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In document C&ZZZ/e/g Mm %? (sider 6-0)

Caso o processo anterior fosse percebido como partindo de um sujeito individual que age sobre uma estrutura ou grupo de pessoas (vis˜ao entidativa, S-O) seria pr´e-concebido como um processo onde n˜ao ocorre a lideran¸ca. Entretanto, observa-se que o grupo avan¸ca

na constru¸c˜ao de diversos significados que acabam compondo o ‘foco’ pela narrativa de- nominada aqui busca-pelo-foco. Observar o processo dessa forma ´e questionar, como coloca Foucault, em que condi¸c˜oes e atrav´es de quais formas o sujeito aparece na ordem do discurso, quais posi¸c˜oes ocupa, quais fun¸c˜oes exibe e quais regras segue em cada tipo de discurso (1977, apud Hosking, 2005). Nesse caso o discurso ´e formado pela interde- pendˆencia de cada sujeito, que agrega elementos, tens˜oes ou dist´urbios, mediando dessa forma, a constru¸c˜ao dos significados e orientando o grupo ao objetivo. O que torna o pro- cesso um processo de lideran¸ca, ´e sua orienta¸c˜ao `a mudan¸ca na medida em que emergem decis˜oes e vis˜oes que servem como condutores do grupo ao objetivo. Isso vai ao encon- tro da afirma¸c˜ao de Yukl (2006, p.291) quando trata sobre a lideran¸ca em processos de mudan¸ca, em seu livro Leadership in Organizations. O autor relata que um dos itens que se deve ter em conta para atingir os objetivos e estrat´egias nas organiza¸c˜oes ´e consenso compartilhado do significado de palavras e s´ımbolos.

O processo de constru¸c˜ao de significados ocorre a todo momento, por toda a or- ganiza¸c˜ao como pˆode ser visto no macro processo. O macro processo serve como man- tenedor da realidade di´aria do Projeto Amanhecer, construindo o significado e o sus- tentando dentro daquela realidade local-hist´orica-cultural. J´a no caso do micro processo descrito, este toma a forma de lideran¸ca pela sua orienta¸c˜ao para a mudan¸ca, gerando uma nova estrutura¸c˜ao e construindo significados relacionalmente. O GPTIC insere uma nova dinˆamica no Projeto Amanhecer, mas para que esta nova realidade seja institucionalizada ´e necess´ario que se transforme circunstˆancias em situa¸c˜oes compreens´ıveis em palavras as quais sirvam como “trampolins” para a a¸c˜ao (WEICK et al., 2005, p.409). Esse ´e o processo de cria¸c˜ao do sentido como define Weick (ibid.) e que ´e de fluxo cont´ınuo. Ainda segundo o autor, mesmo as pequenas estruturas e pequenos momentos podem ter grandes consequˆencias.

Dessa forma, ´e esse poder de inserir novos elementos (atos/sumplementos, tex- tos/contextos) que o processo de lideran¸ca possui, que move as pessoas a um engajamento no di´alogo, para definir conceitos, construir orienta¸c˜oes e resolu¸c˜oes. Naturalmente, todo processo de constru¸c˜ao de significado come¸ca com um ordenamento do caos (WEICK et al., 2005), mas pouco a pouco cria ra´ızes pelo entendimento compartilhado entre os membros. Nesse caso, n˜ao h´a ponto fixo, causal, que defina a lideran¸ca. Lideran¸ca ´e pois o fenˆomeno que ocorre quando indiv´ıduos se engajam num processo interdependente

de constru¸c˜ao de novos significados que movam o grupo para novas dire¸c˜oes, alterando o equil´ıbrio c´ıclico que opera no macro processo. N˜ao se trata de como produzir sentido artificialmente, mas como as pessoas atribuem sentido `aquilo que as cerca.

Cabe agora recuperar aqui os elementos, ou pressupostos orientadores do processo de lideran¸ca observado.

⇒Orienta¸c˜ao ao objeto do GPTIC

Verificou-se que o objetivo do Grupo de Pesquisa em Terapias Integrativas e Com- plementares - GPTIC , ou sua orienta¸c˜ao ´e a legitima¸c˜ao das pr´aticas executadas pelo grande grupo PA, assim como a inicia¸c˜ao dos terapeutas como pesquisadores e execu¸c˜ao de um dos objetivos formais do Projeto Amanhecer. Essa legitima¸c˜ao serve tanto em n´ıvel local, para a comunidade que ´e atendida pelo projeto, como num cen´ario mais amplo, a legitima¸c˜ao das pr´aticas em termos de profiss˜ao e academia cient´ıfica. Logo, os terapeutas que instituem a pesquisa querem fazer parte dessa iniciativa pioneira, ao mesmo tempo em que tentam institucionalizar a pesquisa de acordo com o objetivo do Projeto Ama- nhecer. Dessa forma a orienta¸c˜ao ao objeto do GPTIC articula-se entre legitimidade, pertencimento e responsabilidade quanto aos objetivos do PA.

⇒Media¸c˜ao Relacional

Enquanto os grupos de pesquisa do GPTIC atuam como contextos/suplementos da realidade-local-hist´orica-cultural, os micros processos que operam dentro destes possuem dinˆamica pr´opria. A narrativa busca-pelo-foco, retirada da reuni˜ao realizada pelo GPTIC, no qual participaram os dois grupos tem´aticos que fazem parte daquele contexto, aparece como um texto sendo alimentado por diferentes contextos ou suplementos (HOSING, v´arios). Explicando melhor, a narrativa ´e uma a¸c˜ao espec´ıfica, mas que necessita de suplementa¸c˜oes para que fa¸ca sentido e construa uma orienta¸c˜ao, dˆe um significado e seja compartilhada por todos. Estes contextos aparecem sob a forma de quest˜oes como: ‘senso comum’, ‘sistematiza¸c˜ao de pesquisa’, pelos exemplos apresentados pelos membros, pelas quest˜oes de ‘quantidade de artigos’ e ‘tipos de argila’, e assim por diante. Importante suplemento que emerge do di´alogo ´e a ferramenta que surge primeiramente como um exemplo, e depois passa a ser constru´ıda relacionalmente. Trata-se da tabela de an´alise. Desse modo a ferramenta toma a forma de uma a¸c˜ao espec´ıfica (texto) sendo alimentada por diferentes elementos (contextos) que s˜ao negociados no processo. Itens como ‘autor’,

‘revista’, ‘m´etodo de mensura¸c˜ao’, ‘m´etodo de aplica¸c˜ao’, ‘a¸c˜ao investigada’, ‘resultados’ d˜ao uma moldagem final ao instrumento que servir´a de guia na coleta de dados da pesquisa do grupo que trabalha com geoterapia.

O di´alogo ao ser conduzido ancorando-se em exemplos dos membros traz um car´ater pessoal e atua como legitimador dos argumentos expostos. Emergindo no processo, o compartilhamento de hist´orias pessoais ´e um recurso potente no di´alogo. Estes, conse- quentemente, geram entendimento e legitimidade a um argumento, pois “enquanto um argumento discutido abstratamente gera contra-argumentos para sua refuta¸c˜ao, a ex- periˆencia pessoal compartilhada adquire um car´ater de validade, j´a que n˜ao h´a como negar uma experiˆencia pessoal vivida” (BORGES, 2007, p.170).

Na medida em que os contextos v˜ao emergindo, a busca-pelo-foco vai tomando dife- rentes colora¸c˜oes, ˆangulos e varia¸c˜oes. Constr´oi-se a´ı o direcionamento do grupo na busca relacional por uma solu¸c˜ao. A busca-pelo-foco ´e processual e o foco n˜ao est´a posto de antem˜ao, caso contr´ario n˜ao haveria o motivo para o assunto ser debatido em reuni˜ao. Assim, o grupo busca conjuntamente construir o que ´e o ‘foco’ para a pesquisa com argilas por meio de um processo dial´ogico e relacional. N˜ao s˜ao a¸c˜oes imperativas e unicamente individuais, que permitem essa abertura por parte dos membros.

⇒M´utua constitui¸c˜ao de a¸c˜oes e atividades

Neste ponto o car´ater de interdependˆencia j´a pˆode ser notado atrav´es da explana¸c˜ao feita. No entanto, alguns elementos do processo tomam forma de a¸c˜oes que acabam por influenciar decis˜oes e vis˜oes do grupo. No processo observado, vis˜oes orientadas aparecem pelos relatos de Avelar quando exp˜oe como exemplo o uso da ferramenta. A discuss˜ao final sobre eficiˆencia tamb´em conduz a uma vis˜ao orientada. Decis˜oes consequˆencias s˜ao exemplificadas em como o grupo define a sistem´atica de levantamento de dados, na restri¸c˜ao do campo de a¸c˜ao, ou seja, qual o tipo de argila que dever´a ser abordado, e nos itens que ir˜ao compor a ferramenta a ser utilizada no levantamento.

Apesar disso, entende-se faltar clareza quanto `as defini¸c˜oes finais da reuni˜ao, sobre aquilo que se convencionou aqui como m´utua constitui¸c˜ao de a¸c˜oes e atividades, o que engloba tanto as Decis˜oes consequenciais, quanto as Vis˜oes Orientadas. Esses s˜ao elemen- tos particularmente importantes, porque refor¸cam aquilo que foi constru´ıdo em conjunto, objetivando mais firmemente as a¸c˜oes subsequentes do grupo e as possibilidades futuras

alternativas. Ter esses elementos bem claros d´a um sentido de resultado final do ciclo processual, no caso a reuni˜ao, e uma orienta¸c˜ao firme `as pr´oximas etapas a se seguir. Deve-se ter em conta, no entanto, o limite da racionaliza¸c˜ao dos elementos que emergem no processo, e que a sutileza e naturalidade com qual surgem s˜ao prevalecentes. No caso da narrativa busca-pelo-foco, tais decis˜oes e vis˜oes englobam aquelas embasadas nas tro- cas de experiˆencias, as defini¸c˜oes conceituais, as delimita¸c˜oes de a¸c˜oes a serem tomadas e assim por diante. Mais objetivamente, verifica-se que o grupo define o modelo de fer- ramenta para o levantamento dos dados, e visualiza quais as implica¸c˜oes do uso deste na maneira como est´a configurado, gerando possibilidades e restri¸c˜oes.

⇒Contradi¸c˜oes e desvios como fonte da mudan¸ca

As contradi¸c˜oes e desvios como fonte de mudan¸ca aparecem quando ´e discutida a quest˜ao do n´umero necess´ario de artigos para a elabora¸c˜ao de um artigo de revis˜ao. Na contradi¸c˜ao-quanto-ao-n´umero-de-artigos, Daniel argumenta que h´a pouca publica¸c˜ao sobre o assunto, enquanto Avelar enfatiza que n˜ao h´a necessidade de se ter muitos artigos para a realiza¸c˜ao da revis˜ao e posterior publica¸c˜ao de um artigo. Logo em seguida, levantadas algumas d´uvidas sobre o tipo de comunica¸c˜ao utilizada pelo grupo ao tratar sobre o material. Essa assume um tipo de contradi¸c˜ao-quanto-ao-tipo-de-argila. Outras pequenas perturba¸c˜oes dizem respeito `a amplitude da abordagem do grupo geoter´apico e quanto ao n´umero das deriva¸c˜oes propostas at´e o momento.

Embora, em alguns casos a conversa oscile, fugindo do prop´osito da busca-pelo-foco, esses desvios e contradi¸c˜oes funcionam como constru¸c˜oes de ato/suplemento, texto/contexto, servindo, dessa forma, como uma ‘sintonia fina’ de aspectos que possam encaminhar o grupo ao ‘foco’ buscado. Dessa forma, as “ideias de um interlocutor penetram no di´alogo interno do outro como um advers´ario, assim impulsionando seus pensamentos” (ELIAS, 1994, p.29).

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