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3.2 Building Information Modeling

3.2.6 Challenges

No instante da hierofania de Fundador, o herói reúne à sua admiração pelo cartógrafo o desejo do aventureiro, a força do explorador, a pulsão do pioneiro na procura do seu Eldorado. Dominado por esses sentimentos, elege a si próprio como o conquistador das terras de Teodorico de Antióquia, roubando-lhe o mapa pela transcrição em cópia. Experimenta, pela via do simulacro, o ofício do Mestre, como se legítimo fosse apossar-se daqueles manuscritos para, guiando-se por eles, descobrir uma terra e fundar uma cidade. Munido dos mapas do cartógrafo, Fundador experimentará uma espécie de busca em direção à terra prometida. Contudo, durante a viagem, parecem os mapas assumir uma função menor, visto que o coração é quem lhe serve de bússola, apontando o trajeto a seguir, a terra em que se deve aportar:

Não duvidei que as terras se iniciassem ali, eu partindo para seu centro. E eu me dizia: Fundador, dever de homem é acertar. O coração revelou- me o segredo logo que as cruzei pela primeira vez. Deus sabe como se reconhece o advento de um novo solo, como quando ele prepara o paraíso. Tão simples, o cavalo avançou, e coisa esquisita, eu não estava mais nas terras de antes, e não peçam que eu lhes explique, apenas sabia que encontrara as regiões de Teodorico de Antióquia, deixando atrás raça que me pariu para eu abdicar de seus favores. (PIÑON, 1997, 108).

Fundador penetra na nova terra como quem atravessa uma espécie de fronteira imaginária, mágica, que opera fazendo a divisão entre as terras de agora e as de outrora. Faz isso com uma certeza que não lhe é dada pelos mapas, mas pelo coração, tanto que a personagem resiste a uma explicação de natureza racional. Para uma pergunta do tipo como sabe que está na localidade escrita nos mapas do Mestre Antióquia?, Fundador não responderia mostrando-nos os manuscritos roubados do cartógrafo. Antes o acerto do lugar se faz por uma espécie de pressentimento, ou melhor, de sentimento responsável por elucidar o segredo da localização. É possível dizer que, na descoberta do novo mundo, imperam não apenas as cartografias de Teodorico, mas também aquela delineada pelo coração do sujeito descobridor. Por isso que, na revelação das terras, o mapa acaba assumindo uma função menor, já que é do coração, e não da cartografia,

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que Fundador extrai a certeza da descoberta. Embora possa abrir o mapa e comprovar a localização daquela espacialidade, o descobridor não parece fazê-lo, optando por dar origem a uma geografia dos sentimentos.

Esse pressentimento relativo à descoberta e que serve a Fundador para se situar não é estranho a outros descobridores. Diante dessa constatação, perguntemo-nos: não seria o coração uma espécie de bússola usada por esses sujeitos exploradores quando da inutilidade, talvez, de mapas ou instrumentos científicos de navegação? Assim como ocorre ao personagem central da narrativa de Piñon, o descobridor Cristóvão Colombo também se vale de um presságio afetivo que lhe parece fundamental para apontar os caminhos da América:

Ele sempre tinha achado, no fundo de seu coração, [...] quaisquer que fossem as razões dessa opinião, que atravessando o oceano para além da ilha de Hierro, por uma distância de aproximadamente setecentas e cinqüenta léguas, acabaria por descobrir a terra. (Las Casas apud Todorov, 2003, p. 31).

Citando Las Casas, Todorov observa a importância que o coração do navegador desempenha na façanha da descoberta da América. Da mesma maneira que o personagem nelidiano acredita estar nas terras visualizadas nos mapas de Teodorico de Antióquia por um pressentimento que irrompe do seu coração, Colombo invoca uma suspeita afetiva que o ajuda a fitar as rotas da Nova Terra. O coração transforma-se no lugar onde os caminhos em direção ao Novo Mundo começam a ser traçados, calculados em léguas. É ele que parece apontar a direção a seguir, impulsionar o navegador, dando ao achado uma espécie de certeza que, a princípio, não parece nascer dos domínios da razão, mas da emoção.

Considerado em muitas sociedades o centro da natureza humana, o coração é mais que um receptáculo de sentimentos e emoções. Em diversas culturas, o verdadeiro conhecimento provém dele, por isso é tomado também como o lugar da revelação. Cavalcanti (2008, p. 141) lembra, por exemplo, que, para os egípcios, do coração emanava a inteligência e os antigos Vedas o tinham como a origem da sabedoria autêntica. Algumas tradições místicas, como a Sufi, praticada pelos seguidores do Islão, situam a inteligência no coração, e Maomé, o

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profeta mulçumano, considerava esse órgão do corpo humano como o da revelação do segredo de Deus. Talvez, por uma razão semelhante, Fundador atribua ao seu próprio coração a revelação de um segredo que só Deus saberia explicar.

Ao investigar o simbolismo do coração por meio de uma leitura analítica de caráter junguiano, Ramos (1995) enumera alguns mitos relacionados a esse órgão, assinalando a sua representação em diferentes culturas. De acordo com a autora, o coração aparece, em diversos contextos, associado a uma infinidade de mitos sobre a criação do universo, como o descrito no livro sagrado dos maias,

Popol Vuh, que relata a criação do mundo como algo que se origina do próprio

coração divino. Em outras culturas, como a dos povos astecas, a tradição do sacrifício do coração é o que sustenta a vida do próprio cosmo, servindo de alimento para a sua renovação. Ainda segundo Ramos (1995, p.65), baseando-se agora na teologia de Memphis, datada de 2.700 a. c, “Ptah, Deus da criação, a fim de dar materialidade à força do verbo criador, pensou o universo com o coração”. Pela leitura dessa corrente teológica, o mito da criação é ligado não somente à palavra, à razão, mas também ao sentimento manifestado como força construtora que habita o coração de Deus.

A cosmogonia da primordial idade, na qual se encontra Fundador, também se fará como algo que se origina do coração. O sentimento que aponta no herói descobridor e é determinante para que ele realize o achado das novas terras se propaga no corpo do personagem durante o tempo da construção de sua comunidade. Conforme observou Aguiar (1999), “É sob a égide do entusiasmo, da paixão, da bravura que a cidade de Fundador será originada. Para ele a construção da cidade equivale à arquitetura de sua própria vida”. Dessa maneira, da descoberta à invenção da cidade, o sentimento opera como uma espécie de liga. É ele quem une o sujeito à terra, Fundador aos seus homens e estes ao descobridor. O sentimento advindo do coração garante, assim, a realização do sonho da personagem: “Amor o deles que assegurava o início da cidade”. (PIÑON, 1997, p. 19).

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No que se refere aos planos e aos investimentos feitos pelo herói para realizar a conquista daquelas terras, vale salientarmos que, diferentemente do que ocorre a outros heróis que aparecem na história das grandes navegações ou cruzadas, Fundador não possui nenhum patrocinador que o ajude a transformar o sonho da descoberta em realidade. Ele não recorre aos reis do seu tempo para solicitar ajuda e formar uma grande expedição a fim de, ao seu comando, aportar nas terras escritas pelo cartógrafo. O próprio Teodorico de Antióquia nega-lhe o mapa tão desejado, entregando em seu lugar apenas a espada de Sir Tristan:

Retirou da caixa uma espada, alto serviço de ourivesaria. Incrustações ao longo do corpo, desenho de tapete. E a inscrição no punho. De aço invencível, bastava experimentá-la contra a roca. Imitar Roland às vésperas da morte. – Quem foi Sir Tristan? Fundador analisou a inscrição do punho. [...] Fundador apressou-se: - Mapa eu não ganho? [...] – Que outro solo posso dar-lhe senão uma espada? O que não consegui com ela, nem eu poderei ajudá-lo.” (PIÑON, 1997, p. 130).

Nesse ponto da narrativa, o texto nelidiano retoma a lenda medieval de Tristão e Isolda, já transformada ao longo das sucessivas edições. Numa dessas modificações, a fábula de Tristão, embora mais antiga, teria sido incorporada à do Rei Arthur, na qual Tristão passou a ser o cavaleiro Sir Tristan, um dos membros da Távola Redonda. Assim, no contexto do romance de Piñon, a espada oferecida pelo cartógrafo a Fundador já traria, de outrora, uma história de lutas e conquistas, funcionando como um presente mitológico que credencia o personagem a desbravar a terra e encontrar novos mundos. Nessa doação é possível perceber um fato bastante comum nas narrativas heróicas, já que, de acordo com Freund (2008, p. 22), para desenvolver o papel de matador ou desbravador,

[...] o herói tem necessidade de uma arma mágica e a recebe por meios miraculosos. É espantosa a freqüência com que este incidente ocorre no mundo mítico; é encontrado em histórias celtas, nas narrativas da Indonésia.

Considerando o cartógrafo como uma entidade mágica ou um simulacrum

dei como mostramos anteriormente, compreenderíamos a oferta da espada ao

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presente divino com o qual, na companhia de um personagem denominado apenas Mudo, Fundador iniciaria a sua viagem de descoberta. Nas mãos do herói a espada representa a bravura e o poderio e, embora possa, como qualquer outra arma, ter uma função destrutiva, sendo usada até mesmo para matar, no contexto da narrativa em análise, ela desempenha um papel construtor, passando a funcionar, inclusive, como um ponto axial. Vale mencionar ainda que à espada se associam o emblema do rei e a ideia de um estado militar que se pode vislumbrar na formação do pequeno exército constituído pelos nove homens capturados por Fundador. Na condução desses homens, a espada será o símbolo guerreiro com o qual o herói enfrentará as dificuldades, mostrando-se vocacionado a descobrir as terras e fundar nelas uma cidade.

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