Segundo Elbaz (1983), o conhecimento profundo dos conteúdos que serão
objetos de ensino, faz parte de um rol de itens integrantes do conhecimento do
professor, o autor considera que o conhecimento do professor é diferente do
conhecimento do especialista da disciplina e tem um forte componente do “saber
a disciplina para ensiná-la”.
Garcia (1999) cita Buchumann que menciona que “conhecer algo permite-
nos ensiná-lo; e conhecer um conteúdo em profundidade significa estar
mentalmente organizado e bem preparado para o ensinar de um modo geral”.
De fato, o professor pode explorar, de forma inadequada e equivocada,
conteúdos matemáticos aos seus alunos se não possuir um conhecimento
apropriado da disciplina que ele ensinará.
Como podemos verificar na tabela 2.1, o conhecimento do conteúdo pelo
professor inclui diferentes componentes e são abordados de maneira distintas de
acordo com os autores que os formula. Desta classificação, Garcia (1999)
destaca dois componentes como mais representativas: o primeiro o conhecimento
substantivo que inclui informação, idéias e tópicos a conhecer, ou seja, o corpo de
conhecimentos gerais de uma matéria, os conceitos específicos, definições,
convenções e procedimentos; e o segundo o conhecimento sintático que é um
complemento do conhecimento substantivo, ou seja, é o domínio que o professor
tem dos paradigmas de investigação, o conhecimento em relação a questões
como validade, tendências, perspectivas, no campo da especialidade, assim
como de investigação.
Portanto, mesmo havendo diferentes classificações para o conhecimento
do conteúdo, Garcia (1999) ressalta que há uma idéia generalizada da
necessidade dos professores possuírem um conhecimento adequado dos
conteúdos que têm de ensinar.
Mesmo com essa concordância, Kennedy (1990), citado por Garcia (1999),
relata que devemos debater qual é o tipo de conhecimento disciplinar que os
TABELA 2.1 -
DIFERENTES CLASSIFICAÇÕES DO CONHECIMENTO
DO CONTEÚDO DOS PROFESSORES
Ball, Mcdiarmid
(1989)
Cornbleth(1989)
Grossman, Wilson eShulman (1989)
Kennedy (1990)
Conhecimento substantivo; Conhecimento sobre a matéria; Disposição para a matéria Conhecimento declarativo; Conhecimento procedimental Conhecimento substantivo; Conhecimento sintático Conhecimento do conteúdo; Organização, estrutura do conteúdo; Métodos de indagação
professores devem possuir. Assim, Garcia (1999) destaca que tem sido debatido
o fato de que o conhecimento do professor precisa ser diferente, ou seja, um
conhecimento disciplinar diferente à medida que um conhecimento é ensinado,
assim, obriga a que se organizarem não apenas em função da própria estrutura
disciplinar, mas pensando nos alunos a que se dirigem, o que nos conduzem a
pensar que se trata de formar professores para que possuam um conhecimento
didático do conteúdo a ensinar.
Ainda a esse respeito, Garcia (1999) menciona que:
“O conhecimento didático do conteúdo aparece, no modelo de Grossman, como um elemento central do conhecimento do professor. Representa a combinação adequada entre o conhecimento da matéria a ensinar e o conhecimento pedagógico e didático de como ensinar”.(Garcia, 1999)
Garcia (1991) cita Murray (1991) para quem, quando falamos de
conhecimento didático do conteúdo há necessidade de debatermos quanto à
organização, representação, ao conhecimento por meio de analogias e metáforas,
de modo que o conhecimento especializado do conteúdo a ensinar possa ser
desenvolvido com uma melhor compreensão para os alunos.
Também Shulman (1992) menciona que cada área do conhecimento tem
uma especificidade própria e justifica a necessidade de se estudar o
conhecimento do professor tendo em vista a disciplina a que ele ensina.
Ele identifica três vertentes no conhecimento do professor, quando se
refere ao conhecimento da disciplina para ensiná-la:
! o conhecimento do conteúdo da disciplina;
! o conhecimento didático do conteúdo da disciplina;
! o conhecimento do currículo.
No que se refere ao conhecimento do conteúdo da disciplina a ser
ensinada, Shulman envolve a compreensão e a organização. O professor deve
compreender a disciplina que ensinará a partir de diferentes perspectivas e
estabelecer relações entre vários tópicos do conteúdo disciplinar e entre a sua
disciplina e outras áreas do conhecimento.
O autor destaca a expressão “pedagogical content knowledge” que é
denominada por alguns autores como “conhecimento pedagógico disciplinar” ou
“conhecimento didático do conteúdo”. Shulman define essa expressão como uma
combinação entre o conhecimento da disciplina e o conhecimento do “modo de
ensinar” e de tornar a disciplina compreensível para o aluno.
Ele defende que esse tipo de conhecimento é uma forma de conhecimento
característica dos professores que os distingue da maneira de pensar dos
especialistas de uma disciplina; é um conjunto de conhecimentos e capacidades
que caracteriza o professor como tal e que inclui aspectos de racionalidade
técnicas associados a capacidades de improvisação, julgamento e intuição; é um
processo de raciocínio e ação pedagógica que permite aos professores recorrer
aos conhecimentos e compreensão requeridos para ensinar algo num
determinado contexto, para elaborar planos de ação, mas também para
improvisar perante a uma situação não prevista.
Alarcão (1996) traduziu a expressão pedagogical content knowledge como
saber ensinar algo e se distancia, segundo a autora, da dicotomia entre o saber
algo e o saber ensinar.
No que tange ao conhecimento do currículo, Shulman (1992) aponta que
esse conhecimento engloba a compreensão do programa, não só de objetivos e
conteúdos, mas o programa como um todo, defende também o conhecimento de
materiais que o professor disponibiliza para ensinar a sua disciplina, a capacidade
de fazer articulações horizontais e verticais do conteúdo a ser ensinado, a história
da evolução curricular do conteúdo a ser ensinado.
Segundo o autor, existe a necessidade de os professores construírem
pontes entre o significado do conteúdo curricular e a construção desse significado
por parte dos alunos conforme destaca:
“... os professores realizam esta tarefa de honestidade intelectual mediante uma compreensão profunda, flexível e aberta do conteúdo; compreendendo as dificuldades mais prováveis que os alunos podem ter com essas idéias...; compreendendo as variações dos métodos e modelos de ensino para ajudar os alunos na sua construção do conhecimento; e estando abertos para rever os seus objetivos, planos e procedimentos à medida que se desenvolve a interação com os estudantes. Este tipo de compreensão não é exclusivamente técnico, nem apenas reflexivo. Não é apenas o conhecimento do conteúdo, nem o domínio genérico de métodos de ensino. É uma mescla de tudo, e é principalmente pedagógico”. (Shulman, 1992)