de uma série, as lições utilizam frases curtas com algumas palavras do repertório regional exaustivamente repetidas, ou seja, propõe-se a leitura de frases do tipo: o peixe é bom, a luz é boa ou, o menino canta, o pássaro canta, a galinha não canta. A cartilha conclui com uma frase sobre a coruja – “é boa porque trabalha” – a qual não deixa dúvidas sobre valores e objetivos para além do reconhecimento das sílabas nas palavras.
Figura 10 – Capa e última lição da Cartilha 2 para transicion Ticuna Castellano Fonte: ILV, Peru, 1967
O terceiro livro da série, de 1994, tem por título “Papá y Mamá trabajan” e segue a mesma
metodologia com frases simples e repetitivas que não formam um texto, a identificação de palavras iguais, e a escrita das letras iniciais através de exercícios de coordenação motora.
Papá se va al río Papá se va al río papá se va al río Papá se va al río. Mamá se va al río. Mamá se vá al río mamá Papá al río Papá se va al río. Mamá se va al río. Figura 11 – Lição do Livro 3, p. 11 e 12
Fonte: Ministerio de Educacion, Peru, 1994
La yuca del tío es buena. Papá es bueno y trabaja. Carlos e va a la chacra y trabaja bien con su machete. Papá se va al río y pica gamitana. Mamá cocina la gamitana.
tío otro bagre. Figura 12 – Lição do Livro 3, p. 72 Fonte: Ministerio de Educacion, Peru, 1994
Em 1971 os pastores saíram de Santa Rita deixando em Campo Alegre uma igreja organizada, escola e líderes que fizeram depois a formação para pastores em Tabatinga. Macedo (1966) afirma que essas lideranças religiosas devem ser entendidas também como lideranças políticas: quanto maior a escolarização e o domínio da língua portuguesa, mais cresciam em prestígio. A Missão Batista mantém até os dias de hoje, atuação na região, enviando estudantes e professores para cursos teológicos no Rio de Janeiro97.