como os gramáticos os encaravam. Desta forma, o gráfico a seguir deixa mais visível a teia relacional existente entre os autores citados de maneira positiva pelos gramáticos. Vale ressaltar a centralidade de autores como Luiz de Camões (que interliga seis dos nove gramáticos que aparecem como porte da rede), João de Barros (que interliga quatros dos gramáticos), Bluteau (com três interligações entre os gramáticos) e padre Vieira (com duas ligações) como principais nós
ligados aos gramáticos.299 É digno de menção ainda as seis ligações pertinentes aos autores latinos: Quintiliano, Cícero e Lucena, o que reforça a importância dos autores clássicos entre os gramáticos do período.
Francisco José Freire é o gramático com maior número de ligações elogiosas a autores citados e, talvez por consequência disto, o que mais se aproxima pelo gráfico, dos demais gramáticos. Sua rede de citações perpassa autores citados por Feijó, Tristão Portugal, Lobato e Barbosa. Encontra-se ainda a apenas mais um nó de distância de Antonio de Morais Silva. Sendo assim, o autor das “Reflexões Sobre a Lingua Portugueza” parece ser o que mais conseguiu se aproximar de representar todos os gramáticos analisados.
Um último ponto que devemos levar em consideração com relação ao gráfico mencionado é a diferença entre os autores mais citados e aqueles que fizeram maior número de ligações entre os gramáticos. O quadro e o gráfico que aqui seguem mostram as ligações entre os gramáticos e os autores citados nas gramáticas, bem como, o número total de vezes em que os autores foram citados positivamente.
299 A falta de Pedro Jos de Figueiredo, autor de “Arte da Grammatica Portugueza Ordenada em Methodo Facil e Claro...” se justifica, tanto neste gráfico quanto no que relaciona os gramáticos as citações negativas pelo fato de que o autor fez apenas qualificações neutras.
QUADRO 06
Número de Qualificações Positivas por Autor Citado
Autores Com Qualificação Positiva Nº Qual.
Luiz de Camões 10
João de Barros 9
Antonio Vieira 5
Francisco Sanches Brocense 5
Luiz de Souza 5
Bernardo de Brito 4
Jacome Perizonio 3
Raphael Bluteau 3
Vossio 3
Duarte Ribeiro de Macedo 2
Jacinto Freire de Andrade 2
Lancelloto 2
Lucena 2
Luis Antonio Verney 2
Manuel Severim de Faria 2
Marco Fabio Quintiliano 2
Marcus Tullius Cicero 2
Sciopio 2
GRÁFICO 09
Rede Entre Gramáticos e Autores Citados Positivamente*
FONTE: Nota do QUADRO 05.
A diferença dos vínculos traçados (entre os autores e os gramáticos) com base nas qualificações positivas e o quadro acima revela-nos algo diferente do gráfico. Ao que parece, autores como Francisco Sanches e Bernardo de Brito, mesmo sendo mais elogiados que Bluteau não conseguiram atingir sua marca em termos de penetrabilidade na rede dos gramáticos. Tal fato perpassa, principalmente, o estudo sobre a circulação de livros e a difusão de ideias entre os autores de gramática do XVIII e XIX. Com base nisto, é plausível supormos que a circulação da obra de Bluteau – citado por três gramáticos diferentes – foi maior que a de Sanches – citado por apenas um – mesmo que, em termos brutos do número de citações, o autor espanhol tenha superado o francês em elogios.300
A seguir, tomamos por base as citações que receberam qualificações negativas. O gráfico de rede estabelecido com tais informações revelou fortes diferenças em relação ao anterior.
300 Admito que a correlação aqui proposta não necessariamente implica-se como verdadeira já que é quase impossível determinar a circulação informal de livros, e mais difícil ainda seria mensurar a de ideias. No entanto, acredito que o trabalho utilizando citações e os gráficos de rede têm fortes contribuições a dar para o ramo da história do consumo livresco. Neste ponto, acho importante novamente apontar para os trabalhos com a temática da circulação de livros e ideias no Brasil. Sobre o tema Cf. o capítulo 1, “Como Avaliar a Escrita de uma População: a história de um problema” desta pesquisa.
GRÁFICO 10
Rede Entre Gramáticos e Autores Citados Negativamente*
FONTE: Nota do QUADRO 05.
* No Gráfico considere os círculos como os gramáticos e os quadrados como os autores citados positivamente nas gramáticas.
O gráfico demonstra que há pouca interligação entre os gramáticos sobre o ponto de vista dos textos desqualificados por eles. Neste sentido, somente o padre Antonio Vieira e João de Barros ainda ocupam posição central, mas desta vez, com apenas duas ligações inter-relacionadas: Jeronimo Soares Barbosa, que se liga tanto a Antonio de Morais Silva quanto a Francisco José Freire. Além disso, o autor ainda elogia o texto de Antonio Jose dos Reis Lobato, o que faz com que entre os seis gramáticos que se preocuparam em elogiar os autores que citaram, Barbosa se ligue, direta ou indiretamente a três.
QUADRO 07
Número de Qualificações Negativas por Autor Citado301
Autores com Qualificação Negativa Negativa
João de Barros 9
Raphael Bluteau 8
Antonio Jose dos Reis Lobato 3
João de Morais Madureira Feijó 3
Antonio Vieira 2
Manuel Antonio Pinheiro Fernandes 2
Manuel Leal de Barros 2
S. T. Ferreira 2
FONTE: Nota do QUADRO 05 [destaques nosso].
Contrapondo o total de críticas negativas sofridas pelos autores (Quadro 07) com o gráfico de suas inter-relações é possível observar novamente uma discrepância. Vieira, um dos primeiros da lista (se considerarmos apenas o gráfico), passa ao quinto lugar do quadro. Enquanto isto, Bluteau, que teve oito menções negativas, não possui pontos de ligação com nenhum outro gramático além de Feijó, segundo o gráfico acima.
É relevante observarmos as críticas sofridas por Feijó e Lobato (seis no total) segundo o quadro. A crítica sobre tais autores pode revelar elementos da “mediação interna” entre as obras que ensinavam a língua portuguesa nos s culos XVIII e XIX. Considerando que os quatro autores mais criticados negativamente eram gramáticos (no caso de Bluteau, que era um dicionarista, mas, segundo sua própria definição, poderia ter sido considerado gramático) é possível inferir que era praxe entre autores das gramáticas criticarem outros do mesmo ramo. A prática revela uma situação de verdadeira disputa pela legitimidade da obra que, muitas vezes, forçava (ou exigia) que os autores, a fim de salientar a importância de seus escritos, apontassem defeitos nas obras de outros pares. A situação se assemelha ao que mencionamos quando tratamos das críticas relacionadas à temática das obras.
301 Consideramos para a análise apenas os autores que receberam duas ou mais críticas negativas, já que apenas estes se inter-relacionavam com outros.
GRÁFICO 11
Gráfico de Rede Entre Gramáticos e Autores Citados de forma neutra nas Gramáticas*
FONTE: Nota do QUADRO 05.
Com relação aos autores que receberam qualificação neutra, os dados são a nós mais generosos já que se tratou da grande maioria das menções a autores (94%). Comparando a quantidade de citações neutras de cada autor com o número de interligações que este faz com outros gramáticos, é possível perceber novas discrepâncias.
QUADRO 08
Número Total de Citações de Cada Autor Qualificado como Neutro
Autores Citados (mais que 10 cit.) Nº Cit. Autores Citados (mais que 10 cit.) Nº Cit.
Luiz de Camões 184 Gabriel Pereira de Castro 16
Antonio Vieira 166 João Franco Barreto 16
João de Barros 156 Marco Fabio Quintiliano 15
Raphael Bluteau 72 Virgílio 15
Duarte Nunes de Leão 52 Jacintho de Deus 13
Jacinto Freire de Andrade 46 Amador Arraez 12
Ferreira 35 Antoine Arnauld 12
Bernardo de Brito 34 Fernão Alvares do Oriente 12
Luiz de Souza 32 Francisco Sanches Brocense 12
Souza 32 Jeronymo Contador de Argote 12
Francisco Rodrigues Lobo 31 Diego de Couto 11
Marcus Tullius Cicero 29 Dom Afonso 11
Bento Pereira 28 Lucena 11
Francisco Sá de Miranda 27 Pedro de Andrade Caminha 11
Heitor Pinto 27 Antonio Jose dos Reis Lobato 10
Antonio Ferreira 26 Francisco de Sá de Menezes 10
João de Morais Madureira Feijó 23 Horácio 10
Francisco José Freire 20 Luis de Cacegas Sousa 10
Jorge Ferreira de Vasconcelos 18 Manuel Antonio Pinheiro Fernandes 10 Diogo de Paiva de Andrade 17 Manuel Severim de Faria 10
Fernão Mendes Pinto 16 Plínio 10
Francisco Manuel de Melo 16
FONTE: Nota do QUADRO 05 [destaques nossos: Autores Romanos e Gramáticos Portugueses].
QUADRO 09
Interligações Entre os Autores Citados nas Gramáticas
Autores Citados Nº Ligações Autores Citados Nº
Ligações
Luiz de Camões 8 Luiz de Souza 3
Marcus Tullius Cicero 8 Manuel Severim de Faria 3
Jeronymo Contador de Argote 7 Raphael Bluteau 3
João de Barros 6 Souza 3
Antonio Vieira 5 Vasco de Quevedo Mousinho 3
Bento Pereira 5 Vasconcelos 3
Horácio 5 Antoine Arnauld 2
Virgílio 5 Antonio de Morais Silva 2
Aristóteles 4 Antonio de Sousa Macedo 2
Bernardo de Brito 4 Balthazar Telles 2
Duarte Nunes de Leão 4 Beauzée 2
Fernão Lopes 4 Bernardes 2
Heitor Pinto 4 Bernardim Ribeiro 2
João de Morais Madureira Feijó 4 Damião de Goes 2
João Franco Barreto 4 Diego de Couto 2
Lucena 4 Diogo de Paiva de Andrade 2
Luis de Cacegas Sousa 4 Duarte Ribeiro de Macedo 2
Marco Fabio Quintiliano 4 Fernão Lopes de Castanheda 2
Platão 4 Francisco de Sá de Menezes 2
Abbade de Condillac 3 Francisco Morais 2
Amador Arraez 3 Francisco Sanches Brocense 2
Amaro de Roboredo 3 Gaspar de Barreiros 2
Andre de Resende 3 Gomes Eannes d'Azurara 2
Antonio Ferreira 3 Luis Antonio Verney 2
Antonio Jose dos Reis Lobato 3 Manuel de Faria e Souza 2
Fernão Alvares do Oriente 3 Manuel Thomaz 2
Fernão de Oliveira 3 Manuel Godinho 2
Fernão Mendes Pinto 3 Monsieur Racine 2
Ferreira 3 Perizonio 2
Francisco Rodrigues Lobo 3 Plínio 2
Francisco Sá de Miranda 3 Publio Ovidio Nasão 2
Gabriel Pereira de Castro 3 Sciopio 2
Homero 3 Seneca 2
Jacinto Freire de Andrade 3 Terencio 2
Jeronymo de Corte Real 3 Varrão 2
Jeronymo Osorio 3 Vossio 2
Leonardo da Costa 3
FONTE: Nota do QUADRO 05 [destaques nossos: Autores Romanos e Gramáticos Portugueses].
Enquanto no quatro o destaque fica por conta dos gramáticos citados (algo de se esperar de acordo com o gênero dos textos analisados), na tabela cinco o destaque é para os autores romanos. Seja, como exemplos do uso dos elementos, seja, na busca por etimologia, os autores vindos da Roma antiga chegaram nas mãos dos gramáticos portugueses e interligaram mais de quarenta vezes os compêndios de gramática analisados. Desta forma, mesmo que os gramáticos portugueses tenham tido maior destaque no número de citações apresentado no quadro 08, o que possibilita inferir uma tomada de autonomia dos português em
relação às demais línguas (incluindo o Latim e o espanhol), ao observarmos as interseções entre os autores, o que temos é a presença ainda marcante da literatura romana como elo entre autores de língua portuguesa. Se o passado romano não perdeu tanto de sua relevância na medida em que liga muitos autores, em termos de citações, a autoridade dos textos portugueses parece ter superado a dos textos latinos.
O que se esboça com relação às tabelas citadas é que as disputas em torno do uso de autores portugueses como exemplo para os gramáticos do Português ainda era evidente, o que justifica que as muitas citações que se referiram a Bluteau e a Jacinto Freire de Andrade interliguem apenas três gramáticos. Tal fato demonstra que não havia consenso dos autores de gramática portuguesa. A análise ainda pode retomar a relevância do tema trabalhado nas obras como determinante para sua referência ou não, considerando-se os gramáticos analisados, pois havia uma disputa interna ao pensamento gramatical português.
Grupos de autores se polarizaram na defesa: a) da etimologia; b) dos grandes autores portugueses; c) da língua latina e; d) dos grandes sábios, como base para suas gramáticas. Sendo assim, é bastante óbvio que se um gramático não utiliza a etimologia ou os autores romanos, não será retomado como fundamento para gramáticos do XIX que defendam tais posições. Assim, é mais difícil para autores como Bluteau, encontrarem espaço entre muitos gramáticos. No entanto, quando encontram, o número de menções a tais autores é grande. Em contrapartida, autores como Horácio, Quintiliano e Virgílio eram sempre referenciados, apensar de possuírem uma relação muito mais rasa com relação aos autores que os citaram. Por fim, vale lembrar que fica a cargo de Luiz de Camões e João de Barros a ponte entre as duas tabelas apresentadas acima. Ambos têm grande penetrabilidade entre os autores que os referenciam e são responsáveis por muitas interligações entre os gramáticos. Tal fato é mostra da centralidade da obra de João de Barros para a gramática portuguesa e o papel desempenhado pelo “Os Lusíadas” na literatura lusitana.
Capítulo 03
Gramática e Professores: entre a metalinguagem, a escrita e a biblioteca
Esta terceira seção liga os dados obtidos na análise e a tabulação das citações nas gramáticas analisadas com o conjunto dos professores que levantamos ao longo da pesquisa.302 Não estamos interessados aqui em uma reconstrução com detalhes do processo legal de estabelecimento e difusão das aulas régias, ou mesmo do ensino primário e secundário de fins do século XVIII até o meio do XIX.303 O que pretendemos é comparar os livros encontrados nos inventários post-mortem dos professores e as citações dos gramáticos. Com isto, temos o intuito de aproximarmos a escrita metalinguística das gramáticas com as bibliotecas acumuladas pelos professores ao longo dos anos. Assim, será possível percebermos como, de fato, as leituras dos gramáticos pesaram na aquisição de obras ou no uso das mesmas por parte dos professores.
É importante lembrarmos que sempre há ressalvas a se fazer ao trabalharmos com as bibliotecas arroladas nos bens inventariados, já que tratarmos tais levantamentos. Como bem recorda Roger Chartier,
302 Vale uma ressalva com relação ao trabalho com os professores. Quando nos referimos aos professores com os quais nos deparamos em nossa pesquisa não significa uma divisão espacial para tais profissionais. Mesmo que todos eles tenham atuado no território que foram as Minas Gerais, tanto o processo de diminuição das fronteiras geográficas ocorrido nas localidades internas à Capitania quanto o largo alcance das correspondências, que foram remetidas desde a capital do império até a menor paróquia, não permite estabelecermos uma delimitação mais precisa das localidades de atuação dos professores levantados. Sendo assim, não se tratam apenas dos professores da Comarca de Ouro Preto ou do Termo de Mariana, mas sim de todos aqueles cujos nomes puderam ser obtidos por meio da documentação com a qual tivemos contato.
303 A pesar de tal postura, não acreditamos que o estudo das instituições escolares e da atuação destas na formação e constituição de seus alunos esteja terminado. De fato, a importância do local de formação para o estabelecimento de redes de sociabilidade e amizade ainda precisa ser bastante estudada, principalmente entre os poderes locais. Quanto aos poderes centrais, José Murilo de Carvalho evidenciou a importância das universidades para as alianças políticas e unidade do Império em trabalho já bastante citado Cf.: CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: a elite política imperial. Teatro de Sombras: a política imperial. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
[...] pressupõe o manejo de documentos imperfeitos, omissos, muitas vezes criticados: os inventários, geralmente elaborados após falecimentos, que estimam e descrevem (pelo menos e parte) os bens de um indivíduo, os livros que eram seus. A fonte não é infalível, longe disso: em nada implica que os livros possuídos foram lidos ou mesmo comprados pelo falecido; ignora os impressos sem valor que podiam constituir suas leituras mais frequentes; omite os livros, preciosos ou perigosos, subtraídos à sucessão antes do inventário. Assim, não podemos exigir-lhes mais que indicações muito globais sobre a
presença de livros numa determinada sociedade [...].304
Pouco falta-nos acrescentar às críticas aos inventários como fontes feitas por Chartier. Talvez, apenas atentar para o fato de que, se por um lado, possuir o livro não representa que necessariamente quem o possuiu chegou a ler o livro; por outro lado, o inverso é também verdadeiro e não possuir o livro como bem não quer, de forma alguma, dizer que o inventariado não teve acesso ao conteúdo do livro. Vale lembrar que o próprio consumo dos livros pode levar ao seu desgaste a ponto de serem descartados. Alguns impressos feitos em papeis de baixa qualidade e em tamanho reduzido poderiam facilmente encontrar seus respectivos fins depois de certo tempo e assim não seria estranho imaginarmos que alguns pequenos e mau cuidados livros possam simplesmente não terem sido catalogados ou mesmo que tenham se perdido pelo descarte de uma obra feita para o consumo dinâmico e não para perdurar em prateleiras empoeiradas.
Cabe aqui um exemplo que se encontra no processo registrado por Cipriano da Costa Pinheiro contra José Esteves dos Santos, em 1795.305 Na ocasião o autor, morador que era na Cidade de Mariana “Senhor, e possuidor de dois Livros, que Constinhão a Historia de Carlos Magno, os quaes houve por titulo de compra de João Gaspar de Faria, e lhe custarão duas oitavas e tres quartos” afirma ter emprestado ao réu os dois volumes os quais este negou-se a devolver mesmo “havendo-lhe pedido repetidas vezes o mesmo Autor, roubando-
304 CHARTIER, Roger. “as práticas da escrita”. In.: ARIÈS, Philippe; CHARTIER, Roger (org.). História da Vida Privada: da renascença ao século das luzes. São Paulo: Companhia das Letras. 1990. p. 129 (vol. 3).
305 Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana – (IPHAN/Mariana) [AHCSM]. Ação Civil Movida por Cipriano da Costa Pinheiro Contra José Esteves dos Santos a Respeito dos Livros da História de Carlos Magno. Mariana, 1795, 2º Ofício, Códice 303, Auto 7298.
os o Réu novos, e perfeitos”.306 O réu pegara os dois volumes pouco depois de o autor tê-los comprado, há cerca de cinco anos, e, segundo alegava o autor, “[...] no espaço dos vários anos, que o R. teve os ditos livros, os emprestou a [varias] pessoas nesta Cidade, e ainda para fora dela, de forma, q estão mto estruídos, indo novos pa poder do R [...]”.307 O processo é mostra da circulação e desgaste sofridos pelos livros ao serem consumidos por seus leitores. Pelo preço da “História de Carlos Magno”, podemos considerá-la de material mais resistente, principalmente se comparadas aos folhetos e livretos de reza que circulavam aos montes na região, o que fortalece a hipótese levantada acima acerca de que muitos dos livros consumidos poderiam não aparecer nos inventários por perderem-se ou desgastarem-se na medida em que eram consumidos.
Um último ponto a tratarmos com relação à circulação de livros (ou pelo menos do conteúdo dos mesmos) é que o acesso poderia se dar não apenas pelos exemplares físicos emprestados por outrem ou consultados nas bibliotecas, mas também de maneira informal, em uma conversa com quem os tenham lidos. Ora, em partes, o papel do professor no século XVIII e no princípio do XIX era justamente o de transmitir o conhecimento que estava no livro, estabelecendo um elo entre o escrito e o vivido, entre o livro e as aulas. Se o professor pode ensinar ao aluno um conteúdo que este não poderia ou não queria apreender pelo livro, nada mais justo que admitirmos que ele, o mestre, também, em certos momentos, aprendera de oitiva.308 Especialmente no caso que aqui analisamos, ou seja, dos professores de Minas Gerais, a disponibilidade de consulta às bibliotecas eclesiásticas aumentava e muito o leque de opção que estes possuíam em relação aos livros.
306 Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana – (IPHAN/Mariana) [AHCSM]. Ação Civil Movida por Cipriano da Costa Pinheiro Contra José Esteves dos Santos a Respeito dos Livros da História de Carlos Magno. Mariana, 1795, 2º Ofício, Códice 303, Auto 7298, folha 03 frente. 307 Ibidem. folha 26 frente.
308 Vale indicarmos uma referência com relação ao uso do livro como instrumento de aprendizado entre os séculos XVIII e XIX, nas transformações que foram alavancadas pela popularização do impresso. Neste sentido é relevante acompanhar a apresentação do professor João Cezar de Castro Rocha no II Seminário Internacional de Crítica Literária, do evento Itaú Cultural, na mesa