O conceito de Eu ganha relevância na segunda tópica freudiana, pois complementa e modifica o sentido da primeira. O caráter em grande medida inconsciente do Eu exige que o dualismo dos princípios consciente (ligado à realidade) e inconsciente (ligado ao princípio de prazer e à compulsão à repetição) seja encarado com novas nuances. Para sustentar a divisão entre um Eu coerente (zusammenhängende Ich) e um Eu recalcado (verdrängte Ich) é necessário um ponto de vista tópico e outro de caráter estrutural. 208
Ao invés de considerar somente a situação consciente ou inconsciente das manifestações psíquicas, Freud passa a definir também certas estruturas que redimensionam o pensamento sobre a dinâmica psíquica a partir de um modelo de inconsciente que busca influenciar o sujeito consciente. Este último apresenta percepção externa, arquiva dados da experiência e pensa de modo coerente com seu aprendizado. Por outro lado, esse mesmo sujeito, é também cindido pelo desconhecimento acerca de seu
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SA I, p. 401-7.
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SA I, p. 497. Freud compara o processo de clivagem ao que ocorre com os cristais, segundo linhas de clivagem pré-determinadas pela constituição do próprio cristal.
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próprio princípio inconsciente de constituição e funcionamento básico, que aparece à consciência como qualquer coisa estranha e ameaçadora.
Conclui-se que o inconsciente não é mais apenas um mero depósito de disposições herdadas e representações proscritas. Ele é também um princípio ativador inconsciente do Eu coerente e controla, através deste, as operações de conservação, que dependem do conhecimento das noções de tempo, espaço e causalidade. No mesmo sentido, controla também as ações musculares, isto é, a prática motora do organismo no “mundo externo” ao organismo. A histeria é um exemplo disto, pois nela são observadas modificações “incoerentes” na atividade do organismo como parte de uma sintomatologia relacionada ao recalque da sexualidade.
O Eu coerente tem sua origem no Isso e se diferencia dele pelo seu comprometimento com a realidade. Nesse contexto, o Eu consciente e reflexivo cumpre seu papel como o mediador racional entre as forças externas e internas igualmente poderosas. Como não se pode servir a dois senhores e manter a coerência, o Eu cindido sofre e se angustia. A exigência de descarga dos impulsos inconscientes leva à formação de sintomas, que por assim dizer, são uma dificuldade do processo de inserção do sujeito inconsciente no mundo.
Portanto, essa nova situação do Eu frente à teoria e à prática clínica exige uma
reformulação geral do pensamento psicanalítico.
Do ponto de vista teórico, para fazer frente às dificuldades criadas pelo percurso do pensamento anterior, Freud se orienta no sentido de uma teoria especulativa ou filosófica: “Nas obras de meus anos mais recentes, dei livre rédea à inclinação, que reprimi por tanto tempo, para a especulação”. 209
Freud reconhece o limite da observação direta e propõe um novo modelo extraordinariamente complexo de funcionamento do psiquismo, sem que, no entanto, as noções sugeridas na nova teoria sejam todas diretamente observáveis. Ao lado de “fatos clínicos” insere conceitos mais elaborados, que procuram sustentar uma nova divisão de impulsos em classes fundamentais.
Em verdade, pode-se apenas postular que os impulsos se dividam de tal e tal maneira de um ponto de vista teórico, pois o que chamamos impulso é já uma representação
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BN III, p. 2790. Freud refere-se a Além do Princípio do Prazer (1920), Psicologia de Massas e Análise do
psíquica orientada para um objeto. Isto é, conhecemos apenas o fenômeno secundário, e nunca o primário.
O ponto de vista do Freud maduro acerca do impulso é o de que sempre se perde uma parte da satisfação ansiada, em troca de garantias de sobrevivência. Por outro lado, o psiquismo inconsciente exige incessantemente satisfação de desejos, ainda que as forças mecânicas e dinâmicas do mundo se mostrem um perigo permanente para a conservação da existência individual. A função da consciência é originalmente avaliadora de possibilidades de satisfação, enquanto o recalque define o Eu coerente por exclusão dos conteúdos incompatíveis com a consciência. Isso faz com que o Eu consciente verdadeiramente “estranhe” o Eu inconsciente, no momento em que são superadas as resistências e as representações incompatíveis irrompem na consciência como verdadeiros invasores “externos”.
Existiria então um campo regido pela necessidade e interpretado a partir da causalidade, dentro de relações de tempo e de espaço, e um campo incomparavelmente mais vasto que não se orienta por esses parâmetros e é descrito a partir da atividade de impulsos e pensamentos carregados de “afeto” (Affekt) que expressam as tendências do organismo. Esse campo é o que Freud chama de Isso.
O impulso (Trieb) é definido como um verdadeiro oposto da vida estruturada pelos princípios que regem a necessidade, sendo, portanto, não-causal e atemporal, repetindo sempre as mesmas tendências que lhe são interiores e tentando obter descarga efetiva para a energia que circula no interior do sistema estruturado em torno da totalidade do organismo.
A relação do Eu consciente e reflexivo com o Isso, representante das paixões do organismo, é a de uma pequena força que se esforça para controlar outra de incomparável superioridade. Além disso, a dependência do Eu se revela pelo uso das energias do próprio Isso, de onde se origina e onde se abisma.
Assim, o Eu coerente é o “servo” (Diener des Es) que se vê obrigado a executar as ordens do Isso, seu “senhor” (Herr): 210
O Eu tem uma grande importância funcional, o que pode ser percebido pelo fato de que é a ele que cabe o controle do acesso à motilidade. Podemos comparar o relacionamento do Eu com o Id (Es) ao do cavaleiro que deve conduzir um cavalo muito mais forte do que ele, com a diferença de que o cavaleiro tenta fazê-lo com as próprias forças, enquanto o Eu precisa fazê-lo com forças emprestadas
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Para Freud, no entanto, é preciso cautela para não cair na visão ingênua de dois exércitos antagonistas. Verificar BN III, p. 2838. A mesma metáfora é utilizada por Schopenhauer diversas vezes em WWV, E.
do Id. Sigamos com essa analogia ainda um pouco mais. Tal como o cavaleiro, que, não querendo se separar de seu cavalo, frequentemente não tem outra escolha a não ser conduzir o cavalo para onde este queira ir, da mesma forma também o Eu habitualmente converte a vontade do Id (Willen des Es) – como se fosse a sua – em atos e ações. 211
Freud adota essa posição estrutural como decorrência de sua teoria do impulso (Trieblehre), que, além de postular uma origem para os estímulos “endógenos”, através da noção de “zonas erógenas” (erogene Zonen), 212 acrescenta a eles uma ordem básica, que difere da ordem da consciência por não ser defensiva, mas afirmativa. 213