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Na primeira metade do século XX, os linguistas e especialistas em ciências humanas não demonstravam interesse pela Terminologia. Todavia, os esforços para a criação de uma base científica à Terminologia remontam aos anos 30, com a formação das Escolas de Viena, de Praga e a Soviética, consideradas as escolas terminológicas clássicas. Elas apresentavam características comuns, com a valorização da dimensão cognitiva dos termos e o delineamento de diretrizes para a sistematização dos métodos de trabalho terminológico, visando à padronização dos termos técnicos em busca da comunicação profissional eficiente.

Nesta perspectiva, os conceitos e os signos a eles associados eram considerados os elementos essenciais da comunicação profissional, e a precisão dos conceitos deveria se dar pela adoção de léxicos especializados. Deste modo, evidenciava-se o enfoque cognitivo sobre os termos.

1.3.1 A Escola de Viena

Eugen Wüster, austríaco, com formação em Engenharia, é considerado o fundador desta Escola. Em 1931, apresentou a tese de doutorado, acima mencionada, A normalização

internacional da terminologia técnica, especialmente na eletrotécnica, na Universidade de

Viena. Nesta tese, Wüster demonstrou preocupações metodológicas e normativas, expôs os princípios que deveriam presidir os trabalhos relativos ao estudo dos conceitos e dos termos e esboçou as grandes linhas da metodologia referentes aos bancos de dados terminológicos. Wüster também escreveu quatro livros e mais de quinhentos artigos sobre a Terminologia.

Sendo a mais difundida no mundo, a Escola de Viena adota os princípios da Teoria Geral da Terminologia (TGT). Sua importância se fundamenta por ser a única Escola que desenvolveu um corpus sistemático de princípios e fundamentos que constituem a base de toda a terminologia teórica e prática moderna. Surgiu da necessidade apresentada por técnicos e cientistas de normalização terminológica das suas disciplinas, no intuito de garantir a

comunicação profissional e a transferência de conhecimentos entre especialistas (CABRÉ, 1993, p. 39-40).

A compreensão da unidade lexical terminológica como elemento constitutivo da produção do saber e, concomitantemente, recurso da expressão linguística, que favorece a univocidade comunicacional, fez Wüster considerar a teoria da terminologia como campo interdisciplinar. Ao lado da lógica, da ontologia, da ciência da informação e das diversas áreas do saber, a Linguística é um dos polos de convergência (KRIEGER, 2000, p. 211).

A Escola de Viena atribuiu grande importância à dimensão conceitual e propagou a ideia de univocidade, fundamentada nos pressupostos da monossemia terminológica, da exclusividade designativa, bem como da monorreferencialidade (REMENCHE, 2010, p. 348), concepções que passaram a ser revistas com a evolução da Terminologia nos últimos tempos.

Embora seja inegável a contribuição da TGT para o estabelecimento dos princípios iniciais que permitiram o desenvolvimento dos estudos teóricos e aplicados em Terminologia, esta teoria não ampliou seu poder explicativo. A TGT privilegiou as orientações metodológicas necessárias à produção terminográfica, dentre as quais a essência e a formação dos conceitos, as suas características, as relações dos conceitos dentro dos sistemas conceptuais, a descrição dos conceitos (SILVA, 2003, p. 101-102).

1.3.2 A Escola de Praga

A Escola Tcheca ou Escola de Praga, representada por L. Drodz, surgiu como consequência dos trabalhos de linguística funcional da Escola de Praga. Por conta disto, ocupa-se, quase que exclusivamente, da descrição estrutural e funcional das línguas de especialidade, para cuja caracterização a terminologia desempenha um papel fundamental. As linguagens de especialidade são consideradas um „estilo‟ profissional, que coexiste com outros estilos da linguagem como o estético e o conversacional. O país tcheco vivencia uma situação de plurilinguismo, motivo por que se interessa pela normalização das línguas e de suas terminologias (CABRÉ, 1993, p. 40).

Assim, é através do estruturalismo que os pesquisadores tchecos encontram seu ponto de enlace com as teorias wüsterianas, incluindo em seus princípios a relação entre linguagem, pensamento e realidade. Para eles, a linguagem da ciência é uma linguagem funcional e estruturada e para fins específicos, cuja unidade é o termo. Este é interpretado como unidade lexical profissional, fazendo parte do estilo profissional-funcional da linguagem literária nacional (FEDOR DE DIEGO, 1995, p. 20).

1.3.3 A Escola Soviética

Esta Escola inspirou-se nos trabalhos de Caplygin, Lotte e seus colaboradores. Em consequência do conhecimento das publicações de Wüster, ao mesmo tempo em que eram divulgadas, a Escola Soviética se interessava pela normalização dos conceitos e termos no marco dos problemas da situação de plurilinguismo da antiga União Soviética.

Vários estudos foram publicados: em 1952, o Comitê de Terminologia Científica e Técnica da Academia das Ciências da URSS, criado nos anos trinta por impulso de Lotte, Caplygin y Terpigorev, publicou o Guia para a preparação e regulamento de terminologias

científicas e técnicas, em que se estabeleceram os princípios metodológicos estandardizados

para a preparação de terminologias normalizadas; em 1961, Lotte publicou o resultado dos seus esforços para elaborar uma teoria da terminologia; em 1968, outra obra decisiva, revisada e reeditada em 1979 com o título Breve Guia Metodológico para a Preparação e

Regulamento de Terminologias Científicas e Técnicas, foi publicada pela Academia de

Ciências (FEDOR DE DIEGO, 1995, p. 20-21).

Estas três Escolas de terminologia, que têm em comum, de acordo com Cabré (1993, p. 40), o fato de moverem-se em uma perspectiva de base linguística, já que consideram a terminologia como um meio de expressão e comunicação, são as que têm alimentado com suas contribuições a base teórica da terminologia. Seus princípios metodológicos impulsionaram a corrente de planificação linguística e terminológica desenvolvida posteriormente no Canadá e no Quebec.

Além destas Escolas, que seguem uma corrente linguístico-terminológica, há países ou instituições que adotam a corrente orientada para a tradução e outros, para a planificação linguística.

A tendência da terminologia orientada para a tradução se desenvolve principalmente no Canadá, no Quebec e na Bélgica, e se encontra na base dos trabalhos de terminologia desenvolvidos por organismos internacionais plurilíngues (ONU, UNESCO, CEE, FAO etc.). Esta tendência impulsionou a criação de bancos de dados terminológicos nesses países.

A terminologia orientada para a planificação linguística surgiu a partir dos anos da década de 1970, inicialmente com a preocupação de propor projetos de recuperação de línguas em situação minoritária em seu próprio território. No Quebec, e em países de situação semelhante, o objetivo do projeto se orientava à proposição de um estatuto para o francês.