3. Literature review
3.2. Business relationships
3.2.2. Business relationships in new product development
Posicionamento é uma categoria discursiva fundamental para a compreensão das relações que ocorrem dentro de um campo discursivo. Para Maingueneau (2008a), o posicionamento refere-se tanto a uma identidade enunciativa dentro de determinado campo discursivo, quanto à afirmação da identidade desse campo. Ao mesmo tempo em que os posicionamentos concorrem entre si em um campo, eles também colaboram para sua identidade geral.
Estudando o campo do discurso literomusical brasileiro, é possível ver que ele possui vários posicionamentos que ocorrem a partir de agrupamentos realizados por diversos critérios, dentre os quais: estética e ideologia, regionalismo, temática, gêneros musicais e valores relativos à tradição (COSTA, 2012). Há cantores e compositores que definem seu posicionamento “pela prática exclusiva de um gênero ou família de gêneros musicais” (COSTA, 2012, p. 211). É esse o caso dos forrozeiros. Costa (2012, p. 218) explica que:
Formalizados e difundidos a partir da década de 40 por Luiz Gonzaga, o baião e outros gêneros folclóricos nordestinos foram fundamentais enquanto referência identitária de uma enorme população brasileira dispersada pela necessidade de abandonar seus lugares de origem para tentar melhores condições de vida no sul e sudeste do país.
O autor esclarece como essa difusão da família de gêneros musicais nordestinos23 (xote, xaxado, baião etc) ocorreu no Brasil e menciona, como marco inicial do posicionamento discursivo denominado “forrozeiro”, o momento em que Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Humberto Teixeira e Zé Dantas começaram a fazer escola (com Dominguinhos, Sivuca e Waldonys, por exemplo). Isto é, o início do posicionamento forrozeiro se deu quando o forró foi adotado como modelo.
23
Costa (2012), ao falar dos forrozeiros, refere-se ao forró pé-de-serra, em que a base se encontra (mas não se limita) no trio instrumental zabumba-triângulo-sanfona proposto por Gonzaga. O forró eletrônico, mais atual, surgido na década de 90, utiliza em sua execução instrumentos eletrônicos como guitarra elétrica, contrabaixo e teclado. Seguiremos, neste estudo, o mesmo entendimento de forrozeiros de Costa.
Nesse posicionamento, um gênero musical teve lugar destacado e serviu de representante legítimo do forró (que, na verdade, é designação para uma festa popular que envolve dança de ritmos variados24), segundo Dominique Dreyfus25 (1996): o baião. A sua legitimação se dá por várias vias: investimento musical, investimento verbal, investimento ético e investimento religioso. Costa (2012) explica que os forrozeiros investem na tensão temática26 e na tensão passional27, com ritmos mais dançantes, como o baião e o xote, e ritmos mais calmos, como a toada e a seresta sertaneja. Além disso, os forrozeiros consagraram uma formação básica de execução das canções inventada por Luiz Gonzaga, isto é, triângulo, sanfona e zabumba. Esta é a caracterização do posicionamento dos forrozeiros em relação ao investimento musical.
Além disso, nas letras das canções compostas e interpretadas pelos forrozeiros, há uma tendência em “cativar o imaginário da população nordestina imigrante” e “dirimir o preconceito urbano contra a música de origem rural” (COSTA, 2012, p. 221). São exemplos do primeiro objetivo Estrada de Canindé (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira, 1950), A volta da asa branca (Luiz Gonzaga/Zé Dantas, 1950) e Canaã (Humberto Texteira, 1968). As letras costumam utilizar a metalinguagem além de falar de costumes, personagens, cenários que caracterizam a região nordestina.
Já o investimento ético se dá através do sertanejo eufórico ou melancólico, em canções mais alegres e dançantes ou mais sorumbáticas, respectivamente. Costa (2012) destaca que o sertanejo é retratado tanto pelas suas habilidades de dança e música quanto por manter seus costumes nordestinos e interioranos mesmo morando em outras regiões. O ethos desse sertanejo se caracteriza, ainda, pelo perfil de viajante, que “anda pelo país”, e foi representado pelos cantores Luiz Gonzaga e Gongaza Júnior, no LP Gonzagão e Gonzaguinha, a vida do viajante (1981).
Além desses investimentos citados por Costa (2012), destacamos que os forrozeiros investem na presença da religiosidade sertaneja em suas canções, visto que o catolicismo28
24 Costa, 2012, p. 219. 25
Escritora francesa e biógrafa de Luiz Gonzaga. Fez boa parte das anotações de Vida do viajante quando Gonzaga ainda era vivo, mas o livro foi publicado postumamente.
26 Investimento em pulsação e subdivisão de valores rítmicos aliados a impulsos somáticos. (TATIT, 1996 apud
COSTA, 2012)
27
Investimento em continuidade melódica com menos repetição de frases melódicas e menor pulsação. (TATIT, 1996 apud COSTA, 2012)
28 O catolicismo a que nos referimos, praticado pelos sertanejos, não é um catolicismo puro, mas, sincrético. As
nordestino é forte na identidade do sertanejo. Esse investimento ocorre tanto no plano musical (algumas canções lembram ladainhas29, músicas executadas em templos, por exemplo), quanto no plano verbal (canções que tematizam questões religiosas30, que enaltecem santos e personagens bíblicas31, intertextualizam com textos religiosos, ou mesmo, mencionam sintagmas relacionados à religião32) e serve a diversos objetivos enunciativos.
A assertiva feita por nós acerca do investimento religioso é corroborada nas palavras encontradas num folder (Imagem 133) exposto no Museu do Gonzagão, em Exu (PE): “A fé e a devoção marcaram a alma sertaneja de Luiz Gonzaga, expressa em suas canções, com traços da verdadeira crença nordestina”. Nesse sentido é que entendemos a força que o investimento no tema religioso nas canções interpretadas por Gonzagão possui. A religião, de algum modo, propõe-se a fortalecer o posicionamento do intérprete dentro da música popular brasileira, ao ajudar na validação do lugar do sertanejo como protagonista no discurso literomusical, bem como na confirmação da sacralidade do solo nordestino.
Pela apresentação de todos esses investimentos e pela própria constituição do baião como ritmo musical que representa o posicionamento dos forrozeiros (e pai do forró, segundo o próprio Gonzaga34), é possível compreender que o baião é fundamental na formação, bem como na perduração do forró enquanto posicionamento do discurso literomusical brasileiro.
29
Rainha do mundo (Ary Monteiro/ Júlio Ricardo, 1964) “Senhora Rainha do Mundo / Rogai por nós desta terra varonil / Agora e na hora de lutar pelo Brasil. // Não deixeis que ninguém ponha a mão / Neste auriverde pendão. / Senhora Rainha do Mundo / Eu te suplico por piedade / Olhai e amparai esta terra da liberdade. // Não deixes que pague o justo por pecador. / Dai aos corações dos homens, paz e amor. // Senhora Rainha do
Mundo”.
30 Ave-maria sertaneja (Júlio Ricardo/ O. de Oliveira, 1964) “Quando batem as seis horas / De joelhos sobre o
chão / O sertanejo reza / A sua oração: // Ave Maria / Mãe de Deus Jesus / Nos dê força e coragem / Pra carregar a nossa cruz. // Nesta hora bendita e sã / Devemos suplicar / A Virgem Imaculada / Os enfermos vir curar. // Ave Maria / Mãe de Deus Jesus / Nos dê força e coragem / Pra carregar a nossa cruz”.
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O jumento é nosso irmão (Luiz Gonzaga/ José Clementino, 1967) “É verdade, meu senhor / Essa história do sertão. / Padre vieira falou / Que o jumento é nosso irmão (...) // Serviu de transporte pro nosso senhor / Quando ele iria para o Egito. / Quando o nosso senhor era perritotinho // Todo jumento tem uma cruz nas costas / Não tem? Pode olhar que tem. / Todo jumento tem uma cruz nas costas. / Foi ali que o menino santo fez o pipizinho. / Por isso ele é chamado de sagrado. / Ah ha ha... jumento meu irmão, / O maior amigo do sertão (...) // Agora meu patriota, em nome do meu sertão / Acompanha seu vigário, nesta eterna gratidão. / Aceita nossa homenagem: / O jumento é nosso irmão”.; For all para todos (Capinam/Geraldo Azevedo, 1982) “Para todos os fandangos / Para todos os ferreiros / Para todos os candangos / Para todos os brasileiros. / Eu vou mostrar pra vocês / Como nasceu o forró. / Foi antes de padim Ciço / Foi antes de lampião / Antes de nascer o Cristo / Do batismo de João / Antes de morrer por todos / Antes de repartir o pão (...).
32 São João na roça (Juiz Gonzaga/ Zé Dantas, 1952); Viva São João (Jackson do Pandeiro/ Buco do Pandeiro,
1964); Secretário do diabo (Osvaldo Oliveira/ Reinaldo Costa. 1966); São Francisco do Canindé (Julinho/ Luiz Bandeira, 1977).
33 Encontrada nos anexos.