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Eliete Negreiros: Outros Sons. Vôo Livre, 1982; Eliete Negreiros. Copacabana, 1986.
Material audiovisual:
Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista: Um documentário musical. Direção de Riba de Castro, Pirata Busca Vida Filmes, 2013.
Sesc Fábrica do Som. SP: RTC, reeditado em 2000 pela TV Cultura de SP.
Palavra (En)Cantada. Documentário lançado em 2009, dirigido por
Helena Solberg. Disponível em:
http://www.youtube.com/watch?v=pEKDAxY43vk.
Programa 30 anos de TV Cultura (gravação retirada de um arquivo pessoal).
Revista Piauí do mês de setembro de 2012, disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/outros-sons.
Entrevista com Passoca disponível em: http://www.funarte.gov.br/brasilmemoriasdasartes/acervo/serie-cartazes-da- sala-funarte/passoca-na-serie-funarte.
Entrevistas (realizadas pela autora)
Hermelino Neder, entrevistado pela autora em 05 de 2014.
Eliete Negreiros, entrevistada pela autora em 06 de 2014.
Passoca, entrevistado pela autora em 08 de 2012.
Demais fontes
Currículo documentado de Hermelino Neder.
Folha Ilustrada de 25 de Abril de 1982 (fonte retirada do arquivo
pessoal de Eliete Negreiros).
Revista Isto É, Número 301, 29 de Setembro de 1982 (fonte retirada do arquivo pessoal de Eliete Negreiros).
Carta de recomendação escrita por Augusto de Campos, contida no álbum Como essa mulher, Pô Amar é importante!,Lançado em 1984 pelo selo Lira Paulistana.
ANEXOS
Entrevista com Hermelino Neder
Entrevistadora: Gostaria que você falasse um pouco sobre a época do teatro Lira Paulistana e sobre a produção de música independente que ocorreu em São Paulo em meados da década de 1980 e sobre sua ligação com a chamada Vanguarda Paulista.
Hermelino Neder: Você sabe, a Vanguarda não chegou a fazer um manifesto. Foi uma coisa restrita a cidade. Não teve um manifesto tropicalista antropofágico, então... Nem sei quem inventou esse nome :Vanguarda Paulista. Minha relação com isso tem muito a ver com o Arrigo. Porque quando eu estudava na ECA63, vários membros da Vanguarda eram de lá. Vários membros do Premê eram da minha classe: O Claus, Igor... Do grupo todo, quatro estavam na minha classe. E na minha classe tinha uma menina, chamada Sílvia Alcunha, que foi a capitã da Football Music. Ali na nossa classe, então, já tinha o Premeditando e um lado B, que era eu e a Sílvia Alcunha. Então a gente se conhecia da ECA. E o Arrigo eu conheci lá [na ECA]. O Arrigo era de uma turma anterior à minha, o Arrigo estudou, se eu não me engano, na turma do Luis Tatit [...]. Outros integrantes do Rumo, como o Hélio Ziskind, e o Pedro Mourão também estudaram na ECA... Então, minha ligação com esse pessoal era de a gente ser colegas de faculdade.
A ECA teve um papel fundamental para a formação da Vanguarda Paulista, não é? Ao que parece, tudo começou na ECA.
É. Agora, o Arrigo tem uma importância mais fundamental no meu trabalho porque a gente tem uma relação bem legal de trabalho entrecruzada. Por exemplo: Foi eu que falei pra ele: “Olha, você sabia que vai ter um festival na cultura?”. E eu era namorado da Vânia Bastos, na época. Eu que apresentei ela à ele. E estava na primeira banda dele, que foi a banda que participou do festival universitário da TV Cultura. Então, você vê que curioso... Eu dei esse toque, eu mesmo não me inscrevi no festival. Eu tinha visto ele tocar um dia aquele jeito dele,
no piano, e eu tinha achado muito bacana aquela música, aí eu dei esse toque. Eu sei que ele compôs uma música com a Regina Porto que também era da ECA, que é a música Diversões Eletrônicas, que ganhou o primeiro lugar. Acho que o Premê ganhou o segundo.
No disco Suspeito, do Arrigo há algumas composições minha e dele. Tem Êxtase, Amor Perverso, Suspeito, Uga-Uga, e essa qui Tchau Troxa.
Uga-uga ficou bem conhecida na época?
É, ficou um pouco, sim. Eu me lembro do Arrigo na XuXa, vestido de Troglodita [risos]. Sabe, de Frede Flinston? [risos]
Esse foi o disco mais popular do Arrigo. E eu acho que o Arrigo me convidou pra trabalhar com elenesse disco, porque a música de maior sucesso popular do Arrigo é o Pô Amar é Importante, que não é dele, é minha, né?
Essa música, não sei que lugar da parada atingiu... Tinha uma época na década de 80 que os três mercados fonográficos mais importantes do Brasil (em termos de rádio) eram: A grande São Paulo, Grande Rio, outras capitais e Interior de São Paulo. E nesse terceiro, o Pô! Amar é Importante tocou muito, tocou muito na capital também. Eu cheguei a ligar o rádio e estar tocando. Uma sensação única que eu tive! [risos]. Uma vez eu estava indo para Santos e estava tocando no rádio. O Premê estava no nordeste uma época, e eles disseram que minha música tocava tanto que eles ficaram com raiva. Disseram que fizeram até um arranjo pra trio elétrico, carnavalesco, da minha música [risos].
Então, você vê, eu dei esse toque pra ele [Arrigo], de participar do festival, aí ele me convidou pra fazer backing vocal, A Vania também, pra fazer backing... Aí o Arrigo ficou muito famoso, teve uma época que nossa! Aí começou esse papo que tinha uma nova música acontecendo em São Paulo e que o Arrigo era um dos líderes. O Itamar nem era conhecido nessa época. Então, a gente nem sabia que o Itamar tinha um trabalho dele. A gente admirava muito o trabalho dele, como ele conseguia tocar aquelas coisas complicadas, dodecafônicas do Arrigo sem saber ler música, tudo de ouvido, era uma beleza!
Aí quando o Arrigo ficou conhecido teve um projeto, acho que chamava Virada Paulista. E a Regina Person quis fazer um projeto. Ela sacou que estava acontecendo alguma coisa em São Paulo eperguntou pro Arrigo quem o ele indicava, de músicos novos, que estavam aparecendo. E o Arrigo me indicou. Ele conhecia algumas músicas minhas. E aí com um mês eu fiz todos aqueles arranjos do primeiro disco, depois eu mexi, mas era basicamente aquilo, e nós estreamos com a banda que na época era Santos Football Music. O nome da banda é por causa de uma música do Gilberto Mendes que tem radiação de futebol, tem muita coisa de futebol. E eu como sou santista coloquei o nome da minha banda de Santos Football Music. Depois eu mudei, eu saquei que não tinha nada a ver ficar dividindo torcida. Teve um produtor que falou: “Isso não é uma boa ideia, se você quer fazer uma carreira você não vai querer que só os santistas ouçam sua música”. O que era uma bobagem, porque se pelo menos a torcida do Santos tivesse seguido minha música teria muito mais gente? [risos]. Mas eu duvido que a torcida do santos teria gostado da minha música.
Você acredita que o Arrigo Barnabé tenha agido como um elo de ligação entre alguns músicos da Vanguarda Paulista?
É talvez fosse, se bem que o Rumo tinha uma vida própria. Apesar de o Rumo e o Arrigo terem estudado na mesma escola [ECA], eu tenho a impressão que eles tinham uma vida anterior, até. Eles já tocavam, já faziam shows muitos cheios.
Depois, muitos anos depois, o Arrigo veio morar comigo, na minha casa. A gente compôs muitas músicas juntos nessa época. E foi na época desse disco mais popular... Eu estava te falando desse disco Suspeito... Acho que foi uma tentativa que o Arrigo fez de tocar no rádio. E aí ele me convidou, eu acho que ele pensava assim: Como minha música de sucesso popular é do Hermelino, então, eu imagino isso, que ele tenha querido trabalhar comigo pra criar outros sucessos. E o suspeito chegou a tocar no rádio, Uga-Uga também chegou a tocar.
E esse disco foi meio que um fracasso, acho que o público do Arrigo sentiu que ele estava meio que traindo, mas não é traindo, né? Não era o Arrigo, né? É muito popular esse disco... Assim, comparado com as coisas dodecafônicas... Mas ele não é tão popular a ponto de tocar no rádio, ele ficou no meio do caminho. Eu temo que o projeto novo do Arrigo com as minhas canções siga esse caminho... Ele
acha que é um projeto muito popular que vai tocar no rádio... O Arrigo é tão bom, tão criativo... Os arranjos tão ficando lindos assim, com muito bom gosto.
Me parece que vocês, músicos ligados à Vanguarda Paulista, eram como uma turma de amigos, não é?
A gente era, a gente era sim. O Mário Manga chegou a tocar violoncelo na minha banda um tempo, eu tentei fazer uma composição com ele. O Itamar, uma vez eu quis inscrever uma música num festival, não sei se era da Globo... E o Itamar gravou cantando pra mim, porque eu gostava muito do jeito que ele cantava. Então a gente tinha ligação, mesmo. Só recentemente que eu fiz uma relação com o Luiz Tatit, porque o Tatit estava na minha banca de doutorado. E aí eu fiz uma música usando a técnica de composição que eu desenvolvi nessa tese. Então ele conhecia minha técnica pela banca. Então depois que ele já conhecia, ele gostou e tudo. Então eu fiz uma música e falei: Ô Tati, você não quer por letra? Aí ele fez a letra. Essa música chama Impassível. É minha única parceria com o Tatit, tá no disco que o Arrigo e o Tatit estão lançando agora.
Seu trabalho está muito interligado ao do Arrigo?
Sim, está muito interligado. Existe outra passagem que foi muito importante pra mim, principalmente: A gente morava junto, a gente fez uma música que veio a se chamar depois Sky Of My Blues, que ganhou esse nome quando o Carlos Rennó botou uma letra em inglês. É uma bossa nova. Antes de ganhar essa letra, ela foi o tema do filme A Dama do Cine Shangai. Eu ganhei um monte de prêmios com essa trilha. E a música do Arrigo está lá. E eu estava inseguro, né? E a gente morava junto e eu falei: “Ô Arrigo, tem um cara aí me sondando pra fazer a trilha de um filme”. Ele falou assim pra mim: “Os diretores de cinema são muito inseguros, então se você chegar pra ele e falar assim: “Cara, ninguém vai fazer essa música melhor do que eu, ele vai acreditar”! [risos]. O Arrigo falou assim: “Fala isso, e grava Sky of my Blues, e dá pra ele escutar”. Então eu gravei. Eu tocando violão e o Mané Silveira tocando saxofone, o cara queria um tema de sax, tinha que ter um tema de sax. Então o cara escutou e adorou. E essa música é muito bonita, mesmo,
dessa eu gosto muito mesmo. Não é a única música do filme. O resto da trilha eu fiz usando minha técnica de composição.
Você utilizou essa técnica de composição nas canções do disco
Como essa Mulher: Pô! Amar é Importante?
Não tinha feito ainda. Já estava desenvolvendo, porque eu comecei a pensar nela na época em que eu era estudante da ECA, mas eu só vim desenvolver mesmo depois, principalmente fazendo trilha sonora pra cinema.
Na década de 1980 eu estava achando um jeito de organizar, um jeito de usar as doze notas pra criar minha música [...]. Eu fiz minha tese de doutorado usando essa técnica. O nome da técnica é Campos Harmônicos Seriais. O nome da minha tese é Música pura com os campos harmônicos serias64.
Eu gostaria que você falasse um pouco sobre o processo de produção independente. Você considera que ser independente acabou sendo uma escolha dos músicos ligados à Vanguarda Paulista?
Eu tenho a impressão de que ninguém queria ser independente. Mas como era difícil conseguir um contrato numa gravadora com esse tipo de música...
Nessa época, a gente pedia dinheiro emprestado e conseguia pagar o estúdio, o artista da capa, a prensagem do disco, entendeu? O meu disco só tem 1000 cópias, é raríssimo. Mas independente, eu imagino que queira dizer independente das gravadoras: Eu pago meu disco. Aí, o Lira Paulistana, que tinha o teatro Lira Paulistana e depois virou uma gravadora também, o que eles fizeram foi me ceder, me emprestar o selo.
Sobre seu disco: Como essa mulher: Pô! Amar é importante!,eu gostaria que você comentasse sobre a proposta estética contida nele.
Tinha um compositor de Vanguarda, chamado Luciano Berio, italiano, que fez uma série de composições chamada Folk Song’s. Ele pegou canções
folclóricas de vários lugares do mundo e fez arranjos com instrumentos eruditos e usando técnicas de composição de vanguarda. Ele tem uma músicaque é pra viola, viola clássica e voz. No meu disco tem uma música pra violino, voz e violão, mas tem um momento em que só o violino toca com a voz. Eu fiquei muito encantado com esse disco, com a possibilidade de misturar música popular com música erudita de vanguarda. Essa é a proposta do primeiro disco da Football Music. Então, na banda tinha: Baixo, bateria, guitarra ou violão, teclado ou piano e backing vocal. Esses elementos são todos da área da música popular. Tinha também violino, clarineta ou