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A escolha do recorte territorial considerando os bairros rurais se justifica com base nos trabalhos de Candido (1971), Queiroz (1973) e Fernandes (1971), que buscam defini-lo a partir de uma perspectiva espacial. O primeiro define o “bairro rural como um grupo de vizinhança de habitat disperso, mas de contornos suficientemente consistentes para dar aos habitantes a noção de lhe pertencer” (p.67).

Um bairro poderia, deste ângulo, definir-se como o agrupamento territorial, mais ou menos denso, cujos limites são traçados pela participação dos moradores em trabalhos de ajuda mútua. É membro do bairro que convoca e é convocada para tais atividades. A obrigação bilateral é aí elemento integrante da sociedade do grupo, desta forma adquire consciência de unidade e funcionamento. (CANDIDO, p.67, 1971).

Constata-se que, para Candido (1971), o lugar constituía-se no elemento básico para delimitar a configuração de um bairro no espaço geográfico.

Para Queiroz (1973), os bairros rurais mantêm uma composição interna e relações com o meio social circundante, geralmente com a sede do município a que pertence ou com a região em que estavam implantados.

Outra consideração na definição de bairro rural é feita por Fernandes (1971). Para esse autor,

A expressão “bairro”, largamente difundida na zona rural do Estado, indica determinada área, de limites mais ou menos imprecisos, dentro da qual os habitantes mantêm estreitas relações, com conexão estabelecida por vários laços comuns e perfeita consciência de grupo (FERNANDES, p. 7, 1971).

Para os autores mencionados, o bairro rural constitui-se numa parte do espaço geográfico, isto é, numa área com seus limites geográficos, sendo constituída de certo povoamento. O sentimento de pertencimento citado por Candido (1971) leva-nos a entender que o conceito de território também se expressa entre os membros dos bairros rurais por meio das festividades religiosas, das relações de vizinhança e parentesco e na ajuda mútua. E, a abordagem de Candido (1971) nos remete a um outro conceito geográfico, o de lugar, por ser o bairro o espaço vivido.

No caso do município de Fernandópolis, verificou-se que nos bairros rurais pesquisados existe uma organização que se faz pela sua estrutura física, como a proximidade das propriedades, a presença de uma capela, de um centro comunitário e de área para entretenimento (campo de futebol), que geralmente se localiza em propriedade particular e, conseqüentemente, pelo estabelecimento de relações sociais que ocorrem por meio dos encontros religiosos (celebrações, quermesses) e o lazer (jogos de futebol).

A opção pela escolha dos bairros deu-se pelo conhecimento da pesquisadora em relação ao espaço geográfico do município, que apresenta uma concentração de pequenas propriedades localizados ao Norte, Leste, Sudeste, Sul e Sudoeste conforme se observa na figura 10. A expansão das lavouras com da cana- de-açúcar foi estimulado pela presença da usina Alcoeste, localizada na porção Noroeste do município. Por isso os bairros do Caxixi, Pulador, da Pedra, das Pedras, Aldeia, Lageado, Capivara e Coqueiro foram selecionados por se encontrar nesta localidade e por apresentarem um grande número de pequenos produtores.

Não foi delimitado o número de produtores aos quais seria aplicado o questionário por bairro. O numero de propriedades entrevistadas foi de 60, por esse número corresponder a quase 10% do total de estabelecimento com até 100 ha. Procuramos em cada bairro entrevistar o máximo dos seus moradores.

Tabela 30 - Produtores entrevistados nos bairros

Caxixi Lageado Pulador Pedra Pedras Aldeia Capivara Coqueiro TOTAL

prod. 4 3 8 10 9 13 2 11 60

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 03/2004.

Em cada estabelecimento procuramos aplicar o questionário a apenas um agricultor, que geralmente era o responsável. No entanto, isso não impediu que outros membros da família, como a esposa e/ou os filhos, participassem de maneira informal da pesquisa.

A escolha das propriedades a serem pesquisadas em cada bairro não seguiu uma seleção prévia. Com exceção do Bairro do Coqueiro, em que o EDR possuía uma relação dos moradores e do tamanho das propriedades, possibilitando fazer uma seleção dos mesmos, nos demais bairros rurais a escolha ocorreu de forma aleatória.

Constatou-se que no bairro do Coqueiro há uma organização mais estruturada que nos demais, pois conta com uma associação de agricultores e um grupo de pequenos produtores de leite formados a partir da Associação. Há ainda uma capela e um centro comunitário localizado na propriedade de um produtor que, além de servir para a realização de festas religiosas, constitui-se na sede da Associação.

Nos demais bairros verificou-se que a organização se dá como já abordamos anteriormente, pela proximidade das propriedades e pela relações

sociais que se fazem presentes na realização de celebrações e festas religiosas que se mantêm como tradição entre seus moradores, conforme figura 20 (p.189).

As transformações decorridas do processo de modernização da agricultura a partir de 1970 provocou alterações no interior desses bairros que resultaram em: a) enfraquecimento da sua organização, com a saída de parte dos moradores para a área urbana; b) redução do número de propriedades em decorrência da concentração da terra; c) alteração nas relações de trabalho, com a exclusão dos arrendatários e parceiros; d) mudanças no modo de produzir com intensificação do capital por meio das técnicas e insumos que contribuíram para a inserção do trabalho assalariado e dos contratos de trabalhos temporários, com os chamados “bóias frias”. No entanto, os pequenos produtores que permaneceram procuraram intercalar modernização e tradição, o que tem possibilitado a existência desses bairros.

No contexto econômico, o agricultor familiar se depara com as novas técnicas e com um mercado monopolizado que exige mudanças constantes do agricultor.

Nesse sentido, procurou-se também aplicar um roteiro de entrevista junto ao EDR de Fernandópolis e da Diretoria Municipal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Fernandópolis, para saber qual tem sido a contribuição dessas instituições juntos aos pequenos produtores do município.

A pesquisa de campo foi realizada no período de fevereiro a março de 2004. A dificuldade mais freqüente durante o levantamento de campo foi a desconfiança do agricultor quando da realização do primeiro contato com o pesquisadora.