• No results found

Factor 4: Opportunities in big Asian markets

5. CCR were just “paper rules and big words”

O Mapa de Exclusão/Inclusão Social do Município de São Paulo teve sua primeira versão lançada no ano de 1996, resultado da pesquisa coordenada pela Professora Aldaíza Sposati, professora titular da PUC de São Paulo, tendo como base de cálculo o Censo de 1991 e dados do IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A 2ª versão foi de 2000 e baseava-se em dados da Contagem da População de 1996 do IBGE. A 3ª versão publicada em 2002 traz 50 variáveis baseadas no Censo 2000, também do IBGE, além de informações das seguintes fontes: da pesquisa Emprego e Desemprego (fundação SEADE), Pesquisa Origem/Destino (1997), da Cia do metropolitano, do PRÓ-Aim, da SMS (2000) e da Pesquisa Fipe acerca de populações de rua e por fim, dados da EMBRAESP a partir de lançamentos imobiliários novos.25

Segundo Sposati em palestra proferida no Congresso Internacional de Geoinformação – GEO Brasil/200026, o Mapa de Exclusão/Inclusão Social é uma metodologia baseada em linguagens quantitativas, qualitativas e de

24

O Formação de Público atinge o número de 257 000 espectadores a partir da sua implantação nos 21 Centros Educacionais unificados (Vila Curuça, Paz, São Mateus, Campo Limpo, São Rafael, Casablanca, Cidade Dutra, Inácio Monteiro, Meninos, Vila Atlântica, Parque São Carlos, Alvarenga, Butantã, Parque Veredas, Pêra Marmelo, Aricanduva, Jambeiro, Rosa da China, Perus, Navegantes e Três Lagos. De 2001 a 2003 o Formação aconteceu no teatro João Caetano, teatro Paulo Eiró, Teatro Flávio Império, Sítio Morrinhos, Biblioteca Vila Formosa.

25 As informações foram retiradas do site da Secretaria municipal de Planejamento (Sempla) e podem ser

acessados pelos endereços a seguir: www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/planejamento/mapas_e_dados/ e http://www9.prefeitura.sp.gov.br/sempla/mm/. O Mapa de Exclusão/Inclusão também foi publicado pelo Departamento de Estatística e Produção de Informação do Sempla (Dipro) a partir da publicação Mapas – índices Sociais.

26

O texto na íntegra Cidade, Território, Exclusão/Inclusão Social foi apresentado no Congresso Internacional de Geoinformação – GEO Brasil /2000 , em São Paulo, no Palácio de Convenções do Anhembi no dia 16/06/2000

geoprocessamento. Assim acontece a produção de índices territoriais que criam uma hierarquia entre as regiões da cidade. Pode-se supor no uso tanto do Índice de Exclusão/Inclusão Social (IEX) quanto do Índice de Discrepância (IDI), as condições de vida dos indivíduos relacionada ao lugar na cidade onde residem.

Assim sendo, nos interessa tornar explícita a relação entre a implantação do Projeto Teatro Vocacional e o uso do mapa de exclusão/inclusão citado, divulgado a partir do ano 2000, com o aumento significativo de equipamentos públicos de cultura (teatros) a partir da construção dos CEUs.

Queremos associar o mesmo mapa à pouca oferta (atualmente) de projetos que possibilitem acesso físico e lingüístico às atividades artísticas nas suas diversas modalidades, em caráter contínuo. Aqui, evidenciaremos obviamente o acesso ao exercício da linguagem teatral a partir do projeto citado. Sposati acentua que o uso do mapa não mais associa à pobreza simplesmente à ausência de comida na mesa das famílias. O centro da discussão passa a estar no desenvolvimento humano, e não mais nos valores relacionados ao não acesso à cesta básica ou ao índice relativo a distribuição do PIB (produto Interno Bruto), ou seja, interferir no território com políticas culturais também alterará significativamente as condições de vida dos seres humanos , num país de forte desigualdade social e econômica.

O Mapa de exclusão/inclusão social parte do principio de que é necessário um índice tão complexo quanto a complexidade da vida humana no território, numa relação dialética com as formas de vida, de relação e de sobrevivência, inseridas na metrópole. Se o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) busca levar em consideração um conjunto de condições e retratá-las em um único número, o mapa avança nos seguintes aspectos:

 Compara índices dentro de um mesmo contexto cultural, no caso, o Município de São Paulo;

 Oferece uma dimensão simbólica da leitura das situações de vida cotidianas, ao dispor de números negativos para situações de exclusão e números positivos a uma situação de inclusão a partir de notas decimais.

Então o território não pode mais ser percebido, tal como enfatiza a professora, como acidente de percurso, mas como condição efetiva das formas de distribuição dos acessos, riquezas e das condições de vida de uma população.

Outro aspecto do mapa é a sua construção metodológica, a partir da medição da melhor e da pior variável em cada uma das áreas intra-urbanas (IDI). Além disso, parte do principio de que tanto a exclusão quanto a inclusão social são necessariamente interdependentes, ou seja, se alguém está excluído de determinada situação social ou econômica, outro alguém está incluído.

Assim , ainda em relação às formas de construção do mapa, a pesquisadora nos apresenta os campos qualitativos abordados, ressaltando a impossibilidade de mensurá-los quantitativamente .

No quadro VI, apresentamos os campos qualitativos de forma sintética:

Quadro VI: Campos qualitativos (Mapa de Exclusão/Inclusão) -2002

Campo abordado Conceito

Autonomia Possibilidade de que o cidadão consiga suprir necessidades vitais, culturais, políticas e sociais na sua relação com o mercado, mesmo em situação de reclusão27. Uma parte das necessidades vitais devem

ser asseguradas pelo próprio cidadão (na sua condição de trabalhador assalariado, por exemplo) e a outra pelo Estado (na disponibilização de serviços públicos básicos, como uma rede de transportes ampla e de qualidade) numa relação direta com os Direitos Humanos fundamentais e previstos em lei.

Qualidade de vida Distribuição igualitária de riqueza social e tecnológica.

Desenvolvimento humano Com base no IDH (ONU/PNUD) trata-se da possibilidade de desenvolvimento humano com o menor índice de privação possível.

Equidade Espaço para manifestação da diversidade, sem discriminação de qualquer ordem. Equidade em relação a diferenças de gênero, políticas, étnicas, religiosas, culturais, etc..

27

Um texto digno de leitura em relação a direitos culturais para indivíduos em situação de reclusão é a publicação CONCILIO, Vicente . Teatro e Prisão: dilemas da liberdade artística. 1. ed. São Paulo: Hucitec, 2008.

Cidadania Acesso ao conjunto de condições básicas para a vida pessoal, coletiva, com direito à interferência na esfera pública, na vida coletiva.

Democracia Supõe cidadania, para além de acesso a renda e a serviços.

Felicidade Para além da posse, para além de condições objetivas de vida, insere os aspectos subjetivos da existência humana, uma almejada situação de vida sem privações do campo concreto e do campo simbólico.

Outra questão abordada por Sposati diz respeito as incongruências entre os diversos modos de microparcelamentos territoriais. A pesquisadora enfatiza a impossibilidade de alavancar formas de “dividir” o território. Fato que pode ser observado nas diferentes modalidades de divisão territorial propostas pelo IPTU (Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana), pelo o IBGE e pelo CEP (Código de Endereçamento Postal), como exemplos contundentes desta discrepância. Existe também a divisão do território por distritos, o que passou a acontecer na cidade de São Paulo a partir de um dispositivo constitucional.

O estabelecimento do Vocacional na metrópole se deu por uma leitura minuciosa do município. Após observarmos essa ocupação expandida, como primeiro passo de análise, será possível então observar as experiências desenvolvidas pelos profissionais contratados.

Acreditamos que o conjunto de dados relativos às formas de ocupação pelo Núcleo Vocacional e o conjunto de experiências estéticas nos diversos lugares podem nos dar uma justa composição da cidade e da sua complexidade territorial e humana, auxiliando assim na descoberta das novas formas de leitura do território a partir das demandas sociais explicitadas de forma simbólica.

Assim, como no caso dos Mapas dos equipamentos culturais da cidade, o mapa dos pontos de atuação do Núcleo Vocacional foi sobreposto ao mapa de exclusão/inclusão. Podemos perceber o quanto altos índices de privação estão localizados nas áreas periféricas da cidade, como Grajaú, Parelheiros, Campo Limpo/Capão Redondo mais ao sul do Município e Iguatemi/Cidade Tiradentes ao leste.Todos os distritos citados tiveram a construção de equipamentos públicos de cultura e a implantação do Teatro Vocacional.

A partir do Mapa também podemos verificar que em setores como o extremo sul da cidade, Parelheiros, por exemplo, mesmo o Vocacional possui baixa atuação. No final de 2007 o Projeto localizou uma aldeia guarani (Krukutu) e iniciou um trabalho de aproximação com a população indígena, visando descobrir formas de diálogo entre a produção cultural singular daquela comunidade e a produção teatral da cidade. Já em 2008 o Vocacional passou a atuar também em outra aldeia guarani, Tenondé Porã. Não existia pretensão alguma de ensinar-lhes teatro, mas estabelecer o encontro entre formas distintas de representação simbólica. Visto que, é patente que vivemos numa nação em que os conhecimentos acerca das culturas indígenas são absolutamente incipientes. Não faz parte sequer da educação formal travar diálogo a respeito de tais comunidades existentes no Brasil.

Vimos então nesta aproximação a oportunidade de compreendermos melhor as formas de representação difundidas por aquela comunidade. Infelizmente, o Vocacional pouco soube lidar com essa perspectiva singular de conhecimento da nossa própria constituição histórico-cultural. Apesar de ter designado um artista- orientador para o desenvolvimento do trabalho, o Projeto pecou ao restringir ou desvencilhar aspectos de uma ação global do Vocacional. A perspectiva pedagógica de um coletivo foi desconsiderada quando não houve envolvimento ou diálogo de outros profissionais do projeto em relação a ação que estava sendo desenvolvida ali, de caráter absolutamente singular.

O único contato efetivo que os outros profissionais do projeto tiveram com as populações indígenas citadas foi nas apresentações públicas durante as ações do Vocacional (Mostras, festivais, fóruns). O que por si só não era muito diferente de

outras formas de contato que temos historicamente com as populações indígenas no Brasil.

A possibilidade de uma perspectiva dialógica, pedagógica e de um contato que se desse na própria experiência entre culturas e linguagens distintas até 2008 não aconteceu.

As aldeias citadas refletem as condições materiais e humanas desfavoráveis explicitadas no Mapa, visto que é inegável essas populações, assim como as quilombolas, tem suas questões culturais e sociais explicitamente ligadas ao território.28 Em São Paulo, o fato das aldeias estarem estabelecidas numa região do extremo sul, onde a dimensão socioeconômica possui garantia precária, configura alto índice de privação.

Mesmo que alguns aspectos estejam explícitos e visíveis, é especialmente rico o estudo da pesquisadora quando nos apresenta uma ferramenta de leitura do território que possui uma construção e forma de apreensão da realidade absolutamente objetiva e tangível, mas que ao mesmo tempo considera aspectos subjetivos da existência humana como deflagradores de desigualdade entre as populações residentes numa mesma cidade, como é o caso da variável Autonomia (população de rua, renda e emprego).

Podemos observar que as maiores ofertas de emprego e de concentração de renda encontram-se na região central, expandindo-se ao oeste e norte da cidade. Por outro lado, vemos que a população de rua concentra-se no centro e mais ao Norte da cidade, em busca de maior oferta de comida e dormitório, haja vista a localização dos albergues da cidade.

Se as cores em azul no mapa vão tornando-se mais fortes ao centro na medida que dão uma demonstração clara que as condições de vida e de acesso da população ficam menos desiguais e recebem uma maior intervenção pública e do mercado, e as cores em laranja espalham-se por todas a áreas que caminham em direção as periferias da metrópole, evidenciando cada vez menos investimento

28 Para maiores informações acerca desta experiência consultar o artigo “ Aldeias Guaranis, memória e

público e do mercado, não é possível mais desconsiderar que para cada situação de exclusão uma outra de inclusão se apresenta.

1.5. Novo Organograma do Núcleo Vocacional (2005 – 2008)

Em 2005 o Vocacional passa a fazer parte do Departamento de Expansão Cultural resultado da fusão do Departamento de Teatro e de Ação de Cultura Descentralizada. O secretário de cultura nomeado é o Sr. Carlos Augusto Calil e o Sr. Rubens de Moura passa a ser o Diretor do Departamento de Expansão Cultural.

Vale dizer que no ano de 1935 a criação do Departamento de Cultura e Recreação, na época dirigido por Mário de Andrade, só se tornaria Secretaria de Cultura no ano de 1975. Mas, o nascimento do Departamento está absolutamente vinculado a um grupo de intelectuais, como Sérgio Milliet e Mário de Andrade, que possuíam estreitas relações tanto com a escola Livre de Sociologia e Política (1933), quanto com a Universidade de São Paulo (1935). Naquele momento a política cultural implantada estava diretamente relacionada a profissionais especializados e ao uso de pesquisas sobre a situação socioeconômica dos moradores da cidade.29(Artigas, 2007 ).

A implantação do Vocacional tem estreitas relações com uma política cultural que muito se assemelha a implantada na década de 30 no Município, visto que tanto a construção dos CEUs quanto os projetos de formação contínua foram implantados nas áreas onde havia menos oferta de emprego e equipamentos culturais e menor índice de renda.

Do segundo semestre de 2005 até segundo semestre de 2006, sob a coordenação de Mario Santana o projeto fica com a configuração descrita abaixo, baseada em documento distribuído pela coordenação na primeira reunião geral do ano citado, versando sobre os objetivos relativos à criação de núcleos de teatro e assessoria a núcleos já existentes (o que remonta ao período anterior). Fica claro

29“(...) Competia a Divisão de Documentação, além de preservar os documentos históricos da cidade de São

Paulo, alimentar o arquivo histórico e a seção de iconografia e promover o levantamento das situações sociais e econômicas do município, publicando dados e mapas e dados estatísticos que permitissem traçar um retrato do Município em todos os campos de atividade (...) (Artigas, 2007,p.9-14). Disponível no site: http://sempla.prefeitura.sp.gov.br/mm/cultura/.

que os objetivos relacionados à criação e assessoria aos núcleos de teatro se mantém; o que se altera pela primeira vez, é a configuração dada ao Projeto. Se antes se tratava de uma “metodologia aberta”, agora os artistas-orientadores recebem um trabalho dividido em ciclos, numa tentativa de propor um sistema para a forma de ação já existente.

O que nos chama à atenção especificamente na proposta é o delineamento de um Sistema de Trabalho dividido em ciclos:

Assim.

 1º ciclo: Iniciação à linguagem teatral

 2º ciclo : Rudimentos da criação do acontecimento teatral em grupo

 3º ciclo: Desenvolvimento de linguagem e autonomia no trabalho em grupo Cada ciclo teria a duração de nove meses. Tanto o 2º quanto o 3º ciclo apresentam número mínimo de integrantes para a sua consolidação: oito. Cada núcleo relacionado a um ciclo poderia ter um artista-orientador disponível em um encontro semanal de três horas, ou dois encontros semanais de uma hora e meia.30

A experiência dessa proposta em ciclos gera dificuldades, especialmente no que diz respeito à realidade diversa das turmas e grupos atendidos pelo Projeto. O esforço para a categorização de alguns procedimentos gerou desconforto em parte da equipe que muitas vezes não conseguia relacionar o trabalho realizado com os ciclos citados.

Por outro lado, o trabalho em ciclos também podia ser compreendido muito mais como uma possibilidade de mapeamento da nossa ação e menos como uma obrigação de categorização de procedimentos ou de metodologias de trabalho. Ou seja, foi possível iniciar a partir dali um processo consistente de mapeamento dos grupos e turmas atendidos, em relação a número de integrantes, ao tipo de trabalho desenvolvido, as regiões ocupadas por esses grupos.

Então, o que aparentemente inseria o Vocacional numa fórmula de trabalho não condizente com o projeto, fornecia caminhos para a compreensão de que

30 Informações baseadas no documento interno “ Núcleo Teatro Vocacional: proposta para 2006” produzido por

atendíamos turmas e grupos que possuíam tempos de trabalho, tipos de estudo e número de integrantes distintos, assim criavamos diferentes formas de abordagem, que muitas vezes fugiam não aos ciclos, mas a ordem proposta. Por exemplo , às vezes surgiam núcleos em busca de orientação que já se autodenominavam grupos de teatro, mas não possuíam conhecimentos básicos sobre a linguagem, o que os impedia de avançar em relação às questões das quais queriam tratar. Assim, a nossa ação ficava no meio do caminho: entre os rudimentos da linguagem e o auxílio para consolidação do trabalho coletivo.

Não é à toa que o período de coordenação de Mario Santana possui cuidadoso mapeamento de dados em relação ao trabalho desenvolvido nos anos de 2005 e 2006, e que se encontram no arquivo da Secretaria de Cultura.

Já no final de 2006, sob a coordenação de Expedito Araújo, indicado por Mario Santana para substituí-lo temos a seguinte configuração citada no organograma I.

Outline

RELATERTE DOKUMENTER