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Cartan Curvature

Em 2011, em uma conversa informal com Célia Sakurai eu contei que tinha vontade de estudar os mestiços na imigração japonesa no Brasil quando no doutorado. Eu relatei haver uma ponta de incerteza sobre o tema, pois desde o mestrado eu notava que falar abertamente sobre os mestiços e a família 'mista' gerava um traço de desconforto entre os nikkey por conta do tabu que prevaleceu sobre eles no passado. Célia disse que eu poderia fazer a pesquisa, pois eu conseguiria com o meu “jeito”. Em certo momento da conversa, ela me perguntou se eu conhecia a palavra ainoko e me disse ter lido muito essa palavra nos diários das mulheres nikkey durante a sua pesquisa de doutorado. Ela me explicou que a palavra ainoko era utilizada no passado para se referir aos filhos das uniões de japoneses com brasileiros, os

mestiços. Eu fiquei surpresa e disse a ela que nunca havia escutado essa palavra. Eu não sabia da existência da palavra ainoko e do seu significado: “filho do amor”. Essa foi a primeira vez que eu ouvi tal palavra.

Inicialmente eu pensei que o meu desconhecimento estivesse diretamente relacionado a minha história pessoal, pois eu nasci em uma cidade no interior de São Paulo onde, no presente, não havia mais uma “colônia japonesa”. Além disso, eu cresci em um seio familiar sem contato com a cultura japonesa dos imigrantes. E mesmo quando em contato com uma “colônia”, durante a minha pesquisa de mestrado, eu sempre ouvi a categoria nativa

mestiço. Por que não se tocava mais nesse termo? A princípio, a palavra ainoko figuraria como romântica no imaginário de quem não a conhece por possuir uma concepção poética, “o filho

do amor”. Mas, aos poucos, eu vi que a maneira como o termo era tratado, não parecia ser visto como romântico no passado da imigração japonesa.

Durante os trabalhos voluntários na IMeL de Marília, eu interroguei algumas senhoras acerca do termo ainoko enquanto manipulávamos os legumes para um yakissoba beneficente. Então, a senhora Tomie me disse que hoje não se usava mais. Perguntei à ela se possuía ideia de quando e as razões para esse termo deixar de ser usado. Eu acrescentei que tudo parecia diferente e curioso porque era uma palavra que eu não conhecia e não ouvia nas "colônias", visto que eu sempre ouvia a palavra mestiço. Tomie disse não recordar quando a palavra desapareceu, ela só se lembrava de ouvir a palavra quando era mais nova. Todas as senhoras concordaram em não saber datar o período. Neste momento, a senhora Sadako interviu e disse: “hoje não fala mais ainoko porque é feio falar ainoko.” Diante dessa informação perguntei para elas os motivos de ainoko não ser bonito, pois a primeira impressão parecia ser. Em seguida, elas me explicaram assim:

“Hoje não fala mais ainoko porque quando falava ainoko era feio falar.” (Tomie) “Sim, era feio, sabe, era preconceito.” (Sadako)

“Então, porque era coisa de briga na família.” (Tomie)

“É, e tinha moça que casava com nikkeyjin e daí nascia bebê ainoko. Casamento feito às pressas.” (Hiroko)

“É, eu lembro de moça casar com japonês e nascer ainoko prematuro bem gordinho com tamanho de 9 meses.” (Tomie)

Nesse instante perguntei as senhoras como a “colônia” reagia diante dos bebês

ainoko prematuros de 9 meses. E uma delas me respondeu:

“Não falava nada. Eu lembro que todo mundo ia visitar os bebês na casa dos patrícios na época do sítio. Daí, chegava lá, cumprimentava, via o bebê, via que o bebê era grande para ser prematuro ou então via que o bebê não era nikkeijin, mas era ainoko, era mestiço. Mas daí, não falava nada. Então, quando ia todo mundo embora, voltava em silêncio pela estrada, chegava em casa ninguém tocava em assunto nenhum. Minha mãe ia arrumar as coisas, a família conversava sobre outros assuntos porque japonês

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não gostava de fofoca, não falava nada. Eu me lembro dessas coisas quando eu era criança.” (Sadako)

“É, ninguém falava nada, ficava tudo em silêncio. A minha família não gostava de fofoca. Japonês não fazia fofoca: era feio.” (Tomie)

Em seguida, elas explicaram que falar ainoko no passado era feio porque denotava preconceito e era pejorativo visto que sempre envolvia muitas histórias de conflitos e rompimentos familiares. No passado, os issei e os nissei mais velhos não aceitavam o casamento fora do miai, o miai era prescrito pelo sistema de parentesco e na "colônia", o casamento com

brasileiros era indesejável, sobretudo entre as primeiras gerações. O ainoko, o fruto do amor, seria então o fruto materializado dos conflitos e rompimentos familiares, e nos casos mais graves, se tratava de crianças ilegítimas, de pai desconhecido. Logo, falar ainoko era pejorativo, pois a sua figura era associada ao que o coletivo deveria recusar: os conflitos e rompimentos familiares. Da mesma forma, havia muito preconceito contra as famílias 'mistas', já que as uniões entre japoneses e brasileiros não eram bem vindas no seio da “colônia”.

Todas as senhoras concordaram com a conotação negativa de ainoko no passado dentro do mundo da “colônia”. Elas salientaram que as histórias de filhos ainoko ilegítimos eram raras, mas nem por isso elas deixaram de existir. Entretanto, o tabu em torno dessas famílias e dos filhos ilegítimos imperava e fazia valer o silêncio entre todos. O tabu envolvendo os ainoko ilegítimos servia como exemplo para a comunidade e quiçá vergonha para com a família desses bebês. O silêncio atuava coletivamente em duas frentes: como exemplo de evitação para o coletivo e, ao mesmo tempo, o silêncio mostrava qualquer espécie de solidariedade dentro da comunidade, pois o não falar sobre o fato também tendia a não expor o nome da família dos patrícios, a exemplo do silêncio para evitar as fofocas. A proscrição pelo silêncio foi uma experiência forte e coletiva gravada na memória daquelas senhoras que quando crianças aprenderam certas regras e certos segredos da “colônia” justamente com o não dito.

Se observarmos bem, nessa narrativa o corpo assume posição central sendo importante notar o lugar do corpo nos casos raros de filhos ilegítimos onde a denúncia sobre uma origem paterna nebulosa se dava justamente pelo corpo. A corporalidade do ainoko com os seus traços faciais, principalmente o formato e a cor dos olhos, a cor e a textura do seu cabelo e a cor da sua pele talvez pudessem contrastar sobremaneira com a corporalidade do seu pai. Fiquei a imaginar que nas visitas citadas, mas, sobretudo no decorrer da vida dessas crianças, a

corporalidade delas anunciaria silenciosamente e vagarosamente esse segredo da família. A própria corporalidade desse ainoko seria a marca do silêncio nas famílias. Silêncio tão bem cravado que as informantes não souberam precisar quando deixaram de ouvir essa palavra.

Durante a pesquisa de campo eu senti angustia por não conseguir precisar o desaparecimento da palavra ainoko e o surgimento da palavra mestiço. Embora saibamos que, em contexto, a categoria mestiço refira-se exclusivamente aos filhos das famílias 'mistas', não deixava de ser inquietante a palavra ainoko e sua complexidade acerca do parentesco. Pois do ponto de vista da família 'mista', o ainoko era literalmente e precisamente o "filho do amor " e do ponto de vista da família japonesa ele era a corporificação simbólica da ruptura no parentesco.

De qualquer modo, embora os interlocutores não pudessem precisar o período do desaparecimento da palavra ainoko e quando da adoção da palavra mestiço, ficava claro que

ainoko aportava sentidos mais precisos de acordo com os diferentes pontos de vista citados. Diante dessa imprecisão do desaparecimento da palavra, pode ser inferido que a palavra ainoko tenha declinado em face ao aumento dos casamentos mistos nas famílias nikkey a partir das gerações nissei e sansei e consequentemente a crescente presença do ainoko no seio familiar. Afinal, entre os chefes, como continuar a nominar pejorativamente o novo tipo de ente que se fará cada vez mais real e presente na família diante dessa nova configuração familiar instalada no parentesco?

De acordo com os autores Mori e Inagaki (2008), na década de 50, os casamentos 'mistos' perfaziam apenas 4,5% do universo total de famílias nikkey no Brasil. E com o estabelecimento definitivo dos imigrantes na sociedade brasileira, e a integração social dos nipodescendentes em escala ascendente nas décadas posteriores, teria ocorrido paulatinamente o aumento dos casamentos 'mistos' nas famílias nikkey. Os autores citaram um levantamento realizado pelo CENB (2002) em 1998, segundo o qual apontou que naquela data, os casamentos 'mistos' perfariam 46% do universo total da pesquisa e a população nipodescendente miscigenada corresponderia a 27% do universo nikkey no Brasil.

Nesse sentido, ao vermos em números o aumento crescente das famílias 'mistas, poderíamos também perguntar-nos se, acaso a palavra mestiço não teria sido introduzida no parentesco japonês pela própria presença de brasileiros nas famílias japonesas? Mas, de qualquer forma, fica evidente que a categoria mestiço do presente amenizaria o peso do ainoko no passado e por que não, ao mesmo tempo, neutralizaria a posição do mestiço no mundo da

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"colônia". Com o mestiço sendo 'aceito' pela força da sua existência física e histórica, quiçá ele desconhecerá as raízes pejorativas de como ele era nominado no passado. Com as suas raízes históricas apagadas, assim o mestiço virá a ser uma espécie de tabu amenizado pela força do silêncio imposto às palavras que o nomeiam.