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Addressing limitations and suggesting further research

6.   Conclusion

6.3.   Addressing limitations and suggesting further research

A cultura de pares de crianças é, para Corsaro (2011, p.128), “o conjunto estável de atividades ou rotinas artefatos, valores e preocupações que as crianças produzem e compartilham em interação com as demais”. Essas práticas, acertadas mediante as experiências da condição infantil e compartilhadas em termos simbólicos, são o que o autor e Sarmento (2002) consideram culturas da infância. Estas se distinguem conceitualmente das culturas de pares, embora tenham intrínseca relação, assim como a infância, enquanto noção geracional e estrutural, distingue-se das crianças como seres corporificados. Em termos de cultura simbólica da infância, Corsaro (2011) considera que os símbolos e representações

59 expressivos dos valores e preocupações infantis são mediados pelos adultos através de mitos e lendas, mídia dirigida para a infância, literatura e, mais especificamente, os contos de fadas. Estes elementos são utilizados e apropriados pelas crianças na cultura de pares. Para Sarmento (2002) não é possível fixar modos únicos de ação e significação infantil, tendo em vista a pluralidade de atravessamentos étnicos, de classe, de gênero. Assim, estas culturas são produzidas socialmente nas condições que regem as interações entre as crianças e os outros. Os traços específicos das culturas infantis passam, diz o pesquisador, pela aquisição da linguagem e sua utilização de forma criativa. As formas culturais produzidas para as crianças precisam se compatibilizar com estas, em acordo com seus desejos e expectativas. Logo,

As culturas da infância são, em síntese, resultantes da convergência desigual de factores que se localizam, numa primeira instância, nas relações sociais globalmente consideradas e, numa segunda instância, nas relações inter e intrageracionais. Esta convergência ocorre na acção concreta de cada criança, nas condições sociais (estruturais e simbólicas) que produzem a possibilidade da sua constituição como sujeito e actor social. (SARMENTO, 2002, p.8)

São traços peculiares das culturas infantis, de acordo com Sarmento (2004), a ludicidade, a fantasia do real, a interatividade e a reiteração. A ludicidade não é contraposta à seriedade para as crianças e não se define meramente como lazer ou atividade prazerosa. Vygotsky (2009) também alertava para este aspecto: brincar é assunto sério para as crianças, implicando envolvimento, atenção, tensão e concentração. Já Huizinga (2008) ressalta que a brincadeira não é específica do humano e nem da criança, envolve uma supressão do tempo e do espaço e só pode ser definida pelos que nela estão envolvidos. A fantasia do real, segundo Sarmento (2004), é relativa à imaginação que permite às crianças lidarem com o real em seus aspectos mais difíceis. A reiteração diz respeito ao tempo recursivo, sempre portador de novas possibilidades.

Para Sarmento (2002), conhecer as crianças implica em conhecer a infância, que emerge como categoria geracional, expressando a crise da contradição dos valores a ela atribuídos pelos adultos (a dualidade do risco que ora representa, ora está submetida) e do fato de lidarem com os processos de exclusão social dos quais são alvos preferenciais (vide o trabalho infantil e a incidência da pobreza nas famílias com mais crianças). De acordo com Castro (2001), o lugar da infância é marcado por um débito social e cultural, fruto de uma sociedade referenciada no adulto. Uma aproximação da infância pobre do contexto urbano evidenciaria mais um déficit advindo da situação de privação e luta pela sobrevivência enfrentadas por tais sujeitos cotidianamente. A transformação de tais concepções e de tais situações parte da discussão de uma dimensão ético-política da infância, desconstruindo a

60 lógica da norma desenvolvimentista para afirmar a criança como sujeito, ator social.

A identidade coloca-se como questão também para a criança, principalmente em tempos onde as posições identitárias são muitas vezes interpeladas. Corsaro (2011) refere-se aos estudos de Holmes (1995), onde as crianças negras do jardim de infância levam em consideração a raça (entendida como cor da pele) para interpretarem a si mesmas, desenvolvendo categorias raciais fixas e incondicionais. Ao contrário do que demonstram os estudos de Van Ausdale e Feagin, também mencionados por Corsaro (2011), pré-escolares de três a cinco anos usam raça e etnia como marcadores de identificação e estratificação para a inclusão ou exclusão de outras crianças das brincadeiras e como forma de controle das interações. Aqui, as ideias sobre raça são mais fluidas e flexíveis, abrangendo não somente raças únicas, mas heranças mistas e as crianças deslizam entre as categorias dependendo da situação. As pesquisadoras anteriormente citadas discutem também que os adultos não acreditavam nos comentários negativos e maldosos feitos pelas crianças e, ao ouvirem a gravação, negavam a compreensão das crianças sobre o que haviam dito. Faz-se a ressalva de que não se trata de considerar as crianças racistas, mas de compreender que, dado o racismo da sociedade norte-americana, as crianças recriam tais discursos e comportamentos.

Corsaro (2009) afirma que a cultura de pares de adolescentes foi bastante estudada, mas que os novos Estudos da Infância ainda procuram compreender a cultura de pares das crianças. Elas são, portanto, membros de grupos de pares, nos quais produzem cultura. Tais produções são relacionadas com a cultura adulta da qual também participam. Há uma apropriação criativa por parte das crianças que reproduzem o mundo adulto de forma reelaborada, que o autor, em trabalhos publicados em 2005 e 2011, conceitua como reprodução interpretativa. Como alternativa à visão da socialização, provinda do ideário da infância como incompetente, com o dever de internalizar a ordem adulta, Corsaro (2011) elabora o conceito de reprodução interpretativa, assinalando não tratar-se somente de uma internalização dos contextos mais amplos, mas de uma verdadeira apropriação e recriação submetida aos constrangimentos da sociedade na qual participam. Assim, o papel ativo da criança fica visível, em acordo com as perspectivas dos novos estudos da infância.

Retornando à apresentação de estudos empíricos sobre as culturas de pares no Ocidente (Estados Unidos, Canadá e Europa), Corsaro (2011) demonstra que as crianças empenham-se em ter controle sobre suas vidas e em compartilhar este controle entre si. Dos dois aos seis anos, as preocupações das crianças são de desenvolver estratégias de participação social e de desafio aos adultos. Na pré-adolescência, há um movimento de diferenciação.

61 Em relação às crianças ocidentais de dois a seis anos, Corsaro (2009) considera a fantasia a utilização criativa dos objetos disponíveis. O autor refere-se ao conceito de “emergência colaborativa” de Sawyer (2002), caracterizando as performances poéticas das crianças nas brincadeiras de faz de conta a partir de sua imprevisibilidade e da fluência das trocas que elas propõem e que melhoram suas produções, em resposta umas às outras. A brincadeira, portanto, é considerada para além de sua relação com a cultura adulta, à qual se refere, como um recurso das culturas de pares.

A busca de controle sobre suas vidas aparece como algo universal, para o autor, é visível na ação das crianças de desafio aos adultos, quando, por exemplo, utilizam a linguagem como requerido, porém em tom de zombaria, expondo aos adultos sua falta de controle sobre o comportamento delas, uma vez que o exigido - a obediência - foi cumprido, mesmo que não da forma desejada pelos adultos. Ações como esta, bem como trazer objetos proibidos à escola, que Corsaro (2009) verificou na Itália e nos Estados Unidos, também foram realizados pelas crianças da Escola Vila, estudada nesta tese7. Desde que não causem disputas e permaneçam escondidas, ações como essa são toleradas pelos professores. A não concordância das crianças com a ordem de organizar os brinquedos foi vista por Corsaro (2009) como resistência às normas escolares e aparece em diversas estratégias das crianças, como fingir não ouvir, não atender imediatamente, fantasiar, reclamar, dentre outras. O autor refere-se ainda a figuras como o Papai Noel e a fada do dente (CLARK, 1995 apud CORSARO, 2009), que aparecem para recompensar o bom comportamento e trazer dinheiro depois da perda do dente de leite, respectivamente.

Outras questões, como uma menor sensibilidade a conflitos, e mesmo sua valorização entre os afro-americanos e italianos, foi identificada por Corsaro (2009), sendo que as crianças americanas de classe média recorriam a outras estratégias para controlarem o comportamento dos pares, como a recusa da amizade e do convite à festa de aniversário. A diferenciação é vista nas separações por gênero nas crianças mais novas, que preferem brincar com outras crianças do mesmo sexo. Contudo, o referido estudo defende que pesquisadores devem atentar também para as similaridades entre os grupos de meninos e meninas, pois suas diferenças são muitas vezes superestimadas. Thorn (1993 apud JAMES, JENKS e PROUT, 2005) já avisava desta tendência nos estudos sobre gênero ao reproduzir uma visão estereotipada de que os garotos se importam mais com hierarquia e poder, e o no grupo de meninas o vínculo e o afeto seriam preponderantes.

7 A escola autorizou a divulgação do seu nome neste estudo, mediante declaração para este fim, em posse da pesquisadora.

62 Ferreira (2004) publica os achados de sua tese, realizada em 2002, onde, a partir de estudo etnográfico com crianças de três a seis anos em um jardim de infância português, discorre sobre as culturas de pares na perspectiva da Sociologia da Infância. A pesquisa detalha as culturas de pares em termos de rotinas de ação não como elementos repetitivos e estáticos, como o termo poderia sugerir, mas sim interações dinâmicas constantemente negociadas e reproduzidas entre as crianças, de modo a permitir-lhes instituir suas ordens sociais. Assim, essa concepção se dá com a compreensão de um estabelecimento de regras que criam contextos de favorecimento desigual dos atores, nas suas negociações e conflitos entre si e perante o mundo adulto. As resistências e confrontos de ordem adulta são então visibilizados, permitindo compreender como as crianças fazem valer seus modos de organização e compreensão do mundo dentro dos constrangimentos impostos pela ordem escolar.

Outro estudo com o qual dialogaremos é o de Trevisan (2006) a respeito de como se constroem os afetos e amores na cultura de pares. Em dissertação, a autora discute seus achados ao acompanhar, em observação etnográfica, grupos escolares entre seis a dez anos. Ela considera que os sentimentos serão estruturantes e estruturadores dos posicionamentos e ações da criança no grupo de pares e a importância simbólica das amizades para as crianças é ressaltada. Quanto mais popular, maior a rede de amigos e vice e versa. O que faz com que uma criança seja mais procurada pode ser variável, sendo requisitos frequentes o desafio aos adultos, além de dotes físicos como força e beleza. O estudo revela ainda a necessidade de uma rede de amizades mais ampla, que se sobrepõe a necessidade de amizades mais profundas para as crianças mais novas, ao contrário do que se observa nas crianças mais velhas, para quem, a medida que envelhecem, as questões da fidelidade e honestidade vão se tornar mais relevantes. O conflito também parece ser constitutivo das relações de amizade, sendo resolvido, naquele grupo investigado, pela avaliação da gravidade do delito e pela reparação, o que pode comportar um período de suspensão da amizade ou sua ruptura. Para o interesse romântico, Trevisan (2006) percebe que as crianças mais procuradas são aquelas mais belas ou mais populares, e na dinâmica do grupo de pares há um monitoramento das relações amorosas, sendo presenciados namoros e casamentos. Tais relações são submetidas a constrangimentos, pois não são vistas com a mesma seriedade por adultos e crianças, além do fato de que as crianças têm restritos seus tempo e recursos financeiros para fazer o que gostariam, sendo a partir disso que os adultos regulam o desenvolvimento sócio-emocional das crianças. A autora aponta como possíveis estudos a investigação da raça/etnia e da classe social nestas relações.

63 O conhecimento sobre as culturas de pares do que Corsaro (2009) chamou de sociedades não-ocidentais (Ásia, África e América do Sul) é menor, pois as pesquisas, tendem a investigar o desenvolvimento psicológico ou a situação de pobreza dessas crianças, de modo a subsidiar políticas para melhorar sua condição. Some-se a isso o fato de que as publicações científicas nas quais estas investigações são veiculadas não estão em inglês, o que restringe sua circulação. Por isso, Corsaro (2009) considera que os pesquisadores devem ser menos dependentes do inglês como língua dominante no mundo acadêmico ocidental. É interessante ler esta autocrítica justamente em um livro escrito em inglês e pensamos que tal direção também é apontada por Boaventura Sousa Santos (2010) nas Epistemologias do Sul.

O que há em comum nas pesquisas citadas por Corsaro (2009) é o fato de que as crianças não-ocidentais estão envolvidas com a atividade laboral. Isto acontece por uma situação de pobreza, orfandade, maus-tratos ou como contribuição financeira para a família. Crianças em situação de rua demonstram, de acordo com estudos realizados no Brasil, na África e na Turquia, autonomia frente aos adultos, embora estejam vulneráveis à violência policial, de outros moradores de rua ou de adultos em geral. Contudo, a vida de crianças que estão sob a supervisão de adultos é pouco documentada, portanto não se tem muitos dados sobre como elas desafiam a autoridade deles e como produzem a cultura de pares.

Inicialmente abordamos estudos referentes à cultura de pares e, no capítulo seguinte, focalizaremos pesquisas que tematizam questões étnico-raciais. Borba (2005), em tese fundamentada na Sociologia da Infância, aborda especificamente as culturas da infância e as concebe como formas de ação social pelas quais as crianças se constituem como grupos de pares. Em observação etnográfica de grupos escolares entre quatro e seis anos, este trabalho registra os conhecimentos partilhados, suas ordens instituídas, a organização e o funcionamento dos seus grupos, concluindo que a brincadeira é a atividade criadora através da qual as crianças leem o mundo e participam socialmente. Dialogaremos também com os achados específicos de Borba (2005) nas análises da cultura de pares investigadas nesta tese.

Outro estudo que nos interessa é a tese de Salgado (2005) que, numa perspectiva bakhtiniana, investiga identidades e valores das crianças em relação aos desenhos animados. Em pesquisa intervenção na escola com cerca de 21 crianças entre cinco e seis anos, a cultura lúdica é abordada de modo a compreendermos o estofo do conhecimento compartilhado na cultura de pares. A pesquisadora compreende a identidade da criança contemporânea em relação à narrativa dos desenhos animados, apontando por fim que ela se identifica com a figura do herói, mas um herói que desenvolve as próprias habilidades, em contraponto com o imaginário da infância fragilizada e incompetente. Já Dornelles (2005) utiliza-se das lentes

64 foucaultianas para analisar o cenário da infância atual, constituindo infâncias que nos escapam a partir da governamentalidade e do cuidado de si. São apresentados dois grandes modos de vivência da infância, num recorte que leva em conta o acesso aos bens sociais e ao que seria considerado um maior estado de vulnerabilidade social: a cyberinfância e a infância ninja. A primeira diz respeito à cultura de crianças abastadas que dominam um saber tecnológico. A infância ninja diz respeito às crianças marginalizadas que crescem com o mínimo apoio da sociedade adulta, cuidando da própria sobrevivência. Estes estudos organizam um quadro de maior explicitação da questão das culturas da infância em diversas perspectivas.

Quanto à diferenciação de status, de gênero e conflitos, Corsaro (2009) aponta alguns padrões: a diferenciação de gênero acontece sobretudo relacionada ao trabalho direcionado a meninos ou meninas e nas brincadeiras nota-se alguma diferenciação, posto que as crianças não-ocidentais passam mais tempo em grupos de gênero misto do que as ocidentais. Quanto ao conflito, os estudos não demonstram a presença de um adulto para arbitrar disputas, as crianças devem ser capazes de resolvê-los por si mesmas. Outro padrão apontado é a tendência da manutenção da coesão do grupo em detrimento dos interesses individuais, o que não acontece com as crianças ocidentais, mais orientadas para objetivos individuais desde cedo na vida.

Por fim, o referido autor considera que o futuro dos estudos sobre cultura de pares são pesquisas cross-culturais e interdisciplinares a partir da Educação, da Antropologia, da Sociologia, da Psicologia, da Geografia, da História e do Folclore. Outra tendência é considerar que as crianças ocidentais tornam-se cada vez mais institucionalizadas e com acesso a novas tecnologias. Também são desenvolvidos estudos que enfatizam a participação de crianças como pesquisadoras e enfocam sua participação política. Marcadamente, para Corsaro (2009) o que garante a relevância dos estudos sobre culturas de pares na infância será a diversidade e a complexidade dessas práticas e de seus cotidianos.

Nesta direção, abordamos a dissertação de Colona (2012), intitulada “Eu é que fico com a minha irmã: vida quotidiana das crianças na periferia de Maputo”. São relatadas as experiências cotidianas das crianças que cuidam de crianças, seus espaços e tempos de vida, suas relações entre pares e como questões transversais apresentam o gênero e os direitos. Teoricamente, parte de um diálogo entre a Sociologia da Infância e Estudos Africanos para a construção de um saber não-adultocêntrico e não-etnocêntrico. A autora questiona, assim, as ideias e os conceitos ocidentais globalizados e a imagem da criança fora da norma, tornando visível o padrão eurocêntrico. A criança considerada fora da norma é aquela avessa à fantasia cultural ocidental de criança inocente e vulnerável. Estas crianças podem ser invisibilisadas

65 no desencontro entre suas perspectivas e interesses e os das instituições nas quais se inserem.

Os Estudos da Infância e os Estudos Africanos, juntos, deparam-se assim com o desafio de evitar a “dupla exclusão” das crianças africanas: uma exclusão geracional, uma vez que só recentemente as crianças tem conseguido o estatuto de actores sociais, que merecem ser estudados “pelos seus próprios méritos” (Qvortrup, 1999), e uma exclusão geográfica, uma vez que os próprios Estudos da Infância nasceram e têm se desenvolvido sobretudo no Mundo Minoritário e a partir dos seus conceitos. (COLONA, 2012, p.41)

A opção metodológica escolhida por Colona (2012) foi uma etnografia participativa e visual - com entrevistas, grupos de discussão, pequenas dramatizações, conversas informais (técnicas de carácter oral), fotografias, vídeos, desenhos (técnicas de carácter visual), ensaios e diários (técnicas escritas). Em um período de 18 meses, a pesquisa foi dividida em duas etapas: a primeira teve lugar de agosto a novembro de 2008: Colona observou 3 turmas da 6ª classe de uma escola primária de um bairro da periferia de Maputo, em Moçambique, num total de 120 crianças entre os 10 e os 17 anos de idade. A segunda foi entre março de 2009 e janeiro de 2010, acompanhando seis crianças, três meninos e três meninas. Buscou momentos livres, mais do que os institucionalizados. A pesquisadora se pergunta onde, quando e como acontece a atividade de cuidar de crianças e encontra as dimensões funcional (para ajudar a família), relacional (poder, ensino e afeto) e lúdica (ter companhia para brincar).

A sociedade moçambicana é caracterizada pela hierarquia da idade, o que confere poder à criança mais velha ao cuidar de outra mais nova. Na contramão dos estudos sobre as crianças europeias, a criança moçambicana estudada não sofre de solidão, estando sempre com outras crianças. A autora aplicou um questionário e verificou que a atividade de cuidar de outras crianças faz parte do cotidiano, é identificado pelas crianças como algo a ser feito por elas, ao invés de pais e avós, e tem a ver com o dever e o direito de participar da vida familiar. Quanto ao gênero, a tarefa era considerada “normal” para as meninas e um fardo para os meninos, mas ambos a exerciam. A escolha da criança cuidadora passa por fatores como horário de escola, idade e afinidade com o tema. Alguns trabalhos como dar banho e comida e “nenecar” - carregar o bebê amarrado às costas - eram considerados “de menina”. O limite entre a autonomia e a falta de cuidados é um a questão remanescente para Colona (2012), pois, ainda que pareçam fora do padrão eurocêntrico e globalizado, as crianças africanas fazem sentido em seu próprio contexto.

Quanto ao encontro dos Estudos da Infância com os estudos africanos, a autora caracteriza historicamente o surgimento de uma nova orientação dos estudos da infância a partir da Convenção dos Direitos Humanos. Teoricamente, se utiliza dos conceitos de geração, agência e infância como estrutura social e afirmação de sua legitimidade como ator social. A

66 busca pela desconstrução epistemológica e pela produção de um conhecimento relevante da África e sobre crianças é o ponto de diálogo entre os estudos africanos e os Estudos da Infância.

No capítulo a seguir, inicialmente abordamos as noções de Cultura, Discurso e Sujeito para compreender de que modo a África é trazida para o cenário educativo brasileiro e o impacto disto nas relações entre as crianças na escola. Aí então serão examinados os estudos que tematizaram a raça/etnia entre crianças no Brasil.

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3 CULTURA, DISCURSO E SUJEITO: A PROPÓSITO DA DISCUSSÃO SOBRE