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Child diagnosed with robertsonian translocation

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CHAPTER 4. METHODOLOGY

5. DATA PRESENTATION

5.2 SECOND LEVEL RESULTS

5.2.1 Case study one

5.2.1.1. Child diagnosed with robertsonian translocation

Enquanto a Antropologia e a Arqueologia se debatiam, em cenário mundial, pela institucionalização da disciplina e em meio ao nacionalismo e o colonialismo então vigentes, sobretudo em contexto europeu, em cenário português, o quadro não seria diferente.

Na viragem do século, tanto a Antropologia, quanto a Arqueologia davam seus passos no caminho da institucionalização e, particularmente em contexto colonial, a partir das primeiras décadas do século XX as duas disciplinas se conjugarão num cenário próprio a fim de constituir as chamadas Missões Antropológicas.

Entretanto, muitas especificidades circundam a produção científica social em contexto colonial português, desde os enfoques de análise dos objectos de estudo até os contextos políticos específicos nos quais tal produção se insere. O próprio prolongamento dos domínios coloniais portugueses muito para além dos limites de outros congêneres europeus demarcará um contexto de particular especificidade nesse tema.

No que tange à Antropologia, uma primeira especificidade há que ser apontada. Em contexto português, o nascimento da Antropologia como ciência colonial, estará particularmente relacionado à Antropologia Física, sobretudo francesa, e muito menos à Antropologia Social e Cultural.

Relacionada à Anthropologie francesa do século XIX, como ciência das raças humanas, e, particularmente, aos estudos de Paul Broca (1829-1880) e de seu sucessor Paul Topinard (1830-1911), o nascimento da Antropologia colonial portuguesa estará

56 relacionado aos métodos de mensuração e classificação humana que caracterizavam essa escola.

E para que a classificação taxonómica das raças humanas preconizadas por essa escola tivesse êxito, era preciso priorizar sua dimensão temporal e espacial, sua genealogia, ou seja, era necessário não só caracterizar os tipos físicos no presente, mas atestar a sua continuidade e seu aperfeiçoamento no tempo, seu parentesco, sua comunidade de sangue. Isso, naturalmente, daria a essa noção de Antropologia perspectivas amplas, que se apoiariam em outros campos científicos, como a Arqueologia, a Etnologia e a História, como forma de investigar a dimensão espaço- temporal das raças estudadas (Roque, 2001: 137-142).

Representando uma viragem evolucionista Darwinista dos princípios estáticos e poligenistas do fundador Broca, a escola de Topinard influenciará profundamente um personagem de posterior crucial importância para o desenvolvimento da Antropologia Colonial portuguesa, Artur da Fonseca Cardoso (1865-1912). Oficial do exército, esteve em Goa a serviço militar, em fins do século XIX, onde teve a oportunidade de estudar um conjunto de 44 nativos que seriam o objecto de seu trabalho intitulado “O Indígena de Satari”, publicado em 1896-1897 na Revista de Ciências Naturais e Sociais da Sociedade Carlos Ribeiro (Roque, 2001: 121-235).

Essa sociedade, criada em 1887, tinha entre seus membros, além de Fonseca Cardoso, o paleoetnólogo Ricardo Severo (1869-1940) que também terá uma actuação particularmente importante no incentivo às pesquisas em Ciências Sociais em contexto ultramarino. Enquanto o primeiro foi o responsável pelo início dos estudos em Antropologia colonial portuguesa através do seu trabalho em Goa, o segundo foi o pioneiro no campo das pesquisas arqueológicas ultramarinas, por meio do texto

57 intitulado “Primeiros Vestígios do Período Neolítico na Província de Angola”, também publicado na Revista de Ciências Naturais e Sociais, no ano de 1890 (Oliveira, 1997:23).

Além disso, personagens que serão cruciais no desenvolvimento da Arqueologia portuguesa enquanto Ciência, como Leite de Vasconcellos (1858-1941), mantinham grandes contactos com Cardoso e Severo, bem como com o trabalho da Sociedade Carlos Ribeiro (Fabião, 1999:113-115; Roque 2001:167-170). E será Vasconcellos quem, em 1913, publicará mais um dos artigos pioneiros acerca da arqueologia ultramarina. Um texto intitulado “Instrumentos Preistóricos da África Portuguesa”, sendo um comentário acerca de artefactos existentes no Museu da Comissão dos Trabalhos Geológicos de Lisboa, do artigo de Ricardo Severo e de uma pequena nota publica por Félix Alves Pereira, em 1908, também em O Archeologo Português.

Entretanto, no que tange ao desenvolvimento da Antropologia Colonial, será, sem dúvida, o trabalho de Mendes Correia (1888-1960) que dará ao tema relevância suficiente para passar a fazer parte dos planos políticos governamentais. Correia, que pertencia à escola antropológica do Porto, ganhará, já no início do século XX, lugar de destaque nesse grupo.

A escola antropológica do Porto terá sua institucionalização a partir de 1911, quando da criação da cadeira de Antropologia, de um museu e de um laboratório destinados à investigação e divulgação da disciplina. Em 1919, as duas últimas instituições convertem-se no Instituto de Antropologia da Universidade do Porto e é criada a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia. Mendes Correia será, desde a sua criação, regente da cadeira de Antropologia e director do Instituto. Posteriormente, também assumirá a direcção da Sociedade (Cardoso, 2011; Roque, 2006: 795-796).

58 Ainda no ano de 1919, publica, no volume inicial dos Trabalhos da Sociedade

Portuguesa de Antropologia e Etnologia, um texto em homenagem a Fonseca Cardoso,

ressaltando sua importância, ainda não reconhecida no mundo da antropologia nacional. No mesmo volume publica ainda uma colecção inédita de apontamentos de Etnografia angolense da autoria do já falecido antropólogo e militar, ressaltando ainda a importância de seu texto “O Indígena de Satari”. Esta homenagem se coadunará com a campanha iniciada alguns anos antes por Correia no sentido de confirmar a figura de Fonseca Cardoso como pioneiro das investigações ultramarinas, ressaltando sua importância política em cenário nacional (Roque, 2001: 270-277).

Sua campanha dará ótimos resultados e, já na década de 30 do século XX, Mendes Correia terá seu nome relacionado ao início das Missões Antropológicas e de outros eventos de significativa importância no cenário científico nacional e internacional. Em 1930 a Universidade do Porto participa da organização da XV sessão do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica, realizado em Portugal. Em 1934, no decorrer da 1ª Exposição Colonial Portuguesa, realizar-se-ia em concomitância o primeiro Congresso Nacional de Antropologia Colonial também promovido pela Universidade do Porto. O referido congresso, particularmente, apesar de nunca haver tido sequência, mostra claramente a importância que o tema ultramarino passa a ter em cenário nacional, nesse momento (Cardoso, 2011; Roque, 2006:793-798).

Finalmente, em 1936, sob a tutela de Mendes Correia, inicia-se a Missão Antropológica de Moçambique. Inicialmente destinada a ser presidida pelo próprio precursor do projecto, acaba por ser, por sua opção, chefiada por um dos seus seguidores, Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1901-1990). Esta se constituirá na primeira iniciativa de uma série de Missões que virão a serem desenvolvidas, até a

59 década de 60 do século XX, e em diferentes etapas, para Moçambique, Guiné, Angola e Timor.

Este será um momento particularmente peculiar na história da antropologia portuguesa, uma espécie de viragem nos objectivos que até então dominavam a produção científica desse campo em estruturação. Desde a segunda metade do século XIX até a primeira década do século XX as ciências sociais nacionais estavam envolvidas por um discurso nacionalista metropolitano que procurava investigar a genealogia étnica do povo português e da sua cultura. Mas, a partir de então, esse impulso nacionalista passará a ser matizado por um forte imperialismo que se reflectirá na necessidade de conhecer as raças indígenas dos territórios ultramarinos e na valorização dos antropólogos coloniais perante o Estado (Roque, 2006:796-799).

Tal actitude poderá estar relacionada a certo sentimento de desterritorialização da Nação que acompanhará as artes, a literatura e a ciência portuguesa do século XX e que, ao lado do regime ditatorial Estado-Novista e da posição de inferioridade do país diante de outras Nações européias, se constituirá no substracto das políticas científicas ultramarinas do país (Thomaz, 2005:59).

O Acto Colonial de 1930 será a manifestação desse novo contexto político nacionalista e Imperialista na medida em que cria, através do indigenato, uma espécie de hierarquia civilizacional que criava diferenças de status entre metropolitanos e indígenas e entre nativos em diferentes estádios no caminho da assimilação. Esta, por sua vez, passa a ser uma responsabilidade quase messiânica dos metropolitanos que procuram incorporar os indígenas no corpo da Nação como perfeitos cidadãos. Mesmo que o processo pressupusesse a compreensão dos usos e costumes dos nativos e o respeito às suas formas tradicionais de organização social e de autoridade, o objectivo

60 final, ainda assim, se prendia a ampliar o corpo espiritual e político da Nação para os limites das fronteiras Ultramarinas do País.

Nesse sentido, a criação da Escola Colonial em 1906 e o desenvolvimento de investigações científicas em contexto ultramarino, se coadunam com a proposta em voga em toda a Europa imperialista na época, da “ocupação científica” de suas possessões. Essa nova forma de colonialismo não só auxiliaria uma melhor dominação desses territórios, mas pressuporia a própria necessidade de se guiar o processo de colonização através de princípios científicos genuínos. Dessa forma, o conhecimento das colônias, sua dominação e exploração passam a fazer parte de um mesmo processo, na concepção dos intelectuais coloniais (JMGIC, 1945; Thomaz, 2005:65-69).

O trabalho de Mendes Correia, e, por conseqüência, de seus seguidores, estará inserido neste contexto. Para o maior incentivador das pesquisas científicas sociais ultramarinas, o estudo dos aspectos biológicos, hereditários, psicológicos e culturais das populações indígenas dos territórios coloniais buscaria compreender a totalidade das raças do Império português. Além disso, sua clara desaprovação da miscigenação e concordância com a manutenção da tradição colonial e dos usos e costumes dos indígenas só reforçará a política da diferença e a perpetuação do Império.

Tal diversidade fará de Portugal um país de ampla variedade cultural, um Império que pretende ser uma Nação, que vê no imperativo da assimilação e da estrutura hierárquica sua forma de fazer-se português. Esse povo português “de bom coração” será o centro dos discursos salazaristas. Pleno de emoções e sentimentos contraditórios e sintetizado na palavra “saudade”, requererá necessariamente um Estado forte e autoritário para controlá-lo. Indigenato nas colônias e corporativismo na metrópole serão, assim, aspectos de uma mesma política. A mesma que comportará as

61 Missões Antropológicas ultramarinas na primeira metade do século XX (Thomaz, 2005:72-81).

Especificamente no que tange ao domínio da Arqueologia nacional, o período em questão também será de estruturação do campo científico e também de grandes debates nacionalistas.

O surgimento da arqueologia portuguesa enquanto vertente científica, sobretudo no que tange aos primórdios da arqueologia pré-histórica, campo no qual, conforme já visto, se desenvolveram os principais instrumentos de investigação que moldaram a própria Ciência Arqueológica enquanto tal (Daniel, 1976: 178-189; Fabião, 1999:106), deve o seu despertar à criação da Comissão Geológica do Reino, em 1852. Embora não fosse um órgão particularmente vocacionado aos estudos humanos pré-históricos, é no seu seio que o desenvolvimento de ideias Naturalistas de explicação das origens da Humanidade e do Mundo leva a que personalidades como Carlos Ribeiro (1813-1882), Pereira da Costa (1809-1888) e Nery Delgado (1835-1908), concebessem importantes obras de carácter universalista acerca da antiguidade do homem em territórios portugueses (Fabião, 1999:108).

O século XIX é também o palco de outras iniciativas arqueológicas importantes, como as intervenções ocorridas no templo romano de Évora, entre 1840 e 1871 e a actuação da Sociedade Arqueológica de Setúbal, entre 1849 e 1857, que constituem importantes marcos no nascimento de novas formas de pensamento acerca do que viria a ser denominado Património Cultural, e que, na época, levam a que a preocupação com a preservação dos monumentos históricos se materialize na criação de uma pasta vocacionada a esse fim junto ao Ministério das Obras Públicas Comércio e Indústria, em 1852 e ao surgimento da Associação dos Architectos Civis e Archeólogos

62 Portugueses, em 1863, cujo fundador, Possidónio Narciso da Silva, formado em Paris, era Arquitecto da Casa Real.

Ainda no contexto da valorização da Arqueologia no século XIX merecem destaque a criação do Museu do Algarve e de sua Carta Arqueológica, apresentada em 1878 pelo mentor de ambas as obras, o célebre arqueólogo Sebastião Philippes Estácio da Veiga (1828-1891), bem como o surgimento da Sociedade Martins Sarmento e a intervenção na importante citânia dos Briteiros, a partir de 1874, ambas na cidade de Guimarães, por esse outro ilustre que dá nome à referida instituição. Muito embora o museu do Algarve (instalado, entretanto, na Academia Real de Bellas Artes em Lisboa), tenha sobrevivido somente entre 1880 e 1881, esses dois personagens merecem lugar de importância no quadro do estabelecimento desse campo científico em Portugal, com destaque para Francisco Martins Sarmento (1833-1899) que muito influenciaria outro grande nome do cenário arqueológico português da geração seguinte, José Leite de Vasconcellos (1858-1941) e também os membros da emblemática Sociedade Carlos Ribeiro.

Um ponto que une todos os programas científicos arqueológico aqui descritos, ao lado da busca por obras de carácter universal acerca da humanidade, é a preferência pela investigação regionalista com enfoque para os componentes étnicos e culturais dos povos que ocupavam o território português nos diversos períodos históricos, de forma a desenvolver uma narrativa histórica da genealogia dessa Nação. (Fabião, 1999:113-116; Roque, 2001: 170-172). Dessa forma, o nacionalismo toma, para esses investigadores, um carácter que os relaciona preferencialmente ao território metropolitano, deixando de lado temas relacionados à investigação em territórios coloniais.

63 Assim, poder-se-ia dividir a produção científica arqueológica portuguesa do século XIX em três categorias. A primeira delas seria denominada “Escola Naturalista”, que seria a mais criativa de todas, relacionada à criação da Comissão Geológica e que teria incentivado o trabalho de campo e pesquisas sem carácter nacionalista. A segunda seria a “Escola Antiquarista”, relacionada a classes cultas da sociedade e que se dedicava à recolha de antiguidades sobretudo relacionadas aos temas clássicos. Finalmente, existiria a “Escola Paleo-etnológica”, preocupada particularmente com temas etno-históricos e dedicada às temáticas de cunho nacionalista (Fabião, 1996: 91).

Naturalmente, tais abordagens da Arqueologia seguem aquelas que, em âmbito internacional, estiveram na consolidação desse campo científico, desde a tendência evolucionista, adepta da unidade psíquica da humanidade, que caracterizou o pensamento arqueológico do século XIX, até o trabalho dos primeiros coleccionistas que abrem espaço para as pioneiras sistematizações de colecções arqueológicas, como aquelas realizadas por Thomsen e Worsaae, e, finalmente, o abandono das ideias evolucionistas universalistas e a percepção das culturas como entidades localizadas, que se consolidará, progressivamente, a partir de finais desse século, e que tem nos trabalhos desenvolvidos, quer em território europeu, quer no Oriente Próximo e Egipto, boa parte de seus desenvolvimentos.

Todos esses campos de debate farão com que os últimos anos do século XIX tragam consigo grandes progressos na consolidação da Arqueologia como campo científico em Portugal, como o surgimento da disciplina de Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica na Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, a partir de 1885, sob a regência de Bernardino Machado.

64 Muito embora os conteúdos ministrados dessem mais preferência à Antropologia Física, o contexto era propício à criação de novos campos de discussão e de investigação para a Arqueologia portuguesa emergente, que, neste caso, se debatia sobretudo em torno da ancestralidade do povo português. Contestando as teses de Alexandre Herculano e Oliveira Martins acerca da desconexão entre os antigos lusitanos e o Estado Nacional português (Fabião,1996:114-116), o jovem arqueólogo Leite de Vasconcellos, iria consolidando progressiva posição de destaque em cenário nacional.

Enquanto Herculano, reforçado por Martins, punha na Idade Média o nascimento da Nação, como acto político, negando a conexão entre o povo português e outros ancestrais, Vasconcellos irá, com auxílio da linguística, defender que Portugal seria uma continuação da Antiga Lusitânia, sendo a língua portuguesa fruto do natural desenvolvimento da linguagem luso-romana. Neste sentido, Vasconcellos punha-se a favor das ideias de Martins Sarmento, que tendo como porta-vozes suas escavações na Citânia de Briteiros e no Castro de Sabroso, defendia a remota existência dos lusitanos e a resistência da sua cultura, mesmo ao domínio romano (Fabião, 1999: 93-94; Fabião 2011:126-137).

Vasconcellos acabaria por assumir o cargo de conservador da Biblioteca Nacional de Lisboa e passaria a dedicar-se a criar um acervo de antiguidades para compor um novo projecto: o Museu Nacional de Etnografia que viria a se concretizar em 1893, sob os auspícios de Bernardino Machado, então secretário das obras públicas.

Obra de carácter nacionalista, buscando evidenciar a tese da antiguidade remota do povo português, terá seu poder acrescido pela criação da revista “O Archeólogo Português”, em 1895, e se constituirá em importante instrumento de valorização do campo científico arqueológico nacional.

65 Em 1929 Leite de Vasconcellos reforma-se e suas posições na Universidade e no Museu passam a ser ocupadas por Manuel Heleno (1894-1970). Juntamente com ele, Mendes Correia e Vergílio Correia (1888-1944), este último professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, serão as personalidades de destaque no mundo da Arqueologia portuguesa da primeira metade do século XX (Fabião, 1999:119-120). Enquanto o professor de Coimbra se dedicará à escavação da cidade romana de Conimbriga, à publicação de obras no domínio da história da arte e manterá uma carreira de distanciamento dos grandes conflitos de poder que marcarão o período, o sucessor de Vasconcellos, que assumirá o principal posto da investigação nacional, marcará a sua carreira por um clima de forte disputa com Mendes Correia, esse, sem dúvida, um personagem com maior destaque no cenário nacional e internacional.

Manuel Heleno, o mais novo dos três importantes personagens e com menor currículo académico, se esforçará para reafirmar seu lugar de poder através de publicações de carácter nacionalista em periódicos locais, em consonância com as críticas a Herculano e Oliveira Martins acerca da antiguidade do homem português de que partilhava também seu mentor, Vasconcellos. Já Mendes Correia, que também partilhava das mesmas ideias, recusará, entretanto, que se pudesse reconhecer no português uma raça com características físicas próprias, uma vez que os dados antropométricos dissuadiam tal perspectiva. Mas a descrença numa unidade física, não impedia que ele defendesse, entretanto, uma unidade moral lusitana.

A carreira de Mendes Correia irá consolidá-lo como importante intelectual e cientista do período, tanto em carácter Nacional quanto internacional, relacionando uma considerável carreira política à sua vigorosa campanha interna no que tange às investigações antropológicas coloniais (Fabião, 1999: 121-126).

66 Este importante personagem do cenário antropológico e arqueológico português estabelecerá relações com inúmeras instituições científicas estrangeiras, em contraponto a uma tradição de isolamento científico que se fazia vigorar no país no período. Em âmbito nacional, também ocupará lugares de destaque em importantes órgãos relacionados à pesquisa, e, em especial, dos domínios ultramarinos portugueses. Entre eles importa destacar o cargo de director da Escola Superior Colonial e de presidente da Junta de Missões Geográficas e de Investigações Coloniais, da Sociedade de Geografia de Lisboa e do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos. No âmbito da política, veio a exercer, especialmente, os cargos de presidente da Câmara Municipal do Porto, entre 1936 e 1942 e de Deputado à Assembleia Nacional, entre os anos de 1945 a 1956 (Cardoso: 2011: 230-235).

De interesse científico bastante amplo, Mendes Correia entendia o conhecimento da humanidade e de sua história de forma alargada, que incluiria dentro do campo da Antropologia, também a Biologia, a Zoologia, a Anatomia, a Psicologia, a Sociologia, a Arte, a História, a Etnografia, e a Arqueologia, entre outras fontes. No âmbito desse último campo científico, também dava preferência a abordagens bastante amplas do seu objecto, com atenção à geologia, à geografia, e à paleontologia por exemplo. Além disso, defendia suas próprias concepções no âmbito da evolução humana. Tentava conciliar a doutrina católica com o evolucionismo e era defensor de um transformismo moderado e do monogenismo. Também cria na existência do homem terciário. A sua obra Homo (Correia, 1926), que teve a primeira edição em 1924 e a segunda, já dois anos depois, e que representa uma espécie de síntese do seu pensamento científico, explicita bem as suas concepções acerca desse e de outros importantes temas (Cardoso, 2011: 240-253).

67 Correia elabora, nessa obra, dois quadros explicativos, um acerca das causas da evolução e outro sobre os tempos geológicos. Sobretudo no primeiro, apresenta um significativo conhecimento do tema, citando uma série de autores e teorias relacionadas tanto com as causas dos processos de variabilidade individual, quanto com relação aos

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