A.2 Información almacenada
A.2.3 Tabla TCZ_IBEX35
O debate sobre a saída ou submissão da internacionalização da educação exige uma leitura mais aprofundada em espaços para além da educação. Sendo
assim, economia e política, constituem-se como meio potencial a reflexão do projeto societal, ora implicito às políticas de internacionalização da educação.
Não dá para pensar em educação sem pensar no financiamento, uma vez que uma educação de qualidade é consequente de um planejamento comprometido com um ensino significativo e adequado às reais situações demandadas pela contemporaneidade e por seus sujeitos. No entanto, cabe questionar sobre o modelo de financiamento que se pretende. Pois, não se pode atender ao projeto dos senhores de negócio e aceitar o financiamento ao setor social como consequência da mera validação das estratégias do banco mundial.
Segundo o documento do Banco Mundial Learning for All: Investing in
People’s Knowledge and Skills to Promote Development (Aprendizagem para
todos: investir no conhecimento das pessoas e habilidades para promover o desenvolvimento) o foco na aprendizagem se dá pelo fato de que o
[…] crescimento, desenvolvimento e redução da pobreza dependem do conhecimento e as habilidades que as pessoas adquirem, não apenas o número de anos que eles se sentam em uma sala de aula […] são as competências de um trabalhador que determinam sua produtividade e capacidade de adaptação às novas tecnologias e oportunidades (BM, 2011, p.8).
Fica evidente que a ausência de um projeto de sociedade claro e coerente por parte dos países em desenvolvimento acaba por colocá-los como presas fáceis ao “novo modelo de desenvolvimento”, que se constitui no contraponto ao projeto tradicional (FONSECA, 2015). Porém, esse modelo de desenvolvimento não satisfaz o percurso reflexivo desta tese uma vez que nos contrapomos a esse modelo que pauta-se apenas na dimensão econômica e que a educação é espaço ideológico e estratégico na consolidação das investidas do capital.
O Banco Mundial vem ao longo de quase sete décadas identificando as fragilidades dos países emergentes e determinando as políticas nesses países, em especial a política educacional.
Com as condicionalidades estabelecidas pelo Banco Mundial para injeção de dinheiro nos países endividados, as políticas de Estado foram elaboradas com intuito de atender as condições estabelecidas. Nesse sentido, no que tange às políticas educacionais, estas corroboram com a concepção dos Organismos Internacionais de que a escola é espaço mercadológico de
competição e deve basear‐se em princípios meritocráticos justificando dessa forma a desigualdade com a possibilidade de mobilidade social (GARCIA & SOUZA, 2014, p. 06).
Em nossa leitura, o desenvolvimento não pode nem deve ser concebido sem a ideia do social, pois com essa perspectiva a sociedade passa a ser entendida em sua totalidade, ou seja, seus sujeitos e contextos, o que permitirá maior envolvimento de todos e todas, constituindo um projeto coletivo de sociedade capaz de orientar o desenvolvimento de forma integrada às sociedades em todo o mundo. No entanto a proposta que vem se consolidando no mundo a partir do interesse e orientação ideológica do BM é que o processo de disputa, a individualidade e empenho pessoal darão resposta ao desejo de sucesso dos indivíduos, tal perspectiva retira do estado o papel de gestor e promotor de política que garantam direitos e corrija as desigualdades sociais.
[…] a educação é colocada como parte essencial do desenvolvimento, devendo ser planejada a apartir de um diagnóstico da situação socioeconômica e educacional, atribuindo maior atenção às formação básica, à superação dos problemas de repetência escolar, à preparação pessoal técnico e à qualidade do ensino (OLIVEIRA, 2015, p. 81).
Oliveira nos aponta a essencialidade de um desenvolvimento cunhado na compreensão da teia de relações que constituem a totalidade das sociedades, onde a educação é uma ferramenta de enfrentamento, mas não a panacéia. Ao compreendê-la assim, teremos possibilidade de perceber que o modelo presente hoje em nossa sociedade não satisfaz ao nosso permanente desafio como pesquisador.
Discutir a educação precisa ser uma pauta constante aos profissionais da educação, pois é na mobilização e organicidade coletiva que se torna mais clara e efetiva à luta de classe.
A avaliação externa, tão presente na atualidade brasileira faz parte da realidade de todos os países, embora as condições específicas não favoreçam um modelo de educação para as exigências da política estandartizada da avaliação mundial, logo cabe ao Brasil apresentar de forma coerente seu próprio modelo, e/ou apropriar-se dos indicadores e dos resultados ora apresentados nos testes, os quais até então só tem revelado superficialidades desse modelo educativo que
satisfaz muito mais ao projeto do capital, e portanto, da classe dominante, em detrimento de uma sociedade de direitos sociais qualificados a todos e todas.
A ação política local (nacional), não pode negar as articulações com a aldeia global, logo as relações mercadológicas continuarão ocorrendo em paralelo. Assim, Batista (2009, p. 2) afirma que “[...] o pressuposto do governo [...] é que o desemprego é conseqüência da baixa escolaridade e da desqualificação do segmento mais vulnerável da população [...]” continue a fomentar medidas estratégicas, as quais são justificadas pelos resultados apresentados pela educação em todos os países, mas não podemos esquecer que o projeto dominante condiciona as nações mais ricas em insumos, menos desenvolvidas em tecnologias e mais dependentes financeiramente, tal situação revela que tudo está conectado, ou seja, há uma rede de negócios, um mercado global, que subsume as sociedades aos senhores de negócio.
[…] a quantidade e a qualidade da educação para os diferentes países são definidas na justa medida do modelo global, isto é, na qual a participação da sociedade local não se faz presente. Assim delimitado, o setor educacional intensifica a sua dependência, em nome de uma Cooperação Técnica e financeira que se anuncia como redentora da pobreza e como guardiã da autonomia das nações em desenvolvimento (FONSECA, 1997, p. 62).
Segundo Fonseca (1997), o modelo global é desigual, pois cria um estigma ideológico de que o poder, ou melhor, o desenvolvimento, momentaneamente escamoteado, negado como econômico é fator determinante para manutenção do poder capitalista.
A educação, importante base da área social de qualquer nação carrega consigo uma herança subserviente. Assim, a cooperação técnica e financeira configura-se como a forma imediata de condicionamento dessas parcerias, ou melhor, desses negócios entre países dominantes e dominados.
A reestruturação produtiva apontou sob a égide do capital uma nova tendência cunhada na perspectiva reveladora das competências dos trabalhadores, as quais seriam perceptíveis por meio de novas atitudes e habilidades reveladas por novos conhecimentos científicos e tecnológicos. Tudo isso revelado pelas exigências do mercado.
O mundo contemporâneo reflete aquilo que a história do capitalismo fundiu logo o debate sobre empregabilidade40, crise do emprego, mercado de trabalho41
são elementos presentes no meio socioeconômico e político, motivo pelo qual não podem ser negados. Mas, também não podem ser banalizados e/ou tratados diante de superficialidades cuja ideologia simplesmente trata como crise e condiciona às perdas da classe trabalhadora à manutenção do equilíbrio econômico mundial.
Como proposta à mudança econômica na América Latina a CEPAL […] indica o caminho que os países latino-americanos devem seguir para sua inserção no mercado mundial. Para tanto, reintera a necessidade de desenvolver condições de competitividade assentada na incorporação, deliberada e sistemática, do progresso técnico ao processo produtivo […] (OLIVEIRA, 2010, p. 81).
Sob justificativa de romper com a crise educacional na América Latina a CEPAL propunha já na década de 90 sete pontos para tal enfrentamento, a saber:
Superar o relativo isolamento do sistema de educação, de capacitação e de aquisição de conhecimentos científicos e tecnológicos, abrindo-os aos requerimentos sociais; assegurar o acesso universal aos códigos de modernidade; impulsionar a criatividade no acesso a difusão e a inovação em matéria científico- tecnológica; gestão institucional responsável; profissionalização e valorização dos educadores; compromisso financeiro da sociedade com a educação; cooperação regional e internacional […] (OLIVEIRA, 2010, p. 84).
O primeiro deles refere-se à superação do isolamento dos sistemas de educação, isso implicaria em uma melhor e mais adequada qualificação dos conhecimentos científicos e tecnológicos, por parte dos profissionais dos sistemas, oportunizando assim uma leitura mais adequada dos problemas sociais aos quais relacionam-se com o processo educativo.
O segundo refere-se a assegurar o acesso universal aos códigos de modernidade, ou seja, ter conhecimento das produções intelectuais acumuadas
40 “[…] definida como o eixo fundamental de um conjunto de políticas supostamente destinadas a diminuir os riscos sociais do grande tormento deste final de século: o desemprego.” (GENTILI, 2005, p. 52).
41Compreendido… como uma categoria que remete-se à ocupação formal, refletida no emprego, a qual se relacionar com a regulação e controle da produção humana. Sendo assim, aliena com e pelo trabalho, caracterizado como mera ação de troca, onde o homem é subsumido à mercadoria. Debate presente em sociologia e política de trabalho (YANNOULA & SOARES, 2009).
ao longo da história da humanidade, o interessante é que no apontamento não se fala da apropriação crítica, do desejo de mudança ou de perspectivas dignas a todos e todas.
Ao entrarmos no terceiro ponto apresentado pela CEPAL visualizamos que há o indicativo de impulsão à criatividade no acesso a difusão e a inovação em matéria científico-tecnológica. Contudo, não se coloca o que é vital ou mesmo mais importante a cada país, nem tampouco sinaliza o que eles devem centralizar em seu projeto de desenvolvimento educativo, afinal trata-se do projeto da CEPAL (representante das nações unidas, fruto do projeto burguês de controle mundial) e não dos projetos de cada país, isso não pode ser perdido de vista.
Ao entrar no quarto ponto, a gestão institucional responsável, a CEPAL sinaliza a importância do gerencialismo e do controle. Aqui a escola é vista como fábrica e os sujeitos, os alunos, objetos na linha de produção do capital cultural, elemento permanente e fundante na teoria do capital humano. Daí o diálogo com o quinto ponto, a profissionalização e valorização dos educadores, pois ao centrar-se na formação dos profissionais alude mais uma vez para o aumento da produtividade e superação do atraso econômico. Portanto, “A educação, então, é o principal capital humano enquanto é concebida como produtora de capacidade de trabalho, potenciadora do fator trabalho. Neste sentido é investimento como qualquer outro.” (FRIGOTTO, 2010, p. 51).
O sexto ponto estabelece o “compromisso financeiro da sociedade com a educação”, logo o compromisso não é do Estado, nem tampouco do sistema público, mas da sociedade. Sendo assim, corresponsabiliza a todos pelo financiamento da educação, algo que para nós é inadequado, uma vez que de modo geral, já que a educação é um direito fundamental, é determinante que esta seja financiada pelo Estado, fazendo a conexão com o conceito que tratamos no capítulo I, o Estado Integral. Portanto, política e economia deveriam operar dialeticamente, enfrentando as contradições na busca da essência e da totalidade do fazer educativo, cuja base social está na formação plena do homem que é sujeito.
Por fim, o sétimo ponto alude a “cooperação regional e internacional”, curioso, pois a pauta foi suscitada exatamente pela possibilidade de acordos internacionais, mas eles só estão mensionados em último na escala da CEPAL. Por que será? Talvez menos importante ou mais difícil de lidar. Seria porque ela
constitui-se no ponto mais estratégico? Bem, acreditamos que as respostas aparecerão ao longo do processo de reflexão e escrita deste texto, na medida em que vamos desvelando os documentos e o contexto da pesquisa.
Na sequência discutiremos as políticas públicas e a relação público-privada na educação profissional, a partir de então vamos centrar cada vez mais nosso objeto de estudo e desvelando o objeto de pesquisa na medida em que aprofundamos esse texto.