VALORES DE CONTROLE PARA A INSTRUMENTAÇÃO DE
BARRAGENS COM PEQUENAS OSCILAÇÕES NO NÍVEL DO
RESERVATÓRIO:
ESTUDO DE CASO DA BARRAGEM DE PIAU
6.1 – A Barragem de Piau
A Usina Hidrelétrica de Piau foi construída pela CEPIAU e incorporada pela Cemig em 1962. Está localizada no rio Piau, no município de mesmo nome em Minas Gerais, a 240km de Belo Horizonte. Sua potência instalada é de 18 MW, tendo entrado em operação em junho de 1955. O reservatório formado pela barragem (Figura 6.1) possui volume de 0,42 x 106 m3 e, para extravasar a cheia de projeto, existem um vertedouro principal tipo descarga livre na margem direita com capacidade máxima de 300m³/s e um vertedouro tipo tulipa com capacidade de 60m³/s.
A estrutura principal da barragem consiste de um maciço de terra homogênea (Figura 6.2), com altura máxima de 23,5 m e comprimento da crista de 95 m. O projeto e a construção da barragem foram de responsabilidade da Geotécnica S.A., sendo o empreendimento executado entre 1951 e 1954.
Figura 6.2– Planta baixa da barragem de Piau
A barragem está assentada em solo residual na ombreira esquerda e em solo residual e aluvião na ombreira direita. A região central do maciço tem como fundação um gnaisse muito decomposto a montante e assenta-se em aluvião a jusante.
O sistema de drenagem interna é composto por um filtro de areia vertical, localizado 22m a jusante do eixo da barragem, sob o qual foi perfurada uma linha de poços de alívio de φ3” através da fundação. Na base do filtro vertical foi colocado um tubo de concreto perfurado de φ6”, envolto em brita e areia. A água percolada é conduzida para jusante através de três tubos horizontais de concreto poroso, também com diâmetro de 6” e envoltos em brita e areia (Figura 6.3). Para consolidar e reduzir a percolação através da fundação, foram executadas duas linhas de cortina de injeção, localizadas
Figura 6.3– Seção típica e aspectos do sistema de drenagem interna da barragem
Desde o primeiro ano de operação, a barragem de terra passou por diversas intervenções visando melhorar e controlar a percolação pelo maciço, fundação e, especialmente, pela região junto da ombreira esquerda.
Assim, logo após o término da construção, em 1956, foram identificadas surgências d’água na ombreira esquerda junto ao pé do talude. Para redução da permeabilidade da fundação, a Geotécnica S.A. utilizou injeções de cimento-argila na provável faixa de percolação pela fundação, a montante da ombreira esquerda (Figura 6.4 - A). Posteriormente, em 1962, foram verificadas surgências na ombreira esquerda e, para controlar a saída da água, a Cemig construiu drenos de brita superficiais no pé de jusante da barragem (Figura 6.4 - B).
Em abril de 1971, pequenas surgências e áreas empoçadas apareceram novamente junto ao pé da barragem, na região da ombreira esquerda. Estas surgências foram monitoradas visualmente e através da instrumentação instalada durante oito anos. Em 1979, a Cemig projetou e executou uma trincheira drenante (Figura 6.4 – C) para rebaixar o nível freático na região, objetivando solucionar definitivamente o problema. Esta trincheira drenante consistia de um dreno de areia envolvendo uma manilha de concreto poroso.
B C
A
Figura 6.4 – Obras executadas visando o controle das percolações da barragem de Piau
Nesta ocasião, a barragem foi reinstrumentada, sendo instalados medidores de nível d’água e um medidor de vazão para permitir o acompanhamento mais efetivo da região das surgências e do funcionamento da trincheira drenante construída.
Com a execução da trincheira drenante no pé da barragem, não foram detectadas anomalias até 1997, quando foi observada uma elevação do nível freático no pé da barragem, bem como a redução do volume de água percolada através do sistema de drenagem construído no pé da barragem. Entretanto, não foram observados quaisquer indícios visuais de surgências, abatimentos, áreas mais verdes no gramado, etc que
implementadas novas análises de percolação e estabilidade da barragem e estabelecidos valores de controle determinísticos para as leituras da instrumentação, para que a equipe de segurança de barragens pudesse ser alertada caso houvesse novas mudanças no comportamento das medidas de pressão e vazões de percolação.
As Figuras 6.5 a 6.8 apresentam as seções instrumentadas da barragem de Piau, mostrando as respectivas relações e distribuições dos instrumentos em funcionamento atualmente.
Instrumento Tipo Cota de
Instalação Localização
Periodicidade da leitura Estaca 0+ 13m
PIBTMN002 Medidor de nível d’água 622,963 Aterro Quinzenal Estaca 1+ 00m
PIBTMN001 621,841 Quinzenal
PIBTMN003 623,332 Aterro Quinzenal
PIBTMN025
Medidor de nível d’água
617,298 Filtro/Fundação Quinzenal
PIBTPC023 619,028 Contato aterro/fundação Quinzenal
PIBTPC024 Piezômetro Casagrande 615,532 Fundação Quinzenal
Estaca 1+ 10m
PIBTMN005 Medidor de nível d’água 621,83 Quinzenal
PIBTPC018 Piezômetro Casagrande 620,70 Aterro Quinzenal
PIBTVV001 Medidor de Vazão Pé da barragem Quinzenal
Figura 6.6– Seção instrumentada no leito do rio – Estaca 2 + 00
Instrumento Tipo Cota de
Instalação Localização
Periodicidade da Leitura PIBTPC008 Piezômetro Casagrande 624,246 Aterro Quinzenal PIBTPC019 Piezômetro Casagrande 619,175 Aterro Quinzenal PIBTMN026 Medidor de nível d’água 617,075 Contato aterro / fundação Quinzenal
Instrumento Tipo Cota de
Instalação Localização Periodicidade
PIBTMN006 625,305 PIBTMN009 637,7 PIBTMN010 631,9 PIBTMN011
Medidor de nível d’água
626,8 Aterro Quinzenal PIBTPC009 615,232 PIBTPC010 615,632 PIBTPC011 615,089 PIBTPC012 615,439 Fundação Quinzenal
PIBTPC016 619,705 Filtro Quinzenal
PIBTPC017 616,454 Contato aterro/fundação Quinzenal
PIBTPC020 618,616 Aterro
PIBTPC022
Piezômetro Casagrande
Instrumento Tipo Cota de
Instalação Localização
Periodicidade da Leitura Estaca 4+00m
PIBTMN007 Medidor de nível d’água 615,977 Contato aterro / fundação Quinzenal PIBTPC013 Piezômetro Casagrande 616,527 Contato aterro / fundação Quinzenal Estaca 4+15,00m
PIBTPC025 Piezômetro Casagrande 613,54 Fundação Quinzenal PIBTPC026 Piezômetro Casagrande 615,91 Fundação Quinzenal PIBTPC027 Piezômetro Casagrande 617,10 Fundação Quinzenal
Figura 6.8 - Seção instrumentada na ombreira direita
6.2 – Previsão de medidas da instrumentação por modelo determinístico
Como descrito anteriormente, apesar de não existirem evidências visuais de problemas na barragem, a análise da instrumentação mostrou a existência de níveis de água elevados a jusante do filtro vertical, o que poderia estar associado a uma redução da capacidade de vazão do sistema de drenagem interno ou ao aumento da permeabilidade do solo de fundação.
Em função de potenciais problemas relativos ao comportamento da barragem, concluiu- se pela necessidade de verificação da estabilidade do maciço e do estabelecimento de valores de controle determinísticos para as medidas de cada um dos instrumentos instalados, visando um acompanhamento contínuo dos dados. A idéia era que, cada vez que uma nova leitura fosse inserida no banco de dados, fosse emitido um alerta
automático para as equipes de segurança de barragens caso os limites pré-estabelecidos fossem atingidos.
Como as informações disponíveis sobre os materiais de construção eram insuficientes para a condução dos estudos propostos, foram executadas sondagens à percussão no maciço, com ensaio de SPT e instalação de piezômetros nos furos realizados. Foram coletados blocos indeformados em dois poços no aterro e executados ensaios de caracterização e triaxiais.
Os parâmetros de resistência representativos do maciço obtidos pelos ensaios e utilizados na análise de percolação e estabilidade são apresentados na Tabela 6.1. Os coeficientes de permeabilidade dos materiais de fundação e do aterro foram estimados com base na experiência com materiais de características semelhantes e ajustados de forma a se obter os níveis d’água medidos pela instrumentação, tendo sido utilizados os seguintes valores (Dam Projetos, 2000):
• aterro kh = 9 kV = 2,25 x 10-8 m/s; • filtro vertical kh = kV = 3,0 x 10-6 m/s; • saprolito de gnaisse kh = kV = 1,0 x 10-6 m/s; • gnaisse kh = kV = 3,0 x 10-7 m/s.
Tabela 6.1 – Parâmetros utilizados no modelo numérico desenvolvido pela DAM Projetos (2000).
parâmetros de resistência material γsat (kN/m3) γ (kN/m3) c’ (kN/m2) φ’ (º) c (kN/m2) φ (º) Aterro saturado 19,1 35 35,1 132,7 13,2
Aterro não saturado 19,2 56,0 28,7 76,5 23,8
As análises foram executadas utilizando os softwares SIGMA/W, SLOPE/W e SEEP/W versão 5.0, desenvolvidos pela GeoSlope International Ltd. A barragem do Piau está instrumentada com vinte piezômetros tipo Casagrande, onze medidores de nível d’água e um vertedor medidor de vazão, e os dados destes instrumentos foram utilizados na calibração do modelo matemático. As análises concluíram que a barragem estava segura para os níveis piezométricos medidos pela instrumentação, com um fator de segurança mínimo de 1,745 para a seção de maior altura (Figura 6.9).
Figura 6.9 – Análise de estabilidade para a seção de maior altura da barragem (DAM Projetos, 2000)
Os valores limites para as medidas da instrumentação, representativos das condições de alerta e emergência, foram também estabelecidos utilizando o programa GeoSlope, elevando-se gradualmente o nível da linha freática de forma que o fator de segurança ia sendo reduzido. Os valores limites fixados foram aqueles obtidos através das redes de percolação que conduziam a coeficientes de segurança de 1,35 (nível de atenção) e 1,15 (nível de emergência), como apresentado na Tabela 6.2. O ajuste obtido foi muito satisfatório e estas faixas denominadas de normalidade, alerta e emergência passaram a ser utilizadas no monitoramento da barragem.
Tabela 6.2 – Faixas de normalidade dos instrumentos (DAM Projetos, 2000).
Seção Instrumento Nível de alerta
(mca) Nível de Emergência (mca) PIBTMN 002 624,5 626,0 Estaca 0+13,00 PIBTMN 004 629,0 630,0 PIBTPC 023 622,0 623,0 PIBTPC 024 621,5 622,0 PIBTMN 001 622,5 623,0 PIBTMN 003 624,5 626,0 Estaca 1+00 PIBTMN 025 619,5 620,5 PIBTPC 018 624,0 626,0 PIBTMN 005 624,0 626,0 Estaca 1+10,00 PIBTMN 026 619,5 620,5 PIBTPC 008 626,5 627,0 Estaca 2+00 PIBTPC 019 624,0 626,0 PIBTPC 009 616,5 617,0 PIBTPC 010 617,0 617,5 PIBTPC 011 617,0 617,5 PIBTPC 012 617,0 617,5 PIBTPC 016 624,5 627,5 PIBTPC 017 621,5 622,0 PIBTPC 020 624,0 626,0 PIBTPC 021 627,0 629,0 PIBTPC 022 629,0 631,0 Estaca 3+00 PIBTMN 006 629,5 630,0 PIBTPC 013 619,0 620,5 Estaca 4+00 PIBTMN 007 620,0 621,5 PIBTPC 014 619,5 621,0 Estaca 4+10,00 PIBTPC 015 620,5 622,0
Entretanto, o processo de elevação do nível freático no maciço, nas regiões próximas à ombreira esquerda, continuou agravando-se lentamente e, em fevereiro de 2002, foi observada a presença de uma grande área úmida no pé da barragem (Figura 6.10). Os níveis de água indicados pelos instrumentos instalados no interior do dreno do pé da barragem chegaram a subir 2,5m nos medidores de nível d’água PIBTMN025 e 026. O piezômetro mais afetado, o PIBTPC024, chegou a indicar um aumento de pressão igual a 1,2 mca (Figura 6.11).
Área úmida
Figura 6.10 – Localização da área úmida na região do pé da barragem
Figura 6.11 – Gráfico de alguns instrumentos instalados na área em questão com os respectivos limites de atenção e alerta determinísticos.
Através das medidas dos instrumentos instalados na região e de informações locais sobre a região umedecida, concluiu-se que a drenagem do pé da barragem estava colmatada. Como o nível d’água elevou-se significativamente em todos os piezômetros e medidores de nível d’água da região imediatamente a jusante da barragem na ombreira esquerda, e o coeficiente de segurança já estaria abaixo do desejável, decidiu-se pela imediata desobstrução da trincheira drenante construída no pé da barragem (zona C da Figura 6.4). Isto foi feito introduzindo uma sonda do tipo roto-roother através da tubulação coletora da drenagem (Figura 6.12).
Figura 6.12 – Procedimentos para a desobstrução da trincheira drenante e detalhe do material causador da colmatação
Imediatamente após a desobstrução, as medidas dos instrumentos instalados no interior do dreno voltaram aos valores normais, anteriores a janeiro de 1997. Os piezômetros mais próximos também tiveram seus níveis piezométricos reduzidos.
Através da sonda roto roother, foi possível inferir o local do entupimento. Abriu-se um poço onde se verificou que a tubulação havia sido obstruída por um material escuro e gelatinoso, o qual também afetou a resistência do concreto, a ponto de se poder cortá-lo com faca sem grande esforço.
acordo com a Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (AWWA-APHA-WEF, 1998). Os resultados das análises concluíram que a saída do sistema de drenagem havia sido colmatada por ferro-bactérias (Gallionella ssp e
Leptothrix ssp), sulfo-bactérias (Thiothrix ssp) e mangano-bactérias (espécies não
identificadas) (Carim et al., 2004).
A partir deste incidente, pode-se verificar que, embora os limites determinísticos da instrumentação tenham sido determinados conseguindo-se um bom ajuste com as leituras de campo, estes se mostraram ineficientes na detecção automática do problema ocorrido. Apesar do crescente aumento dos níveis d’água e dos níveis piezométricos na região adjacente à ombreira esquerda, os alertas foram dados tardiamente, comprovando as limitações citadas anteriormente neste trabalho. Neste contexto, constatou-se que até mesmo um limite estabelecido pelo valor máximo já registrado pelas leituras teria sido mais eficiente para a definição de um alerta automático de anormalidades nas leituras.
6.3 - Previsão de leituras para a instrumentação por métodos estatísticos
Como descrito no item anterior, apesar dos modelos determinísticos terem possibilitado o estabelecimento, com a precisão desejada, de valores esperados para as poropressões e níveis d’água para a barragem de Piau, verificou-se a necessidade da implementação de uma abordagem por limites estatísticos, levando-se em consideração o histórico das medidas e sua evolução ao longo do tempo.
6.3.1 Previsões de pressões e níveis d’água no maciço e fundações utilizando métodos de regressão
A preparação dos dados foi feita de forma similar às análises pelo método de correlação aplicado às leituras dos instrumentos da barragem de Emborcação. Entretanto, as variações no nível do reservatório de Piau são pequenas (Figura 6.13), principalmente em comparação às ocorridas no reservatório da barragem de Emborcação, como se constata pelos valores do desvio padrão da cota montante em ambos os reservatórios (Tabela 6.3). A oscilação máxima anual em Piau é de 3,84 metros, quando excluídas as
vezes que foi necessário o deplecionamento do reservatório para reparos na barragem (construção dos drenos citados anteriormente) e reparos na tulipa.
Figura 6.13 – Variação do nível do reservatório da Barragem de Piau com o tempo
Tabela 6.3 – Comparação entre as variações do nível d’água dos reservatórios de Emborcação e Piau
Barragem Média Desvio
padrão Variância Mínimo Máximo
Coeficiente de variação Emborcação 650,16 9,4771855 89,817044 621,76 660,82 1,45766% Piau 634,94 1,8892418 3,5692345 623,58 636,899 0,29754% Piau - excluindo valores extremos 635,27 0,5007930 0,2507936 633,05 636,899 0,07883%
Provavelmente devido a esse fato não foi verificada nenhuma correlação significativa do nível de água a montante ou jusante com as leituras dos instrumentos. Os coeficientes de correlação obtidos variaram entre 0,05 e 0,65, o que inviabilizou a utilização da técnica de regressão linear aos dados da instrumentação desta usina.
Quanto ao método de séries temporais, optou-se por não empregar esta metodologia na previsão de pressões para a barragem de Piau. As estimativas por séries temporais
valores seguintes da série prevista eram adequados. Desta forma, a programação computacional para a previsão de valores futuros de determinado parâmetro medido utilizando esta metodologia tornar-se-ia bastante complexa: a cada nova leitura, este valor teria que ser validado, passar a compor a série temporal de referência e, finalmente, a previsão da próxima leitura poderia ser atualizada. Desta forma, para possibilitar alertas automáticos em caso de desvios nas medidas haveria a necessidade de se fazer a integração do banco de dados da instrumentação com um software estatístico.
6.3.2 - Previsão de pressões e níveis d’água no maciço e fundações utilizando funções senoidais
A análise visual do gráfico das medidas dos instrumentos versus tempo mostrou que alguns deles, notadamente os piezômetros PIBTPC008, 012, 016, 017, 018, 020, 022 e 023 e os medidores de nível d’água PIBTMN005, 006, 007, 009, 010 e 011, apresentam uma certa sazonalidade dos dados associados a um padrão de desvios senoidais. Como não há uma sazonalidade na variação do nível d’água do reservatório, passível de correlação com as variações nas cotas piezométricas e níveis d’água medidos no maciço, conclui-se que, para estes instrumentos, tende a existir uma influência direta da precipitação, com os valores das leituras aumentando nos períodos chuvosos e decrescendo nos demais meses do ano.
Para verificar esta hipótese, traçou-se o gráfico de medidas versus meses do ano para estes instrumentos, obtendo-se um comportamento típico como o exemplificado para o medidor de nível d’água PIBTMN006, apresentado na Figura 6.14, que indica que os níveis d’água elevam-se substancialmente nos meses de novembro a abril (período chuvoso).
624,50 625,00 625,50 626,00 626,50 627,00 627,50 628,00 628,50 629,00 629,50 630,00 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Meses N ível d' ág ua
Figura 6.14 – Distribuição anual das medidas de nível d’água do medidor PIBTMN006
Desta forma, como a série temporal mostrava-se sazonal, testou-se a função senoidal aos registros, como uma alternativa para explicar a distribuição dos dados no tempo. O período utilizado foi de 12 meses, com início no primeiro mês que mostrasse a elevação das medidas de nível d’água. Para o medidor PIBTMN006, este mês inicial foi novembro e a equação que melhor se ajustou foi expressa por:
Lt = 1,8 senφ + 0,55 (6.1)
Para uma melhor visualização gráfica das leituras, foi plotada a série Zt = Zt – µ , onde Zt é a medida do instrumento no tempo t e µ é média da série, tomada como eixo de referência das abscissas (Figura 6.15).
-2,50 -2,00 -1,50 -1,00 -0,50 0,00 0,50 1,00 1,50 2,00 2,50 3,00 1 10 19 28 37 46 55 64 73 82 91 100 109 118 127 136 145 154 163 172 181 190 199 208 217 226 235 244 253 262 271 280 289 298 307 316 Tempo Cota Piezométrica (mca)
Acredita-se que possa ser possível refinar este estudo e pesquisar equações senoidais ou outras cíclicas que permitam um bom ajuste aos valores das medidas. No entanto, como este será um estudo matemático e não haverá correlações entre ‘grandezas-causa’ e ‘grandezas-efeito’, esta solução não será detalhada nesta dissertação.
6.3.3 - Previsão de pressões e níveis d’água no maciço e fundações utilizando máximos e mínimos em intervalos pré-fixados
O emprego deste método mostrou-se muito interessante, tendo em vista que a distribuição dos dados tem uma forte influência sazonal, mas sem correlação com o nível d’água do reservatório. Para a análise estatística dos dados, foi analisado o gráfico temporal de cada instrumento, de 1978 a 2007, para identificar o período a partir do qual tenderia a existir um padrão mais estável da variação das leituras.
Assim, para os medidores de nível d’água PIBTMN002, 007 e 005 e os piezômetros tipo Casagrande PIBTPC019, 010, 012, 018 e 023, foi considerada a série a partir de 1988, quando ocorre esta padronização. Para o medidor PIBTMN006 e os piezômetros PIBTPC008, 011, 016, 017, 020 e 022, foi considerada a série a partir de 1993. Os valores do PIPBTPC013 e o PIBTMN003 foram tomados a partir de 1998; para o PIPBTPC009 a partir de 2000 e para o PIBTMN001, a partir de 2003. Como os medidores de nível d’água PIBTMN009, 010 e 011 constituem instrumentos recentes, instalados em outubro/2001, toda a série dos dados foi adotada nas análises. Quanto aos instrumentos que registraram a colmatação do dreno em 1997, PIBTMN026 e 025 e PIBTPC024, foram utilizadas apenas as medidas após a desobstrução, ou seja, a partir de 2002.
Considerando, pois, os dados selecionados, procedeu-se às respectivas análises por meio do Programa SAS, incluindo o traçado do boxplot com os percentis 5 e 95 (traço inferior e superior, respectivamente, plotados para cada mês do ano), caixa contendo 50% dos dados e indicativo da mediana, além dos pontos assinalados com “●” indicando os outliers (pontos discrepantes acima ou abaixo dos percentis especificados). A Figura 6.16 e a Tabela 6.4 apresentam os resultados obtidos para o PIBTMN006.
Figura 6.16 – Boxplot para as cotas de nível d’água do PIBTMN006
Tabela 6.4 – Análise descritiva das cotas de nível d’água do PIBTMN006
Análise Descritiva PIBTMN006
Mês N Média Desvio
Padrão Mínimo Máximo
Percentil 5 Quartil inferior Quartil superior Percentil 95 1 34 628,760 0,554 626,981 629,461 627,651 628,419 629,131 629,459 2 28 628,303 0,735 626,841 629,339 627,061 627,641 628,699 629,291 3 32 628,336 0,796 626,741 629,361 626,761 627,656 628,955 629,311 4 27 627,855 0,798 626,781 629,461 626,791 627,181 628,559 629,299 5 32 627,022 0,519 626,461 628,571 626,481 626,646 627,216 628,411 6 28 626,494 0,348 625,621 627,439 625,869 626,306 626,735 626,961 7 32 626,255 0,235 625,691 626,699 625,871 626,106 626,436 626,629 8 27 626,058 0,232 625,471 626,539 625,711 625,951 626,171 626,499 9 32 625,844 0,271 625,371 626,389 625,381 625,601 625,999 626,299 10 30 625,830 0,296 625,291 626,451 625,301 625,511 626,029 626,239 11 32 627,002 1,384 625,211 629,571 625,231 625,946 628,330 629,359 12 30 628,679 0,882 625,641 629,591 625,981 628,591 629,209 629,541
Os valores previstos para as medidas serão, então, considerados como aqueles incluídos na faixa dada pelos percentis 5 e 95. Estes percentis foram adotados com o objetivo de excluir as leituras mais discrepantes, para as quais seria interessante alertar as equipes de análise dos dados. Desta forma, seriam consideradas ‘normais’ as medidas inseridas numa faixa de valores que abrange 90% dos dados históricos registrados dentro do período de leituras selecionado para cada instrumento e considerado representativo de um comportamento satisfatório da barragem.
6.4 – Estabelecimento de valores de controle para a instrumentação
Para o estabelecimento dos valores de controle para a piezometria da Barragem de Piau, serão aplicadas as previsões obtidas pelo método dos máximos e mínimos em intervalos pré-fixados, tendo em vista que, neste caso, foi este método dentre os pesquisados o que melhor conseguiu representar os valores da série de leituras.
Os valores de controle são aqui definidos de forma similar ao descrito para a barragem de Emborcação. Entretanto, como existem níveis de alerta e de emergência obtidos através de métodos determinísticos bastante ajustados aos valores medidos em campo pela piezometria, estes serão incorporados ao modelo. Os limites de projeto continuarão sendo os valores estabelecidos pela projetista que representam os valores aceitáveis para as pressões e níveis d’água para o coeficiente de segurança de projeto, considerando, no caso em estudo, aqueles previstos no modelo determinístico para os níveis de alerta e de emergência.
Assim, as faixas de comportamento foram estabelecidas a partir do gráfico de limites mensais definidos no item anterior, como mostrado na Figura 6.17.
4,50 5,00 5,50 6,00 6,50 7,00 7,50 8,00 8,50 9,00 9,50 0,00 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 1 Meses 2 N ív el d ’á g u a o u C o ta Pie zo m ét ri ca Zona de Inconsistência Zona de Inconsistência Zona de Consistência
Zona de Atenção de Projeto LIMITE DE PROJETO- Nível de alerta LIMITE DE PROJETO- Nível de emergência Zona de Alerta de Projeto
Conclui-se que, apesar do estudo estatístico dos dados de nível d’água e piezometria da Barragem de Piau ter utilizado ferramentas bem mais simples que o de Emborcação, o