Kapittel 4 - Analyse
4.4 Bildebruk
Na seção intitulada A instituição discursiva, o autor irá nos situar a respeito do surgimento da Análise do discurso no final da década de 1960 e, necessariamente, segundo Maingueneau (2006, p.46), em relação a duas outras problemáticas que também surgiram quase no mesmo período, a saber, a sociologia dos campos de Bourdieu e a arqueologia de Foucault. Maingueneau objetiva, assim, articular o conceito de instituição trazido por Bourdieu com o conceito de discurso desenvolvido por Foucault para, posteriormente, expor a noção de instituição discursiva.
Inicialmente, o autor busca apresentar as diferenças entre a análise do discurso literário e a sociologia do campo literário, que, a princípio parecem ter pontos de proximidade, mas divergem em questões importantes. Em um segundo momento, Maingueneau se centra em apresentar a concepção de discurso desenvolvida por Michel Foucault, que será, como veremos, fundamental para a perspectiva que o autor assumirá em sua proposta de uma Análise do Discurso Literário.
Segundo o autor, a sociologia dos campos de Bourdieu se caracterizou por introduzir, assim como a própria análise do discurso, mediações de ordem institucional: relegar uma visão de eu criador e propor uma noção de ator que se posiciona no campo e, num duplo movimento, modifica e é modificado por este. De acordo com Maingueneau (2006, p. 48), “ao lado do ‘eu criador’ (Proust), suporte de uma ‘visão de mundo’, ela atribui um papel crucial ao ‘escritor’, ao ator que se posiciona num campo tentando modificá-lo em seu próprio benefício”. O que Maingueneau nos chama atenção na proposta de Bourdieu é justamente a concepção de campo, mais especificamente, de campo literário, que constitui um universo incluído no espaço social, mas que apresenta certa autonomia em relação a ele. Isso implica uma relação mediada, na qual o campo age sobre seu exterior e, ao mesmo tempo, os conflitos externos influem indiretamente sobre ele.
No entanto, há um ponto de distinção importante entre as duas correntes: diferentemente da análise do discurso, a sociologia dos campos, obviamente, não se propõe a ter uma abordagem discursiva; tal perspectiva não consegue sair da oposição entre estrutura e conteúdo e, assim, num certo sentido, não rompe com a concepção de obra como reflexo de uma realidade social já dada, o que é natural em uma teoria totalmente sociológica. Maingueneau (2006, p. 48) aprofunda afirmando que
essa sociologia não visa articular as estruturações dos “conteúdos”, a enunciação e a atividade de posicionamento num dado campo, quando é de fato aí que reside o motor da atividade criadora. Há, por certo, em Bourdieu atores num campo, mas não uma cena de enunciação; a atividade enunciativa não contribui para criar o contexto da obra. A “verdade” já está presente, oferecida no contexto, ou seja, uma posição no campo, e a atividade criadora apenas a manifesta e conforta.
Deslocando a noção de campo de Bourdieu para uma abordagem discursiva, Maingueneau (2006, p.50) acredita que “a análise do discurso parece ter mais condições de modificar significativamente a maneira de se apreender a literatura, que ela aborda desde o início como discurso, dissolvendo as representações tradicionais do texto e do contexto”.
Em seguida, Maingueneau (2006, p. 50) nos apresenta a concepção de discurso desenvolvida por Michel Foucault em Arqueologia do Saber, considerando-a como fundamental ao seu “dispositivo conceitual”, isto é, há algumas ideias presentes na obra de Foucault que corroboram para o tipo de análise do discurso que interessa a Maingueneau, além de constituírem críticas coesas aos pressupostos hermenêuticos e filológicos. Dentre essas ideias, destaca-se uma concepção de ordem do discurso que não é redutível à língua e a
instâncias sociais ou psicológicas, de tal modo que conceber essa ordem do discurso implica, também, conceber dispositivos enunciativos que não podem ser reduzidos às divisões tradicionais, como visão de mundo, autor, documento, influência, contexto etc. Sob essa visão, o discurso não é, portanto,
uma manifestação, que se desenrola majestosamente, de um sujeito que pensa, que conhece e que o diz; é pelo contrário um conjunto em que podem determinar a dispersão do sujeito e sua descontinuidade com relação a si mesmo. Trata-se de um espaço de exterioridade no qual se instala uma rede de localizações distintas. [...] não é nem pelo recurso a sujeito transcendental nem a uma subjetividade psicológica que se deve definir o regime de suas (= de uma formação discursiva) enunciações (FOUCAULT apud MAINGUENEAU, 2006, p. 51).
Maingueneau (2006, p.52) faz ainda uma ressalva em relação à concepção de discurso de Foucault. Segundo o autor, há na visão foucaultiana uma manipulação, pois os elementos mobilizados por Foucault mascaram uma organização textual como fenômeno de superfície em que “as estratégias interacionais são reduzidas ao status de acessório: ‘estilo’, ‘retórica’, etc.”.
Desse tópico, a partir das duas concepções apresentadas, interessa a Maingueneau refletir sobre a instituição discursiva, conceito que articula
- as instituições, isto é, os quadros de diversas ordens que conferem sentido à enunciação singular: a estrutura do campo, o estatuto do escritor, os gêneros de texto...;
- o movimento mediante o qual o discurso se institui, ao instaurar progressivamente um certo mundo em seu enunciado e, ao mesmo tempo, legitimar a cena de enunciação e o posicionamento no campo que tornam possível esse enunciado. (MAINGUENEAU, 2006, p.54).
Segundo o autor, dessa perspectiva, contribuições valiosas podem ser incorporadas à AD. Estamos nos referindo aqui à ideia de que a obra, por meio de seu texto, reflete e legitima o espaço que a torna possível: a cena de enunciação, ao mesmo tempo em que é legitimada por esse espaço, não se reduz a esse exterior e nem tampouco ao texto, mas é construída no/pelo texto.
Apresentamos até aqui abordagens que apreendem o fenômeno literário em perspectivas distintas, buscando delimitar a perspectiva teórica proposta por Maingueneau, que assumimos neste trabalho. No capítulo seguinte, discutiremos sobre o estatuto do discurso literário, refletindo sobre a sua natureza e seu modo de funcionamento.
2 O DISCURSO LITERÁRIO COMO DISCURSO CONSTITUINTE