“A análise é o processo que conduz à explicitação da compreensão do fenômeno pelo pesquisador. Sua pessoa é o principal instrumento de trabalho, o centro não apenas da análise de dados, mas também da produção dos mesmos durante a entrevista” (SZYMANSKY et Alii, 2010: 71).
Essa afirmação de Szymansky et Alii (2010) lembra Laville e Dionne (1999) que dizem que o que conta na colecta e análise de dados é a imaginação do pesquisador. Demos “asas à nossa imaginação”, alimentada pela nossa experiência anterior de pesquisa e pelas leituras que temos feito sobre procedimentos de pesquisa.
Usando os instrumentos já apresentados, colectamos informação cujo registo é sonoro (gravação dos depoimentos, das entrevistas e das intervenções dos sujeitos no grupo de discussão) e manuscrito (respostas às perguntas dos questionários). A primeira fase do tratamento dessa informação foi a trasncrição tanto da informação sonora, como dos manuscritos dos questionários.
A tabela 6 apresenta a quantidade de informação que foi transcrita. Tabela 6 – Quantidade de informação processada na pesquisa
Nº TIPO DE INFORMAÇÃO código dos Raiz do
sujeitos
Quanti dade
1. Depoimentos – Fundadores do ISAP D/MF 4
2. Respostas a questionários – Formadores do Núcleo Duro do ISAP
Q/ND 3
3. Entrevista – Formadores do “Núcleo Duro” do ISAP E/ND 3 4. Respostas a questionários – Formadores do ISAP Q/F 3 5. Respostas a questionários – Superiores Hierárquicos dos
Egressos – Versão A (Aplicado aos superiores hierárquicos entrevistados)
Q/SH
6. Respostas a questionários – Superiores Hierárquicos dos Egressos – Versão B (Aplicado aos superiores hierárquicos não entrevistados)
Q/SH
3 7. Entrevista – Superiores Hierárquicos dos Egressos E/SH 3 8. Respostas a questionários – Egressos do ISAP Q/E 10 9. Respostas a questionários – Colegas de trabalho dos Egressos do
ISAP
Q/C
15 10. Intervenções no grupo de discussão – Todos os sujeitos, à
excepção dos membros fundadores
GD 10
Total de Informação processada 57 Fonte: Autora
Szymansky et Alii (2010) falam de duas versões de transcrição da entrevista: Na primeira, faz-se a escrita do texto mantendo a fala do entrevistado. No nosso caso, também mantivemos, nessa primeira transcrição, a escrita original das respostas às perguntas do questionário. Na segunda versão, fizemos a limpeza dos vícios de linguagem, mantendo os termos usados pelos sujeitos e respeitando a grafia da norma padrão da Língua Portuguesa em Moçambique.
No caso da transcrição da informação oral, entendemos que as hesitações, as repetições e as pausas relativamente longas, por vezes, reforçavam o sentido da mensagem que o sujeito queria transmitir. Por isso, mantivemos algumas repetições e usamos as reticências (...) para fazer marcação de pausa longa. No caso dos depimentos e das intervenções dos sujeitos no grupo de discussão, a limpeza da primeira versão da transcrição inclui a exclusão de explicações longas, uma vez que, diferentemente da entrevista que permite um diálogo para manter o foco, nessas duas situações os sujeitos tiveram uma liberdade relativamente maior.
De um modo geral, a ocorrência de pausas longas marcadas nas transcrições verifica-se quando o sujeito insere no meio do discurso palavras ou expressões que reconhece estarem fora da sequência, mas que considera serem fundamentais para a informação e para explicar melhor a sua ideia. Ocorre Também na enumeração, enfatizando cada um dos elementos e quando o sujeito sublinha uma ideia que considere importante.
Tinhamos a parte... Como eu já disse... Do direito administrativo, constituição, regras... E tinhamos a parte política composta por alguns elementos de carris ideológico (D/MF/01).
O que tem acontecido é que quando os formandos realizam os trabalhos, apresentam superficialmente os assuntos... Eles não tocam na profundidade da
questão... Não aprofundam a análise do que acontece na instituição para que haja mudança... Para que haja esse processo de mudança (DG/Intervenção 1). A pausa longa também é marca de que o sujeito vai fazendo um processamento selectivo da informação que transmite reflectindo sobre ela88, ora confirmando ser aquela a ideia a colocar e nesse caso a repete, ora rectificando a informação anterior.
Bom, a visita que nós fizemos... Portanto... Nós fizemos duas visitas para a
[nome da instituição]... Uma na qualidade de formador... Docente, e outra na
qualidade de membro do UMAI... É que a instituição em si tinha uma série de problemas de funcionamento... E... Não só de funcionamento... Como de relações interpessoais... O funcionamento e as relações... Parece-me que não jogavam [...] (E/ND/01).
Sim... Aqueles encontros mensais... Mas depois... Também aqueles retiros que se fazia para a análise de um determinado curso... Aqueles workshops pedagógicos... workshops pedagógicos... Eu acho importante voltar-se a isso
(E/ND/02).
[...] estão a melhorar... E hoje duas dessas pessoas estão em funções...
Ascenderam a outras funções... Uma está fora daqui do Ministério... Mas é porque foi demonstrando a cada dia que passava que tinha conhecimentos
(E/SH/02).
SZYMANSKY et alii (2010), referem que, quando feito pelo pesquisador, o processo de transcrição é também um processo de análise.
“Ao transcrever, revive-se a cena da entrevista, e os aspectos da interação são relembrados. Cada encontro com a fala do entrevistado é um novo momento de reviver e refletir” (SZYMANSKY et Alii, 2010: 74).
Como pesquisadora, vivenciei essa realidade. Embora tenha contado com apoio de duas assistentes para acelerar o processo da primeira fase da transcrição, todo o material passou pela minha leitura e releitura antes da limpeza, confrontando-o com as gravações e com os manuscritos, como forma de assegurar que na interpretação da mensagem que orienta a segunda transcrião não “deturpasse” o sentido do pensamento dos sujeitos.
Depois da segunda fase da transcrição, retomamos os textos e fizemos a sistematização dos dados, procurando mantê-los na sequência em que foram produzidos, mas fazendo a marcação dos temas que nortearam a sua produção.
Na sistematização dos dados, usamos um quadro que nos permitiu apresentar para cada pergunta do questionário e para cada tópico de reflexão na entrevista e nos depoimentos, as respostas dos sujeitos, com a sua identificação pelo cógigo89, deixando um espaço para a nossa análise das respostas e observações.
Com a transcrição completa, iniciamos o processo da análise propriamente dito, apoiado pelas notas que fomos tomando em cada leitura da informação. Durante os depoimentos e entrevistas, também fezemos anotações para lembrar alguns momentos e os gestos que reforçaram a linguagem.
Inspirados em Szymansky et Alii (2010) e na experiência de participação em grupos de pesquisa90, elaboramos sínteses das ideias centrais das falas dos sujeitos, sempre reconhecendo que estamos a trabalhar na área da linguagem, e por conseguinte, a nossa síntese reflecte um discurso partilhado entre o sujeito que produziu o discurso inicial e eu, enquanto pesquisadora.
Porque reconhecemos a força da linguagem como parte integrante dos processos de mudança (CAREGNATO e MUTTI, 2006), entramos no campo da análise de discurso, conscientes de que o que procuramos é esse discurso partilhado no qual encontramos a força colectiva para movermos as transformações necessárias para a melhoria do currículo de formação profissional em administração pública no contexto moçambicano91.
Prosseguindo com o processo de análise, definimos os temas de discussão, considerando o conteúdo das ideias centrais, agrupando os aspectos comuns dos diferentes grupos dos sujeitos que, em nosso entender, apontam para os limites e as possibilidades do curso CPSAP para o desenvolvimento da formação profissional em administração pública. Assim, na discussão dos dados abordamos três temas: (i) expectativa em relação ao ISAP e ao curso CPSAP; (ii) processo de formação no curso CPSAP e (iii) resultados do curso CPSAP percebidos pelos sujeitos da pesquisa.
Durante da análise dos dados em função dos temas suscitados pelas reflexões dos sujeitos, aprofundamos a interpretação em função do referencial teórico que reforçou a nossa convicção de que a formação profissional em administração pública no contexto moçambicano deve ser orientada para a construção de uma “comunidade de
89 Apresentamos as respostas dos sujeitos no apêndice.
90 A experiência mais recente de participação de um grupo de pesquisa que adoptou essa estratégia de
sistematização e análise de dados é no projecto “Experimental da Lapa”, coordenado por Isabel Cappelletti, do qual participo desde 2011.
91 A linguagem, como parte integrante de processos de mudança social, é também responsável pela
excelência” (ROSENBAUM, 2007). Desse modo, fizemos uma reflexão visando o aprofundamento da nossa compreensão dos limites e possibilidades do curso CPSAP para o contínuo aprimoramento do currículo de formação profissional superior em administração pública, tornando o ISAP a força motriz da comunidade intelectual engajada no desenvolvimento e transformação da administração pública e na promoção da cidadania plena.
Recolhemos uma gama muito vasta de informação histórica e contextual, cuja interpretação não aprofundamos neste estudo, mas que influenciou a nossa interrogação dos sentidos da informação prestada pelos sujeitos, buscando respostas às questões fundamentais desta pesquisa:
₋ Qual é a avaliação que os sujeitos fazem dos resultados do curso CPSAP? ₋ Que elementos do processo de formação os sujeitos consideram limitarem ou
aumentarem as possibilidades do curso CPSAP para o desenvolvimento da formação profissional em administração pública no contexto moçambicano? ₋ Como é que os sujeitos percebem os limites e as possibilidades de os
resultados do curso CPSAP influenciarem transformações no sector público e na sociedade moçambicana, promovendo a cidadania plena?
₋ Que possibilidades de desenvolvimento curricular são promissoras de uma formação profissional em administração pública que reforce a observância dos princípios de igualdade, imparcialidade, ética e justiça social?92
92 Esses princípios universais de garantia da cidadania plena foram constitucionalmente adoptados como