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Quando eu comecei a interrogar os informantes em Marília sobre a figura dos

mestiços e as famílias 'mistas', eles sempre me respondiam que hoje não haveria mais diferenças entre japoneses e brasileiros porque estariam todos “misturados”. Entretanto, eles sentiam estranhamento com o meu interesse em pesquisar a imigração japonesa tendo em vista que eu era mestiça e era pouco esperado que eu me interessasse por esse tema. Tal estranhamento dava pistas que a própria concepção de interesse pela “cultura japonesa” não era neutra, mas era atravessada por clivagens de descendência que naturalizavam o interesse e a aproximação a “cultura” quando entre os nipodescendentes não miscigenados.

Assim que levávamos os diálogos mais a fundo, nos discursos onde mestiços,

japoneses e brasileiros já seriam indistintos, emergiam descrições sobre as ditas diferenças entre esses sujeitos e sempre me chamava atenção o fato de a posição do mestiço geralmente não ser clara no parentesco, mas ser fluida e, por vezes, indefinida e marginal. Os mestiços não eram chamados de japoneses, raras vezes de nikkey, eles eram chamados de mestiços ou de descendentes e quando eram nomeados descendentes sempre se enfatizava a miscigenação. E essa necessidade era intrigante.

Desde a pesquisa do mestrado, eu compreendi que o anúncio da miscigenação quando estávamos entre japoneses comunicava a justificativa da incompletude, da pressuposta "falta" de saberes dos mestiços. Me recordo de uma situação como essa durante a pesquisa em Araraquara enquanto integrei uma aula de dança para iniciantes no Bon Odori51. A certa altura, em um círculo de conversa, a professora perguntou para as alunas se elas já conheciam a dança, as alunas começaram a dizer as ocasiões em que dançaram ou tiveram contato. Em certo momento, eu disse que não conhecia a dança e automaticamente uma interlocutora interviu e disse: ela é mestiça. A professora disse: "mas ela dança bem, tem jeito, leveza". Talvez, o "jeito

51 Literalmente "Dança do Finado". É uma das danças populares em homenagem aos mortos e tem as suas raízes

no budismo. As danças populares japonesas têm origens nas comunidades agrícolas e de pescadores. As danças celebram a vida em comunidade, a continuidade da vida e homenageiam os antepassados.

e a leveza" sugerissem ligação a minha ascendência miscigenada. Mas, independentemente da nipodescendência, isso significava que para os interlocutores, o mestiço não poderia ser confundido com o japonês, pois a sua própria posição no parentesco advinda da "mistura" o que já indicava que ele não era "100% japonês". E consequentemente, da sua origem 'mista' pressupunha-se e justificava-se a "falta" dos saberes como derivada da presença do brasileiro na composição do arranjo familiar

Embora essas situações possam chocar alguns leitores, eu compreendi que teria que lidar internamente com elas. Dessas circunstâncias eu aprofundei as incursões etnográficas nas pesquisas e isso me abriu mais margens para explorar as percepções sobre o mestiço e as tensões no parentesco, pois eu intuía que situações como essas não seriam narradas livremente em uma entrevista formal, por exemplo. Diante dessas situações, eu não procurava justificar a minha "falta", mas eu buscava explorar como os interlocutores concebiam essa "falta". O mais intrigante era que, embora eu fosse mestiça e não soubesse dançar odori, isso já era a justificativa suficiente para o meu não conhecimento, mas isso não era posto automaticamente em xeque quando se tratava de um nikkey não miscigenado. Nesse caso, pelas regras desse parentesco japonês, inferia-se que o japonês "puro" já teria contato e domínios de saberes, gostos, gestos e modos japoneses por serem apreendidos na família. E quando ele não possuísse tais domínios, ele já os teria "naturalmente", cabendo a ele cultivar e exteriorizar essa ordem de saberes inscritos japoneses (HATUGAI, 2011).

Nesse sentido, ao contrapor a figura do mestiço à figura do japonês não miscigenado, pode ser compreendido que quando a ordem do parentesco é pensada somente entre japoneses não miscigenados, idealmente não haveria limites para a continuidade do sistema, pois a extensão da família com seu nome, domínios e descendência seria contínua e interminável. O polo de distinção operante nesse momento se daria entre japoneses e

brasileiros, isto é, entre aqueles que participam e constroem o parentesco e aqueles que idealmente estão "fora" do sistema, um tipo de distinção com limites claros.

No entanto, quando aquele que está "fora" é instalado no sistema de parentesco pela via do casamento, a formação da família 'mista' representaria a ruptura no sistema, mas não a sua extinção. E é nesse quadro que se compreende o surgimento da figura do mestiço e as tensões no parentesco, pois é a partir dele que se instala uma fronteira no sistema por meio de um processo de cálculos e derivações onde antes só haveria continuidades e linearidades. A

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derivação mestiça borra os limites entre os ditos "opostos" (japoneses e brasileiros) antes concebidos como claros fixos.

O mais interessante é que essas percepções vinham à tona justamente nos momentos em que a minha pessoa confrontava as concepções nativas acerca do parentesco e da noção de ser japonês. Quando eu era apresentada para os japoneses como mestiça e pesquisadora interessada na imigração japonesa, o meu interesse causava espanto. Havia surpresa em nipodescendentes mestiços se interessarem pela história da imigração, isso indicava a persistência da pré-concepção de afastamento da "cultura", e logo do parentesco a partir dos casamentos 'mistos'. Mas não deixava de ser intrigante para eles que dentre os "jovens" (japoneses) que pouco se interessam pela história e pela memória da imigração, estivesse eu, mestiça, interessada. Essa autopercepção por parte dos interlocutores era importante durante a pesquisa porque a minha posição confrontava silenciosamente e vagarosamente os dados "naturais" dessas concepções. E uma percepção de desnaturalização ocorria entre algumas pessoas nas trocas de nossos contatos a partir do que elas podiam me ensinar e de como eu me interessava em aprender os seus saberes. Era como se a descendência do mestiço pudesse ser validada a partir do momento em que ele demonstrasse interesse em preencher a sua "falta". Se interessar pela "cultura" e história quando se é mestiço e não as conhece pode transformar-se num tipo de trocas e de exercícios que demandam muita persistência, pois um nikkey não miscigenado não precisará provar a todo instante a sua ascendência. Isso não significa que os mestiços devam ou queiram provar a sua ascendência frente a sociedade, mas no caso da pesquisa isso dá pistas importantes para compreender os registros nativos e como o mestiço se situa neles.

Isso significava que a sócio lógica de continuidade do parentesco sendo selada somente entre japoneses reverberava incessantemente nesse sistema mesmo diante dos argumentos de indistinção entre japoneses, brasileiros e mestiços. E era justamente a presença do mestiço que lançava luzes sobre as tensões no sistema ideal e as contradições entre a fala e o ato expondo o dado "natural" do sistema (parentesco) sendo forçado a fazer revisões de si mesmo quando dos mestiços. Visto que a existência real corpórea dos mestiços chamava atenção para as formas de como se pensar o parentesco a partir dos novos arranjos desenhados pelas linhas das uniões 'mistas'. O mestiço e o seu corpo mandavam lembranças sobre a finitude das coisas e, sobretudo das concepções de permanência daqueles que construíram os elos do parentesco sobre o corpo da família na continuidade do nome e do sangue.

Ao tocar a presença dos mestiços no parentesco japonês e no imaginário social, a primeira imagem que vem à tona é o corpo físico dessa pessoa e a primeira análise é a de seus traços corporais. Esse tipo de apropriação cultural do corpo do mestiço passa pela leitura simbólica da sua corporalidade a partir da equação dos traços asiáticos presentes nela. De acordo Le Breton (2015), a existência dos sujeitos e suas representações se engajam por meio do corpo, o corpo é performance de si, a existência irredutível do ser humano é corporal. Em suas palavras, "Sans le corps qui lui donne un visage, l´homme ne serait pas. (...) L'existence de l´homme est corporelle (2015, p.10)." No tocante aos mestiços em contexto, o corpo literalmente lhes dá um "rosto" que dialoga com a leitura simbólico dos traços corporais e o parentesco.

Partindo do ponto de vista nativo, o corpo é símbolo que mostra aos olhos a nipodescendência miscigenada e a não miscigenada, pois a partir do corpo é possível observar a presença de traços asiáticos de um japonês "puro" como os "cabelos lisos e negros, a pele amarelada, os olhos puxados e o nariz achatado ou de batatinha". Já no caso dos mestiços se observaria a presença dos "traços japoneses sendo mais delicados" ou suavizados quando um dos genitores é "brasileiro", e branco, a exemplo do que diziam sobre o mestiço ter do "nariz mais fino e delicado, a cor dos olhos mais clara, os olhos mais arredondados com o canto puxado e a presença da pálpebra". Na "mistura", a suavização dos traços corporais era encarada pelos interlocutores como um dado de beleza indicando que se o mestiço era mais belo que o japonês, o japonês em face ao mestiço seria então concebido como dado de fealdade. Dado esse relativo, uma vez que entre os Mehinaku do Alto Xingu, os japoneses são considerados os mais belos entre os "civilizados".

De acordo com Fénelon Costa (1988, p. 106-7 apud VIERTLER, 2000, p. 170), entre os Mehinaku, a composição da beleza alto xinguana se dá por meio de conceitos éticos e estéticos, isso significa dizer que para além do que se ele elege como a composição corpórea de belo como as marcas e as insígnias tribais também se atrelariam os comportamentos e as qualidades morais na composição do belo. Essa concepção de belo humano é totalizante, pois não se poderia falar da beleza de um corpo humano sem tocar a estética da alma que implica saúde, comportamentos corretos, alegria e generosidade. Para os Mehinaku, entre os tipos raciais dos "civilizados", os japoneses são concebidos como os mais belos e desejáveis porque se assemelham ao fenótipo dos alto xinguanos. Os brancos são feios porque possuem condutas morais incompreensíveis, o corpo com pelos os assemelham aos macacos, além de possuir a estética exagerada no uso de adornos e o abuso da afetação nas suas expressões corporais. Os

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negros, por sua vez, teriam o maior componente de fealdade devido os cabelos crespos e a pele "preta", atributos enfaticamente desvalorizados nos rituais de composição da pessoa. E assim, os japoneses seriam os mais belos, uma vez que tendo os fenótipos cabelos lisos e negros e a pele "clara" que se assemelha ao belo alto xinguano resultante das reclusões cerimoniais, eles estariam mais próximos do que se concebe como belo entre Mehinaku. Nesse caso, a noção de belo humano não distingue corpo e conduta revelando que o belo alto xinguano se faz na alma, no corpo e nas relações sociais.

Retomando o contexto, no tocante aos mestiços, quando se fala sobre a beleza se toca a dimensão do parentesco. Pois os mestiços seriam os mais belos, mas na medida em que se pode observar a suavização de seus traços asiáticos, o que não implica a negação da beleza asiática, senão os brasileiros seriam os mais belos. Como as duas faces de uma moeda, há a beleza do mestiço até o ponto em que a ascendência nipônica pode ser reconhecida. A extrema suavização dos traços corporais indicariam o afastamento no parentesco e consequentemente a não observância da ascendência nipônica. E se distanciado do parentesco, a pessoa já não estaria mais englobada no parentesco, mas no campo das distinções brasileiros/japoneses.

A importância e dimensão que o corpo assume nesse jogo do parentesco podem ser refletidas sob à luz do ensaio pioneiro "As técnicas corporais" de Marcel Mauss. Em Mauss (2003), o corpo é concebido como o instrumento primeiro do ser humano e o meio pelo qual as variadas sociedades fazem usos por meio das técnicas corporais, os atos montados apreendidos pela tradição, isto é, por meio de toda a educação e da posição ocupada pelo indivíduo em uma dada sociedade. Nesse sentido, no tocante ao corpo do mestiço percebe-se que ele é concebido e é entrelaçado às concepções de beleza e parentesco na medida em que o corpo mestiço comunica proximidade ou afastamento da ascendência nipônica a depender da sua corporalidade. Corporalidade de dimensões variadas sendo as mais imediatas dadas pela leitura dos traços físicos asiáticos que dimensionam a sua relação com corporalidade japonesa. A corporalidade também é lida pelos gestos por meio da observância de um corpo que se (com)porta de maneira mais discreta como os japoneses ou de maneira mais expansiva como os brasileiros. E as técnicas corporais igualmente dialogariam com o domínio dos saberes relativos ao conhecimento ou contato com a língua japonesa, memória familiar imigrante, preparo e consumo da culinária japonesa e etc.. Nesse sentido, corpo, gesto e saberes são dimensões imediatas para quantificar e classificar o mestiço.

Ocorre que, tal classificação não se restringe a simplesmente nomear os sujeitos como mestiços mais próximos ou distantes do japonês, mas ela impacta sobre a forma como essa pessoa pode ser incluída ou excluída de um dito parentesco japonês. Por meio desses símbolos, um mestiço seria mais facilmente reconhecido como descendente nos casos em que a sua corporalidade e saberes estivessem mais próximos dos japoneses. E nas situações em que a sua corporalidade e os seus modos fossem concebidos como mais próximos dos traços ditos

brasileiros, isto é, menos traços corporais nikkey e os seus modos fossem mais expansivos, “a moda brasileira”, a identificação e o reconhecimento de sua descendência não seriam claros ou mesmo impossíveis para os sujeitos. E nesse momento, o mestiço é encarado como distante da “cultura” cumprindo a pré-concepção de afastamento dela quando dos casamentos 'mistos'.

Como visto nos capítulos anteriores, na lógica do parentesco tradicional japonês, a continuidade do nome da família, concebido como honra, é fundamental para a transmissão e perpetuidade desta. No tocante a imigração japonesa no Brasil, tal perpetuidade se fazia por meio das alianças exclusivas entre as famílias japonesas. Nesse sentido, quando se está a falar do nikkey não miscigenado, idealmente se conceberia que corpo, gestos, saberes e nome estariam dados como "prontos" e como "naturais" não necessitando de cálculos ou confrontos com o sistema de parentesco. A clareza sobre quem é japonês e como é esse japonês estaria idealmente anunciada no corpo da própria pessoa. Nesse sentido, a presença do mestiço no parentesco agitaria e começaria a borrar as linhas distintivas, e antes claras, entre japoneses e

brasileiros. Pois, se no tocante aos mestiços, num primeiro momento eles são conceituados a partir de sua corporalidade física e gestual, como lidar com eles e ou negar a sua descendência excluindo-os de um parentesco japonês quando a sua corporalidade não é tão evidente, mas eles aportam o nome e "sangue" da família?