O Projecto “Género e Gerações: continuidade e mudança nas narrativas familiares”, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia,117 foi coordenado por Sofia Aboim, tendo decorrido entre 2007 e 2010.
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Que inclui casais em que ambos os elementos são assalariados agrícolas, bem como casais em que pelo menos um dos cônjuges pode estar numa situação de pluriactividade ou mesmo dedicação exclusiva ao trabalho industrial.
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Referência PIHM/SOC/63508/2005. Projecto aprovado no âmbito do Concurso para Projectos de Investigação no Domínio das Relações Sociais de Género e das Políticas para a Igualdade entre Mulheres e Homens em Portugal.
Os objectivos deste projecto centraram-se nas identidades e relações sociais de género ao longo de mais de meio século da história recente portuguesa. Reconstituindo as narrativas familiares de três gerações de homens e de mulheres em duas regiões portuguesas (com padrões de modernização muito diferenciados: a NUT III da Grande Lisboa e a do Tâmega, no norte do país), investigou-se globalmente as combinatórias entre continuidade e mudança na família, analisadas numa perspectiva marcadamente intergeracional.
Reconstruiu-se, assim, as transmissões materiais e não-materiais em linhagens masculinas (avô, pai, filho) e linhagens femininas (avó, mãe, filha), processo de longo curso em que, na família, se (re)produzem as identidades e as condições objectivas que determinam a posição social relativa dos indivíduos e grupos familiares no espaço social das desigualdades de classe. Vários objectos de investigação tiveram lugar neste projecto, como pode ser constatado verificando a diversidade temática dos guiões de entrevista (Anexos B & C): a infância, adolescência e relação com os pais, os percursos escolares e profissionais, a conjugalidade e os afectos, os filhos e as biografias de fecundidade, as configurações relacionais e as redes de apoio, as atitudes e a avaliação das diferenças de género, a saúde, o corpo e a sexualidade.
Cada uma das gerações analisadas corresponde não só a uma posição genealógica nas linhagens familiares, particularmente propícias à investigação de transmissões e descontinuidades (Biblarz, Bengtson & Bucur 1996; Favart-Jardon 2002; Kellerhals, Ferreira & Perrenoud 2002), como se consubstanciam igualmente enquanto gerações sócio-culturais, cada uma delas resultado relativo de diferentes processos históricos (Manheim 1952 [1927]; Elder 1974; Hareven 1982 & 1994; Glenn 2003), ligando histórias individuais, familiares e sociais, como apontado por Bengtson & Oyama (2007).
Esta análise de linhagens familiares tri-geracionais permitiu-nos a reconstrução pormenorizada das trajectórias sociais e percursos de vida num contexto de vincados processos de mudança social e reconfiguração estrutural, assim possibilitando a tipificação e análise dos diferentes processos de mobilidade de classe a nível micro-social (individual e familiar), aferindo das suas causalidades, em termos de percursos de vida face a oportunidades estruturais, bem como do papel específico jogado pelo capital social nessas trajectórias.
2.2.2.1. A amostra intensiva
O critério principal de selecção dos entrevistados das 20 linhagens (num total de 60 entrevistas) foi o de assegurar a diversidade social, assim podendo captar linhagens familiares
com diferentes perfis sociais, profissionais, culturais e com diferentes percursos de mobilidade (ou reprodução) intergeracional.118 Não se tratando de um estudo estatisticamente representativo, era indubitavelmente importante garantir à partida essa diversidade social, de modo a traçar um retrato vívido e actualizado dos protagonistas das inúmeras e profundas mudanças sociais que percorrem o século XX português. O critério de partida para a selecção das linhagens familiares foi a situação escolar (e profissional) do membro da geração mais nova (Quadro 2.11).
Quadro 2.11
Entrevistados por geração e nível escolar da geração mais nova Filhos/Filhas (Geração 3) Pais/Mães (Geração 2) Avôs/Avós (Geração 1) Total Ensino Não-Superior Ensino Superior Tâmega Homens - 2 2 2 6 Mulheres 2 - 2 2 6 Lisboa Homens 4 4 8 8 24 Mulheres 5 3 8 8 24 Total 11 9 20 20 60
Seleccionaram-se, em primeiro lugar, homens e mulheres em fase de transição para a vida adulta ou nas fases iniciais da autonomização concretizada (idade média de 21 anos), residentes na área da Grande Lisboa e na do Tâmega, e com trajectórias escolares superiores e não superiores. Encontram-se depois os seus pais/mães (idade média de 49 anos) e os seus avôs/avós (idade média de 76 anos), em situações de contacto regular entre todas as gerações da família.
A cada geração de entrevistados corresponde um diferente tempo histórico de entrada na vida adulta. Os avós (geração 1) viveram debaixo do regime autoritário, repressivo, colonialista e ideologicamente paroquial e conservador do „Estado Novo‟ (1926-1974),119 tendo assistido à transição entre uma sociedade profundamente ruralizada, globalmente analfabeta e pobre, para uma sociedade crescentemente urbanizada, que se começou a industrializar e a desenvolver um amplo sector dos serviços no início da década de 1960, ao mesmo tempo que sofria as limitações de uma ditadura duradoura envolvida numa guerra colonial em três frentes africanas e extensos processos migratórias de saída da população (particularmente para os países mais desenvolvidos e democráticos do restante continente europeu). Os pais (geração 2) retratam o país das profundas mudanças revolucionárias após
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Para uma apresentação e análise detalhadas da diversidade social das linhagens, ver o capítulo „6.2. Trajectórias sociais, percursos de vida e capital social‟.
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Incluindo o período da „Ditadura Militar‟ de 1926 a 1933. Só com a Constituição de 1933 é que o desenho institucional do „Estado Novo‟, bem como a própria designação, estão claramente estabelecidos.
25 de Abril de 1974: a queda do „Estado Novo‟ no golpe militar de esquerda e subsequente processo revolucionário, que produziu a destruição das elites económicas e a nacionalização da maioria das actividades económicas de escala no contexto da primeira crise petrolífera; uma descolonização abrupta, produtora de um influxo massivo de „retornados‟ vindos das ex-colónias (Pires 2003); a normalização democrática e a constituição de um estado de direito, com amplos direitos, liberdades e garantias, claramente orientado para a integração europeia. Os filhos (geração 3) são representativos dos nascidos e criados no Portugal da União Europeia, beneficiando dos desenvolvimentos extensos alcançados nas últimas três décadas, numa sociedade marcadamente urbana e modernizada, culturalmente aberta, mais qualificada (ainda que a grande distância dos seus parceiros europeus), com uma economia crescentemente globalizada, mas sofrendo também os desajustes de um tecido produtivo, aparelho burocrático-administrativo e estrutura qualificacional com marcadas dificuldades na economia competitiva da globalização.
A diversidade regional, além da geracional, de género e de classe, foi também, desde o início, um critério na escolha das linhagens, dado o desenvolvimento territorial desigual em Portugal. No presente, as três gerações de cada linhagem habitam na região da Grande Lisboa, o centro da modernidade portuguesa, ou na região do Tâmega (particularmente no concelho
de Mondim de Basto), 120 um exemplo de mistura entre ruralidade transformada,
semi-industrialização e serviços globalmente pouco qualificados. Com esta diversidade regional, ampliada pelos processos migratórios (internos e externos) que encontrámos nas histórias familiares, procurámos alcançar e analisar percursos de vida individuais e trajectórias familiares em contextos locais com diferentes oportunidades estruturais.