4 Results
4.2 Bulk measurements
A Metodologia de Sistemas Flexíveis (SSM – Soft System Methodology) foi desenvolvida na década de 60 pela equipe de Peter Checkland, do Departamento de Sistemas e Administração de Informações da Universidade de Lancaster (MARTINELLI; VENTURA, 2005).
A metodologia SSM é baseada no pensamento sistêmico. Ela enxerga o domínio do problema de forma holística, ao invés de enxergar de maneira reducionista, reconhecendo que as partes do sistema estão interconectadas, o que faz com que uma mudança em uma parte do sistema afete outras partes. Não obstante, o pensamento sistêmico reconhece que um problema em um domínio é apenas um subsistema de outros sistemas maiores. Dessa forma as mudanças podem afetar outros sistemas também. (CHECKLAND, 1981)
Costa (2003) afirma que “a SSM se baseia no pensamento sistêmico, constituindo, assim, uma linguagem sistêmica. Neste sentido, é apropriada para estudos em que o problema investigado pode ser definido e analisado como sistema”.
Por ter dado ênfase no contexto social e na subjetividade, a SSM diferencia-se das metodologias “hard” por não se preocupar em ficar testando hipóteses utilizando dados quantitativos. Ao invés disso, a “metodologia SSM se concentra nas ambiguidades organizacionais e contextuais, e se preocupa em avaliar as situações problemáticas do ponto de vista social, buscando mudanças nos relacionamentos e a realização de melhorias” (JACOBS, 2004).
Ensslin (2002) ressalta que a metodologia SSM pode ser considerada uma abordagem prática – em função de sua perspectiva orientada para a ação – para a compreensão de questões complexas e com a finalidade de aprendizado e ação. Para a autora o objetivo geral da SSM pode ser formulado em termos de se constituir como uma metodologia para facilitar a ação.
Rossoni (2005) diz que o pensamento de Vickers (1983) influenciou o desenvolvimento da metodologia com a criação do conceito de apreciação, que é um ato mental, avaliativo, no qual normas conflitantes e valores determinam quais são os fatos relevantes, enquanto os fatos percebidos ou considerados exigem atenção, porque são vistos como relevantes para certas normas e valores.
A metodologia SSM pode ser aplicada em problemas não-estruturados, na definição problemática de objetivos, em sistemas sociais (MAUAD et al., 2003), bem como nas
disciplinas de Biologia, Ecologia, Economia, Demografia, Gestão, Engenharia, dentre outras. A metodologia utiliza uma abordagem holística para resolver problemas, os quais não podem ser resolvidos pela abordagem tradicional reducionista, com o fluxo da lógica baseada em indagações.
Costa (2003) constatou que o uso da SSM como Metodologia de pesquisa tem sido, via de regra, em pesquisa aplicada. A autora afirma que a utilização da SSM em projetos de pesquisa na Ciência da Informação pode contribuir para a discussão de questões típicas da área.
A Metodologia de Sistemas Flexíveis possui sete etapas distintas: • Estágio 1: situação-problema não estruturada;
• Estágio 2: situação-problema estruturada;
• Estágio 3: definições fundamentais dos sistemas relevantes; • Estágio 4: construção de modelos conceituais;
• Estágio 5: comparação dos modelos conceituais (4) com a realidade (2); • Estágio 6: identificação das mudanças desejáveis e possíveis; e
• Estágio 7: ações para melhorar a situação-problema.
De acordo com a Figura 30, os estágios 1, 2, 5, 6 e 7 são atividades que envolvem as pessoas no mundo real, e as etapas 3 e 4, ao pensamento sistêmico.
Figura 30 – Estágios da Metodologia SSM (Soft Systems Methodology) Fonte: Adaptado de Checkland (1999)
3.2.1 Situação-problema não Estruturada
Nos estágios 1 e 2 são desenvolvidos “retratos” da situação-problema com a maior riqueza de detalhes possível e trazidas informações fiéis da realidade, sem estrutura pré- concebida. Nesses estágios se expressam as situações para que os pontos relevantes sejam revelados.
O propósito do estágio 1 é garantir uma compreensão geral e uma visão global da situação-problema. Para isso, as pessoas envolvidas devem ser identificadas, bem como suas percepções sobre a situação, como estão organizadas e quais são os processos em que estão envolvidas dentro da organização (CHECKLAND, 1999).
O pesquisador deve se esforçar para realizar uma descrição geral e compreender a situação-problema apresentada, incluindo-se, nesse estágio, a compreensão das políticas internas do ambiente a ser estudado. Normalmente, isso envolve contato com os membros e acesso a documentos da organização. O procedimento para esse estágio inclui a definição de quem deverá ser entrevistado e das questões que podem ajudar na compreensão da situação- problema no ambiente do estudo.
Assim, deve-se buscar examinar a informação disponível e entender, tanto quanto possível, quem e o que é importante para a organização, identificando especificidades e ações realizadas para o alcance dos objetivos organizacionais.
Segundo Sherata e Bowen (2001), esse estágio não possui uma ferramenta específica predefinida a ser utilizada, sendo a experiência do pesquisador um fator fundamental para a definição de pessoas, questões, documentos e materiais do estudo.
3.2.2 Situação-problema Estruturada
O estágio 2 corresponde à estruturação e expressão da informação e à compreensão da situação-problema, com a finalidade de facilitar a análise que será realizada nos estágios seguintes. O procedimento, para essa fase, está baseado na prática do pesquisador, com a utilização de ferramentas que possam ajudá-lo a compreender a situação-problema apresentada. Nesse caso, para o desenvolvimento da SSM, a “rich picture” tem sido a ferramenta de análise de escolha por não possuir recomendação de estilos e não exigir um padrão certo ou errado de representação. O mais importante é que os atores envolvidos no
processo reconheçam a rich picture como uma representação da situação em que estão inseridos. (CHECKLAND, 1999)
Para desenhar um rich picture, conforme Couprie et al. (1997), pode-se utilizar símbolos ou gravuras para dar significado à representação e torná-la o mais facilmente compreendida possível, ou seja, para prover um modelo que permita pensar sobre o sistema e auxiliar o analista a se aproximar da apreciação da situação-problema. É importante notar a diferença entre rich picture e modelos formais. A primeira não busca modelar o sistema de forma precisa, mas representa como o sistema pode ser visto e pensado, podendo ser refinada à medida que o entendimento do sistema fique mais claro.
Checkland (1999) afirma que, para o entendimento da situação-problema, as rich pictures devem expressar a visão (ou as visões) daqueles que fazem parte do estudo, suas convicções, particularidades e conflitos potenciais dentro do sistema. A partir dessas representações gráficas, é possível utilizar os conceitos de estrutura e de processo e a relação entre ambos para o entendimento da situação-problema.
3.2.3 Definições Fundamentais dos Sistemas Relevantes
No estágio 3 são identificados os sistemas relevantes para o problema (“definição de raízes dos sistemas relevantes” ou “raiz do problema”). Nele, os participantes são conduzidos do “mundo real” para os “modelos mentais”.
Uma definição fundamental (Root Definition – RD) deve ser uma descrição concisa sobre uma visão específica de um sistema de atividade humana. É elaborada a partir da identificação e descrição de sistemas relevantes, identificados na situação-problema estruturada, com a finalidade de expressar as principais propostas do sistema de atividade humana em questão. Pode ser expressa como uma transformação da situação-problema, de forma a se produzir uma nova situação. Esse processo de transformação é a chave da SSM e descreve a ação de transformação. (CHECKLAND, 1999)
Shehata e Bowen (2001) sugerem uma maneira de se formular definições fundamentais de sistemas relevantes: “Um sistema que ... por meio de ... com o objetivo de ...”.
Pode-se perceber que a proposta dos autores é composta por três partes: “qual” é a pretensão imediata do sistema, “como” e “para que” alcançá-la.
Após os sistemas relevantes serem definidos, eles devem ser acompanhados pela identificação dos elementos “CATWOE”, nome atribuído por Checkland para o conjunto de
elementos utilizado para que se defina no que consistem os sistemas. A sigla CATWOE foi transcrita a partir de Checkland e Scholes (1990) e pode ser interpretada da seguinte maneira:
• C [Customers]: clientes/beneficiários; • A [Actors]: atores/conduzem as atividades;
• T [Transformation process]: processo de transformações/entradas e saídas do sistema; • W [Weltanschauung]: visão de mundo/percepção;
• O [Owner]: decisores/detentores do problema; e • E [Environment]: ambiente/restrições externas.
3.2.4 Construção de Modelos Conceituais
No estágio 4 deve ser construído o modelo conceitual, que é a descrição dos meios necessários para que o sistema represente realmente a situação desejada. Essa construção consiste em uma expansão lógica da definição em atividades que o sistema deverá realizar para alcançar o que foi descrito no estágio anterior (WILSON, 1990).
É importante que o modelo conceitual permita a visualização dos recursos disponíveis para o processo de tomada de decisão em seus diversos níveis. Deve, também, ter estabilidade em longo prazo a fim de que seus componentes possam absorver as ações que serão desmembradas em subsistemas menores.
Segundo Shehata e Bowen (2001), este é o estágio em que o pesquisador deve determinar como novas ideias, geradas a partir da modelagem, podem ser utilizadas na situação prática que está sendo examinada. A consequência desse processo é a construção de um modelo conceitual capaz de fornecer os alicerces das mudanças possíveis e desejadas, a serem definidas nos estágios finais da metodologia.
3.2.5 Comparação dos Modelos Conceituais com a Realidade
O estágio 5 compara o modelo conceitual com a realidade descrita no estágio 2. Os participantes da situação devem ser envolvidos no processo, e as mudanças necessárias devem ser apresentadas, formando a base da discussão sobre as mudanças passíveis de serem implementadas (transformação da realidade), o que será feito no estágio 6, para que, no estágio 7, tais mudanças sejam implementadas, levando-se em conta as ações julgadas relevantes.
Cabe ressaltar que, no estágio 5, após passar pelos modelos mentais, o analista inicia um debate considerando mudanças desejáveis ou viáveis e que, nesse momento, levanta discussões para comparar os modelos construídos no estágio anterior com a situação- problema. Checkland (1981) descreve a comparação como um confronto entre “o que” com “como”. O autor afirma que há quatro formas de realizar o “confronto”:
a) discussão informal; b) questionamento formal;
c) descrição de cenários baseado em modelos operacionais, reconstruído na sequência dos eventos no passado;
d) “construir” o modelo “mundo real”, da mesma forma que o “modelo conceitual” e comparar.
Dependendo da percepção do problema, um ou mais métodos podem ser utilizados na comparação (COUPRIE et al., 1997).
3.2.6 Identificação das Mudanças Desejáveis e Possíveis
No estágio 6, mudanças possíveis e desejáveis são identificadas e discutidas (WILSON, 1990).
As mudanças propostas nesse estágio devem ser examinadas e, para cada uma, deve-se descrever as razões, natureza, passos e efeitos em longo prazo (SHEHATA; BOWEN, 2001).
Checkland (1981) afirma que as mudanças devem ser resultado da seleção das definições fundamentais e do modelo conceitual construído e, portanto, sistêmicas. Além disso, não devem se contrapor às características da situação, das pessoas envolvidas, de suas experiências e juízos.
3.2.7 Ações para Melhorar a Situação-problema
O propósito do estágio 7 é implementar as mudanças e colocá-las em ação. Segundo Wilson (1990), um sistema temporário deve ser utilizado para executar as tarefas sob a supervisão do analista, que deve acompanhar a transição da operação ao novo sistema.
Resumidamente, pode-se afirmar que a aplicação da SSM aborda quatro atividades principais: inicialmente, procura-se entender uma situação problemática, considerando as dimensões humanas, sociais, políticas e culturais; passa-se, então, a formular modelos
conceituais relevantes de atividade intencional; a situação entra, assim, em debate e, por fim, toma-se uma ação na situação para produzir melhoria. É importante lembrar que a metodologia SSM não é linear. Interações devem ser realizadas e, no debate (estágio 5), pode- se retornar à análise inicial e às definições fundamentais. (CHECKLAND, 1981)