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Quando a Cáritas Brasileira organizou os escritórios regionais para facilitar a distribuição dos alimentos que chegavam dos Estados unidos, a Regional criada em São Paulo fazia também o papel de uma Caritas para a Arquidiocese de São Paulo. A organização inicial em São Paulo ficou a cargo dos Padres Oblatos de Maria Imaculada e, durante mais de uma década, também foram os responsáveis pela sua administração e operação.292

Os Padres Oblatos de Maria Imaculada eram de origem norte-americana e vieram para São Paulo mediante convite do cardeal arcebispo Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta para que se instalassem em São Paulo para se somar aos poucos padres da Arquidiocese. Já estavam em missão no Brasil havia mais de dez anos, (1945), em terreno cedido a eles na Alameda Franca, 889, na capital paulista. Nesse endereço erigiram uma capela "Our Lady Help of Christians Chapel" (Capela de Nossa Senhora Auxiliadora) aos fiéis de língua inglesa. Em 1957, alguns membros da comunidade doaram à Congregação dos Oblatos de Maria Virgem um terreno no Planalto Paulista, bairro de São Paulo, para que construíssem uma igreja em substituição à capela rústica que usavam ali até então. Nessa época esses padres Oblatos desenvolviam uma das maiores ações sociais religiosas cristãs no Brasil, sob o comando do padre Alexandre Santelli, depois substituído pelo padre Felix Giaigischia.293 Dedicaram-se a escolas primárias e secundárias, escola paroquial com os cursos, ambulatórios médicos, postos de puericultura, aprendizagem comercial, paróquias, obras sociais e colônia de férias. Espalharam suas obras em Suzano, Poços de Caldas, Vila Alpina, Interlagos, São Bento do Sapucaí, Jundiaí e Curitiba. Grande parte do dinheiro de que necessitavam para esses serviços vinham dos Estados Unidos.294

292

GRILLI, Luciano Tulio. Caritas Arquidiocesana de São Paulo. In: Jornal O São Paulo, 31/12/1967, p. 7. 293 BUSATO, Antonio Carlos. Entregue à congregação dos Oblatos de Maria Virgem o terreno para a sede da

futura paróquia. In: Jornal O São Paulo, 05/05/1957, p. 2.

294 Oblatos de Maria Imaculada: Missão católica americana há dez anos em atividade em nosso país. In: Jornal

O jornal O São Paulo reporta num texto intitulado "América, Terra abençoada por Deus" o apreço que a Santa Sé sentia pela remessa de mantimentos outras ajudas que os Estados Unidos enviavam para a América Latina, no âmbito da Aliança para o Progresso:

Papa Paulo VI (...) apreciava a atividade que os Estados Unidos desenvolvem para resolver seus próprios problemas e também os problemas de Países que precisam ser ajudados. A América - disse - é uma terra abençoada por Deus, uma terra que foi generosa para com os povos menos afortunados. (...) Sublinhou que somente numa atmosfera de colaboração, uma assistência fraterna baseada no respeito e no amor podem obter a paz. Terminou a audiência com uma benção especial, para a nação norte-americana.295

Entretanto, os primeiros tempos desse trabalho, que praticamente se restringia à distribuição dos produtos americanos, foram feitos penosamente, pois as condições eram precárias: o escritório e o depósito ainda não dispunham de local adequado, o pessoal envolvido não era adequadamente habilitado e os recursos financeiros eram escassos. A Caritas Brasileira era a única responsável pelo recebimento e distribuição dos "alimentos para a Paz" oriundo dos Estados Unidos e "às próprias expensas" porque, em moeda, nada se recebia dos norte-americanos. Assim, com poucos recursos, "não restava à Caritas Arquidiocesana outra alternativa que a de meramente distribuir os mantimentos, impossibilitada de estender-se ao campo da promoção humana."296

Em 1957, Dom Agnelo Rossi, então cardeal arcebispo de São Paulo, optou por trazer a Cáritas Arquidiocesana para a administração direta da Arquidiocese. A intensão do Arcebispo era somar-lhe novas atribuições, que significavam também a abertura de novos horizontes para a Caritas em suas atividades de promoção humana. Agora passaria a ser a responsável pela coordenação das atividades de todas as entidades beneficentes, de orientação ou inspiração católica, localizadas dentro dos limites da Arquidiocese.297

295

América, terra abençoada por Deus. In: Jornal O São Paulo, 29/01/1967, p. 6. 296

GRILLI, Luciano Tulio. Caritas Arquidiocesana de São Paulo. In: Jornal O São Paulo, 31/12/1967, p. 7. 297

O Arcebispo convocou uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para 1º de dezembro desse mesmo ano, para o estabelecimento de um Estatuto que desse personalidade jurídica à Caritas e refletisse o novo modelo que ele desejava imprimir-lhe.

Essa AGE foi presidida pelo próprio Dom Agnelo Rossi. Aproveitou-se a Assembleia para expor um breve histórico de Caritas e expressou gratidão pelo trabalho que há onze anos vinha sendo desenvolvido pelos Padres Oblatos de Maria Imaculada, destacando-se o papel que a Caritas vinha desempenhando na região periférica da cidade, sua ação rápida e sua luta e sua vigilância contra concepções paternalistas e assistencialistas. A CARITAS ARQUIDIOCESANA DE SÃO PAULO foi especificada como entidade beneficente, de fins assistenciais e não lucrativos, sediada na cidade de São Paulo. Embora fosse juridicamente autônoma, a Caritas passou a ser parte integrante do Conselho de Pastoral da Arquidiocese de São Paulo, dirigindo a Ação Social da Igreja (Linha 6).

Pelo novo Estatuto, as atividades da Caritas Arquidiocesana ficaram limitadas à área geográfica da Arquidiocese de São Paulo e os fins passaram a ser, em redação formal:

1) Desenvolver a Ação Social da Igreja Católica, Apostólica, Romana, visando à justiça social ungida pela caridade cristã, mediante a técnica e os processos do Serviço Social; 2) planejar, promover, incentivar, orientar, coordenar as atividades das obras ou dos movimentos de inspiração católica existentes ou que venham a existir na Arquidiocese de São Paulo, objetivando a promoção integral do homem e da comunidade, através de uma ajuda que "consista em um desenvolvimento global, não somente, econômico, mas na elevação da pessoa, com todas as suas faculdades ... porque não há verdadeiras perspectivas de progresso, de equilíbrio e de paz à humanidade, sem a intervenção de fatores morais e espirituais" (P. Paulo VI, ao Comitê Consultivo das Nações Unidas, 24-X-1.966);

2) planejar, promover, incentivar, orientar, coordenar as atividades das obras ou dos movimentos de inspiração católica existentes ou que venham a existir na Arquidiocese de São Paulo, objetivando a promoção integral do homem e da comunidade, através de uma ajuda que "consista em um desenvolvimento global, não somente, econômico, mas na elevação da pessoa, com todas as suas faculdades ... porque não há verdadeiras perspectivas de progresso, de equilíbrio e de paz à humanidade, sem a intervenção de fatores morais e espirituais" (P. Paulo VI, ao Comitê Consultivo das Nações Unidas, 24-X-1.966);

3) prestar assistência a quem dela necessite, sem discriminação de qualquer espécie.298

Usando sua prerrogativa, o Cardeal Rossi provisionou o cargo de Diretor Arquidiocesano com a nomeação do Pe. Luciano Túlio Grilli e, por unanimidade, elegeu os demais membros da Diretoria que ficou assim constituída: Geraldo Dias Moreira, como Secretário Executivo; Wellington Moreira Santos, como Tesoureiro e Hilda Zanini Turano, como Coordenadora Geral.299

Observe-se que desde 17/09/1967 o Pe. Luciano Tulio Grilli deixara a paróquia de São Roque para exercer a função de Diretor Arquidiocesano da CARITAS, por nomeação do Arcebispo Agnelo Rossi, conforme foi noticiado pela Chancelaria da Arquidiocese de São Paulo nessa mesma data.300

Nessa época, Dom Paulo Evaristo Arns era Bispo Auxiliar de São Paulo, responsável pela Região Episcopal de Santana e se dedicava intensamente à área social, especialmente às necessidades da população mais carentes.301 Dom Angélico Sândalo Bernardino, que recebeu a ordenação episcopal pelo Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo de São Paulo no início de 1975, passando a atuar como seu Bispo Auxiliar, lembra que a Caritas Arquidiocesana de São Paulo "nasceu num impulso renovador, num contexto sócio-político muito grave, que o Brasil vivia e São Paulo também, que era o da ditadura civil militar". Conforme detalha o Bispo, "Era de uma Igreja que se renova e que tem dificuldade realmente de anunciar o Reino de Deus, por que o contexto político não era fácil no Brasil. (...) A motivação para a criação da Caritas Arquidiocesana também veio pela posição que a Caritas Internationalis estava marcando em muitos países e a Arquidiocese de São Paulo estava carente dessa ligação."302

O Concílio Vaticano II, representou uma mudança muito grande para a Igreja católica, "sobretudo com o documento Gaudium et spes, que a Igreja se abre de uma maneira decidida"

Não que antes não tivesse essa abertura, mas agora era um compromisso inarredável do Concílio Vaticano II, que foi

298

CARITAS ARQUIDIOCESANA DE SÃO PAULO. Ata da Assembleia Geral para fundação da entidade, aprovação dos estatutos, eleição e posse da diretoria. São Paulo, 01/12/1967, Art. 3º.

299 A Ata integral dessa AGE está no ANEXO 2. 300

MUNARI, Hugo. Novo diretor da "Caritas". In: Jornal O São Paulo, 17/09/67, pg. 2. 301

STERI, Ubaldo. Entrevista concedida ao autor. São Paulo, 29/07/2014. 302

seguido aqui na América Latina e Caribe, com as conferências, sobretudo de Medellín e as posteriores, em que a Igreja se compromete, de uma maneira clara, séria, com a promoção da solidariedade entre os povos e as comunidades.303

A Arquidiocese reagiu favoravelmente ao chamamento do Concílio Vaticano II, continua a explicar Dom Angélico:

A Arquidiocese responde também a esses apelos do Concílio, do Evangelho para que ela se abra decididamente à solidariedade, ao comprometimento com os pobres, a se organizar em comunidade, em regiões, para o atendimento das demandas de uma população maravilhosa, mas que vive amontoada em periferias, sem acesso à educação, à transportes.304

Condizente com essa esperança refletida no depoimento de Dom Angélico, Pe. Tulio Grilli encabeçou um artigo seu no Jornal O São Paulo com uma mensagem retirada do

decreto Apostolicam Actuositatem, emitido havia apenas dois anos pelo Concílio Vaticano II:

"Eliminem-se as causas dos males e não apenas os efeitos. De tal forma se orgranize o auxílio, que os que o recebem, aos poucos se livrem da dependência externa e se tomem auto- suficientes’'.305

A nova fase da Caritas Arquidiocesana, com seus amplos desafios, solicitou intensa dedicação de sua diretoria, conforme pode podia ser conferido pelas seguidas matérias que a Diretoria publicava no Jornal O São Paulo. Algumas delas trazemos aqui. Logo no início de sua gestão como diretor, Pe. Tulio Grilli confessou algumas importantes dúvidas:

Quais os princípios que nortearão a Caritas?

Quais os limites de suas atribuições e responsabilidades?

303

BERNARDINO, Angélico Sândalo. Opus cit., 15/12/2014. 304

BERNARDINO, Angélico Sândalo. Opus cit., 15/12/2014.

305 CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Decreto Apostolicam Actuositatem. n. 8. In: GRILLI, Luciano Tulio. Caritas Arquidiocesana de São Paulo. In: Jornal O São Paulo, 24/12/1967, p. 6.

Conta ela com recursos humanos e financeiros para atingir os objetivos propostos?306

Nesses dias a Caritas Arquidiocesana vinha sendo criticada por pessoas que esperavam que ela dispusesse de mais recursos financeiros e distribuísse mais mantimentos que chegavam dos Estados Unidos. De fato, não consideraram que apenas à Caritas Brasileira cabia a definição da cota dos "alimentos para a paz" que cada Regional receberia para distribuir. Nesse mesmo artigo, em que expunha suas preocupações sobre o futuro da Caritas, também respondeu a esses que o criticavam:

São inaceitáveis certas criticas à Caritas Arquidiocesana de São Paulo como se ela pudesse dispor de quantos alimentos quisesse, bem como se lhe fosse facultado dispensar algumas exigências. Nestes pontos depende da Caritas Brasileira e não pode agir a seu próprio talante, mesmo porque não disporia de recursos para tanto. (...) as Caritas Diocesanas só dispõem de mantimentos em quantidade limitada e que serão doados às obras beneficentes que preencham certos requisitos impostos pela CRS307 e pela CB.308

Evoluindo em suas considerações sobre a Caritas, Pe. Tulio Grilli fez publicar no mês seguinte, em janeiro de 1968, "os altos objetivos da Caritas Arquidiocesana":

Servir, auxiliar, orientar, incentivar todas as entidades beneficentes de inspiração católica da Arquidiocese, como também as não católicas desde que objetivem os mesmos fins. Servir a todos com auxílios materiais quando disponíveis e a critério das necessidades, e com a ajuda técnica de pessoas competentes, respeitando-se sempre a autonomia administrativa de cada entidade, filiada ou não. Em síntese propõe-se a Caritas coordenar as atividades, congregar esforços, racionalizar os serviços, aglutinar os ideais de quantos labutam no difícil

306

GRILLI, Luciano Tulio. Opus cit., 31/12/1967, p. 7. 307

CRS: Catholic Relief Services, entidade norte-americana. 308

campo da ação social, para promover, erguer, enobrecer a criatura que vive em condições infra-humanas, a fim de que um dia, na expressão feliz do Sr, Cardeal, “ela possa andar com seus próprios pés”.309

Ante esses audaciosos objetivos e ciente de que a "gravidade e a extensão dos problemas sociais" não tolerariam "soluções individualistas, personalismos sentimentais, sectarismos egoístas", conclamou outras "forças vivas da Arquidiocese no setor social" para enfrentar a "necessidades de pão, justiça e amor do pobre":

Unam-se, pois, as forças: vicentinos, damas de caridade, paróquias, creches, orfanatos, asilos, ambulatórios, dispensários, educadores de adultos, clubes das mães, focolarinos, legionarios de Maria, equipes especializadas, entidades particulares e públicas, congregações religiosas, somemos nossos esforços, demo-nos as mãos para humanizar e divinizar o homem.310

Mais uma vez essa colocação do Pe. Tulio Grilli estava coincidente com uma orientação contida no decreto Apostolicam actuositatem, por isso ele a citou na edição seguinte do Jornal O São Paulo:

Os leigos estimem, pois, e ajudem na medida de suas forças as obras de caridade e as iniciativas de assistência social, sejam particulares, ou públicas, e mesmo internacionais pois é por elas que se leva auxílio eficiente aos indivíduos e povos em necessidade. Cooperem com todos os homens de boa vontade.311

De fato, com sua experiência pastoral, Pe. Tulio Grilli, ele sabia que as obras sociais contavam com a ajuda e o apoio de muitos vigários e leigos generosos, que com "a abnegação constante, o zelo tecido de dedicação e renúncia, a operosidade silenciosa e heroica (...) que, a

309

GRILLI, Luciano Tulio. Caritas Arquidiocesana de São Paulo. In: Jornal O São Paulo, 07/01/1968, p. 4. 310

GRILLI, Luciano Tulio. 07/01/1968. Opus cit., p. 4.

311 CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Decreto Apostolicam actuositatem, 1965, n. 8. In: GRILLI, Luciano Tulio. Caritas Arquidiocesana de São Paulo. In: Jornal O São Paulo, 14/01/1968, p. 2.

serviço do amor à justiça e ao próximo, vivem menos para si mesmos e mais para o pobre". Para estes tantos, "que do nada, do quase nada, da insuficiência da própria pobreza realizam o milagre de fazer despontar ambulatórios, creches, asilos, orfanatos, cooperativas, etc. e, não raramente, sacrificam amizades e conveniências em defesa da justiça", o diretor da Caritas Arquidiocesana garante, que "a Caritas se propõe a servir sempre mais e quanto os meios o permitirem".312

Em vista desses grupos, "autênticos militantes do cristianismo", a Caritas Arquidiocesana oferece seu esforço:

Sempre respeitando a autonomia de cada obra, esforçar-se-á a Caritas em coordenar as atividades das inúmeras e beneméritas entidades católicas da Arquidiocese que, unidas que se acham pela mesma Fé e pelo mesmo Batismo, formarão, a grande família da Caritas, num testemunho solene e visível da Igreja na sociedade.313

Entretanto, era necessária muita atenção para que a união das várias forças da sociedade não representasse uma "multiplicação desnecessária de pequenas obras para os mesmos fins, nos mesmos territórios, enquanto outros setores ficam esquecidos". Novamente, conforme Pe. Tulio Grilli, esse defeito não era difícil de ocorrer:

É muito comum o predomínio de vaidade de pessoas ou grupos para quem as obras são tidas como patrimônio pessoal, desdenhando o trabalho de conjunto. Tem-se, como consequência inevitável, o desperdício de esforços, o aumento de despesas com o pessoal e os equipamentos, o não uso de alguns recursos disponíveis da comunidade. Poderão atender a todos, não, porém, de forma adequada e eficiente.314

Nesses primeiros tempos da nova Caritas Arquidiocesana, seu diretor, Pe. Tulio Grilli diagnosticou que não teria condições de cumprir amplas tarefas, tendo em vista as diversas dificuldades que enfrentava: "Aliás, nem saberíamos explicar como, em face da precariedade

312

GRILLI, Luciano Tulio. Caritas Arquidiocesana de São Paulo. In: Jornal O São Paulo, 14/01/1968, p. 2. 313

GRILLI, Luciano Tulio. Opus cit., 14/01/1968, p. 2. 314

de meios, ainda consegue beneficiar a mais de 360 entidades"315, prestando ajuda, em espécies e orientação técnica, abrangendo um total de 90.000 necessitados.316

Segundo esse diretor, uma parte das dificuldades decorria da própria estrutura da Caritas, que ainda estava em vias de se organizar formalmente, num esforço para atingir seus objetivos propostos. O Estatuto já estava publicado no Diário Oficial e, após o registro em cartório para a obtenção da necessária personalidade jurídica, seria registrado no Serviço Social do Estado, no Conselho Nacional de Serviço Social, para depois obter a declaração de utilidade pública.317 Outra parte das dificuldades era provocada pelas limitações de infraestrutura e pessoal a disposição da Caritas:

O armazém dos mantimentos não é próprio e o aluguel não é dos mais favoráveis; nele trabalham 4 empregados cujos salários não são convidativos. O escritório também paga aluguel; nele trabalham o Diretor, (...); o Secretario Executivo, Sr. Geraldo Dias Moreira; o Tesoureiro, Sr Wellington Moreira Santos; a Coordenadora Geral, Prof. Hilda Zanini Turano; 3 assistentes sociais, 2 estagiárias e uma secretaria. Servem, pois, à Caritas, 14 pessoas cujos serviços devem atingir cerca de 90.000 necessitados!318

Somava-se a essas dificuldades a limitação dos recursos financeiros para a manutenção e ampliação dos trabalhos, que dependiam de terceiros e não eram fixos. A única fonte eram as "precárias taxas" que as entidades beneficiadas pagavam, que eram proporcionais à quantidade de benefícios que recebiam.319 Com todos esses entraves, o planejamento e a criação de metas realistas eram dificultados pelo desconhecimento "total, minucioso e preciso da verdadeira situação do problema social na área paulistana". O receio era que se evitasse "a dispersão de esforços e energias, a multiplicação ineficaz de mil e uma pequenas obras da mesma natureza e nos mesmos locais, enquanto que outros setores permanecem ignorados". Para enfrentar essa incerteza, A Caritas Arquidiocesana pretendia promover, com a

315

GRILLI, Luciano Tulio. Opus cit., 07/01/1968, p. 4.

316 GRILLI, Luciano Tulio. Caritas Arquidiocesana de São Paulo. In: Jornal O São Paulo, 24/12/1967, p. 6. 317

GRILLI, Luciano Tulio. Opus cit., 07/01/1968, p. 4. 318

GRILLI, Luciano Tulio. Opus cit., 07/01/1968, p. 4. 319

colaboração de órgãos oficiais e particulares, um estudo sério e consciencioso da realidade social, mas de consequências praticas e eficientes.320

No mês seguinte a essa confissão das dificuldades que a Caritas Arquidiocesana tinha em mãos, pelo menos o problema do armazém estava atenuado, conforme foi dado a conhecer por comunicado da Caritas Arquidiocesana: "Comunicamos às obras filiadas que devem retirar os mantimentos no novo depósito, à Rua Major Ângelo Zanchi, 180 - atrás do novo santuário da Penha".321

Para otimização dos recursos, a Diretoria da Caritas Arquidiocesana comunicava que seria dada prioridade às entidades mais necessitadas:

A Caritas Arquidiocesana de São Paulo comunica:

1) As obras assistenciais, realmente deficitárias, que desejam filiar-se à Caritas, devem fazer, por escrito, seu pedido de inscrição e encaminhá-lo à Av. Pacaembu, 954. Sendo reduzidas as vagas, dar-se-á prioridade às mais pobres.

2) Qualquer entidade, católica ou não, só poderá ser filiada se houver aprovação ou visto do Sr. Vigário em cujo território estiver localizada a obra.322

A Caritas Arquidiocesana também se ressentia com a diminuição da remessa de alimentos remetidos pela Caritas brasileira, pois limitava sua capacidade de dar a assistência necessária a tantas pessoas carentes. Nesse sentido, manifestou-se no Jornal O São Paulo:

Os alimentos têm chegado de maneira descontinua e em quantidade insuficiente, o que tem dificultado a subsistência das obras e a própria administração da Caritas Arquidiocesana Nota-se que a Caritas Nacional e a cúpula do programa alimentos para a paz deveriam inteirar-se da realidade paulista e

320

GRILLI, Luciano Tulio. Opus cit., 07/01/1968, p. 4. 321

CARITAS ARQUIDIOCESANA DE SÃO PAULO. Mudança de depósito. In: Jornal O São Paulo, 11/02/1968, p. 1.

322

do sul do País a fim de se desfazerem da utopia de que a riqueza aqui circulante suprimiu ou diminuiu a indigência.323

Com o patrocínio dos mantimentos que recebia da Caritas Brasileira e os poucos recursos que tinha, "não restava à Caritas Arquidiocesana outra alternativa que a de meramente distribuir os mantimentos, impossibilitada de estender-se ao campo da promoção humana."324 Não existiam pastorais sociais e os serviços sociais eram apenas assistenciais. Esta impossibilidade talvez tenha colaborado, indiretamente, com a mentalidade paternalista, de muitos dirigentes de obras assistenciais.325

O Concílio Vaticano II mudara a forma como a Igreja deveria se relacionar com a sociedade, especialmente a partir da constituição pastoral Gaudium et spes. O serviço social caritativo deveria deixar de centralizar-se em atividades assistencialistas e passar a priorizar o