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BRUKERLÆRERNES UNDERVISNING I SKOLER

Já eram umas 19 horas quando saí do fórum rumo às barcas para voltar ao Rio de Janeiro. Encontrei Josué na entrada da sede da Ordem dos Advogados do Brasil de Niterói, prédio onde ele alugava uma sala para trabalhar. Tomamos um café enquanto conversávamos sobre seu caso. Diferentemente da atitude no grupo, Josué falava comigo de maneira calma, resignada, mas sempre insistindo que era inocente e que experimentava uma injustiça. Esse foi o primeiro café de vários, antes ou depois do grupo, para conhecer mais da sua vida. Josué achava que não adiantava falar nada no grupo, porque ele já estava condenado.

Josué migrou de Salvador, na Bahia, bastante jovem, sem manter contato com a família de origem. Ele teve uma filha quando era adolescente com a qual pouco conversava. Quando chegou ao Rio de Janeiro, trabalhou em construção na Barra da Tijuca, o que já fazia na Bahia. Alguns anos mais tarde, ele se dedicou a ajudar na campanha de um vereador de Niterói, razão pela qual trasladou sua residência para esta cidade, fazendo alianças com políticos locais e iniciando seu negócio de publicidade. Ele levava uma “vida classe média” quando conheceu sua ex-companheira. Segundo alguns integrantes do grupo reflexivo, ela já devia ter dinheiro e posição social em Niterói e Josué “aproveitou” seu relacionamento como forma de ascensão social, porque “quem ia querer um ‘paraíba’?”, afirmava Cláudio19.

Josué e sua companheira se casaram e foram morar em um apartamento que era do seu sogro. “[Minha vida] deu um pulo muito grande quando entrei para trabalhar na política, eu cresci muito”. “Ajudando” os políticos, ele ganhou R$ 1 milhão, ou R$ 2 milhões. O casal viajava pela Europa, acumulava carros, comprava propriedades e tinha uma vida de muito conforto. Com a ampliação dos seus negócios, Josué precisou colocar propriedades no nome da esposa e de seu sogro, porque “eu confiava neles”. Ele pagava entre R$ 1 mil e R$ 2 mil por mês para seu sogro em troca dos favores recebidos: “eu sempre paguei com dinheiro, na política você vê sempre muito dinheiro”. Devido a contatos políticos, sua esposa começou a trabalhar no Tribunal de Justiça. Ele ressaltou este episódio como mostra de seu grau de influência na vida política do estado do Rio de Janeiro. Josué se definia como um homem generoso, que ajudava seus familiares e amigos. Com a riqueza veio a “inveja”: ele sabia que era um “paraíba”, mas não se importava, porque ele vivia para trabalhar e sempre tinha dinheiro no bolso. Com o dinheiro também veio a “falta de direcionamento espiritual”, que destruiu a sua família.

19 “Paraíba” é uma maneira depreciativa de chamar migrantes vindos da região Nordeste do Brasil, não só no Rio,

Um dia, Josué encontrou sua ex-mulher com um sócio de negócios na sua própria cama. Ele suspeitava da infidelidade porque havia escutado boatos, mas não queria acreditar que ela se relacionava com outros homens. Ele foi tomado pela “cólera” e xingou-a em repetidas ocasiões, como consta na pasta do processo no juizado. Nas provas apresentadas pela demandante, Josué mandava mensagens via e-mail dizendo que “as cadelas são mais fiéis” e que nunca esperaria traição de um animal. Isto ele repetiu várias vezes durante os encontros do grupo reflexivo, o que incomodava Aline e alguns homens. Nos documentos, ela o acusava de “infidelidade” e de “alcoolismo”, juntando cópia de comunicações via e-mail que Josué mantinha com outras mulheres e fotos dele bebendo uísque em companhia de algum político local, usando pulseiras de ouro em clubes e festas. Josué se defendia das acusações argumentando que a casa onde o casal morava era dele e ela não tinha direito de dormir ali: “Eu disse para ela: ou você sai daqui ou eu te mato, ou você manda me matar. Mas nunca passou de uma ameaça. Eu não a ameacei com palavras, só a chamei do que ela é, uma prostituta!”. A ex- mulher ameaçou denunciá-lo e pouco tempo depois ele acabou preso.

“Dormir na cadeia com bandido, meu amigo, você não sabe o que é isso”. Josué tinha medo de estar no presídio, mas rapidamente assumiu a liderança do setor onde ele estava recluso. Graças a seu advogado, ele conseguiu distribuir cigarros e fazer favores para alguns presos, como auxiliar a família de alguns deles ou ajudar no trâmite processual de outros. Josué comentou que não foi fácil viver “na imundície e sempre assustado por ser apunhalado a qualquer momento”. Depois de passar algumas semanas na cadeia com estupradores e ladrões, Josué perdeu toda a sua fortuna. Pelo fato de ser um homem reconhecido socialmente, viu seu nome manchado nos jornais e na internet. Ele estava indignado com isso. Agora, ele era um “ficha suja”, seus contatos políticos lhe deram as costas e não conseguia emprego. Josué só desejava se vingar. Em todas as nossas conversas, ele repetia insistentemente que se ele a tivesse assassinado, passaria uns anos na cadeia e agora já estaria livre. A denúncia aconteceu em 2009 e a sentença do juiz foi em 2013, obrigando-o a participar do grupo reflexivo, a assinar um termo no cartório do juizado periodicamente e a não sair da comarca até 2017: “ela vai ter que pagar cada dia, não vai ter como escapar, ela vai ter que pagar o que ela me fez”. Josué se posicionava como “vítima” pelo acontecido porque perdeu tudo o que lhe outorgava prestígio e que com esforço e dedicação havia conseguido. A tentativa dele era sempre minar a credibilidade da denunciante enquanto vítima no processo:

Ela é a vítima? Isso é o que não entendo, ela ficou com tudo o que era meu, com meus filhos, com minha casa. Não tem religião no meio, ela não é

inocente, ela é muito mais culpada que eu, tudo é armação dela porque conseguiu botar no papel.

O homem que aparecia nas fotos da pasta do processo não era o Josué que eu conheci no grupo reflexivo de gênero, pois agora tinha mais a aparência de intelectual humanista do que de político local. Após a denúncia, ele começou a assistir ao culto da Igreja do Sétimo Dia, mas parou de ir porque sempre encontrava sua ex-mulher que, para “torturá-lo”, ia com seu novo companheiro. “Tive que parar de buscar conforto espiritual nesse lugar”. Josué iniciou seus estudos sobre cristianismo; embora ele tenha crescido como católico, nunca se considerou praticante, “mas sempre fui crente”. Após três anos de pesquisa, “descobri minhas raízes judaicas”, o que fez com que Josué voltasse para a Bahia, para a ilha de origem da sua mãe, a fim de saber mais sobre os seus avós, que eram judeus expulsos de Portugal. “Descobri toda a história e aí vi que era judeu, judeu de sangue. Aí me transformei, procurei a sinagoga, fiz o

teshuvá20, fiz a circuncisão e entrei no judaísmo; isto me deu estado de consciência”.

Quando Josué falava dessa transformação, sua narrativa era calma, diferente da descrição do episódio da traição da sua ex-mulher. Após sua conversão, ele parou de beber álcool, seguia uma estrita dieta e baseava seu proceder na Torá. Também avaliava suas ações passadas e presentes como “frutos de escolhas”:

quando a gente começou a sair, eu sabia que ela não gostava de mim. Ela saiu com um ex-namorado dela quando a gente estava começando, eu soube disso e, por gostar dela, eu ainda aceitei, ela queria se casar para sair de casa e eu [estava] apaixonado por ela. Eu aceitei e agora vivo o que vivo.

Josué argumentava que o homem só pode se apaixonar e idolatrar o Eterno, em função do que não mais podia se apaixonar por uma mulher. Ele também escolheu estar longe dos seus filhos de 8, 12 e 15 anos, porque não podia forçá-los a amá-lo: “eles têm que se conscientizar e escolher entre a idolatria de uma mulher adúltera e o amor do pai”. Para contribuir com a formação dos seus filhos, Josué deu para cada um deles de presente uma Torá, bem como à sua filha mais velha de Salvador, a quem queria tirar do “espiritismo”.

Com seu novo estado de consciência outorgado pelo judaísmo, “a religião completa”, ele agia de uma “maneira correta” e reconhecia “a obra do Eterno”, porque em todos os anos do processo, de ir para audiências, de estar nos tribunais, ele nunca mais vira a ex-mulher. Josué sabia que um dia ela ia devolver tudo e pagar pelo martírio que o fez passar: “eu não vou fazer nada, ela vai pagar, como? Eu não sei, mas que vai pagar, vai pagar!”. Também reconhecia o

Eterno na sua vida porque, apesar de não ele não ter luxos nem confortos no seu pequeno apartamento em São Gonçalo, emprestado por um amigo da sinagoga que frequentava, ele sempre tinha dinheiro no bolso para pagar seu advogado e repassar a seus filhos: “as portas sempre se abriram para mim, o Eterno nunca me deixa passar necessidade”. A vida de Josué nesse momento era “solitária”. Apesar de ele reconhecer a obra do Eterno, sentia “vergonha”: ele não era um homem poderoso e não queria que seus filhos o visitassem no seu modesto local de moradia. Mas ele sabia que devia “revisar esse sentimento para ser livre”. Josué esperava conhecer uma mulher judia para conformar sua nova família. Ela tinha que “ser obediente e consciente de que você é o cabeça da família”. Ele, da sua parte, faria tudo por ela, a respeitaria e a amaria. O casamento seria uma “troca de favores: você vive para ela e ela vive para você”.