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Inicialmente, ao procurar os significados dicionarizados do termo portfólio, a primeira definição, localizada no Cambrigde Dictionary of American English (2000), é: “uma pasta grande utilizada para carregar desenhos grandes, documentos, ou outros papéis. Um portfólio também é uma coleção de desenhos ou outros papéis que representam o trabalho de uma pessoa” 16·. Outra definição de portfólio é: “uma maneira de você tornar portátil alguma coisa. Portfólio quer dizer portando folhas [...] maneira de levar uma coisa de forma preservada [...] uma coisa física, que preserva um material que será mostrado, mas que também traz um conceito na sua forma de organização.” (NAKAGAWA, 2008, p.9). A origem etimológica da palavra, por sua vez, provém das palavras italianas “portare”, que significa levar, e “foglio”, que significa papel ou folha (KEMP e TOPEROFF, 2006).

Pode-se observar, portanto, que o termo portfólio apresenta dois significados distintos, embora relacionados: (a) espaço de arquivamento e transporte de textos e (b) conjunto de textos, de trabalhos, organizados por seu autor, segundo determinados objetivos, para determinado interlocutor.

O portfólio é uma modalidade de registro retirada do campo das artes e que aparece com o objetivo de criar novas formas de avaliação para o desenvolvimento das inteligências artísticas. O seu conceito surgiu na história das artes e denomina um conjunto de trabalhos de um artista (desenhista, cartunista, fotógrafo etc.) ou de fotos de ator ou modelo usado para divulgação das produções entre os clientes. Nesse caso, é um instrumento útil pela possibilidade de poder comprovar os trabalhos individuais exemplares, as suas capacidades criadoras e artísticas. Para Camargo (apud BICUDO e SILVA JR., 1999, p. 176), os artistas “apostam no potencial de eloquência do porta-fólios para descrever o indescritível, para dizer o que não é dizível”.

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Tradução nossa do inglês “Cambrigde Dictionary of American English. Edited by Sidney I. Landau. Cambridge University Press, 2000.

Em algumas profissões, como no caso do estilismo, do cinema, da fotografia, da arquitetura, do marketing ou do design, são as próprias características pessoais, institucionais ou do produto que, mais normalmente, se procuram demonstrar com o objetivo de entrada no mercado, sendo isso o que os documentos arquivados pretendem trazer à evidência.

Embora esse conceito tenha sido emprestado de outras áreas do conhecimento, em países como os Estados Unidos da América, a Association for

Supervisionand Curriculum17considerou o uso de portfólios em educação uma das três metodologias mais credíveis, sendo uma estratégia que pode corresponder à necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a relação ensino-aprendizagem, pois permite estabelecer cada vez mais e melhor compreensão e, por conseguinte elevados índices de qualidade.

Na educação, passou-se a falar em portfólio na década de 1980 (GRUBB; COURTNEY, 1996), principalmente, nas universidades americanas (ZUBIZARRETA, 2009), como contribuição para o aprofundamento reflexivo das concepções de avaliação. Na Itália, o portfólio passou a ser divulgado na década de 1990, mas como parte da documentação pedagógica das escolas de educação infantil, da região da Reggio Emília, com o objetivo de se criar uma nova cultura de documentação. Como instrumento de avaliação e, ao mesmo tempo, estratégia de formação tem sido corrente na última década em âmbito escolar e universitário, em Portugal (SÁ-CHAVES, 2005).

Tal utilização ocorreu em função da busca por práticas de registro que pudessem responder mais adequadamente aos avanços das teorias de aprendizagem, especialmente relacionadas ao sócio-construtivismo, no qual se refere ao caráter processual do ensino e da aprendizagem, bem como da participação ativa do aluno em todas as fases desse processo.

Esse instrumento já se apresenta com algumas classificações: portfólio particular, de aprendizagem, demonstrativo e, recentemente, passa-se a incluir o webfólio (SHORES e GRACE, 2001).

17Association for Supervisionand Curriculum (ASCD), fundada em 1943, é uma organização americana de liderança educacional dedicada a promover as melhores práticas e políticas para o sucesso de cada aluno. Possui 160.000 membros em 148 países, na maioria educadores, profissionais de todos os níveis e áreas: superintendentes, supervisores, diretores, professores e membros do conselho escolar.

O primeiro tipo de portfólio, o particular, geralmente é utilizado pelos professores para manter registros de seus alunos, como boletim, informações pessoais como históricos médicos, número de telefone dos pais, etc. São, na maioria das vezes, realizados registros sistemáticos, de observações de conduta, atitudes, situações e anotações de entrevistas feitas com os alunos ou com seus familiares.

O portfólio de aprendizagem favorece a reflexão sobre o próprio aprendizado e possibilita uma comunicação mais direta entre professor e alunos, bem como entre alunos e conteúdos. Contêm anotações, rascunhos e esboço preliminar de projetos em andamento, amostras de trabalhos e diário de aprendizagem do estudante. Esse material é de consulta tanto do professor quanto do aluno.

Agregando os elementos do portfólio de aprendizagem e do particular, o terceiro tipo, o demonstrativo procura evidenciar os resultados dos trabalhos realizados, quer sejam aqueles que demonstram crescimentos efetivos, quer sejam aqueles que apontam os problemas de aprendizagem. É composto de amostras representativas de trabalhos, destacando os avanços importantes do aluno ou problemas persistentes. Além disso, ao final do ano podem ser apresentados à professora da série seguinte. Podem conter fotografias, gravações, desenhos, cópias de relatos narrativos dos alunos, trabalhos artísticos, pesquisas e diários de aprendizagem.

Por fim, o webfólio, usa tecnologias digitais como recipientes dos trabalhos, permitindo ao aluno ou ao professor colecionar e organizar artefatos de vários tipos de mídia, como áudio, vídeo, gráfico e texto, usando links de hipertexto para organizar o material, conectando a evidência aos objetivos pessoais ou aos padrões da escola ou instituição.

A seleção do material que o compõe deve ser feita em colaboração entre o professor e o aluno, fundamentada em critérios negociados, referentes aos objetivos que se pretende alcançar. O material selecionado deve ser variado, contendo registros escritos pelo professor e pelo aluno, fotos e, principalmente, amostras de trabalhos dos alunos, contemplando diversos aspectos ou dimensões de seu processo de aprendizagem.

O que caracteriza definitivamente o portfólio como um instrumento reflexivo não é somente o seu formato físico (caderno, pasta, caixa, CD-ROM, etc.), mas sim

a concepção de ensino e aprendizagem que veicula, no caso desta pesquisa, associada a uma concepção sócio-construtivista, na qual se procura entender como as crianças exploram e constroem sua leitura de mundo e como acontecem seus processos de aprendizagem.

Tal questão torna-se relevante para este estudo, uma vez que ajuda a refletir sobre a maneira com que a criança é vista e as construções de infância que perpassam o olhar dos adultos envolvidos no processo por meio de suas intervenções como educadores. Os profissionais, assim, têm a oportunidade de resolver problemas com os quais se deparam, tornando-se autores das suas práticas e não apenas aplicadores e reprodutores de soluções, revelando a natureza indissociável dos processos de formação e de vida.

De acordo com o exposto, percebe-se que são diferentes os focos sobre os quais recai a documentação: sobre a criança, sobre os contextos educativos, sobre as atividades pedagógicas, sobre as relações escola-família e escola-comunidade. Da mesma forma, são diferentes as possibilidades e modalidades de documentação construídas a partir das necessidades e características de cada contexto. Não existem, portanto, modelos definidos de como documentar, o que não significa a inexistência de critérios que permitam avaliar a adequação de uma documentação a seus propósitos e interlocutores.

A contextualização histórica apresentada e as concepções relacionadas à documentação pedagógica, discutidas neste capítulo, permitem que sejam analisados nos portfólios os diversos discursos sobre infância, a partir da constituição verbal e verbo-visual do objeto, as concepções de criança, de educador e de produção de conhecimento no processo de ensino-aprendizagem. Para compreender melhor tais conceitos, no próximo capítulo, serão tratados de maneira mais detalhada os pressupostos teóricos que fundamentam esta pesquisa.

CAPÍTULO 2

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