3 Method and data
5.2 Quantitative analysis
5.2.4 Changes over time
A insegurança é um dos fenômenos mais presentes na contemporaneidade. Tal processo aparece13 em quase todas as ações que os sujeitos realizam em suas vidas: na forma com que se comunicam, andam pelas ruas, trabalham, se divertem; enfim, o contexto do medo e de insegurança altera significativamente a maneira como as pessoas se relacionam com o mundo. Devido a todo este contexto efervescente de insegurança, surgem diversas explicações para compreender este fenômeno. Alguns autores, especialmente vinculados ao debate pós- moderno, afirmam que estamos vivenciando a “sociedade do medo”, em função da realidade repleta de incertezas, de “fluidez de bases sólidas”. Bauman (2006, p.08) é um dos principais expoentes neste debate, afirmando que o medo é “o nome que damos a nossas incertezas, a nossa ignorância da ameaça do que deve ser feito”.
O autor refere que vivemos em uma “modernidade líquida”, ou seja, uma sociedade pós-moderna que não mantém sua forma com facilidade, por ser “líquida” ou “fluida”, está constantemente propensa às mudanças, sendo esta a sociedade da incerteza, e, consequentemente, do medo. Nesse contexto, de negação de bases “sólidas”, ocorre o desmoronamento de ideologias fortes, de certezas, dando lugar a uma sociedade onde o dinamismo e a rapidez com que ocorrem os processos sociais são as suas principais marcas,
13 A palavra “aparece” aqui é usada nos termos de Marx, para indicar que uma coisa diferente acontece na aparência superficial do fenômeno (HARVEY, 2013).
pois “a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incertezas constantes” (BAUMAN, 2006, p.8).
Para Cugini (2008), o contexto atual aponta para um mundo em contínuo movimento, extremamente rápido, que deixa qualquer pessoa na constante preocupação de manter o ritmo das mudanças. Esta vida precária, sem nenhum tipo de segurança, obriga as pessoas a mudarem continuamente de situações, sendo este o novo estilo de vida da sociedade líquida, demarcando a negação de todo o tipo de “eternidade”. Sendo assim, o dinamismo atual nega todas as formas de “verdades eternas”, colocando em cheque todas as estruturas antes conhecidas.
A vida líquida, abordada por esta concepção, é a vida da globalização, da interconexão, da tecnologia e da constante insegurança marcada por diversos perigos que assolam os sujeitos. Bauman (2006) afirma que o contexto de insegurança se calca no medo, materializado especialmente em três tipos de perigos presentes em nossas trajetórias:
Alguns ameaçam o corpo e as propriedades. Outros são de natureza mais geral ameaçando a durabilidade da ordem social e a confiabilidade nela, da qual depende a segurança do sustento (renda, emprego) ou mesmo da sobrevivência no caso de invalidez ou velhice. Depois vêm os perigosos que ameaçam as pessoas no mundo – a posição na hierarquia social, a identidade (de classe, de gênero, étnica, religiosa) e, de modo mais geral, a imunidade à degradação e a exclusões sociais (BAUMAN, 2006, p. 10).
No reconhecimento destes medos, fontes de insegurança, Castro (2009), ao considerar a análise de Bauman, afirma que é necessária uma terapia contra o medo crescente, que começa com a sua compreensão profunda, analisando seu surgimento a fim de pensar seu enfrentamento. Nesse sentido, para esta concepção de matriz pós-moderna, os medos e os perigos são praticamente reflexos naturais de uma vida líquida marcada por incertezas, uma vez que a insegurança marca presença em função da ausência do sentimento de comunidade.
Dessa forma, segundo Bauman (2003), a comunidade é um lugar “cálido”, um lugar confortável e aconchegante, onde nos sentimos pertencentes, onde nos sentimos seguros; mas, em função do contexto competitivo e adverso da atual sociedade, este “tipo de mundo idealizado” não está ao nosso alcance. A comunidade, como representação da solidariedade e da confiança, é um conceito de difícil alcance, como um paraíso perdido ou ainda não conquistado (BAUMAN, 2003).
Diante desta impossibilidade de constituir uma comunidade, nos termos de Bauman (2003), o autor coloca a tensão entre segurança e liberdade, ou entre comunidade e individualidade: para viver em comunidade o sujeito terá que abrir mão da sua liberdade, visto
que comunidade pressupõe a vivência no coletivo e isso implica a diminuição do direito à “autoafirmação” ou à autonomia. Dessa forma, congregar segurança e liberdade revela uma equação que não é possível nos termos da sociedade pós-moderna.
Apesar das idealizações e problemas na tensão entre a liberdade e a segurança, no que tange ao sentimento de comunidade, o desejo humano ainda permanece na eterna busca por liberdade e sentimento de segurança. Diante deste dilema, Bauman (2003) afirma que não seremos humanos sem segurança ou sem liberdade, mas é impossível ter as duas coisas ao mesmo tempo. Assim, há a necessidade de constante procura pela tentativa da obter segurança com liberdade, mesmo compreendendo a impossibilidade de haver a plenitude destes dois conceitos, porém sua busca é fundamental. Esta constante busca, segundo Bauman (2003), não deve ser somente individual, mas sim coletiva, a partir do compartilhamento e do cuidado mútuo; uma comunidade de interesse e responsabilidade em relação aos direitos iguais de seres humanos e igual capacidade de agir em defesa destes direitos.
Sendo assim, este é o grande desafio a ser enfrentado na busca pela construção do sentimento de comunidade: reconhecer as igualdades e as diferenças neste mundo multicultural e globalizado. Para tal concepção, a raiz da insegurança centra-se na percepção dos sujeitos quanto à diversidade, onde o reconhecimento entre os iguais torna-se cada vez mais escasso, a solidez de conceitos e concepções torna-se líquida, há uma ampliação da insegurança, uma vez que, para Bauman (2006), o medo é resultado de incertezas e do desconhecimento quanto àquilo que nos ameaça.
À medida que a multidão urbana se torna cada vez mais diversificada, a chance de encontrar os equivalentes modernos da marca a fogo também aumenta; e também aumenta a suspeita de que podemos ser muito lentos ou ineptos para ler as mensagens contidas nas figuras pouco familiares. Assim, temos razões para ter medo, e então só falta um passo para projetar nosso medo nos estranhos que os provocaram, e para condenar a vida urbana por ser perigosa: perigosa por causa de sua diversidade (BAUMAN, 2003, p. 132).
Nesta compreensão, o medo e a insegurança surgem nos indivíduos no não reconhecimento das suas diversidades, das suas incertezas quanto ao futuro, na ausência do conceito de proteção comunitário, em meio a um mundo de rápidas transformações. Então, a ideia de proteção da comunidade neste mundo diverso, multicultural e globalizado, se funda na promessa da simplificação, que só pode ser atingida pela separação das diferenças, em uma unidade comunitária que se funda na divisão, na segregação, o que torna impossível em um mundo onde todos são interdependentes devido à globalização (BAUMAN, 2003).
Nesse contexto, onde todos os problemas relevantes são globais, não se admitem soluções locais. Diante disso, Bauman (2003) afirma que a responsabilidade por criar respostas para o enfrentamento da insegurança presente no contexto atual deve ser global, porém, esperar que o Estado faça algo palpável para mitigar a insegurança parece uma fantasia irrealizável; para o autor, em um mundo cada vez mais individualizado e privatizado, a segurança é uma tarefa de cada indivíduo.
Esperar que o Estado, se chamado ou pressionado adequadamente, fará algo palpável para mitigar a insegurança da existência não é muito mais realista do que esperar o fim da seca por meio de uma dança da chuva. Parece cada vez mais claro que o conforto de uma existência segura precisa ser procurado por outros meios. A segurança, como todos os outros aspectos da vida humana num mundo inexoravelmente individualizado e privatizado, é uma tarefa que toca a cada indivíduo (BAUMAN, 2003, p.103).
Evidencia-se, então, em Bauman, ao mesmo tempo, um apelo por pensar em soluções globais e uma valorização ao individual, na busca por uma solução abstrata para a problemática da insegurança. Sua forma de compreensão da segurança na sociedade atual está intimamente relacionada à perspectiva da sociedade do risco, de Ulrich Beck. Nessa perspectiva, Beck (1995) refere que os acontecimentos das últimas décadas, como a queda do muro de Berlin, a crise ambiental, as descobertas genéticas e tecnológicas provocaram profundas transformações na sociedade industrial, onde se proliferam incertezas de toda ordem, então, este processo acarretou uma ruptura dentro da modernidade, que fez surgir a sociedade do risco no lugar da sociedade industrial.
Nessa ótica, o autor afirma que assim como no século XIX a modernização dissolveu a sociedade agrária estamental, a modernidade surge com outra configuração social, a da sociedade do risco, onde os elementos constitutivos de uma tradicionalidade industrial imanente (classe social, família, trabalho assalariado) são incorporados, seus fundamentos fragilizados e suspensos pela modernização reflexiva14 (BECK, 2011).
Nesse sentido, Beck refere que a sociedade do risco é a sociedade onde se desfaz certezas sólidas, onde a segurança não é possível pela nova forma como a realidade ou a modernidade se consolida, especialmente pelos riscos ambientais e nucleares que podem atingir a todas as pessoas que vivem nesta sociedade. Para Beck (2011), os riscos constituem
14
O termo refere-se a uma modernização ampla, solta e modificadora da estrutura, onde se produzem insegurança de toda uma sociedade, difíceis de dimensionar (BECK, 1995). A modernização, neste sentido, significa o “salto tecnológico da racionalização e da transformação do trabalho e da organização, englobando, além disso, muito mais: a mudança dos caracteres sociais e das biografias-padrão, dos estilos e formas de vida, das estruturas de poder e controle, da forma política de opressão e participação, das concepções de realidade e das normas cognitivas” (BECK, 2011, p. 23).
uma invenção moderna, uma vez que deixam de ser riscos pessoais e passam a ser sociais, pois a dinâmica da sociedade moderna coloca em risco a sociedade como um todo, por exemplo, com o acúmulo de lixo nuclear ou com o desmatamento. Conforme o autor:
Os riscos de desenvolvimento industrial são certamente tão antigos quanto ele mesmo. A pauperização de grande parte da população – “o risco da pobreza” – prendeu inspiração no século XIX. “Risco de qualificação” e “risco à saúde” já são há muito tempo temas de processos de racionalização e de conflitos sociais [...] Mesmo assim, os riscos [...] que há alguns anos inquietam o público correspondem a
uma nova característica. No que diz respeito à comoção que produzem eles já não estão vinculados ao lugar que foram gerados – a fábrica. De acordo com o seu
feitio, eles ameaçam a vida no planeta, sob todas as formas. Comparados com isso, os riscos profissionais da industrialização primária parecem de outra era. Os perigos das forças produtivas químicas e atômicas altamente desenvolvidas suspendem os fundamentos e categorias nos quais nos apoiávamos até então para pensar e agir (BECK, 2011, p. 27- grifamos).
Com isso, Beck (2011) defende a tese de que os riscos não devem mais ser pensados como gerados na estrutura de produção do capital, que atinge somente uma parcela da população: o proletariado. A ideia de risco apresentada por Beck (2011) se refere à concepção de um risco que ultrapassa a ideia de classes, como ele mesmo refere: “a fome pode ser saciada, necessidades podem ser satisfeitas, mas os riscos civilizatórios são um barril de necessidades sem fundo” (BECK, 2011, p. 27).
Nesse sentido, nesta sociedade há um efeito bumerangue no que se refere à produção de riscos, uma vez que, embora alguns segmentos mais vulnerabilizados são mais rapidamente atingidos pelos riscos, cedo ou tarde tais riscos alcançam inclusive aqueles que os produziram e lucraram com ele (BECK, 2011). Com base nestes pressupostos, em função da generalização dos riscos da modernidade, o autor afirma que há um novo tipo de conflito social que não pode mais ser compreendido através da luta de classes.
[...] no lugar de estamentos já não entram mais a classe social; no lugar de classes socais, já não entram o quadro referencial estável da família. [...] tanto dentro como fora da família, os indivíduos convertem-se em agentes que asseguram essencialmente sua mediação pelo mercado e a organização e o planejamento biográficos com ele relacionados (BECK, 2011, p. 111).
Dessa forma, a essência fundamental desta perspectiva teórica se calca na ideia de que as situações de risco não são situações de classe, pois refere que a modernidade desencadeia uma dinâmica social que não pode ser mais abarcada e concebida em termos de classe. Tais riscos produzidos na modernidade não possuem um nexo causal, visto que tudo pode se relacionar com tudo, o essencial é que, mesmo em meio à imensa profusão de possibilidades interpretativas, estas são invariavelmente condições isoladas que são relacionadas umas às
outras (BECK, 2011). Tal afirmação do autor refere que os riscos não possuem um elemento específico de produção, sendo elementos causados por múltiplos processos que estão conectados, de algum modo, e atingem a todos.
Tal forma de compreender o real, em especial a relação com a produção de risco que acarreta processos de (in)segurança na sociedade contemporânea, tanto na perspectiva líquida de Bauman, como na análise da sociedade de riscos de Beck, possuem a marca do pensamento pós-moderno que vem influenciando diversas análises no âmbito das ciências sociais e sociais aplicadas. As ideias de Bauman e Beck ilustradas até aqui, em suas principais obras que abordam temas relacionados à insegurança15, demonstram como o fenômeno é abordado, especialmente por concepções pós-modernas.
Nesse passo, Harvey (1992) refere que a pós-modernidade surge no âmbito das grandes transformações ocorridas no final dos anos 60 e início dos 70, onde a experiência do tempo e do espaço se transformou profundamente, bem como houve grandes transformações nas artes, economia e na própria gestão do Estado. Esta época é marcada com profundas mudanças nas empresas capitalistas, com ascensão dos modelos de acumulação flexível16, bem como o surgimento de ideologias neoliberais17.
No pensamento pós-moderno, a efemeridade e a fragmentação assumem precedência sobre verdades eternas e sobre política unificada, as explicações deixam o âmbito dos fundamentos materiais e político-econômicos e passam para a condição de práticas políticas e culturais autônomas (HARVEY, 1992). Nesse sentido, Yazbek (2009) afirma que as teorias pós-modernas, ao proporem a recusa de análises de abrangência mais totalizadoras e ontológicas, buscando a valorização do microssocial em si mesmo, não possibilitam que os sujeitos históricos encarnem processos sociais, expressem visões de mundo e tenham suas identidades sociais construídas na tessitura de relações sociais mais amplas. Então, ao abortarem de suas análises a dimensão estrutural, tais teorias movimentam particularidades, mas não conseguem desvendar a essência dos fenômenos que buscam analisar.
15
No que se refere à Bauman, principalmente as obras que abordam o tema insegurança “Medo líquido, vida
líquida e comunidade: a busca por segurança no mundo atual”. Já a perspectiva de Beck, em sua obra:
“Sociedade do risco: em busca de uma nova modernidade e modernidade reflexiva”, que foi escrita conjuntamente com Anthony Giddens e Scott Lash.
16
Termo utilizado por Harvey (1992) para determinar uma série de práticas a fim de quebrar a rigidez fordista, na busca de novas formas de gestão, com maior aproveitamento do tempo de trabalho que o trabalhador vende as empresas capitalistas, tendo como único objetivo aumentar os ganhos do capital.
17
O ideário neoliberal afirma a necessidade de enxugamento dos gastos sociais, tanto no âmbito do Estado (e assim redefinindo o papel do Estado não mais como interventor, e sim como regulador); quanto no âmbito das empresas, fomentando o processo de maior exploração com menos mão-de-obra (HOUTAR; POLET, 2002).
Conforme Kosik (2002), o fenômeno se manifesta de imediato, primeiro e com maior frequência; mas a essência, mesmo ligada ao fenômeno, não se revela de imediato, deve ser desvendada. Ao considerar as particularidades em movimentos, não é possível capturar a essência do real, mas é possível se deixar levar pela aparência do fenômeno, desconsiderando a sua essência. Nesse sentido, ao analisar o fenômeno da insegurança, é fundamental a sua análise, percebida em um prisma mais amplo, em um contexto de produção e reprodução de relações sociais.
O olhar para os fragmentos da realidade em movimento assemelha-se à sensação que temos ao tentar compreender o real por meio de um grande caleidoscópio. O caleidoscópio é um aparelho óptico, formado por meio de um tubo com um conjunto de espelhos e fragmentos de vidros coloridos que quando movimentados os vários pedaços de vidros produzem diversos efeitos visuais, dando a impressão de que existe uma infinidade de fragmentos formando imagens diferentes a cada olhar. Muitas vezes, a análise e a compreensão do real em movimento, por meio de teorias que buscam negar o caráter estrutural presente na realidade, podem ser comparadas com um grande caleidoscópio: ao considerar somente o fragmento em seus movimentos, tem-se a impressão de compreender o fenômeno em sua totalidade, quando há somente a projeção desfocada de alguns elementos do real compreendidos em sua aparência fenomênica.
Compreender como se constituem as diversas manifestações da insegurança é um desafio fundamental, a fim de pensar formas de enfrentamento a uma realidade que não pode ser naturalizada e encoberta pelo caráter globalizado da sociedade atual. São inegáveis as diversas transformações societárias das últimas décadas, como Bauman e Beck apontam tanto na teoria dos fluidos como na teoria da sociedade do risco, e considerá-las é fundamental na compreensão dos fenômenos, isto é: a categoria historicidade é um movimento essencial para mergulhar na essência dos fenômenos. Conforme Lefebvre (1995), o pensamento se afirma como movimento de pensamento, ao mesmo tempo como pensamento em movimento, ou seja, conhecimento do movimento objetivo. Compreender este movimento é analisar as suas intensas e contraditórias relações, evitando petrificações e verdades absolutas, mas buscando, a partir da análise histórica, compreender o real em seu movimento.
Nesse sentido, são inegáveis as grandes transformações ocorridas nas últimas décadas, pensando o movimento da história, porém, apesar das grandes transformações e das crises estruturais, a estrutura do capital resta intacta, na perspectiva de produção e reprodução de desigualdades e também de riscos que acarretam a (in)segurança para todos os sujeitos. Sendo assim, a historicidade é movimento e este movimento só é possível quando o homem não
começa sempre de novo e do princípio, mas se liga ao trabalho e aos resultados obtidos pelas gerações precedentes (KOSIK, 2002). Dessa forma, tem-se o humano, enquanto sujeito que transforma a natureza e dialeticamente se transforma ao transformar esta natureza.
A dimensão da produção fabril se transformou nas últimas décadas, especialmente a partir da década de 70 do século XX, onde se verificam profundas mudanças nas formas de produção e gestão do trabalho perante as exigências do mercado mundial, sob o comando do capital financeiro que altera profundamente as relações entre estado e sociedade civil (IAMAMOTO, 2007). Porém, assegurar que estamos vivendo em outra sociedade onde se torna impossível pensar em lutas de classes, como refere Beck, mostra-se como um movimento que considera somente a aparência dos fenômenos. Desse modo, os autores referidos são levados, em suas análises, a uma visão que conduz para o “mundo das aparências”, onde o fragmento da realidade em movimento é tido como uma totalidade.
Beck ao fragmentar os riscos pessoais (referente à pauperização e à falta de saúde) dos riscos sociais (provenientes do desmatamento, das contaminações da água e do lixo nuclear), afirma que estes últimos são uma invenção moderna, não percebendo que tanto o que ele chama de risco social como os pessoais são dimensões de um mesmo risco, produzido e reproduzido na lógica do capital, isto é: um risco produzido pela estrutura do capital que não está “suspensa pela modernidade”, mas extremante presente e muitas vezes oculta pela lógica da fetichização. Nesse sentido, os autores, ao negar as bases estruturais da produção de risco, negam a essência do fenômeno, o que fica evidente na afirmação de Beck quando refere que não há nexo causal na produção de riscos, tudo se relaciona e afeta. É exatamente este movimento caleidoscópico que é produzido pelo pensamento pós-moderno, que analisa fragmentos em movimentos desconsiderando a totalidade do fenômeno.
A questão ambiental e os riscos dela provenientes, sendo estes os argumentos utilizados por Beck para denominar um “novo risco”, são produzidos pela lógica do capital, isto é, em razão da manutenção do sistema que produz impactos ambientais, sociais e políticos por meio da sua própria dinâmica de reprodução. Como refere Mézáros (2011) ao afirmar que as forças da natureza, por meio da intervenção do capital, são postas em movimento de forma cega e fatalmente autodestrutivas, sobretudo, em virtude do modo predominante alienado e reificado de intercâmbio e controle humano.
Evidentemente, na atualidade, há um processo de ampliação da destruição da natureza em razão dos interesses econômicos, bem como a produção do capital é alterada, no que diz respeito a sua gestão e suas formas de reprodução, porém, o seu cerne de exploração do trabalho para a produção de riqueza não se altera. A produção do risco ambiental e do risco da