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Esta etapa, para a metodologia que norteia este estudo, merece atenção especial. Os dados são a matéria prima para gerar a teoria. Os métodos são ferramentas e sozinhos não geram uma pesquisa; o que importa é o modo como serão utilizados (trabalhados). Conforme o tipo de pesquisa, algumas ferramentas são mais úteis do que outras.

Neste sentido, a fim de responder com mais precisão às questões de pesquisa o estudo contemplou abordagens combinadas de coleta de dados, observação e entrevistas individuais (com os usuários e a maioria dos familiares) e em grupo (como foi o caso de uma das famílias). Pretendeu-se, com estes métodos, dar voz aos sujeitos envolvidos neste processo, pessoas com sofrimento psíquico e seus familiares; e que essas vozes pudessem ecoar de forma a sensibilizar e nortear o estudo.

Em 2010 iniciaram-se os contatos com as instituições que se pretendia incluir no estudo. Primeiro investigou-se quais locais em Santa Maria ofereciam atendimento a pessoas em depressão. Fez-se contato com vários profissionais e selecionaram-se os dois locais já citados.

No CAPS II foram realizadas em torno de três visitas iniciais, que tiveram o propósito de fazer os acertos para a realização da pesquisa com os funcionários da instituição. Para a coleta de dados, observações e entrevistas, foram realizadas 15 visitas. A coleta dos dados aconteceu de janeiro de 2011 a janeiro de 2012. Durante este período, houve troca de coordenação administrativa na instituição e, praticamente, se iniciou um novo acordo sobre a pesquisa (a renovação de autorizações, por exemplo). Assim que esta questão foi resolvida, iniciaram-se novamente as visitas ao CAPS. Antes de se realizar o convite para as entrevistas com os usuários, conversava-se com os profissionais que os atendiam para saber da possibilidade da entrevista, como por exemplo, se eram depressivos. Depois disto, verificava-se o prontuário para observar os outros critérios de inclusão como idade, tempo de tratamento, se não havia outros sintomas que indicassem outros diagnósticos que não a depressão. O passo seguinte era o convite para participar da pesquisa. Houve apenas uma recusa ao convite, entre os usuários.

Nas primeiras visitas ao CAPS já se observava a dificuldade de encontrar os sujeitos com o critério de inclusão principal da pesquisa, portador de depressão. A maioria dos usuários sofria de transtornos, considerados pelos profissionais, mais graves. Mesmo assim, durante as visitas conversava-se com os profissionais que atendiam os usuários, pois eles poderiam indicar com mais precisão os sujeitos com o perfil da pesquisa. Alguns convites para participar da pesquisa foram realizados por telefone e, então, agendada a entrevista. Outros convites aconteceram no CAPS mesmo. Quanto ao método de atendimento dos usuários, um era intensivo e três semi-intensivos.

No ASM foram realizadas igualmente, em torno de três visitas iniciais e 15 para a coleta de dados. A igualdade no número de visitas não foi proposital, isto foi constatado no final da coleta dos dados. Neste ambiente, adotou-se o mesmo procedimento, observar a rotina da instituição e conversar com os profissionais, a fim de saber dos possíveis usuários que poderiam participar da pesquisa. No Ambulatório, a secretária selecionava e organizava os prontuários dos usuários que seriam atendidos no dia seguinte. A observação desta rotina facilitou a busca dos sujeitos de pesquisa. Então, procurava-se entre estes prontuários, os sujeitos com o perfil da pesquisa. Anotavam-se os nomes e no dia seguinte voltava-se ao Ambulatório para realizar o convite para participar da pesquisa. Caso aceitassem a entrevista poderia ser realizada naquele mesmo dia ou agendada para outro dia e lugar, conforme a preferência do usuário. O contato com os usuários foi realizado, também, por telefone a partir de indicação dos profissionais. Todos os usuários foram entrevistados no ASM, alguns dos familiares destes usuários foram entrevistados no Ambulatório e outros em suas residências. O contato com os familiares foi realizado por telefone ou enquanto acompanhavam o familiar ao Ambulatório.

Durante as visitas, conversava-se com os profissionais: psiquiatras, enfermeiros, psicólogos, secretários, pessoal da limpeza, assistentes sociais e observava-se a rotina destes serviços. As técnicas de coleta de dados aconteceram alternadamente. Concomitante às visitas ao CAPS e ao ASM foram sendo realizadas as transcrições das entrevistas e a análise das falas a fim de atender à metodologia da Teoria Fundamentada nos dados.

Foram realizadas, também, visitas à Prefeitura Municipal de Santa Maria e ao Núcleo de Estudos Permanente em Saúde (NEPS), em um total de seis visitas entre os dois lugares. As visitas tiveram o propósito de obter as autorizações necessárias para a realização da pesquisa.

Os Serviços de Saúde Mental em Santa Maria são: Ambulatório de Saúde Mental (ASM); Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPS AD) –

Caminhos do Sol; Centro de Atenção Psicossocial – Prado Veppo (CAPS II); Centro

de Atenção Psicossocial Infantil (CAPS I) – O equilibrista; Centro de Atenção

Psicossocial Álcool e Drogas – de 12 a 29 anos de idade (CAPS AD) Companhia do

2.4.1 Instrumentos

Ficha de dados demográficos (da família e do paciente): foi utilizada ficha de

dados como: idade, sexo, escolaridade, trabalho, renda, nº de integrantes da família, ...

Diário de campo / observação: o diário de campo foi utilizado para registro das

observações no campo da pesquisa. As observações aconteceram no CAPS (rotina dos usuários e equipe de saúde mental); no ASM (equipe, familiares e usuários). A observação, neste método, assume destaque importante, pois, além dos eventos observados constituírem fonte de dados, serviu, também, de base para o roteiro das entrevistas. Salienta-se que as observações ocorreram simultaneamente (intercaladas) com as entrevistas.

Entrevistas: foram realizadas entrevistas com os usuários e seus familiares. As

entrevistas aconteceram individualmente com os indivíduos em sofrimento psíquico e com a maioria dos familiares e em grupo com uma das famílias. Participaram das entrevistas nove familiares escolhidos intencionalmente a partir da seleção dos usuários e 15 usuários. Conseguiu-se entrevistar os familiares de sete usuários. Quanto aos outros familiares, não se conseguiu a entrevista, por questões de disponibilidade de tempo dos mesmos ou por se negarem a conceder a entrevista. Neste último caso, foram três familiares. Seguindo os preceitos da teoria fundamentada, nas primeiras entrevistas, realizaram-se questões mais abertas, porém, orientadas a partir dos objetivos do estudo e das observações iniciais. À medida que se avançou no estudo, partiu-se para questões focais semiestruturadas a fim de refinar, compreender os dados e preencher lacunas existentes. Como lembrou Charmaz(93), deve-se estar atento para as questões éticas que envolve a pesquisa com seres humanos e que, neste caso, os Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) exigem dos pesquisadores descrições detalhadas de seus instrumentos de pesquisa. A autora(93) apontou para a dificuldade deste detalhamento no método da teoria fundamentada, já que é difícil prever todas as questões, pois elas são orientadas conforme as falas dos participantes. Mas, que se devem propor questões suficientemente detalhadas para demonstrar aos avaliadores que não ocorrerá nenhum dano aos participantes do estudo.