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Neste capítulo, procuro traçar alguns elementos que percebi como importantes para se compreender a forma atual em que se encontra a educação escolar indígena na aldeia de Monguba. Para isto evidenciarei situações que fazem parte da educação escolar indígena e que contribuem para a formação da identidade através da escola Itá-Ara. Entre os elementos que compõem este mosaico mostrarei as relações existentes entre os profissionais indígenas da Itá-Ara, abordando as ligações de aproximação e de distanciamento que tangem as escolhas metodológicas destes sobre a educação indígena. Se considerará os conflitos que surgiram nos limites do território Pitaguary, que os mobiliza na luta pelos seus direitos. Será dada importância também à maneira como ocorre o desenvolvimento da identidade cultural Pitaguary na sala de aula, evidenciando as características étnicas utilizadas por preceptores indígenas para o ensino da sua cultura. Abordarei como a educação escolar indígena utiliza-se de eventos importantes da etnia que ocorrem fora da escola e de visitas às lideranças do local como forma de desenvolver sua afirmação étnica.

3.1 A localização da aldeia e os limites do seu território

Acho pertinente fazer uma descrição simplificada dos limites geográfico da terra indígena (TI) dos Pitaguary, exclusivamente da parte situada no município de Pacatuba, pois percebo que os seus contornos espaciais demonstram os conflitos que esse povo enfrenta cotidianamente. Essas agitações belicosas entre os índios e os não índios mobilizam os Pitaguary a demonstrarem sua afirmação étnica ao convocar para suas movimentações seus membros, inclusive os professores da escola.

Partindo de Fortaleza em direção à aldeia de Monguba, seguiríamos o seguinte trajeto: sairíamos da capital em rota pela Rodovia Estadual CE-060, no sentido litoral-sertão. No anel viário de interseção desta CE com a Avenida Quarto Anel Viário, estaríamos no município de Maracanaú e próximo ao Centro de Abastecimento do Ceará (CEASA); deste local, já seria possível ver, ao longe, a Serra de Monguba, que pertence ao maciço da serra de Aratanha, pertencente ao município de Pacatuba. Estaríamos a exatamente dez quilômetros da escola Itá-Ara.

O CEASA prenuncia o início do polo industrial de Maracanaú. Após transpassar o setor das indústrias, termina a área urbana deste município. A partir daí, começam a rarear as

residências; estaríamos, então, numa área mais rural e veríamos nitidamente a serra de Monguba. Apenas mais duas grandes indústrias surgem antes de chegarmos a esta serra, mas mesmo a essa distância, seria possível avistarmos a degradação da sua lateral norte, feita por uma pedreira que explora há dez anos esta parte da Monguba. Essa pedreira funciona na bem próxima à fronteira da TI.

Chegando a Monguba, mais precisamente à escola indígena Itá-Ara, estaríamos bem às margens da TI Pitaguary. Teríamos a visão quase que completa do lado leste da montanha da Monguba. Ao nos dirigirmos à serra, avistaríamos em seu sopé dois antigos empreendimentos comerciais de extração de pedras, desativadas; este local é também vizinho ao bairro chamado de “Provisória”, que está às margens da TI. A pedreira mais próxima às terras Pitaguary é considerada como pertencente a esta etnia, pois fica às margens do seu território59. Mesmo estando em questão e nos perímetros da TI Pitaguary, este empreendimento comercial desativado foi fonte de conflito entre os índios e um empresário, que, pretendendo reativá-la, reivindicava o uso comercial do local. Este seria o ponto de encontro entre os limites leste e norte da aldeia.

Caminhando para as pedreiras, deparamo-nos com a estrada férrea que liga Fortaleza à cidade de Baturité (hoje em dia desativada) e que coincide com o marco oficial da delimitação da TI. Paralelo a essa ferrovia, há uma estrada de calçamento, que mais à frente torna-se de terra. As casas que estão dentro do território indígena e as que estão fora, ou seja, em sua margem, fazem parte de um mesmo contínuo de residências, praticamente idênticas e sem nenhuma diferenciação com as casas que são ocupadas pelos não índios.

Seguindo por esse caminho lateral à passagem dos trens e nos conduzindo ao sentido sul chegaríamos a um bambuzal. Nesse ponto, estamos no limite sul do território, que faz fronteira com um empreendimento comercial, chamado pelos índios de Granja do Dr. Miguel. Esse ponto é outro local de conflito para os Pitaguary. Segundo os professores da Itá- Ara o primeiro proprietário da granja, denominado como Dr. Miguel, relutou, mas aceitou a etnia, mas os seus filhos, atuais proprietários do negócio, foram reconhecidos por propiciar episódios de ação hostil, principalmente por parte de funcionários “capangas”, contra os Pitaguary, inclusive tendo sido ameaçados com armas brancas. De acordo com a professora V, filha de uma liderança local, ameaças a sua mãe foram perpetradas pelos donos da granja:

59 Esta pedreira está em um processo de regularização para o seu funcionamento. A ocupação da pedreira pelos Pitaguary ocorreu no dia 17.11.11 e acionaram a FUNAI para a sua integração à TI existente. Os índios fizeram plantão de revezamento durante três semanas e, por fim, foi ocupada permanentemente pelos familiares do Pajé Barbosa, que se alternam continuamente no local.

V.: Eu via muita ameaça, muita briga, muita confusão, tinha muito estresse. Teve um tempo que ela era ameaçada de morte.

A. B.: Ameaça? Por quê?

V.: Porque ela lutava pela terra, ela foi muito ameaçada pelo dono de uma granja que tem aqui próximo, por isso e por ela tentar retirar posseiros daqui, por um ideal da terra ser demarcada, então, ela foi muito ameaçada de morte.

Este bambuzal que é um limite de conflitos entre o empreendimento comercial e o território da aldeia marca novamente as fronteiras da TI, daqui o território segue na direção sudoeste, subindo a Serra de Aratanha e entrando na área municipal de Maracanaú, onde não existem residências, sendo inclusive considerada Área de Preservação Ambiental.