Janete Madalena da Silva1 Débora Cristina Romero2 Mayara Caroline Rosolem2 Alexandre Lima de Andrade3 Flávia de Rezende Eugênio3 Maria Cecília Rui Luvizotto2
Palavra-chave: Cão, carcinoma, pâncreas.
INTRODUÇÃO
O carcinoma exócrino do pâncreas é uma neoplasia rara nos animais domésticos, sendo mais encontrada nos cães do que nos gatos (1-3). Em contrapartida, na medicina humana, a neoplasia pancreática representa a quinta causa de mortalidade relacionada ao câncer, e o carcinoma de células acinares no pâncreas representa cerca de 1% das neoplasias pancreáticas (4,5). Nos cães, a incidência está relacionada ao envelhecimento, embora ocorra em animais de meia-idade, não havendo predisposição quanto ao sexo (1,6). Clinicamente é referido anorexia, perda de peso, letargia, vômito, dor abdominal e/ou presença de tumor abdominal palpável, acompanhada de insuficiência pancreática, ascite e icterícia, como consequência da propagação transcelômica da neoplasia e até mesmo por compressão da veia porta e dos vasos adjacentes (1,2). É comum a ocorrência de metástase para pulmão, cérebro, serosa do esôfago, cavidade peritoneal e órgãos adjacentes, como o baço, diafragma, rins, fígado e linfonodos regionais (2,7,8). O objetivo do presente trabalho é relatar o carcinoma pancreático em um cão, já que esta é uma neoplasia rara na espécie.
1 Universidade Camilo Castelo Branco. Est. Projetada F-1, s/n, Fazenda Santa Rita. Fernandópolis-SP.
CEP: 15600-000. E-mail: [email protected]
2 Serviço de Patologia Veterinária. Departamento de Clínica, Cirurgia e Reprodução Animal- UNESP-
Araçatuba. Rua Clóvis Pestana, 793, Campus Universitário, Araçatuba-SP. CEP: 16050-680.
3 Serviço de Clínica Cirúrgica de Pequenos Animais. Departamento de Clínica, Cirurgia e Reprodução
Animal- UNESP- Araçatuba. Rua Clóvis Pestana, 793, Campus Universitário, Araçatuba-SP. CEP: 16050-680.
RELATO DE CASO
Foi atendido no Hospital Veterinário da UNESP-Araçatuba, um cão sem raça definida, fêmea, com 10 anos de idade. O exame clínico e anamnese referiram aumento de volume abdominal, hiporexia e icterícia. A citologia da efusão peritoneal exibiu neutrófilos íntegros e degenerados, presença de células grandes agrupadas ou livres, raramente binucleadas, com citoplasma basofílico, freqüentemente contendo vacúolos grandes, núcleos redondos, nucléolos múltiplos, associadas a células mesoteliais reativas. Baseado nos achados citológicos foi elaborado um diagnóstico de carcinoma de provável origem hepática ou pancreática. Na laparotomia exploratória verificou-se tumor inoperável, comprometendo o pâncreas e o fígado. O animal foi submetido à eutanásia e encaminhado ao Serviço de Patologia Veterinária da UNESP-Araçatuba para a realização da necropsia, ocasião em que foram coletados fragmentos de todos os órgãos. O exame histopatológico dos tecidos acometidos foi corado pela Hematoxilina e Eosina (HE), revelando neoplasia primária no pâncreas. As células possuíam padrão acinar, citoplasma contendo grânulos esféricos eosinofílicos, relação núcleo-citoplasma aumentada, anisocariose acentuada, por vezes nucléolos proeminentes, associados a múltiplas áreas focalmente extensas de necrose e hemorragia. Foram observadas ainda estruturas compatíveis com corpos psamomatosos múltiplos. Chamaram atenção ainda ninhos de células neoplásicas no leito de vasos sanguíneos e linfáticos intersticiais do pâncreas. O pulmão e fígado evidenciaram metástases constituídas por células exibindo padrão predominantemente tubular. Tais células mostraram forma cuboidal, anisocitose, anisocariose moderadas, nucléolos proeminentes, citoplasma acidofílico e ora vacuolar. Figuras de mitoses típicas e atípicas estavam evidentes. Os linfonodos hilares hepatogástricos encontravam-se acometidos.
DISCUSSÃO
O carcinoma pancreático pode ser originado do componente epitelial acinar ou tubular, e frequentemente apresenta características de ambos, sendo esta última a mais freqüente (9). Na apresentação tubular, as estruturas glandulares são constituídas por células cuboidais acidofílicas predominantemente; na forma acinar as células são organizadas em ácinos, simulando o aspecto histológico do parênquima pancreático exócrino (2). Os grânulos de zimogênio são citoplasmáticos, esféricos, mostrando-se eosinofílicos na coloração de HE, e acidófilos ao tricrômico de Masson (8,9). A análise histopatológica
da neoplasia pancreática primária do presente caso revelou padrão constituído por células neoplásicas acinares, no entanto, nas metástases hepática e pulmonar, havia predomínio do aspecto tubular, caracterizando a constituição por ambos componentes epiteliais. Este ainda é um indicativo que as características histológicas podem variar consideravelmente dentro de uma única neoplasia, além da presença dos grânulos de zimogênio que distinguem sua origem (2). Esta neoplasia possui um comportamento invasivo (8,9), justificando assim a ocorrência de metástases em vários órgãos. A utilização da ultrassonografia pode auxiliar no diagnóstico precoce, diminuindo a morbidade associada ao diagnóstico tardio (6). Os aspirados citológicos de carcinoma pancreático são caracterizados por um alto número de células individuais com citoplasma basofílico granular abundante, contorno nuclear irregular poligonal ou anguloso e relação núcleo-citoplasma aumentada. Também há acentuada anisocariose e anisocitose, cromatina condensada e nucléolos irregulares eventualmente múltiplos, (7,10) o que é relatado no exame citológico neste caso, porém, as células neoplásicas não se esfoliam facilmente nas efusões abdominais. Desta forma, a citologia passa a ser um método auxiliar no diagnóstico (8). Nos humanos, a estimativa de sobrevivência varia de 4 meses a 7,5 anos, e a neoplasia pancreática é difícil de ser diagnosticada, dificultando a abordagem terapêutica adequada (4).
CONCLUSÃO
Os sinais clínicos e exames complementares observados são comuns a várias doenças do trato digestório, no entanto, os achados citológicos de carcinoma com provável origem pancreática/hepática conduzem ao diagnóstico de neoplasia abdominal. No presente caso, o diagnóstico foi amparado no exame histopatológico da neoplasia pancreática, concluindo que este foi o método que definiu o sítio de origem da neoplasia.
REFERÊNCIAS
1. Head KW, Else RW, Dubielzig RR. Tumors of the Alimentary Tract. In: Meuten DJ. Tumors in domestic animals. 4a ed. Ames: Iowa State Press. 2002. p.478-481.
2. Jubb KVF. The pancreas. In: Jubb KVF, Kennedy PC, Palmer N. Pathology of Domestic Animals. San Diego: Academic Press; 1993. p.417-418.
3. Withrow SJ, Macewen EG. Small animal clinical oncology. 2a ed. Philadelphia: WB Saunders. 1996.
4. Seth AK, Argani P. Acinar cell carcinoma of the pancreas: an institutional series of resected patients and review of the current literature. J Gastrointest Surg. 2008; 12: 1061–67.
5. Mayer RJ. Pancreatic neoplasia. In: Wilson JD, Braunwald E, Isselbacher KJ. Harrison’s principles of internal medicine. New York: Mcgraw-Hill. 1991. p.1383- 1386.
6. Bennett PF, Hahn KA, Toal RL, Legendre AM. Ultrasonographic and Cytopathological Diagnosis of Exocrine Pancreatic Carcinoma in the Dog and Cat. J
Am Anim Hosp Assoc. 2001; 37: 466–73.
7. Chang SC, Liao JW, Lin YC, Liu CI, Wong ML. Pancreatic acinar cell carcinoma with intracranial metastasis in a dog. J Med Vet Sci. 2007; 69: 91-93.
8. Oskoui-Zadeh K, Jamshidi S, Ashrafihelan J, Veshkini A. Exocrine pancreatic adenocarcinoma in a toy breed dog. Iran J Vet Res. 2008; 9:87-91.
9. Jones TC, Hunt RD, King NW. Patologia Veterinária. 6ª ed. São Paulo: Editora Manole. 2000. p.1129-1130.
10. Borjesson D. O Pâncreas. In: Cowell RL, Tyler RD, Meinkoth JH, Denicola DB. Diagnóstico citológico e hematologia de cães e gatos. 3a ed. São Paulo: Editora MedVet. 2009. p.303-304.