4. Data Analysis
4.2 Qualitative Data
4.2.3 Candidates’ Main Arguments
A terceira entrevista foi realizada com a alfabetizadora Fernandes e o primeiro contato com ela ocorreu por intermédio de Rosário, que marcou uma visita a esta professora afim de que eu pudesse apresentar-lhe os objetivos da pesquisa e desta forma pedir que participasse do estudo. Fernandes nos recebeu muito bem e se dispôs de pronto a participar já deixando agendanda a entrevista para a semana seguinte. Na semana seguinte, apresentei-me à entrevistada e conversamos por cerca de 3 horas. Após a transcrição da entrevista, marcamos um novo encontro para apresentar-lhe o texto e colher a assinatura do termo de cessão. Fernandes assinou o termo de cessão sem pedir alteração alguma na sua transcrição.
Fernandes nasceu em Martinésia, distrito de Uberlândia, no dia 11 de agosto de 1938, é viúva, mãe de quatro filhos e mora sozinha. Apesar de ter tido uma perna amputada devido às consequências de um problema de saúde. Mesmo sendo cadeirante ainda é uma pessoa ativa, cuida de sua casa, viaja com outras aposentadas e participa de oficinas na Igreja onde frequenta.
75 Fernandes relata que trabalhou como alfabetizadora durante toda sua vida profissional. Sua formação inicial se deu em uma escola rural localizada em uma fazenda, próxima à Martinésia, pois morava em outra fazenda pertencente a seu pai que ficava nos arredores. “Era numa casa, com uma mesa bem grande, então colocava uns bancos e eram todas as séries misturadas: a primeira, a segunda a terceira e a quarta série, tudo junto. Então o professor te mandava escrever uma coisa e depois ia lá tomava a lição”. A cartilha utilizada nessa escola era a Cartilha da Infância que “começava mesmo pelo “A, E, I, O, U”. A maior dificuldade que eu tive foi para unir o “A” mais o “I”, formando “AI”. Erra um horror, agora você imagina quantos anos eu tinha, era “petitinha””.
Segundo Fernandes, o professor dessa escola se chamava Jovino, nome que guardou bem na memória, apesar de não recordar do sobrenome. Mas, na realidade, a primeira professora se chamada Divina Machado e morava em um sítio próximo à fazenda onde morava. “O Seu Jovino era em outro lugar, a casa já era própria para escola, era um barracão, tinha as carteiras e tinha o quadro, lá onde era a Divina ela não tinha o quadro”. Ela conta que o professor Jovino foi enviado pela prefeitura para dar aulas naquela localidade, mas que essa escola ficava mais distante de onde morava.
Fernandes acredita que o professor Jovino devia ser leigo, “naquele tempo não tinha muito professor formado, quando eu comecei também era leiga, não tinha ninguém formado, essa era uma realidade”. Segundo seu relato, até mesmo no Grupo Escolar Clarimundo havia professoras leigas, “com o tempo elas foram fazer o Normal, o Magistério”.
Fernandes conta que utilizava como material para o aprendizado na escola rural a lousa com giz, cada aluno tinha a sua lousa e o caderno usava-se pouco. O aprendizado era dificultado pelo fato de ser uma escola multiseriada.
Não tinha sequência. A gente também entrou mais tarde e também não tinha sequência. Eles largavam a escola, passava um tempo e não queriam mais ficar (os professores), não tinha muita sequência. Meus irmãos vieram, prestaram a admissão e já foram para a quinta série. Eu tenho dois irmãos homens e os dois fizeram isso, porque eles eram mais velhos. Eu não lembro se faltava muito (para completar o primário), não sei porque nós tivemos que voltar para o primeiro ano, eu e minha irmã mais nova, aí nós fomos caminhando juntas (FERNANDES, 2012).
Outro professor do qual se recorda, quando ainda morava na fazenda, era um professor chamado de “Senhor Branquinho”, “o nome dele mesmo eu não lembro, ele era chamado assim porque ele era bem claro”. O Sr. Branquinho foi seu professor depois do Sr. Jovino, mas por pouco tempo, pois foi nessa época (1949) que mudou com seus pais para Uberlândia.
76 Ela já estava com onze anos de idade e para iniciar os estudos no Grupo Escolar Dr. Duarte precisou fazer antes um teste de nivelamento. Esse teste “era para ver o que eu sabia e o que eu não sabia”. Ela conta ainda que “já lia e escrevia, mas não sabia, por exemplo, compor uma frase. Daí eu fiquei no primeiro ano novamente, fui até o final do ano e depois eu já fui para a segunda, terceira e quarta-série”. Depois de completar a quarta série, ela diz que precisou fazer o teste de admissão, “a gente prestava uma prova para saber se a gente podia passar para a quinta-série”.
Como Fernandes havia narrado, ela começou a lecionar quando tinha uns dezessete para dezoito anos de idade, antes mesmo de começar o Curso Normal.
Eu estava fazendo a sétima série e sempre gostei de lecionar. Sempre gostei de criança e tinha a necessidade também. Naquele tempo ninguém trabalhava em loja, ninguém trabalhava em comércio. Meu pai quebrou e, por isso, nós tivemos que trabalhar cedo. Como ele tinha muita influência política nós conseguimos trabalhar, lecionar, mas não tinha o Normal, não tinha nada. [...] A escola era a que começamos a lecionar era lá nas Tabocas, nas Escolas Conjuntas do Bom Jesus (FERNANDES, 2012)
Foi possível constatar, pela narrativa de Fernandes, que a escolha pela carreira docente se deu pela necessidade econômica, mas também porque era a profissão que era possível seguir, porque na época, como ela relata, não havia outras possibilidades. Além disso, o fato de ser mulher, gostar de criança já desencadeava a ideia de que poderia ser professora.
Fernandes foi alfabetizadora desde o início de sua carreira docente e, por não ter nenhuma formação para atuar na área, recorria à memória e experiência de quando foi alfabetizada, utilizando-se, inclusive, do mesmo método, ou seja, o Silábico. “Desde o comecinho, não tinha nada, dava aula de relembrar o que tinha acontecido comigo no Dr. Duarte (Grupo Escolar) quando eu fui aluna”. Contava também com as orientações da diretora, que eram passadas nas reuniões que ocorriam aos sábados.
Todo o sábado tinha reunião com a diretora, que nem sempre foi a Nilza, porque eu te falei que ela saiu, mas ela ia lá explicar o que a gente ia dar. E você tinha de seguir o Programa, porque exigiam da gente seguir o Programa de ensino. E como a gente se interessava e precisava trabalhar, a gente chegava lá e aplicava. [...] E a inspetora ia ver como a gente estava fazendo, porque senão você não ficava (FERNANDES, 2012).
Fernandes fez o Curso Normal na Escola Estadual Brasil Central, mesmo local onde cursou a oitava série, “porque só tinha o Normal no Colégio Brasil Central e no colégio das irmãs, que era o Colégio Nossa Senhora e a contabilidade só lá no Liceu”. Mais tarde foi
77 cursar, no período noturno, a faculdade de Supervisão na Associação Brasil Central de Educação e Cultura (ABRACEC)28.
A gente fazia o Normal depois da oitava série, porque quem não ia fazer o normal ia fazer contabilidade. Só existiam esses dois cursos, o normal ou contabilidade, não tinha esse terceiro colegial para depois prestar vestibular. Depois de muitos anos é que veio pedagogia, veio supervisão, foi bem depois. (FERNANDES, 2012).
De acordo com Fernandes, apesar de ter cursado a faculdade de Supervisão, ela atuou pouco tempo na área, tendo ocorrido parte dessa experiência na Escola Estadual Clarimundo Carneiro.
Eu prestei concurso para Supervisão e como tinha poucas vagas para Uberlândia, prestei para Campina Verde porque lá tinha mais vagas. Eu pedi para lá porque eu estava a pouco tempo de aposentar. Pedi minha remoção, logo aposentei no primeiro cargo e fiquei só no segundo cargo. Eu trabalhei como supervisora um ano e pouco. Aconteceu o seguinte, eu já tinha a faculdade de supervisão, e a Neide (Neide Fernandes – irmã e diretora) me colocou para trabalhar na supervisão, só que ela me colocou em uma sala vaga porque ela não achou que alguém fosse pedir remoção para a Escola Estadual Clarimundo Carneiro, mas uma pessoa pediu remoção para lá e, como esse cargo era vago, eu tive que sair, a Nice Léa Veloso do Rosário ficou como supervisora e eu tive de voltar para a sala de aula (FERNANDES, 2012).
Conforme Fernandes já havia mencionado, sua primeira experiência docente foi nas Escolas Conjuntas do Bom Jesus, quando ainda estava estudando, mas era apenas contratada. Quando terminou o Curso Normal prestou uma prova, foi aprovada e nomeada professora para o Grupo Escolar Dr. Duarte local em que trabalhou por mais ou menos nove anos. Depois que sua irmã, Neide Fernandes, assumiu à direção do Grupo Escolar Clarimundo Carneiro, como havia vaga disponível no Grupo pediu sua transferência, pois morava nas imediações. Um de seus filhos, que já estava em idade escolar, foi estudar no Grupo.
Durante a maior parte da sua carreira docente trabalhou em sala de aula, como alfabetizadora. Quando se aposentou do primeiro cargo precisou mudar para o período noturno, pois o marido estava acometido de enfisema pulmonar e precisava ficar com ele, pois não podia pagar alguém e como os filhos já estavam adultos, à noite podiam ficar com o pai. Assim, foi trabalhar com alfabetização de jovens e adultos na Escola Estadual Osvaldo Resende, onde então se aposentou.
28 Instituição particular de ensino (1924 -1989). Para saber mais sobre esta instituição ver, cf. OLIVEIRA,
Antoniette Camargo de. A (Re)construção da história do ensino em Uberlândia: Associação Brasil Central (ABRACEC). Boletim CDHIS (Centro de Documentação e Pesquisa em História da Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 9(17):5-6, 2º semestre/96
78 À noite não tinham crianças, só de doze ou treze anos para frente, não tinham menores que isto. Quando eu tinha dois cargos, em um cargo eu ficava na sala, eu fui eventual, mas foi muito pouco tempo que eu trabalhei em secretaria. Eu acho que todo este tempo que eu trabalhei, eu devo ter trabalhado uns seis ou sete anos só em secretaria. Eu nunca gostei de ficar em secretaria, não gostava. Eu nunca quis ser diretora, quando a Carmelita foi para a delegacia ela convidou a Neide, a Nilce, a Nelsi, que eram da minha turma, a Vanda, todas da minha família, então todas elas foram dirigir uma escola, eu não quis, só eu que não quis ser diretora. Para ser professora tem que gostar. Porque sempre tinha as dificuldades. (FERNANDES, 2012). Houve também um período em que trabalhou com turmas de sétima e oitava série como professora de Educação Para o Lar, disciplina na qual ensinava “tudo que era relacionada a uma casa, por exemplo, a gente via a parte de higiene, a parte de alimentação”.
Fernandes relata que trabalhou mais de trinta anos na carreira docente, porque tinha dois cargos e quando ia se aposentar pelo primeiro cargo, já com trinta anos de profissão, entrou em vigor a Emenda Constitucional nº 20, de 15 de dezembro de 1998, lei que permitia ao professor se aposentar com vinte e cinco anos de sala de aula e , assim, ela pode passar os cinco anos a mais que tinha para o outro cargo e depois de mais cinco anos se aposentou também no segundo cargo.