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3. MARC CONCEPTUAL

3.3. L’assetjament escolar com a tipus de violència

3.3.3. Causes de l’assetjament escolar

Após verificar a existência de algumas possíveis pontes, ‗passagens‘, entre o que chamamos de religião popular e o pentecostalismo e, que essas mediações teriam como seu veículo condutor uma memória social. Ainda que já se tenha feito algumas considerações sobre o conceito de memória em jogo dentro desta argumentação, cabe aqui, explicitar melhor uma concepção sobre o tema. Uma vez que, a memória lato sensu, tem lugar como objecto de estudo nas searas mais variadas, que vão desde a Biologia, passando pela Psicanálise, Filosofia, até a História e a Sociologia.

Embora não seja um campo novo, a memória, principalmente em sua face social, vem ganhando grande relevo dentro das Ciências Humanas e Sociais. Para muitos estudiosos (Nora, 1993134, Le Goff, 1990135, Santos 1998136, D‘Allessio, 1998137, entre outros) esse facto decorreria de um momento histórico de crise das ideologias, aceleração do tempo e compressão dos espaços, em grande parte, responsáveis pelo que Huyssen (2000)138 chama de ‗sedução da memória‘.

O processo que vem sendo chamando de ‗pós-modernidade‘ tem aguçado o interesse pela guarda e preservação de elementos do passado, sejam eles de ordem material ou cultural. Parece que essa sociedade ‗cibernetizada‘, preconizada por Lyotard (1986)139, trocou a idéia de um futuro conciliador pela idéia de um presente imediato e eficaz. Instaurando uma concepção de tempo que não se liga ao passado, e nem volta seus olhos ao futuro, alimentando-se apenas do imediato.

A angústia de viver nesse „eterno presente‟ faz com que o homem procure um elo, que o religue a um passado (real ou mítico), que dê a sensação de

133 Bauman, Zigmund. (1999) Globalização e conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

134

Nora, Pirre. (1993) Entre memória e história: a problemática dos lugares. História e Cultura. Projeto História. (10). p. 7-28.

135

Le Goff, J. (1990).História e memória. Campinas: Unicamp; e (1984). Memória In: Enciclopédia Einaudi. volume 1. Memória - História. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 11-50.

136

Santos, Myrian S. dos. (1998) Sobre a autonomia das novas identidades coletivas: alguns problemas teóricos. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo: Anpocs.38. 70-85

137

D‘Alessio, Márcia. M. (1998). Memória: leituras de M. Halbwachs e P. Nora. In: Revista Brasileira de História. Memória, História, Historiografia. vol 25/26. ANPUH.

138

Huyssen, Andreas (2000). Seduzidos pela Memória: arquitetura, monumentos, mídia. Tradução de Sergio Alcides. 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Aeroplano.

139

191 perenidade à sua identidade. Nesse aspecto, seria esse o principal papel da memória, preencher de sentido as identidades dos grupos. Porém, antes de chegarmos à concepção atual de memória que temos, este conceito percorreu um longo caminho.

Desde seus primórdios a memória está associada a um processo de religar o homem a um tempo verdadeiro. Para Platão (1999)140, lembrar significava recordar as vidas passadas, para alcançar a planície de alêtheia, o que conduziria o homem à verdade, latente no mundo das idéias. Nesta perspectiva a memória seria algo imutável, essencial ao ser e não uma construção social.

De Platão a Henry Bergson, a essência da memória, continua sendo basicamente individual. Bergson (1999)141, em obra escrita no final do século XIX, vai construir seu argumento sobre a distinção entre memória hábito e memória pura, esta que se conservaria no espírito. A memória pura seria simplesmente a intuição individual de um passado limitado a consciência.

Mais uma vez, as condições sociais da época, marcada por intensas mobilizações de massa, deram o tom e, Maurice Halbwachs, insurge-se contra a teoria do mestre Bergson. Para Halbwachs (1990)142, a memória é um trabalho colectivo, mais que individual, ela é social. Aqui, Halbwachs (Ibid) distancia-se de Bergson, aproximando- se da escola durkheimiana.

Para Halbwachs (1994), a memória particular se situa no ponto de encontro entre várias memórias coletivas, pois os sujeitos pertencem sempre a múltiplos grupos. Sendo a memória do individuo um ponto de vista sobre a memória do grupo, que muda segundo o lugar status que aquele ocupa dentro do grupo. Neste ponto, Halbwachs ainda estará pensando em um grupo concreto, realmente existente (Rivera, 2000). Porém, caminhará de uma memória colectiva, entendida como memória de grupos concretos, rumo a uma concepção de ideologias, que atravessam a sociedade e a cultura (Namer, 1984. Apud: Rivera, 2000).

Os quadros sociais da memória, família, partido, igreja, são memórias particulares, que possibilitam ao individuo inserir-se simbolicamente em uma facção

140

Platão.(1999). Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural. 141

Bergson, Henri. (1999) Matéria e Memória – ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes.

142

Halbwachs, Maurice. (1990). A memória coletiva. São Paulo: Vértice ; e (1994). Les Cadres sociaux de la mémoire. Paris: Albin Michel.

192 tomada como uma totalidade. Poderíamos então pensar os grandes modelos identitários, como: nação e classe, não como unificados, mas como constituindo um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade (Hall, 2001)143. ‗No entanto, como nas fantasias do ‗eu‘ inteiro de que fala a psicanálise lacaniana, as identidades continuam a ser representadas como unificadas, [até que determinados processos rompam essa representação]‘ (Ibid: 62. Acréscimos nossos). Então, por exemplo, um pentecostal pertence a IPDA, mas também é imigrante, brasileiro/cigano/angolano, trabalhador, homem/mulher,indocumentado/documentado, morador em um apartamento colectivo.

Outro ponto que nos interessa na argumentação Halbwachs é o seu conceito de corrente de pensamento, que está bem expresso na metáfora do Solitário em Londres (1990). Segundo o autor, em sua visita à Londres, mesmo caminhando só, surgiam-lhe lembranças de impressões de outras pessoas, ao olhar uma construção lembrava do que lhe tinha dito um arquiteto, ou um historiador. Essas lembranças se misturavam a sua percepção do presente. Desse modo ele abandona o conceito de memória coletiva, como expressão de grupos reais e passa a trabalhar com a memória enquanto construção sócio-cultural. Ainda, Halbwachs, ao comparar os sons da orquestra (sociedade) com do mundo natural, demonstra como a temporalidade e o ritmo, são dados socialmente pelo grupo. Então, pode-se inferir que os indivíduos preservam, mesmo depois da dissolução dos grupos a que pertenciam, construções simbólicas forjadas dentro destes, mesmo que resignificadas ou retrabalhadas no presente.

No entanto, nas ‗sociedades complexas‘ vemos os indivíduos cada vez inseridos em mais grupos, que por sua vez são subdivididos em grupos menores. Essa pluralidade de memórias, que já estava presente nas sociedades ‗tradicionais‘, é elevada ao extremo. A pulverização da memória faz com que os indivíduos transitem entre identidades cada vez menos coerentes entre si, nas quais, sua pertença passa de orgânica a funcional, cada vez mais técnica e atomizada (Rivera, 2000, p. 79). Este fenômeno concorre para o que Canclini (1997)144, chama de culturas híbridas.

O pentecostalismo, talvez por ter sido gestado no seio da sociedade contemporânea, tem maior facilidade a se adaptar a esses quadros sociais da memória.

143

Hall, Stuart (2001) A identidade cultural na Pós-modernidade. 6ª ed. Rio de Janeiro: PD&A Editora. 144

Canclini, Nestor Garcia. (1997). Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Ed UFRJ

193 Somado a isso, como já foi ressaltado, temos a questão do livre sacerdócio, o que, de certa forma, ameniza a burocratização do pentecostalismo, dando-lhe uma dinâmica de adaptação ao local.

Se pensarmos em Weber (1974)145, para quem a anunciação e promessa da religião dirigiam-se, naturalmente, às massas que necessitavam de salvação, elas e os seus interesses, passaram ao centro da organização religiosa profissional para a ‗cura da alma‘ que, ali se originou. Mágicos e sacerdotes passavam a ter como atribuição a determinação dos factores a serem responsabilizados pelo sofrimento, ou seja, o pecado e a necessária confissão dos pecados. Com freqüência a geração seguinte reinterpreta as anunciações e promessas de modo fundamental, porém, ajustando as revelações às necessidades da comunidade religiosa. ‗Quando isso acontece então é comum que as doutrinas religiosas se ajustem às necessidades religiosas (...)‘ (Ibid, p. 385). Para Weber, outro condicionante, seria a inadequação da mensagem religiosa de salvação aos anseios das massas as quais eram dirigidas. Nesse ambiente surgiria uma nova religião de salvação, voltada para a solução dos problemas mais imediatos dos indivíduos.

Entretanto, apesar das inúmeras contribuições para o estudo da memória, o quadro teórico traçado por Halbwachs, se tomado na íntegra, gera algumas limitações a nosso estudo. Segundo Santos (1993)146:

...ao analisar os quadros sociais da memória como noções lógicas, mas também como imagens concretas de acontecimentos e personagens , localizadas no tempo e no espaço, ele [Halbwachs] pensou ser possível derivar integralmente o pensamento individual da análise do colectivo. (...) ‗as memórias colectivas‘, não representam a soma de lembranças individuais e tem certa autonomia em relação à intenção de cada indivíduo, ele concluiu que elas representam não só as bases necessárias para que os indivíduos recordassem do passado, mas as próprias lembranças dos indivíduos. Apesar de compreender que um processo de ‗individualização‘ ocorre socialmente, ele o explicou como resultado do acaso... (Santos, 1993, p.76)

Repetindo a tese durkheimiana, em que o social é explicado pelo social, Halbwachs (1990) permite que compreendamos os processos de manutenção das ‗memórias coletivas‘ no presente, ‗mas é incapaz de explicar, por exemplo, o porquê de elas serem criadas de forma diferenciada. Ao derivar integralmente os indivíduos dos quadros sociais ele perde a oportunidade de explicar diversidade e movimento‘ (Santos,

145 Weber, Max. 1974. Ensaios de Sociologia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

146 Santos, Myrian S. dos. (1993). O pesadelo da amnésia coletiva: um estudo sobre os conceitos de

memória, tradição e traços do passado. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo: Anpocs. 23. 70-85.

194 1993, p.76). Assim, Halbwachs (1990) elimina, segundo Santos (Ibid), a possibilidade de participação dos actores na formação e conformação das memórias sociais.

Halbwachs (1990) ressalta que o passado não é só construído através de convenções sociais, mas que é reconstruído continuamente, negando qualquer influência do passado sobre o presente. Na sua concepção, a memória pressupõe sempre uma atividade construtiva e racional do no presente, em que aspectos destoantes do passado são ajustados e rememorados através de convenções sociais e coletivas, refazendo continuamente o passado de acordo com as pressões e interesses do presente (Santos, 1993).

Tendo em vista o exposto, não pensamos as memórias sociais autonomamente em relação aos indivíduos, mas sim como uma construção, ou seja, um processo de re- significação cultural realizado através de símbolos, em que o ‗interlocutor‘ que rememora só reconhece como reais objetos acessíveis a sua compreensão (Ibid). A memória social, dessa forma, não é vista como uma mera mantenedora de laços sociais estáveis, mas como processo criador intimamente ligado às condições de existência e às experiências do passado, no que acompanhamos o raciocínio de Santos (1993). Tendo em vista o exposto, Santos (Ibid) considera que as lembranças do passado são reconstruídas no presente, tanto como influências de estruturas colectivas simbólicas anteriores ao ‗interlocutor‘ que lembra, como experiências que se modificam ao longo do tempo e em situações específicas.

Assim, vemos a memória social como um produto do interlocutor, que, no entanto, retroage continuamente sobre seu produtor. Como diria Berger (1985), a sociedade é um produto do homem, não podendo haver realidade social sem este. Porém, tanto em Berger (1985), quanto em Santos (1993), as estruturas sociais precedem a existência do indivíduo e continuarão a existir após sua morte.

Desta forma, se Birman (1996) fala de uma apropriação selectiva da cultura, aqui falaremos de uma apropriação selectiva das memórias de outros grupos pelo pentecostalismo. Passamos assim, a uma noção de ‗memória negociada‘, entre membros e a instituição religiosa.