O ensino de arquitectura é uma peça chave de apreciação da cultura arquitectónica. O ensino institucional e a prática reflectem-se mutuamente. As instituições que representam estas duas vertentes podem também coadjuvar-se em projectos comuns414.
A invocação da essencialidade da abertura duma escola de arquitectura face à disciplina é notada por João Paciência já em 1979 quando se impacienta com uma “total falta de informação sobre o que se faz nas escolas ou fora delas”415. Defendendo ainda o papel interventivo da ESBAL/FAUTL na divulgação de informação, observa amargamente, ao referir-se à realização dos Seminários organizados por Tomás Taveira,
414
A ESBAL/FAUTL está ciente do seu papel: “A Escola intervém a vários níveis, quer colaborando em iniciativas que partem de outras instituições (…) quer ainda tornando-se permeável a perspectivas de grande impacto internacional e trazendo até aos estudantes (…) os impulsionadores desses movimentos.” Cf. Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Departamento de Arquitectura; OLIVEIRA, Baptista, coord. [et. al] – Boletim Informativo 4. Op. cit..
415
PACIÊNCIA, João – Arquitectura em debate – Aveiro 79. Arquitectura. Lisboa. 4ª série, n.º134 (1979), p.52.
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“um evidente desinteresse que a classe manifesta em ouvir personagens que polarizam importante corrente de opinião”416. A Escola de Lisboa será, assim, considerada por alguns não só um local de aprendizagem do ofício mas também como uma plataforma institucional instrumentalizável em benefício da própria disciplina, tal como seria, mais ou menos explicitamente, a Escola do Porto.
De facto, os Seminários são o exemplo mais paradigmático da sua faceta política já que da mesma forma que divulgam as tais importantes correntes de opinião, potenciam a colocação da capital no centro do debate arquitectónico. Diz o seu organizador:
“Apesar de não se poder trazer o Stirling, ou alguém de Inglaterra... pensei: cá está uma boa oportunidade, para dar ‘a isto’ um conteúdo forte, algo, que tenha algum peso cultural na sociedade portuguesa, porque trazer só as personalidades porque são gurus pode ser uma oportunidade perdida; portanto vamos enquadrar este acontecimento em alguma estrutura filosófica mais forte”... (…)
Repare que, naquela época, vivia-se no seio de uma constrangida ideia de que o Porto era o centro da intelectualidade da arquitectura portuguesa. Lisboa não tinha prestígio, embora tivesse formado a maioria dos arquitectos importantes daquele tempo... Assim, eu vi na ideia dos seminários uma oportunidade para mostrar que nós estaríamos eventualmente na vanguarda... (…)
Vivíamos o início da consubstanciação da dicotomia Lisboa/Porto e, por isso, senti que tínhamos a obrigação de mostrar que tínhamos uma ideia para a arquitectura, para a evolução da estética e que até, eventualmente, estávamos à frente do... Porto, nessa matéria, e que éramos muito mais
416
PACIÊNCIA, João – 2º simpósio internacional de arquitectura no departamento de arquitectura da ESBAL. Jornal Arquitectos. Lisboa. ISSN 0870-1504. n.º 19/20 (1983), p.17.
133 ousados relativamente à ideia de pluralismo na estética da arquitectura.” (TAVEIRA cit. por FIGUEIRA, 2009, vol.2, p.104)
Esta ousadia não cairá em “saco roto”; os Discursos sobre
arquitectura que reúnem, em 1990, “um conjunto notável de
arquitectos”417 na FAUP – nos quais se incluem o próprio James Stirling - podem ser interpretados como isso mesmo: uma resposta a uma contra-resposta.
Ainda num quadro estratégico de afirmação do pós- modernismo, Tomás Taveira anuncia, em simultâneo com o primeiro Seminário, que o movimento pós-modernista já
começou418 projectando a Escola para um protagonismo que este crê ser enriquecedor, por um lado, e fazendo uso da instituição como meio legitimador do seu projecto individual, por outro.
Os Seminários terão, assim, uma relativa projecção, no entanto não são o único sinal de recurso à Escola como meio de fundamentação de uma nova arquitectura; também as manifestações pós-modernas de que já falámos - nomeadamente, em Janeiro de 1983, a exposição de arquitectura do evento Depois do Modernismo [Fig.23; V. 3.2.2] e a edição de Março/Abril de 1983 da revista Arquitectura (n.º 149 com o título “Novíssimos”) [Fig.24; V. 3.2.2] - socorrer-se-ão dela para estabelecer alguns parâmetros.
No primeiro caso – talvez posto que a inflamação pós- moderna, neste contexto, se fundamenta em modos de viver noctívagos, intensos e audaciosos mais próprios de uma certa camada geracional – observa-se uma elevada participação de recém-formados provindos da ESBAL/FAUTL419; com efeito, se
417
FIGUEIRA, Jorge – Ciclo de vídeo: discursos (re)visitados. Boletim Arquitectos. Lisboa. ISSN 0872-4415. n.º 205 (2010), p.2.
418
Cf. TAVEIRA, Tomás – O movimento pós-modernista já começou. Revista Expresso. Lisboa. n.º 496, 1 Maio 1982, pp. 22R-23R. O primeiro Seminário ocorrera de 19 a 30 de Abril de 1982.
419
Entre outros, João Carrilho da Graça (ESBAL, 1977) e António Belém Lima (ESBAL, 1979) mas também um número significativo de formados a partir de 1980.
Fig.24 Capa da edição
“Novíssimos” da revista Arquitectura n.º 149 (1983)
Fig.23 Capa do catálogo da
iniciativa Depois do Modernismo (1983)
134
é a Michel Alves Pereira (ESBAL, 1973) que cabe o papel de “mestre-de-cerimónias”420 é José Manuel Fernandes (ESBAL, 1977) – que juntamente com João Vieira Caldas (ESBAL, 1977) e Manuel Graça Dias (ESBAL, 1977), entre outros, compõe a Comissão Consultiva - quem tratará de uma “triagem” (e necessário convite à participação) de jovens arquitectos na fonte mais privilegiada que conhece, ou seja, na própria Escola:
“Muitos dos novos que lá aparecem são sugeridos pelo Zé Manuel Fernandes - que estava na escola a dar o 5º ano, parece-me, e conheceu assim, em dois anos seguidos, várias fornadas de gajos que já eram arquitectos e portanto apostou nos melhores alunos que achava que iam ter potencial.” (GRAÇA DIAS cit. por FIGUEIRA, 2009, vol.2, p.90)
Acresce que a Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa seria um dos apoiantes oficiais do evento.
Não obstante, constata-se que o envolvimento de arquitectos mais experientes e fora do meio escolar421 - embora muitos deles também “de Lisboa” - constitui uma referência para os mais novos. Quer isto dizer que, ao mesmo tempo que estes últimos experimentam os seus primeiros passos – e por conseguinte não se pode atribuir à obra exposta, nem aos propósitos do evento, uma grande maturidade disciplinar ou ideológica – procuram referências que não lhes foram claras na sua Escola de formatura.
Tal é sugerido no segundo momento de que fizemos nota; de facto, a divulgação das primeiras obras de mais de 30 recém- licenciados pela ESBAL/FAUTL entre 1972 e 1981 pela revista
Arquitectura – publicação incontornável no quadro mediático da
arquitectura portuguesa – não só é sintomática da evidente
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Michel Alves Pereira é o responsável pela parte de Arquitectura na Comissão Executiva do evento sendo também o autor de um dos textos introdutórios do catálogo da exposição.
421
Como por exemplo Victor Consiglieri (ESBAL, 1956), Manuel Vicente (ESBAL, 1960), Troufa Real (ESBAL, 1967) ou João Paciência (ESBAL, 1969) mas também José Charters Monteiro (Politécnico Milão, 1969), José Santa-Rita (ESBAP, 1951) ou Luiz Cunha (ESBAP, 1957).
135 relação que se estabelece entre a cultura arquitectónica de Lisboa e a instituição que garante a sua evolução, como pretende, antes de mais, denunciar as falhas no ensino nela praticado. E mais uma vez, aqui, é José Manuel Fernandes quem afirma essa inquietude:
“[Geração formada numa] escola lisboeta que os não soube “agarrar” e formar completamente mas os obrigou a procurar as coisas por si rejeitando (…) os “mestres” via patrões e
ateliers tradicionais que (…) foram percorrendo (…) se
pretendiam uma aprendizagem a substituir a da escola que não chegava.
(…)
Geração perdida, portanto, enquanto projecto coerente e colectivo; geração ganha enquanto busca de um novo estar, de uma nova prática só possível de definir partindo do zero, criando uma abertura, antes inexistente, a novas linguagens, conceitos, práticas, que desbloqueiem esta profissão por ora tão desgastada (porque dantes tão fechada em universos coerentes com um mundo que já não existe hoje).” (FERNANDES, 1983, p15)
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4.2 Repercussões directas e indirectas de uma cultura em