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Conclusion and Future Work

7.2 Future Work

7.2.3 Camera-Lidar Fusion

Dessa introdução, partimos para um importante conceito da Estética da Recepção: o horizonte de expectativas do leitor. Diante do fato de que Jauss considera o leitor um indivíduo historicamente constituído – o que nos afasta de conceitos mais abstratos como leitor implícito (W. Iser, 1979) ou leitor modelo (Umberto Eco, 1983) –, a análise da recepção

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Ex-professor de Jauss que, em 1961, publicou Verdade e Método, cuja tradução no Brasil possui a seguinte referência: GADAMER, H.G. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 1997

de uma obra deve buscar conhecer quais são os códigos e experiências acumuladas pelas outras leituras e vivências sociais desse leitor. Nesse sentido, saberemos em que medida uma dada obra é capaz de corresponder ou de romper com as expectativas de seu público.

A análise da experiência literária do leitor escapa ao psicologismo que a ameaça quando descreve a recepção e o efeito de uma obra a partir do sistema de referências que se pode construir em função das expectativas que, no momento histórico do aparecimento de cada obra, resultam do conhecimento prévio do gênero, da forma e da temática de obras já conhecidas, bem como da oposição entre a linguagem poética e a linguagem prática. (JAUSS, 1994, p. 27)

Aquilo que era a base do conceito de “estranhamento” para os formalistas (“oposição entre a linguagem poética e a linguagem prática”), é apenas um dos eixos do método recepcional. Indo além, procura resgatar o conhecimento prévio do leitor, entendido então como seu “sistema de referências” estéticas e ideológicas, bem como sua posição social e sua participação em uma comunidade historicamente definível.

Contudo, Jauss também se afasta da ideia de estudar o leitor real, individualizado, pois entende que a recepção não é um fato exterior ao texto, mas inscrito na sua estrutura formal, na sua linguagem e na sua abordagem temática. Retomando o conceito de compreensão, parte do pressuposto de que uma obra é uma resposta a um conjunto de perguntas do público a que se destina. Dessa forma, é possível rastrear pelo texto os indícios dessas perguntas, isto é, promover a interpretação que nos leva ao horizonte de expectativas dos leitores de sua época. Concordamos que possa haver críticas a esse método, pois essa tentativa de um olhar “de dentro para fora”, isto é, da obra para o seu público, pode ser como o olhar de um peixe, que só conhece o mundo externo nas imagens distorcidas pela refração da superfície aquática. Mas Regina Zilberman (1989, p. 61), na defesa de Jauss, lembra que

seu projeto não tem outro objetivo: frisa seguidamente que seu procedimento metodológico é sugerido pela hermenêutica literária e, como tal, visa evidenciar o intercâmbio da obra com o leitor a partir da lógica da pergunta e da resposta embutida no texto, não no destinatário.

A mesma autora (1982, p. 103) arrola as seguintes injunções constitutivas do horizonte de expectativas através do qual autor e leitor concebem e interpretam a obra – a última delas foi acrescentada por Aguiar e Bordini (1993, p. 83):

- intelectual, porque ele detém uma visão de mundo compatível, na maior parte das vezes, com seu lugar no espectro social, mas que atinge após completar o ciclo de sua educação formal;

- ideológica, correspondente aos valores circulantes no meio, de que se imbui e dos quais não se consegue fugir;

- lingüística, pois emprega um certo padrão expressivo, mais ou menos coincidente com a norma padrão privilegiada, o que decorre tanto da sua educação, como do espaço social em que transita;

- literária, proveniente das leituras que fez, dos seus gostos e do que o meio em que convive lhe oferece, incluindo a escola;

- afetiva, que provoca adesão ou rejeição dos demais.

Ainda que não careça de esclarecimento, um exemplo concreto pode servir inclusive para pensarmos na questão prática do ensino. No entendimento de que uma obra é vista enquanto uma resposta a expectativas de seu tempo, Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida (publicada em forma de folhetim, entre os anos de 1852 e 1853), merece especial atenção. Considerando o modo como se enquadra na tradição romântica e os vazios e indeterminações espaço-temporais da narrativa, vemos que a imprecisão nas referências ao contexto histórico é elemento constitutivo de sua estrutura, sendo responsável por seu tom burlesco e folclórico. O preenchimento desses vazios torna-se uma atividade muito mais ligada à efervescência da imaginação do leitor, do que uma busca intelectual pelo resgate do referente implícito. Assim, seus vazios são aceitos como peculiaridade estética. Por valer-se da tradição das narrativas populares, negligenciada pela maioria dos românticos, Manuel Antônio de Almeida pinta um Rio de Janeiro arquetípico, universalizante, e por isso eficiente enquanto um modo de transmissão estética, e não documental. Analisemos brevemente algumas das primeiras frases da obra, indicando, entre parênteses, as injunções possíveis.

O paradoxo definido Antônio Candido (1993) a respeito dessa obra, ao classificá-la como uma “fábula realista”, é inteiramente útil para compreendermos o jogo das representações engendrado na narrativa. A frase de abertura do romance, “Era no tempo do rei.”26

, nos permite inferir a duplicidade dos modos de recepção. O “tempo do rei”, perfeitamente reconhecível pelo leitor da época, que talvez compartilhasse do saudosismo do narrador (injunção afetiva), soa para o leitor contemporâneo como um período remoto, dado pelo pretérito imperfeito, ao modo das fábulas, e cujo distanciamento – mais cultural do que propriamente temporal – virtualiza um sentido universalizante. Isso permite a entrada no texto

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pelo olhar fabuloso das narrativas que constituem forçosamente seu repertório: os contos de fadas, desenhos animados, filmes de época etc. (injunção intelectual).

O prazer das memórias experimentado por aquele que nos conta nostalgicamente a história (“Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei”27

), revela seu descontentamento diante do momento histórico em se situa (injunção ideológica). Esse posicionamento ideologicamente marcado do narrador pode conduzir o leitor atual a uma tensa tarefa de construção do sentido em dupla perspectiva: por um lado, busca imaginar, com base em seu repertório restrito, os cenários, tipos e costumes do período régio (injunção intelectual), incluindo a compreensão de um modo de falar estranho ao seu uso habitual da língua (injunção linguística); e, por outro, empaticamente tenta projetar nesse processo de ideação a mesma familiaridade com que se expõe o narrador, procurando aderir ao prazer (injunção afetiva) que expressa ao se lembrar de um passado mais “feliz”. Ora, esse prazer pela lembrança do que é familiar, orientado pelo texto, jamais se constrói para o leitor atual em relação ao objeto em si (não vislumbrado por ele): a sociedade da corte carioca; mas, pelo dever de acontecer (pois sem o processo afetivo rejeitam-se os demais), o prazer da lembrança construir-se-á pela familiaridade das imagens fornecidas por outras narrativas: pela História e, principalmente, pelas “estórias” que constituem o horizonte desse leitor contemporâneo. Talvez se possa, portanto, concluir que, em Memórias de um Sargento de Milícias, a fábula supera o realismo e o prazer da imaginação supera o conhecimento de dados históricos.

Chega-se, com uma citação de Iser, a uma interessante conclusão a respeito da relação entre a ficção e a realidade:

O texto ficcional adquire sua função, não pela comparação ruinosa com a realidade, mas sim pela mediação de uma realidade que se organiza por ela, [...] Como estrutura de comunicação, não é idêntica nem com a realidade a que se refere, nem com o repertório de disposições de seu possível receptor, pois virtualiza tanto a forma de interpretação dominante da realidade, com que cria seu repertório, quanto o repertório das normas e valores de seu possível receptor (ISER, 1979, p. 105).

Por fim, o lugar de que nos fala o narrador (e porque não considerar o próprio autor?) deve ser compreendido principalmente no modo como se reflete nessa obra

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uma tensão entre sua tendência popularesca (de onde nascem suas indeterminações) e a própria escola romântica em que está inserida (injunção literária), tensão que só poderá ser percebida caso o leitor possua em seu repertório leituras de outras obras da tradição romântica.

Assim, vimos como as injunções sociais, intelectuais, ideológicas, linguísticas, literárias e afetivas podem distanciar os modos ou níveis de recepção de uma mesma obra para um leitor da época e, por exemplo, um aluno que hoje se dedique a essa leitura. Do ponto de vista pedagógico, portanto, observamos no caso analisado a importância do processo afetivo que, motivado pelo prazer da narrativa fluida (allegro vivace, como definiu Candido) e pelo rico cenário pitoresco, torna possível uma obra do século XIX se concretizar no horizonte do leitor jovem contemporâneo. Contudo, caso um professor, por exemplo, assuma uma postura historicista, acaba tomando a obra como documento, exigindo dos alunos a busca exaustiva pelo referente histórico de um lugar e de uma época. E, enfim, a percepção estética seria tolhida por uma verticalização do processo intelectual em grau excessivo e desnecessário, deixando de reconhecer o modo como a narrativa dialoga com u m universo fabuloso, familiar ao horizonte do aluno.