Finalmente, e não menos importante porquanto queremos apontar as principais influências de uma cultura em volta da Escola, é necessário sublinhar a sempre presente admiração, entre os estudantes, pela Escola do Porto; apesar da credibilidade da instituição lisboeta, muitos são aqueles que, atraídos por uma imagem forte, migrarão para norte448. Muitos serão também os que se transferem na direcção oposta sujeitando-se aos olhares atentos de colegas e professores449.
Dado que se considera implícita, não foi considerada a influência, na Escola, das obras de arquitectura erigidas na capital durante este período as quais, pela polémica que geraram, teriam certamente tido algum impacto sobre os
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Um dos quais será, por exemplo, Daciano da Costa, também ele agraciado com o título de doutor honoris causa, em 2004: ele próprio natural de Lisboa terá, certamente, transportado, para o seu desempenho como professor, o “processo de definição da Arquitectura de Interiores como disciplina autónoma, estabelecida em relação estreita e orgânica com o projecto de Arquitectura e em substituição da designada Decoração"; MARTINS, João Paulo cit. por Agência Lusa – Morreu o arquitecto e designer Daciano Costa. Público [Jornal]. Lisboa. 18 Setembro 2005. O professor leccionou inicialmente a disciplina de Desenho II e mais tarde assumiu coordenação do curso de Design.
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Ainda hoje tal acontece. Ex.:Tiago Pimentel, arquitecto licenciado pela FAUP em 1998 e autor premiado no Concurso Internacional para Concepção do Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa, afirma: “Nasci e vivi sempre em Lisboa e tomei a opção deliberada de vir para o Porto estudar arquitectura no fundo por causa do trabalho do arquitecto Siza Vieira.” PIMENTEL, Tiago cit. por LOURENÇO – A Escola [Em linha].
complexidadeecontradicao.blogspot.com, 2004. 4 Dezembro 2004. [Consult. 6 Junho 2010]. Disponível em
http://complexidadeecontradicao.blogspot.com/2004/12/escola.html
449
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estudantes, mesmo sobre os mais distraídos; podemos supor que a Casa dos Bicos (Manuel Vicente, Lisboa, 1981-1983) [Fig.26] tenha de algum modo desafiado os diversos posicionamentos sobre a defesa e requalificação de património tal como “ensinado” no meio escolar (já que este era um tema recorrente, como já vimos); o Amoreiras (Tomás Taveira, Lisboa 1980-1996) [Fig.27] terão demonstrado, por seu lado, a exequibilidade de uma arquitectura até aí somente imaginada; o restaurante Casanostra (Manuel Graça Dias, Lisboa, 1985- 1994) [Fig.28] terá aliciado uma orientação profissional direccionada para o mercado ao “interiorismo”; no final da década, a Escola Superior de Comunicação Social (João Luís Carrilho da Graça, Lisboa, 1987-1993) [Fig.29] terá contrastado com tudo o resto e demonstrado a possibilidade de excepção como um posicionamento viável num novo mercado de trabalho, ainda não formatado.
Fig.26 Casa dos Bicos (fotografia
publicada em 1986)
Fig.27 Complexo Amoreiras (fotografia
publicada em 1986)
Fig.28 Restaurante Casanostra
(fotografia de 1985)
Fig.29 Escola Superior de Educação de
147 CAPITULO V
Aspectos visíveis da formação académica na prática profissional: ensaio sobre duas gerações
Vimos os diversos factores que animam a relação meio académico versus meio profissional e vice-versa. Interessa-nos agora observar o produto desses factores enquanto estímulos sobre aqueles que se constituem como ponto nuclear da presente análise, ou seja, os estudantes de arquitectura. Iremos, pois, observar os princípios que regem a criação arquitectónica e orientam o percurso de arquitectos que, ainda dentro ou já fora da ESBAL/FAUTL, estudaram ou trabalharam neste período.
Lançaremos uma análise, caso a caso, partindo de projectos ou obras paradigmáticas. Fazemo-lo porque se impõe, necessariamente, um olhar sobre a arquitectura ou o concreto que resulta das relações atrás preconizadas.
Estas obras serão eleitas consoante o maior ou menor grau de representatividade de uma tendência ou particularidade e não pelo grau de importância ou visibilidade. Igualmente a escolha dos protagonistas incidiu sobre aqueles com um percurso mais destacado450.
A sequência narrativa socorrer-se-á da mesma grelha temporal utilizada no capítulo analítico da ESBAL/FAUTL no período de 1975 a 1990 [V. cap.II - introdução]. Reduziremos no entanto as quatro fases a duas, porque observamos apenas uma inversão significativa no que toca a “propensões projectivas”, salvo as excepções que naturalmente confirmarão a regra.
Tomando como referência as datas de conclusão de curso, teremos, então, uma primeira etapa relativa aos formados entre 1976 e 1983 – a qual propõe fundir as fase 1 e fase 2 e uma segunda etapa relativa formados entre 1984 e 1990 – que
450
Naturalmente que não é possível uma análise absolutamente imparcial a partir do momento em que a fonte de informação seja exclusivamente bibliográfica - como é o caso – o que por si só implica escolhas e juízos que nos ultrapassam além da referida visibilidade.
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propõe fundir as fase 3 e fase 4. Por critérios narrativos reportaremos à primeira e segunda etapas como primeira
geração e segunda geração, respectivamente451.
A incursão numa análise deste tipo – baseada nas qualidades sensíveis ou mensuráveis da vertente espacial e formal do objecto as quais deixam de lado, necessariamente, os motivos mais abstractos tais como o posicionamento ideológico ou a poética – é somente possível e apropriada na medida em que a própria análise em estudo se situa num contexto de predominância do discurso sobre a forma e/ou o que ele próprio comunica materialmente452. Quer isto dizer que avançamos para o objecto suportados pela pré-determinação de que a arquitectura deste período não gera uma narrativa original nem estabelece uma continuidade com a anterior sendo, por isso, essencialmente referenciada e que a sua contemporaneidade a situa precisamente nesse lugar indefinido que é o “depois de”.
É também essa a razão pela qual nos debruçamos essencialmente sobre o objecto arquitectónico e não tanto sobre aquele espaço arquitectónico maior (em duplo sentido) que é o território. Não se trata, por tanto, da depreciação de um dos grandes temas que se destacam em contexto democrático – até pelo papel que os jovens arquitectos têm na condução de novas políticas de planeamento pelo país fora - mas antes uma correspondência para com o grande “paradoxo”453 dos anos 90.
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Esta divisão é meramente instrumental. Veremos, em conclusão, como a questão geracional na cultura arquitectónica portuguesa deixa de fazer sentido a partir deste período.
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Certos autores não hesitam mesmo em atribuir essa propensão tanto a Lisboa como ao Porto. “A recusa do desenho a que se assistiu na escola do Porto na primeira metade da década de 70, e os desejos e inquietudes dos jovens estudantes e arquitectos da escola de Lisboa, são seguramente uma das consequências da Reforma de 57, ainda que amplificados pelo ambiente pré/durante/pós-revolução; se a isto se juntar a tradicional intangibilidade da arquitectura e do espaço, compreende-se como, entre uns e outros (Lisboa e Porto), a arquitectura portuguesa se rendeu nos últimos anos aos encantos e aos apelas da forma.” ALMEIDA, Rogério Vieira de – A reforma de 1957. Op. cit.. p.23.
453
“Se os anos 90 [permitiram] confirmar a capacidade da arquitectura portuguesa, revelaram o paradoxo quando se realiza o estado da paisagem construída neste início do terceiro milénio.” TOSTÕES, Ana – O lugar da paisagem europeia. In Triennale di Milano, ed. lit. [et al.] – Portugal 1990-
149 Uma vez que se intentou ensaiar hipóteses sobre ramificações que se destacam de um panorama geral, optou-se por centralizar a atenção em objectos ilustrativos e não a sua autoria, razão pela qual esta é quase sempre omitida no texto e referida nas legendas das respectivas imagens.
2004/Portogallo 1990-2004. Rio de Mouro: Printer Portuguesa, 2004. ISBN 972-95797-3-3. p.23.
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