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Tendo em vista esse panorama, entende-se que a segunda tela inaugura uma nova fase no que diz respeito à interatividade na televisão. Por todas as características discutidas neste trabalho, a possibilidade de abrir novos canais de comunicação entre os telespectadores potencializa o laço social e empodera o público. Se antes as audiências eram invisíveis e anônimas, hoje são visíveis e estão conectadas.

Nesta dimensão, é importante refletir sobre as diferentes fases da televisão na perspectiva da interatividade, com o objetivo de entender, a partir das classificações propostas por diferentes autores, como essa relação tem evoluído.

Um dos primeiros registros que fogem ao simples ato de trocar de canal está relacionado ao programa infantil norte-americano Wink Dink and You65 na década

de 50. A interação se dava através de uma folha plástica colada na tela da televisão que permitia às crianças desenhar e criar novos objetos na cena do desenho exibido. O objetivo era permitir que a audiência ajudasse o personagem principal em situações de risco, como desenhando uma ponte para que ele atravessasse um precipício (SRIVASTAVA, 2002, p. 81).

65 A s ie i fa til Whi k Di k a d You foi exibida pelo canal CBS entre os anos de 1953 e 1957, sempre aos sábados pela manhã.

62 Imagem 2: Interação em Whinky Dink and You

Fonte: SuperRadNow66

Um dos primeiros pesquisadores brasileiros a propor uma categorização a partir da interatividade na televisão foi Lemos (1997). A classificação cria uma escala de zero a quatro, em ordem crescente:

– Nível 0: O mais simples e inicial, que remete aos primórdios da televisão, quando à audiência cabia apenas trocar de canais, ajustar o volume e desligar o aparelho.

– Nível 1: Época da televisão a cores e do surgimento do controle-remoto, que permitiu o desenvolvimento da prática do zapping e, consequentemente, uma audiência que intensificou a troca de canais.

– Nível 2: Os telespectadores passam a utilizar o aparelho de televisão para outros fins, como gravar a programação por meio do vídeo-cassete e jogar videogames.

66 Imagem disponível em: http://superradnow.wordpress.com/2011/04/27/retro-day-winky-dink-and-you/ Acessada em 10/10/2013

63 – Nível 3: Maior influência da audiência na programação através de telefone ou e-mail.

– Nível 4: Surge o conceito de televisão interativa, no qual a audiência é convidada a participar mais ativamente dos programas por meio do controle- remoto, optando por conteúdos.

Aproximadamente oito nos depois, com as possibilidades oferecidas pela internet mais claras e uma combinação mais efetiva da TV com a Web, Becker e Montez (2005) propõem uma complementação indicando três novos níveis:

– Nível 5: O telespectador colabora mais ativamente com a programação ao enviar vídeos feitos por ele mesmo.

– Nível 6: É um avanço da situação descrita no nível anterior. Agora, com a evolução tecnológica e o aumento na velocidade de transmissão de dados pela internet, a audiência passa a enviar imagens captadas por câmeras de alta qualidade que são usadas na programação.

– Nível 7: Considerado nível de interatividade plena, a audiência gera conteúdo e passa a dispor de recursos de publicação e veiculação desses materiais.

Barbosa Filho e Castro (2008) propõem uma divisão que prioriza os aspectos de transmissão do sinal:

– Transmissão bidirecional simétrica: interação se dá por altas taxas de transmissão para equipamentos com tecnologia híbrida, fibra ótica e cabo coaxial.

– Transmissão bidirecional assimétrica com retorno solicitado pelo usuário: interação viabilizada pelo compartilhamento dos canais de retorno com tecnologias como CDMA ou TDMA67.

– Transmissão bidirecional assimétrica com retorno solicitado pelo provedor da informação: interação em que o usuário somente escolhe pelas opções propostas pelas emissoras.

67 CDMA – Code Division Multiple Access, ou Acesso Múltiplo por Divisão de Código; TDMA – Time Division Multiple Access, ou Acesso Múltiplo por Divisão de Tempo.

64 – Transmissão bidirecional assimétrica com retorno off-line: interação em que não há possibilidade de mudança na programação.

– Transmissão unidirecional: sem qualquer tipo de interação, a caixa conversora serve como servidor de aplicações, onde os usuários ficam limitados a escolher entre as opções transmitidas pelas emissoras e armazenadas no aparelho.

Por último, cabe destacar o trabalho de Scolari (2009). O autor aproveita os conceitos de paleotelevisão (ECO, 1986) e neotelevisão (CASSETTI; ODIN, 1990) para desenvolver a ideia de hipertelevisão. O primeiro conceito corresponde aos anos iniciais da TV cujos conteúdos estavam representados por uma hierarquia sócio-cultural onde apenas os que detinham saber, poder político e econômico tinham protagonismo na tela. Já a neotelevisão é entendida como a evolução da televisão como modelo de negócio, acirramento da concorrência, popularização do controle remoto e o aparecimento do indivíduo comum na tela. A hipertelevisão, que seria o terceiro estágio, representaria o estado atual da mídia, com destaque para as potencialidades da televisão digital que cria, na leitura de Scolari, uma relação bidirecional, diferente da verticalização unidirecional do conteúdo posta no cenário analógico.

Embora a televisão digital tenha mudado a realidade analógica ao oferecer novas possibilidades de interação, como o acesso permanente a conteúdos extras ou a consulta à grade de programação, e na combinação com a internet permita a navegação e a interação nos sites de rede social na própria tela da TV, acredita-se que a conversa em torno da televisão seguirá acontecendo em outras telas. A pouca usabilidade do controle remoto para aplicações interativas, a inexistência de um canal de retorno plenamente estabelecido para a solução de interatividade no sistema brasileiro de televisão digital e, principalmente, o fato da tela da TV ser coletiva e compartilhada por todos que dividem o mesmo ambiente, enquanto os smartphones e tablets possuem telas individuais, são fatores que colaboram para esta característica. Por outro lado, a popularização de dispositivos móveis com acesso a internet leva cada vez mais a conversa para fora do ambiente da televisão.

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