Ao invés de argumentar acerca de uma abordagem micro como sendo temporária e orientada para um objetivo em específico (geralmente segundo uma lógica instrumental/funcional em relação ao aparato), o que é compreensível em uma investigação cujo foco do projeto de pesquisa seja observar exclusivamente as dinâmicas interacionais no ambiente do jogo, os resultados advindos da minha experiência de campo demonstram que uma equipe engajada no jogo pro pode ser uma entidade social institucionalizada em termos simmelianos, permitindo práticas de sociabilidade, na qual jogadores podem constituir tanto um grupo (micro) quanto organizações (meso), comunidades e redes (macro) mais facilmente, estas últimas características típicas de níveis meso e macro. Certamente isso, embora seja particularmente relevante em relação a um MOBA como LoL, não possui todo um ineditismo,
uma vez que nas dinâmicas de pugs em um jogo como WoW há relatos de jogadores que enfatizaram ser possível fazer amigos e até mesmo ser convidado para se juntar em guildas mais casuais (EKLUND e JOHNASSON, 2013).
Meu trabalho de campo, de nove meses com a Infive, revela que o compromisso ou o tempo gasto on-line tende também a ser mais amplamente valorizado e elevado em um grupo menor do que apenas em uma comunidade maior e mais organizada, em contraponto com o que argumentaram Ducheneaut et al (2006), apesar dos autores utilizarem uma metodologia distinta da empreendida neste estudo. Na figura 12, apresento um esquema que (re)constrói a trajetória progressiva da estrutura social relacional das dinâmicas de filiações dos jogadores da VsAll com base nas três camadas relacionais construídas.
Nível micro: Criação da equipe Versus All em novembro de 2016.
Nível macro: Ingresso na comunidade competitiva de LoL em Belém em junho de 2017, a partir da participação em um evento do cenário local;
Nível meso: Migração para a organização Infinite Five e-Sports em junho de 2017.
Nível micro: Criação da line-up de LoL da Infive e aproximação com a equipe de Dota 2 da organização em junho de 2017. 1 3 5 4 1 2 3 4 6 2
Nível macro: Engajamento em eventos (torneios e campeonatos) na comunidade competitiva de LoL em Belém e maior difusão da equipe no cenário.
Nível micro: Aproximação com equipes, jogadores, coachs, analistas e demais atores do cenário competitivo de LoL em Belém.
Figura 12: Trajetória progressiva da estrutura social relacional das dinâmicas de filiações dos jogadores da Infinite Five e-Sports com base nas três camadas relacionais
Fonte: Autoria própria
Isso se dá, todavia, em um grau distinto das associações temporárias em nível micro dos ambientes do jogo, por conta de uma diferença essencial que meu trabalho de campo sugere: a formação e manutenção do tecido social da comunidade local competitiva de League não somente transcorre no ambiente do jogo286, mas também é, sobretudo, circundante a ele. A
equipe na qual me aproximei – a line-up de LoL da Infinite Five e-Sports – é um índice de que as relações sociais estabelecidas na comunidade competitiva local não permanecem confinadas ao jogo, mas se desenvolvem e expandem ao seu entorno, em diversos espaços da cidade de Belém nos quais eventos de e-sports são realizados.
T. Taylor (2012) já argumentava que, embora o caminho para a progressão na carreira de amador para profissional seja assaz acidentado e malsucedido em muitos casos, este domínio se encontra vigorosamente dependente de uma ativa socialização em uma identidade profissional decorrente de toda uma série de atores e forças. Esta afirmação, em consonância com a obra simmeliana, além de condizer com uma compreensão que corrobora com uma dinâmica processual da aproximação com um qualquer tipo de objeto técnico (FALCÃO, 2014a, 2014b), ainda aponta para um objetivo circunstancial desta pesquisa, o discurso para um modo de existência organizacional que paira em grupos de jogadores – equipes – orientados e comprometidos para com a prática do jogo digital competitivo organizado.
Ademais, reforça ainda que o estudo acerca dos jogadores pro e sua individualidade (e, portanto, do e-sport) deve levar em consideração as formas como o coletivo (atores e forças) opera no individual e das diversas interpretações e consequências advindas da prática do jogo digital competitivo organizado, conforme destaca o trabalho de campo: os distintos níveis de impacto que as relações do cenário local competitivo de LoL, baseadas muitas vezes no alto desempenho, camaradagem, confiança e reconhecimento287, podem causar à constituição da
286 O que justifica uma percepção, por parte da literatura, de uma dificuldade na constituição de associações grupais
mais estáveis, portanto, sendo esses grupos menores dotados de um caráter muito mais temporário (cf. FALCÃO, 2014a; CHEN, 2009, 2010; DUCHENEAUT et al., 2006; JAKOBSSON e TAYLOR, 2003; RATAN et al., 2010; TAYLOR, T., 2006b).
287 Essa discussão pode ser obtida no debate acerca da noção de cena de Pierre Bourdieu, James Coleman e Robert
Putnam utilizando-se da teoria dos capitais dos referidos autores, ou mesmo nas discussões no Brasil a partir da abordagem de Raquel Recuero, cujas contribuições são inegáveis, mas fogem ao escopo desta pesquisa.
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equipe enquanto pro e sua pertença a uma determinada comunidade de jogadores locais de elite. Na seção 4.4.2 discutirei essas questões de modo mais específico.
Em uma ocasião em que conversava, no servidor do Discord da organização, com um dos interlocutores da pesquisa, Hidaka Sana, a respeito de como ele observava o cenário local, como se enxergava nele enquanto jogador individual e como via a equipe, de modo mais amplo, ele relatou o seguinte diagnóstico acerca da comunidade local competitiva de League.
O cenário local ele é muito panelinha, é muito status, tipo, tu tem que se dar bem com o pessoal pra ter alguma chance. No nosso caso, a gente conhece uma galera, a gente já conhece o pessoal da Estafetas288, a gente já é amigo do
pessoal de lá, eu, geralmente, falo com o Suito, geralmente falo com o Emerok289, converso sempre com eles quando dá [...]. Então, a gente já
conhece uma galera e tal do cenário e isso faz o nosso time também ser um pouquinho mais à frente, porque, tipo, se a gente não conhecesse ninguém, não fosse amigo de ninguém, a gente iria ficar meio esquecido e eles iam começar a excluir. E, tipo, quando tu conhece o pessoal é mais fácil de acontecer scrim290 e tal, de ter treino mais frequente e pá, é mais fácil de ir
treinando com os outros times, tu conheces os outros times melhor também. Meio que tem uma parada de camaradagem entre as equipes. (sic)
Vale recordar que o convite para que os jogadores da VsAll (seta 1 – camada micro) integrassem e migrassem para a organização Infinite Five e-Sports (seta 3 – camada meso), cujo objetivo seria de construírem a line-up de League of Legends da organização (seta 4 – camada micro), é consequência da constituição de uma equipe (a VsAll, portanto, micro, seta 1) e da sua participação em um dos principais eventos da comunidade competitiva local do jogo (seta 2 – camada macro), a Premier League, marcando o ingresso da equipe na comunidade.
Isso é evidenciado em uma fala do capitão da equipe, Ham. Em diferentes momentos em que conversamos, ele reforçou que o instante a partir do qual a equipe ficou mais reconhecida e adquiriu maior visibilidade na comunidade ocorreu quando jogaram a Premier League.
Uma coisa que foi muito importante pra gente esse ano [2017] foi, justamente, entrar nesse meio, porque a gente não conhecia ninguém, a gente era
288 A Estafetas Voadores E-Sport é um dos tradicionais times do cenário local, autodefinido como um time amador
paraense de LoL. Trata-se de uma das equipes mais respeitadas e considerada uma das melhores na comunidade. É a atual campeã da Premier League de 2017, o campeonato mais importante de Belém até então, e, juntamente com a Infive, é uma das poucas equipes do cenário competitivo que nunca deu disband, segundo argumentaram Ham, Hidaka Sana e Darkanon. O termo inglês é mais uma verbification resultante de uma apropriação pelo jargão da subcultura de League, o qual advém do verbo “disband”, cujo significado literal é desmembrar, dispersar ou separar. Seu uso refere-se ao fim de uma equipe.
289 Tanto Suito quanto Emerok são dois jogadores que possuem um grande respeito no cenário local. Emerok já
pertenceu ao time da Estafetas, mas atualmente não permanece na equipe.
290 Segundo Ham, scrim é um termo utilizado para um tipo de partida personalizada entre dois times com o objetivo
desconhecido e, aí, eu entrei naquele grupo LoL Belém, e aquele grupo difunde muito, o campeonato da Premier League difundiu e aí “alguém” conhece a gente hoje minimamente, mas esse pessoalzinho aí, já tem o nosso conhecimento, acho isso bem legal.
[Ham]: foi o período que a gente conheceu mais pessoas, jogadores, coachs, times e enfim, daqui de Belém. depois disso claro q só aumentou. Mas esse foi o hype291. (sic)
Estava, contudo, relativamente, descrente com a segunda afirmação de Ham. Pouco satisfeito com a resposta curta, cheguei a ser mais enfático e questionei quando ele acreditava que, de fato, a equipe havia conseguido entrar no cenário competitivo local, tornar-se integrada no tecido social da comunidade. O capitão da equipe foi ainda mais assertivo.
[Ham]: Nesse período [...]. Apesar de ter sido nosso primeiro camp[eonato], a gente foi bem e geral passou a nos conhecer, teve entrevista292 com o V.
[Hidaka Sana] que postaram no grupo do lol Belém e etc. dps disso a gente jogou mais camps e isso ajudou a difundir mais. (sic)
A conexão que Ham está fazendo aqui é de que a participação em eventos na comunidade competitiva local do jogo tornou possível a expansão das redes da equipe e, particularmente, de cada um dos jogadores integrantes dela (seta 5 – camada macro). Na realidade, segundo ele, o convite feito pelo líder da organização da Infive, J., ocorreu durante a Premier League e em decorrência de ele ter assistido a equipe VsAll competindo nesse campeonato na Studio Games, da presença constante da equipe neste espaço e também por conta de os membros do time terem assistido a uma palestra de e-sport do criador da organização nesse centro de entretenimento digital.
Esses argumentos reforçam a expansão das redes adquiridas pelos jogadores a partir do momento que passam a ingressar no cenário local competitivo, ganhando maior visibilidade no meio. Visibilidade é algo de relevância crescente para os membros da equipe, mas também se trata de um elemento primordial para a progressão no cenário competitivo, segundo meus
291 Trata-se de uma gíria, frequentemente utilizada na internet, que diz respeito a algo que está sendo bastante
repercutido no momento, normalmente com avaliações positivas no âmbito popular, ou seja, que está na “moda” ou que é “descolado”. Segundo Ham, muitas dessas siglas são criadas por screamers e tornam-se populares.
292 Essa entrevista refere-se a uma espécie de talk show, intitulado Thresh talk (referência ao nome de um dos
personagens do jogo, Thresh), realizado no site de rede social Facebook. Criada em maio 2017, a página dedica- se a comentar e promover o cenário dos e-sports paraense em LoL. Em 2017, a página realizou uma intensa cobertura das partidas do que chamaram de “o principal campeonato paraense de League”, realizando análises dos confrontos, sínteses dos jogos e quadros como o Sentença da audiência (um tipo de quadro pro vs pro de Belém, conforme definido por eles, em que os jogadores perguntavam e respondiam seus adversários) e Thresh Entrevista. Segundo os criadores, este último trata-se de um programa de entrevista com jogadores de Belém, cujo objetivo era de fazer com que a comunidade passe a melhor conhecer não somente o ponto de vista do entrevistado, mas também um pouco dos times que estavam disputando a Premier League naquele ano. Hidaka Sana, como mencionado por Ham, foi um dos entrevistados desse quadro em decorrência do destaque que obteve durante a competição. A equipe, na época VsAll, foi definida como sendo um time que vinha evoluindo muito no campeonato.
interlocutores. Ela é, em grande medida, responsável por tornar possível a ascensão de um cenário competitivo local para o profissional em nível nacional. Darkanon mencionou, em determinado momento, que a visibilidade é capaz de permitir a conquista de patrocínios e investimentos que dificilmente seriam possíveis no cenário de Belém.
Hidaka Sana, por sua vez, argumentou que o time necessita, primeiramente, adquirir maior visibilidade na cidade para, em seguida, poder avançar na progressão competitiva. O primeiro desafio de uma equipe competitiva engajada no jogo pro, segundo ele, é ganhar visibilidade, o que envolve jogar uma variedade de eventos competitivos disponíveis e um esforço para vencer. “Com a visibilidade que eles ganham, eles vão conseguir mais coisas pra frente” (sic), ratificou Hidaka Sana, o que inclui marcar scrims mais facilmente, conhecer outras equipes e evoluir a partir dessa interação. A visibilidade, portanto, encontra-se diretamente relacionada com o bom desempenho no âmbito do jogo.
Por sua vez, esse reconhecimento por parte da comunidade competitiva em Belém auxiliou e ainda auxilia na aproximação da equipe com demais jogadores e equipes do cenário local (seta 6 – camada micro), como mencionado por Ham e Hidaka Sana. É importante reforçar, entretanto, que a equipe, não obstante integre outras estruturas sociais (meso e macro) constantemente, continua pertencendo a um grupo pequeno (micro) integrado em uma organização (meso) e em uma comunidade competitiva local (macro). Essa dinâmica, portanto, demonstra o quanto equipes locais encontram-se ativamente dependentes de um processo de socialização em uma dada comunidade local competitiva – e toda sua variedade de atores e forças (TAYLOR, T., 2012).
Isso denota que, embora todo jogador que se inscreva em um jogo seja alocado automaticamente em uma rede mais ampla, para que um determinado jogador seja aceito e integre uma comunidade dentro dessa rede de maneira efetiva é preciso dela se aproximar com objetivos e certos interesses em comum, familiaridade, unidade e até intimidade (LEHDONVIRTA, 2010; RHEINGOLD, 2005). No cenário local competitivo de League em Belém, não basta que um jogador jogue competitivamente sozinho para que ele seja aceito na comunidade. É preciso que se engaje em eventos, torneios, campeonatos e demais atividades do cenário local para que possa integrar essa comunidade específica, seja jogando ou desenvolvendo outras ações como analista, manager, coach, espectador etc.
Ambas as fala, de Ham e Hidaka Sana, demonstram o quanto que uma equipe/time é capaz de facilitar a integração dos jogadores em entidades sociais mais amplas as quais, em geral, aproximam-se e ajustam-se tanto nas perspectivas meso quanto na macro. Tornam,
portanto, possível uma formação/unidade social mais abrangente, como participar de uma organização de uma equipe e até mesmo auxiliar na expansão das redes dos jogadores ao introduzi-los na comunidade competitiva de League em Belém, muito mais restrita do que o cenário local de LoL da cidade (a qual abriga a comunidade competitiva), como argumenta Hidaka Sana.