Quando o objeto de pesquisa foi delimitado, foi difícil isolar as histórias ou permitir uma liga entre elas. Trata-se de algo mais nebuloso que isso, poroso, pois as mulheres que conheci em prisões de certa maneira me levaram a outras. Tais informantes me proporcionaram contato cotidiano com as questões de interesse nas histórias e memórias que compõem o material etnográfico desta pesquisa.
A prisão não passa a ser mais o ambiente privilegiado desta pesquisa, mas sim tendo a prisão como um meio e uma memória. Portanto, precisa contar com o antes e depois, além de uma interpretação. De objeto a espaço e de espaço a memória foi o percurso da prisão nesta pesquisa.
Nesse sentido, para dar continuidade ao panorama de vida criminosa ou de vigilância com um processo pendular, conforme o capítulo um, tentaremos traçar um panorama do que
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parece presente, sociologicamente, nas trajetórias aqui analisadas através de dados oriundos de outras pesquisas, cujo público é composto por Agentes do Sistema Prisional (ASPs) e pessoas em situação de prisão, além de pessoas egressas do sistema penitenciário sob o marcador de diferença comum entre tais mulheres, o gênero. Os estigmas da agente penitenciária e da mulher presa existem e são reafirmados em sua maioria de aspectos, mesmo que a partir de uma rearticulação. Falar de mulher presa não necessariamente precisa ser com dor, mas também pode ser. Falar de agente penitenciária não precisa ser com ilegalidade, mas também pode ser.
As tentativas de falarmos de mulheres consideram os estudos acessados como pressupostos para uma recepção de depoimentos e memórias, portanto os considera, mas não em primeiro ou maior plano. A intenção, aqui, não é positivar ou negativar aspectos estigmatizados das mulheres in loco, seja como agente de segurança ou como mulher presa, mas sim trabalhar aspectos desses dois tipos mínimos e genéricos de público em uma penitenciária feminina, com vários marcadores de diferença em torno de subjetividades, elucidando questões sociais a partir de dois relatos de vida.
Nesse sentido, as vitimizações, na perspectiva da pesquisadora e das narradoras, bem como outros aspectos subjetivos das pesquisadas, sujeitos-objeto, são admitidas de acordo com as memórias apreendidas pelos relatos, tentando deslocá-lo de uma postura rígida de qualquer uma das entrevistadas, inclusive porque o que se percebeu é o conflito oriundo de lembranças que coexistem com escolhas e posições. Se algo foi mostrado por ambas, foi justamente essa fluidez constitutiva.
O uso da categoria gênero nas ciências sociais nos aponta um alerta sobre relações inscritas na ordem social e não na biologia, bem como propõe a categoria classe social e outras, ao pensarmos alteridade (BORDO, 2000). No entanto, ao contrário da categoria marxista, gênero não parece ter um alcance como aquela porque seu fundador, o feminismo, não tem o mesmo alcance que o marxismo (MORAES, 1998). Dessa maneira, estudar questões de gênero é uma maneira de encontrar sempre questões do próprio movimento feminista.
Pautando alteridade pelo aspecto social versus biológico, Gayle Rubin (1975) definiu o sistema sexo/gênero, ao fazer uma analogia com a relação, feita por Marx, do negro como escravo diante das relações subscritas pela lógica capital, e questionando as relações que transformariam uma fêmea da espécie humana em uma mulher domesticada. A dicotomia “natureza e cultura” estaria, nessa perspectiva, na fêmea e na mulher, respectivamente.
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Outra autora que insistiu pelo apontamento da distinta difusão das categorias gênero e classe social ao longo da História e das Ciências Sociais é Joan Scott (1992).
Enquanto a categoria classe tem seu fundamento na elaborada teoria de Marx (e seus desenvolvimentos ulteriores) sobre a determinação econômica e a mudança história, raça e gênero não carregam associações semelhantes. É verdade que não existe nenhuma unanimidade entre aqueles/as que utilizam o conceito de classe (...) Entretanto, quando invocamos a classe com ou contra uma série de definições que, no caso do marxismo, implicam uma ideia de causalidade econômica e uma visão do caminho ao longo da qual a história avançou dialeticamente. Não existe nenhuma clareza ou coerência desse tipo para raça ou para o gênero (SCOTT, 1992, p. 73).
Passando por distintas esferas e sendo, portanto, interdisciplinar (BAHRI, 2013), o feminismo busca analisar as relações entre homens e mulheres e os distintos vetores de poder em tais relações.
O Feminismo coloca-se em oposição à tradição de estudos sociológicos, pautados na dicotomia sexo/gênero, que reforçaram, desde os primórdios das ciências sociais, as barreiras de diferenças humanas como uma forma natural de organização social (ROCHA, 2007). Dessa maneira, há uma consolidação histórica da ideia de feminino e masculino.
Levando em conta essa ocultação da mulher na história e a distinta e menor aceitação sociológica a respeito de gênero como categoria social construída, há uma série de autoras que se preocupou em mostrar historicamente não somente as mulheres que produziram ao longo da história, bem como os estudos das ciências sociais preocupados com outras demandas, mas que ilustram alguma opinião sobre a mulher, mas principalmente sobre a questão da mulher na sociedade. Além disso, há uma série de estudos críticos que retomam o pensar sobre o feminino, desde os primórdios da filosofia.
No âmbito do mundo prático e social, entre homens e mulheres e distintas classes sociais, além de outros componentes desse cenário, outros marcadores de diferença social, há distintos, mas complementares movimentos, desde as fundações das ciências humanas, em disputa de objetos de pesquisa e teórica sobre o papel da mulher e sua importância. As diferenças nos teores podem ser respostas, mas também simultâneas, por diferenças na própria epistemologia e do problema a ser investigado.
(…) se considerarmos que a epistemologia define um campo e uma forma de produção do conhecimento, o campo conceitual a partir do qual operamos ao produzir o conhecimento científico, a maneira pela qual estabelecemos a relação
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sujeito objeto do conhecimento e a própria representação de conhecimento como verdade com que operamos, deveríamos prestar atenção ao movimento de constituição de uma (ou seriam várias?) epistemologia feminista, ou de um projeto feminista de ciência (RAGO, 1998, p.3).