Na senda da investigação acerca do funcionamento psicológico e regulação emocional dos adultos, tem sido incontornável a importância dada à teoria da vinculação por inúmeros autores. Tal como Fraley e Shaver (2000) subinham, uma das razões para a sua popularidade resulta da capacidade explicativa desta teoria única acerca do desenvolvimento, manutenção e dissolução de relações significativas, oferecendo ao mesmo tempo uma perspectiva sobre o desenvolvimento da personalidade, emoção, regulação e psicopatologia. Além disso, a teoria da vinculação é intelectualmente rica, resultando da fusão de conhecimentos de disciplinas tão diversas como a Etologia, Fisiologia, Teoria dos Sistemas de Controlo, Psicologia do Desenvolvimento, Ciência Cognitiva e Psicanálise, abordagem com que Bowlby se iniciou.
Tal como exposto na secção anterior, assume-se que a qualidade das interacções da criança com a figura ou figuras de vinculação vai estruturando a rede intricada de modelos internos dinâmicos que reflectem o funcionamento do seu sistema de vinculação, nessa ou nessas relações específicas, e que organizam o seu funcionamento nas relações interpessoais futuras. A investigação sobre as diferenças individuais no funcionamento do sistema de vinculação de crianças e adultos tem-se centrado nos estilos de vinculação enquanto padrão de expectativas, necessidades, emoções e comportamento (Fraley e Shaver, 2000) que se julga manter-se estável ao longo do ciclo de vida (Bowlby, 1979, Hazan & Shaver, 1987; citados por Pietromonaco & Barrett, 2000) e que traduz a organização dos modelos internos de funcionamento precocemente adquiridos. Os padrões de comportamento observados na infância e na idade adulta são considerados homologias comportamentais, isto é, acredita-se que estão enraizados num sistema de comportamentos que se activa e finaliza pelas mesmas condições e que serve os mesmos objetivos (Shaver et al., 1988, citados por Fraley & Shaver, 2000). Como acrescentam Mikunlicer e Shaver
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(2007), tendo por base os modelos internos dinâmicos, os estilos de vinculação reflectem a organização particular de estratégias de vinculação, primárias ou secundárias, de hiperactivação ou desactivação.
A avaliação da vinculação e estudo das diferenças individuais está indissociavelmente ligada a Mary Ainsworth, cujas observações naturalistas dos bebés ao longo do primeiro ano de vida, permitiram constatar da contribuição inequívoca da
responsividade e sensibilidadevi maternas para o estabelecimento do padrão de
vinculação que o protocolo Situação Estranha permite classificar. (Bretherton, 1992, Soares et al, 2009).
Concebido por Ainsworth e colaboradores, a Situação Estranha é um protocolo estandardizado de observação em laboratório, constituído por uma sequência fixa de vários episódios destinados a activar e/ou intensificar o sistema de comportamental de vinculação do bebé com um ano de idade (Ainsworth & Wittig, 1969, citados por Soares et al., 2009). Este procedimento desenrola-se numa sala e envolve duas separações e duas reuniões entre o bebé e a sua figura de vinculação. São observadas no decurso do procedimento as reacções do bebé à exploração do meio e à presença de uma pessoa estranha, tanto com a mãe presente como quando esta se ausenta. É ainda comparado o comportamento da criança aquando da reunião com a mãe e do regresso da figura estranha.
O conceito de estilos de vinculação proposto por Ainsworth (1967) para descrever o padrão de respostas manifestado pelas crianças à separação e reunião com a mãe durante o procedimento de Situação Estranha, dividia-se, grosso modo, em três classes de comportamento – seguro, evitante e ansioso/ambivalente. Estas categorias foram mais tarde revistas por Main e Solomon (1990) às quais acrescentaram uma quarta categoria – desorganizado/desorientado, que designa o comportamento estranho e desajeitado com flutuações inusitadas entre ansiedade e evitamento (Shaver & Mikunlicer, 2007).
Ao longo do protocolo de Situação Estranha (SE), as crianças com vinculação
segura tendem a mostrar distress durantes as separações mas recuperam
rapidamente e continuam a explorar o meio com interesse. Quando a mãe regressa saúdam-nas com alegria e afecto, iniciam os contactos com ela e respondem positivamente quando são pegados ao colo e facilmente retomam o interesse nos brinquedos do setting experimental. Este padrão relacional observado parece estar de acordo com os comportamentos e interacções observados em contexto natural. Em casa, as mães mostraram-se emocionalmente disponíveis em momentos de necessidade e responsivas aos comportamentos de procura de proximidade (Ainsworth et al., 1978, citado por Mikunlicer & Shaver, 2007). Por isto parece justo
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caracterizar estas mães como uma fonte de segurança, reforçando o uso da estratégia
primária (procura de proximidade e conforto).
No protocolo SE as crianças com vinculação insegura-evitante mostram pouco
distress quando se separam da mãe e tendem a evitá-la quando regressa e este
padrão parece relacionar-se, nas observações em casa destas díades, com mães emocionalmente rígidas e zangadas e rejeitantes dos esforços de procura de proximidade dos seus bebés (Ainsworth et al., 1978, citado por Mikunlicer & Shaver, 2007). Estes bebés parecem, assim, possuir modelos internos de funcionamento relacionados com a desactivação do comportamento de vinculação. Já as crianças com vinculação insegura-ansiosa parecem ter modelos dinâmicos relacionados com estratégias de hiperactivação do sistema de vinculação, manifestando na Situação
Estranha comportamentos de grande afliçao durante a separação e exibem respostas
ambivalentes ou conflituantes para com a mãe aquando da reunião. No seu ambiente, Ainsworth observou que as interacções entre a mãe e o bebé se caracterizavam por falta de harmonia e de responsividade contingente (Ainsworth et al., 1978, citado por Mikunlicer & Shaver, 2007).
Os resultados de Ainsworth como o procedimento Situação Estranha foram largamente replicados em vários estudos posteriores conduzidos em diferentes países ocidentais, asiáticos e africanos (van IJzendoorn & Kroonenberg, 1988; van IJzendoorn & Sagi, 1999, citados por Soares et al., 2009). Contudo, vários autores foram sentido dificuldades em classificar algumas crianças usando a classificação de Ainsworth et al. (1978), nomeadamente as oriundas de populações de risco (Main, 1996). A análise conduzida por Main e Solomon (1990, citada por Main, 1996) de 200 filmes sobre a avaliação destas crianças com o procedimento SS revelou que a grande maioria apresenta uma gama diversificada de comportamentos contraditórios, estereotipias e posturas anómalas, sinais de apreensão em relação à figura parental, expressões de confusão, desorganização na presença dos pais. Designaram este padrão de comportamentos de vinculação como desorganizado/desorientado (Main & Solomon, 1990, citado por Main, 1996). As crianças caracterizadas com este tipo de vinculação parecem apresentar uma perda temporária de uma estratégia coerente para lidar com o stress envolvido na situação estranha e exibem (muitas vezes brevemente) um comportamento desorganizado ou desorientado na presença dos pais (Main & Solomon, 1990, citado por Van IJzendoorn, 1995). Num estudo de Spangler e Grossmann (1993 citado por Van IJzendoorn, 1995), os bebés com vinculação desorganizada mostraram o maior aumento no cortisol após o procedimento Situação Estranha, reflectindo stress considerável com esta experiência. Considerando o comportamento desorganizado como uma interrupção momentânea de uma estratégia
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organizada (primária ou secundária, de hiperactivação ou desactivação) (Main & Solomon, 1990, citado por Van IJzendoorn, 1995), poder-se-á assumir que os cuidadores têm interacções e comportamentos inesperados e desorganizados com os bebés (Mikunlicer & Shaver, 2007), provavelmente associados a traumas ou perdas não resolvidas com as suas próprias figuras de vinculação (Lyons-Ruth & Jacobvitz, 2008).