Subsequent practice and implementation
7.1 Books and Articles
Importante ressaltar a importância ímpar da CPT, que promove as referidas denúncias de violência no campo, além de ser um importante órgão privado no combate ao trabalho escravo, uma vez que por meio de seu engajamento na questão fundiária no Brasil, assumiu um papel de protagonista nos mais diversos movimentos sociais no campo.
Dessa feita, a CPT torna-se, nas lições de Antônio Júlio Menezes Neto272, uma instituição que passa a apoiar as lutas dos trabalhadores do campo e a reforma agrária durante o período militar. Corroborando tal entendimento, Ivo Poletto273 afirma que a CPT consiste em um: “[...] um serviço à causa dos camponeses e trabalhadores rurais, serviços de apoio às lutas, aos seus direitos, vendo neles o esforço humano de construção de uma sociedade nova, superando o capitalismo. À luz da fé em Jesus Cristo, vê nestas lutas a construção do Reino de Deus [...]”.
Fundada em Goiânia/GO, em plena ditadura militar, a CPT iniciou as suas movimentações para ser uma espécie de voz dos trabalhadores rurais, posseiros e todos aqueles que conviviam com a extrema violência nos campos brasileiros. Portanto, a CPT foi concebida para ser mais um braço a serviço dos trabalhadores e trabalhadoras do campo, além de ser um suporte para sua movimentação organizada.
A despeito da CPT integrar a organização da Igreja Apostólica Romana no Brasil, as suas atividades extrapolam aquelas limitadas às liturgias, assumindo, desta forma, um importante papel de agente social. Nesse sentido, Marco Antônio Mitidiero Júnior274, ao
272 MENEZES NETO, Antônio Júlio. A Igreja Católica e os movimentos sociais do campo: a Teologia da
Libertação e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Caderno CRH, Salvador, v. 20, nº 50, p. 331- 341, maio/ago. 2007. Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/ccrh/v20n50/v20n50a10.pdf>. Acesso em: 05 out. 2016.
273 POLETTO, Ivo. As contradições sociais e a Pastoral da Terra. In: PAIVA, Vanilda (org.). Igreja e questão
agrária. São Paulo: Edições Loyola, 1985. p. 17.
274 MITIDIERO JÚNIOR, Marco Antônio. Ação Territorial de uma Igreja Radical: Teologia da Libertação, Luta
pela Terra e Atuação da Comissão Pastoral da Terra no Estado da Paraíba. 2008. 501f. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade de São Paulo - Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. p. 156-157. Disponível em:< www.teses.usp.br/teses/.../8/8136/.../MARCO_ANTONIO_MITIDIERO_JUNIOR.pdf>. Acesso em 08 out. 2016.
transcrever entrevista concedida por Dom Balduíno, um dos protagonistas na criação da CPT, revela as características da instituição:
Ela é uma pastoral. É uma instituição no sentido pastoral, inclusive, pastoral é o conceito básico para defini-la. Como pastoral, ela tem uma conotação profundamente religiosa ligada na instituição que é uma instituição eclesial e com feições próprias e específicas. E não ela parte da fé, ela se liga à palavra de Deus, se liga muito aos trabalhadores no elemento de fé, no elemento religioso que neles é muito visível e muito palpável, tão forte quanto em nós agentes de pastoral. Seja católico seja não católico, o elemento que une se situa no universo bíblico, da Bíblica continuada hoje. Como dizia um lavrador: tem o antigo testamento, tem o novo testamento e tem o novíssimo que somos nós. E outra coisa, com relação ao conjunto da Igreja, é marginal, a pastoral é fronteira, é onde se estica ou onde pode se esticar mais o pastoral, esse universo um pouco nebuloso, nebuloso porque os conteúdos não são bem precisos, por exemplo, como são a pastoral de liturgia, de catequese, de casamento; agora pastoral da terra e das águas, ahhhh? E sobretudo envolve uma sobrevivência com um povo de luta e essa indefinição muitas vezes é: sou eu que sou protagonista ou é ele que é agente de pastoral? Na diocese de Goiás, onde se deu a origem da CPT, havia um movimento de trabalhadores que, a certa altura, queria ser CPT, na forma de encampar a CPT, quer dizer, a Igreja é a mãe, a CPT é a filha; eles queriam casar com a filha e ir embora. Tanto que tem muito bispo que acha que não deve ser assim, que não compete a eles, que cabe ao governo fazer a reforma agrária. Agora a gente tem muito claro que é uma presença samaritana, sobretudo hoje em que se fortaleceu o agronegócio, o latifúndio, eles estão cada vez mais donos do judiciário, do legislativo. Então, essa é um tipo de pastoral que, muitas vezes, não é bem entendida porque ela é profundamente social e política. A gente tem um embasamento teológico de sustentação disso, não há dúvida, e achamos até que se equivocam os bispos que acham que a missão da Igreja é só religiosa; ela tem uma missão profética e de caráter político, porque a realidade foi sempre política, mas uma política conservadora, que garante os privilégios, que garante mais verbas para as escolas católicas [...], mas uma posição profética que é contraditória ao poder estabelecido, isso para eles é que é política.
Ao vencer a posição conservadora da Igreja Católica, mesmo sofrendo com isso, a CPT passou a manter presença nos conflitos fundiários, por meio de vigílias, caminhadas e celebrações, tornando-se um agente de referência nacional. Medeiros275 ressalta esse papel de referência ao afirmar que o trabalho da CPT “[...] convergiu com outras atrações pastorais de alguns padres e bispos em outras regiões do país, como foi o caso do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia, Maranhão e Goiás. Rapidamente se expandiu por todo o Brasil e em 1979 já eram 15 as suas regionais”.
275 MEDEIROS, Leonilde Servólo de. História dos movimentos sociais no campo. Rio de Janeiro: FASE, 1989, p.
No tocante à luta contra a prática de trabalhos análogos à escravidão, a CPT, pioneira na denúncia276 e combate, auxiliou os demais poderes na obtenção de uma computação sistemática dos casos de trabalho escravo, sendo uma das principais denunciantes. Tal fato é de extrema relevância, pois como será apresentado, a principal forma de provocação do GEFM é a denúncia e assim, denúncias equivocadas ou mal direcionadas, prejudicariam em muito a eficácia do grupo de fiscalização.
Dessa forma, verifica-se na CPT uma importante aliada na erradicação do trabalho análogo à escravidão, sendo ainda uma das, senão a principal, coadjuvantes em trazer tal chaga social ao conhecimento da sociedade brasileira.