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A divisão entre sujeito e objeto é a cisão fundamental que instaura a consciência, por um lado, e o mundo fenomênico, por outro. Até agora Schopenhauer nos situou no plano da realidade psíquica em termos semelhantes aos da psicanálise. Desse ponto de vista, o fundamento da realidade se dá na tomada de consciência psíquica, o que não resolve ainda o problema da existência ou não de um mundo efetivo, suposto na percepção: “A lei da causalidade e a consideração e investigação da natureza que dela se seguem conduzem-nos necessariamente à assunção segura de que, no tempo, qualquer estado da matéria mais complexamente organizado deve ter sido precedido de um mais simples”. Ou seja, “os animais existiram antes dos homens, os peixes antes dos outros animais, as plantas antes destes e o inorgânico antes de qualquer orgânico”. 293 Estaria assim definido o papel efetivo do objeto da percepção na teoria de Schopenhauer? Pois, ou bem existe uma referência efetiva ou o objeto é um produto da fisiologia do cérebro (Gehirn) e toda essa história natural uma fantasmagoria da percepção.

Se o cérebro é definido por ele como órgão do Princípio de Razão, isto é, do múltiplo, a série natural só existe para o cérebro de que ela é intuição intelectual. Subsiste, portanto, ao fundo de tudo isso, um círculo epistemológico, com que inúmeros

292

Segundo CACCIOLA (1995, p. 76), Schopenhauer „descreve o grau mais baixo da objetivação da Vontade, a natureza inorgânica, como sendo aquele em que a Vontade se apresenta como um “ímpeto cego” (blinder Drang) e um “esforço sem conhecimento” (erkenntnisloses Streben), onde dominam as leis da física e da química, explicando causalmente todos os fenômenos. No reino vegetal, já não são propriamente causas que atuam, mas excitações (reize) inconscientes, que não mantêm a mesma relação proporcional com seu efeito. Já na natureza animal, dada sua maior complexidade e o caráter de indivíduo, desenvolve-se, por causa da necessidade de locomoção para alimentar-se, um instrumento apropriado para essa atividade

determinada por motivos que é o conhecimento.”

293

pesquisadores se inquietaram e que condensa bem as dificuldades de um sistema que tenta dar um lugar ao materialismo, mantendo simultaneamente um ponto de vista idealista. 294 Segundo Schopenhauer, é tão verdadeiro dizer que o sujeito que conhece é um produto da

matéria (Materie) quanto dizer que a matéria (Stoff) é uma simples representação do

sujeito cognoscitivo. 295 A tese do filósofo sobre isso se encontra definida no capítulo 20 do Tomo II de O Mundo:

O que aparece na consciência de si (Selbstbewuβtsein), portanto subjetivamente (also subjektiv), como intelecto (Intellekt); é o mesmo que aparece na consciência das outras coisas (Bewuβtsein

anderer Dinge), portanto de modo objetivo (also Objektiv), como cérebro (Gehirn): e o que aparece

na consciência de si, portanto subjetivamente, como Vontade, aparece na consciência das outras coisas, portanto objetivamente, como a totalidade do organismo (gesamte Organismus). 296

O estatuto do corpo (Leib) depende se o abordamos como objeto imediato, como organismo (Organismus) imediatamente atuante, ou como objeto mediato, quando estão ele aparece como um corpo (Körper) entre outros corpos no mundo. O mundo e o corpo, de acordo com este segundo ponto de vista, são representações; de acordo com o primeiro ponto de vista, são expressão imediata de um querer metafísico.

O cérebro (Gehirn) é, ao mesmo tempo, causa metafísica e efeito físico da natureza, situação que preserva atitudes dificilmente conciliáveis e justapõe doutrinas díspares. Como escreve Cacciola (1995), “se tudo o que aparece no mundo é mera representação do sujeito, inclusive o cérebro, como considerar que o cérebro, enquanto parte do organismo, é a fonte do conhecimento representativo?” Esta contradição, segundo a autora, “ficou conhecida como “o paradoxo de Zeller”.” 297

294

CACCIOLA, M. L. Schopenhauer e a questão do dogmatismo, p. 77. A autora menciona em nota dessa página que a antiga polêmica sobre a contradição da antinomia de Schopenhauer foi criticada por J. G. Herbart, A. Ratze, Cornill, Seydel, ZELLER (ele emprestou seu nome ao paradoxo), Fischer e Volket.

295

BRANDÃO, E. O conceito de matéria na obra de Schopenhauer, p. 180-1. Note-se que o uso percebido por Brandão corresponde ao dos termos Leib/ Organismus e também ao uso dos termos Wirklichkeit/

Realität. Isto é, as relações subjetivas estão vinculadas aos termos alemães, enquanto as objetivas, pelo

contrário, vinculam-se aos termos latinos.

296

WWV, E. SW, II, Objektivation des Willens, p. 317. Os conceitos de objetividade e subjetividade sofrem uma importante mudança na Metafísica do Belo. Nesse ponto da obra, Schopenhauer nos exige um ponto de vista diverso e oposto. O olhar do gênio (Genie) artístico contempla de modo desinteressado a totalidade do mundo como representação, e, pela sua capacidade incomum o toma de um só golpe. Isso permite que ele contemple a idéia que subjaz ao fenômeno, sendo, portanto, o olhar mais puramente objetivo; em contrapartida, o intelecto do cientista, que só capta relações em função de certos interesses, torna-se então um olhar subjetivo.

297

CACCIOLA, M. L. Schopenhauer e a questão do dogmatismo, p. 77-8. Na mesma página é citado o trecho de ZELLER (1873) a respeito da antinomia. Na obra Geschicte der deutschen Philosophie seit

Leibniz, capítulo “Schopenhauer”, o autor escreve: “O intelecto é, na verdade, simplesmente uma função do

cérebro. Lembremo-nos aqui do que o filósofo ensinou na primeira parte de seu sistema e então chegaremos a um resultado muito surpreendente. Lá ele nos exorta, com uma insistência nunca suficiente, a não ver em

O próprio Schopenhauer menciona tal contradição, nomeando-a como antinomia da

faculdade de conhecer (Antinomie in unserm Erkenntnisvermögen):

Assim, necessariamente, vemos de um lado a existência do mundo todo (das Dasein der ganzen Welt)

dependente do primeiro ser que conhece (abhängig vom ersten erkennenden Wesen ), por mais

imperfeito que seja; de outro, vemos esse primeiro animal cognoscente inteiramente dependente de uma longa cadeia de causas (Ursachen) e efeitos (Wirkungen) que o precede, na qual aparece como um membro diminuto. 298

Percebe-se então que a cadeia de causas e efeitos é o pressuposto do entendimento animal, mas que, com igual direito, o entendimento animal é o agente através do qual essa realidade anterior pode ser concebida, isto é, adquire realidade para um entendimento. Desse modo, tanto é verdade dizer que o primeiro olho (das erste Auge) 299 inaugura a causalidade, como também dizer que, do ponto de vista ontogenético, a cada vez que um

olho se abre para o entendimento (Verstand) o mundo como Representação

necessariamente começa de novo.

Para Schopenhauer, tal círculo epistemológico diz respeito apenas ao problema do mundo dado na intuição, e é pensado de um ponto de vista unilateral, no âmbito das relações fenomênicas, campo do materialismo filosófico e da ciência. O materialismo é considerado pelo filósofo “o mais consequente dos sistemas filosóficos que partem do objeto”, 300 mas não é adequado para pensar o que é a matéria (Materie) a priori além da sua Representação no tempo e no espaço a posteriori para um sujeito que conhece (Stoff), aplicando a priori as regras do princípio de razão suficiente: “o mundo objetivo ou mundo

todo o mundo objetivo e, antes de tudo, na matéria, nada a não ser nossa representação. Agora ele nos adverte, não menos insistentemente, a não tomar nossa representação a não ser por um produto do cérebro. A partir daí nada mudou, já que este mesmo cérebro deve ser, daqui por diante, uma forma determinada de objetivação da Vontade, pois se a Vontade não tivesse produzidos tal órgão, não poderiam surgir quaisquer representações. Nosso cérebro é, porém, essa matéria determinada, portanto, de acordo com Schopenhauer, esta representação determinada. Encontramo-nos assim encerrados no seguinte círculo: a representação tem

que ser um produto do cérebro e o cérebro um produto da representação”. Cacciola menciona também a

formulação de Fischer, na sua obra Die Welt als Erkenntnissystem, de 1908, que apresenta o paradoxo nas formas de tese e antítese. Tese: “Nosso conhecer é um produto orgânico e tem como pressuposição todo o processo de graus de organização animal e humana, o mundo das plantas, a história do desenvolvimento do Universo e da Terra.” Antítese: “O mundo todo em sua multiplicidade, variedade e regularidade tem, como sua pressuposição e como seu suporte (Träger) o sujeito que conhece. A tendência de ambas as análises mencionadas é epistemológica. Para ambos os autores parecem insuficientes os esforços do filósofo em se livrar do círculo vicioso.

298 WWV, SW, I, 7, p. 66. VR, p. 76. 299 Idem ibidem. 300 Idem ibidem.

como Representação não é a única face do universo, é por assim dizer a sua superfície.”

301

A essência da matéria reduz-se à causalidade (Kausalität), ou seja, à sua atividade – é por isto que ela preenche o tempo e o espaço. A matéria tem como condição o tempo e o espaço considerados em conjunto, em relação à atividade e à causalidade que os precede. A mudança ou transformação de estado, regulada pela lei de causalidade, liga-se ao tempo e ao espaço considerados simultaneamente. Conclui-se então que o tempo e o espaço coexistem na matéria, sendo a simultaneidade a própria característica essencial da efetividade: “A essência da efetividade (wesen der Wirklichkeit) é a simultaneidade de muitos estados, pois só mediante a simultaneidade é possível a duração”. 302

Por um lado temos a mudança (Veränderung) na qualidade e na forma e, por outro, a fixidez na substância que é a matéria (Materie). É a duração (Dauer) o que permite a permanência da substância sob a mudança dos estados. O que a lei de causalidade determina nessa relação é o estado que deve necessariamente existir em um momento dado.

Para o filósofo, a necessidade é intrínseca às relações causais e tem como fundamento exclusivo o princípio de razão suficiente, pertencendo, portanto, inteiramente ao objeto. O princípio de razão é o único suporte de toda necessidade e por ele condicionada. Conclui-se então que ser necessário “não significa nada além de uma conclusão desde um dado fundamento ou razão”. 303 Toda existência é dada meramente

de modo empírico e “ser necessário e resultar de um dado fundamento ou razão são

expressões correlatas”. 304

Por outro lado, como o objeto só existe para o sujeito como sua representação, então “cada classe determinada de representações existe unicamente por uma determinada

disposição no sujeito”, designada como faculdade de conhecimento. De acordo com isso,

temos então o correlato subjetivo do tempo e do espaço em si mesmos, como “formas vazias”: a sensibilidade pura. Já o correlato subjetivo da matéria (Materie) ou causalidade, isto é, do tempo e do espaço atuando em conjunto, como função cerebral, é o

entendimento (Verstand). O devir heraclitiano dos fenômenos é, nesse sentido, a

contraparte do fluxo da consciência. 301 Idem ibidem. 302 Idem, p.40. VR, p. 51-2. 303 SG, SW III, p. 181. 304 Idem, p. 182.

Para Brandão (2002), o “paradoxo de Zeller” torna-se menos enigmático se lembrarmos que a essência da matéria, para Schopenhauer, é seu fazer-efeito. Já possuímos uma noção de matéria (Materie) como condição formal a priori (o cérebro na série dos organismos já está predisposto de modo inato a compreender a causalidade, isto é, a mencionada simultaneidade do tempo e do espaço e a reunir as diversas impressões dos sentidos num entendimento único); “após a experiência, ou seja, a posteriori, reconhecemos que nosso cérebro (e, consequentemente, a atividade fisiológica que antecede temporalmente — mas não logicamente — a noção a priori de matéria) é matéria (Stoff), dada empiricamente”. 305 Para o autor, a partir daí temos uma noção abstrata da

matéria como uma causalidade em geral que resulta da experiência concreta.

Nesse caso, percebe-se que a experiência subjetiva do mundo material pode ser descrita em três tempos: a) há uma disposição dada no cérebro, b) uma prática empírica que organiza o olhar e c) sua consequente elaboração da matéria como conceito abstrato (tal conceito necessariamente possui também uma história e depende da linguagem). Nesse ponto de sua obra, o comentador cita um trecho do capítulo 24, Da matéria (Von der Materie), encontrado no Tomo II de O Mundo:

Justamente por isso é que a matéria meramente como tal não é objeto (Gegenstand) da intuição, mas somente do pensamento, portanto propriamente uma abstração: na intuição, ao contrário, ela surge apenas na ligação com a forma e qualidade, como corpo (Körper), isto é, como um modo totalmente determinado de agir... O agir determinado mais próximo nós concebemos então como o acidente da matéria: mas apenas através desta o mesmo se torna intuitivo, isto é, apresenta-se como corpo (Körper) e objeto (Gegenstand) da experiência. 306

Conclui-se que, para Schopenhauer, o olhar primordial é o intermediário necessário do conhecimento, porque se localiza entre uma condição a priori e uma prática a posteriori, e é capaz de fazer a síntese dessa experiência (Schopenhauer escreve já em 1816 que tal processo depende também da maturação do tecido anatômico — hoje diríamos “processo de mielinização das fibras nervosas” — cerebral).

O que gostaríamos de ressaltar é que o paradoxo de Zeller expõe uma situação na qual podemos experimentar o limite do caminho analítico, pois, fatalmente, chega-se a um impasse. Este exige um diferente ponto de vista, que, para Schopenhauer, deve dizer o que

305

BRANDÃO, E. O conceito de matéria na obra de Schopenhauer, p. 181.

306

WWV, E.. SW II, p. 394. Trad. de Eduardo Brandão, p. 181. „Daher eben auch ist die Materie bloβ als

solche nicht Gegestand der Anschauung, sondern allein des Denkens, mithin eigentlich eine Abstraktion: in der Anschauung hingegen kommt sie nur in Verbindung mit der Form und Qualität vor, als Körper, d.h. als eine ganz bestimmte [como um totalmente determinado] Art des Wirkens [modo da experiência].“

é o mundo senão uma Representação, pois não há como utilizar a noção de matéria como

fundamento do mundo sem cair na circularidade 307 que o citado paradoxo sustenta. Desse modo, temos que abandonar o consciencialismo representado no paradoxo e tentar entender o contexto da experiência a que ele se refere: situação relacionada à percepção de uma força originária (Urkraft) 308 que atua através do que a consciência pode intuir do mundo (Welt) e do corpo (Leib/ Körper/Organismus).

Isso nos remete imediatamente ao tema comentado na introdução desta tese, a respeito da relação entre a metafísica imanente e a metapsicologia em Sobre a Vontade na natureza. Refiro-me às palavras de Schopenhauer sobre posição do pesquisador empírico frente ao filósofo, superado o erro de entender a matéria como o em-si do mundo. Brandão (2002) expõe com muita clareza o duplo erro do materialismo que é superado em Freud através dos pontos de vista quantitativo, dinâmico e descritivo:

Por um lado, tentar retirar da matéria o que não pode ser separado dela, a saber, suas qualidades, seu “caráter empírico”, suas forças, seu “caráter inteligível” — ou seja, tentar chegar a uma matéria residual, inerte, sem movimento, Willenslose [sem Vontade]; por outro tentar atribuir a essa impossibilidade propriedades que de fato, apenas são oriundas, no limite, das formas de representação, ou seja, dependentes do sujeito. A combinação destes dois erros gera a ilusão de uma matéria existente “em si”: este é o erro do materialismo que não entende a diferença entre “Materie” e “Stoff”“. 309

Segundo Schopenhauer, a falha do materialismo é não conhecer suficientemente a matéria (Materie) com a qual pretende edificar o mundo, ocupando-se, portanto, de uma deformação (Wechselbag) da mesma:

Se ele, ao invés dessa matéria [hipostasiada], tivesse tomado a matéria (Materie) efetiva e empiricamente dada (isto é, a matéria [Stoff], ou antes, as matérias [Stoffe]), dotada como ela é, de todas as propriedades físicas, químicas, elétricas e também com as propriedades que a partir dela impulsionam a vida espontaneamente, portanto, a verdadeira mater rerum (mãe das coisas), de cujo ventre escuro todos os fenômenos e formas se elevam (hervorwinden) para então a ele retornar; se já

se deixasse construir um mundo desta matéria, isto é, da matéria (Materie) completamente compreendida e suficientemente conhecida, o materialismo não precisaria se envergonhar dele.

310

É dessa maneira que se explica o modo como Schopenhauer preserva um lugar à ciência e ao pesquisador empírico, já destituído das pretensões do materialismo em relação à hipóstase do objeto. De um ponto de vista simultaneamente objetivo e subjetivo,

307

WWV, E., SW, § 41, Über den Tod, p. 615 ; § 25, Transzendente Betrachtungen, p. 411-23.

308

WWV, E. SW, § 25, Transzendente Betrachtungen, p. 417.

309

BRANDÃO, E. O conceito de matéria na obra de Schopenhauer, p. 211.

310

chegamos a um princípio fundamental: Não existe nada mais do que a matéria (Materie) e as forças a ela inerentes (inwohnenden Kräften), o que torna o real um prodígio incompreensível (unbegreifliches Wunder), ante o qual o investigador empírico se detém, ou do qual parte. 311 Mas, para o metafísico imanente, por outro lado, a matéria deverá ser compreendida, a partir disso, como visibilidade de alguma outra coisa, que nela é revelada e diante da qual nos postamos, por um momento, com o assombro de um selvagem diante do espelho:

Pois nossa própria essência é a Vontade, cuja mera visibilidade é a matéria, que não aparece (autritt) de outro modo do que com o visível, isto é, sob o invólucro da forma e da qualidade; por isso, ela nunca é imediatamente percebida, mas sempre apenas acrescentada pelo pensamento (hinzugecahht) como o que é idêntico em todas as coisas, sob toda diversidade da qualidade e da forma, o que é exatamente o propriamente substancial em todas elas. 312

“Acrescentado pelo pensamento” refere-se ao fato de que a matéria como tal é abstrata, o que proporciona a marca da relação que se estabelece entre materialismo e idealismo. Nesse sentido, segundo Schopenhauer, a matéria é mais um “esclarecimento metafísico do que meramente físico das coisas, e deixar provir dela todos os seres significa efetivamente esclarecê-los a partir de um mistério muito profundo”. 313 E essa é uma posição que exige o abandono imediato do consciencialismo filosófico e psicológico. 314