5.2 Presentasjon av data fra intervjuene
5.2.3 Beskrive av risiko
Sem perder de vista a interdição dos rios, no episódio ficcional, esta pesquisa segue em busca do discurso da História na tentativa de localizar informações sobre a denúncia realizada no âmbito da ficção. No Cartório de Registro de Imóveis do município de Soure, na Ilha do Marajó, em meio a Escrituras de Terras, Registros de Imóveis, Cartas de Alforria e tantos outros documentos, surgem as primeiras conexões entre a ficção e a realidade. Mas foi na Câmara Municipal que, entre os arquivos dos últimos cinqüenta anos, foi possível entender a realidade transfigurada e re-configurada no discurso ficcional. Um acontecimento, registrado em forma documental, específica, tornou possível a realização de um diálogo entre a realidade e a ficção.
Entre a imaginação explicativa e a imaginação fantástica, o discurso da História emite a voz do representante do povo: um requerimento do Vereador Paulino Pereira Lima, enviado ao Presidente da Câmara dos Vereadores do município de Soure, na Ilha de Marajó, na sua integridade formal é suficiente, por si mesmo, para entender o vínculo entre fantasia e realidade. Neste trabalho, em particular, o vínculo se estabelece entre o romance Marajó e o teor do requerimento que segue:
Exmo Snr. Presidente da Câmara Municipal de Soure Senhores Vereadores: Cumprindo os ditames de minha consciência, estribado nos motivos que me trouxeram a esta casa, como representante do povo desta terra, é que tenho a oportunidade de trazer ao conhecimento deste plenario de um fato a se consumar tal qual como me foi revelado, constituirá devéras um panorama entristecedor e de miserias a centenas de familias que habitam as margens ribeirinhas de nossa Costa e Igarapés, empregando como meio de vida e pescaria que nós conhecemos como Currais ou Cacuris. Pois bem meus senhores, é este o fato que me reporto acima. Ontem esteve nesta cidade o Excelentissimo Representante do Snr. Capitão dos Portos do Pará, e segundo me informaram, deixou ordens expressas ao Capataz da Capitania aqui
sediado, intimar a todos os curralistas para dentro do prazo de dez dias, e 30 retirarem os seus currais ora senhor presidente e senhores Vereadores, não pudemos protestar com veemencia, por que infelizmente é um dispositivo legal, mais sim, dirigirmos o nosso apelo e pedido de comisseração, ao senhor Capitão dos Portos, em favor dessa gente pobre que desconhecendo aquele dispositivo fazem dessa pescaria meio de vida, como tenho exemplo a dar, com os habitantes de Cajuunha, Pesqueiro e Araruna que em sua maior parte se mantém da pescaria de currais, e assim sendo pesso permissão a vossas excelencias para apresentar a este plenario o seguinte requerimento- apelo: Requeiro que seja com a maxima brevidade endereçaado ao Exmo Senhor Capitão dos Portos do Pará o nosso apelo, no sentido de – 1º a ser verdadeira a causa que motivou este requerimento seja, por medida de humanidade sustado o praso de dez dias e 30, estipulado aos diversos proprietarios de currais deste municipio. 2º sem desrespeito ou desobediencia aquelas determinações seja dilatado esse prazo até o fim desta safra ou seja até o mês de novembro do corrente ano; em virtude dos atingidos com esse dispositivo de lei serem constituidos de pessoas pobres e humildes, tendo os seus haveres empenhados naquilo que faziam meio de vida. 3º requeiro mais que seja oficiado ao Snr. Dr. Prefeito para que este seja portador do presente apelo. Sala das sessões da Câmara Municipal de Soure, 2 de agosto de 1955.
Vereador Paulino Pereira Lima16
A questão discutida no episódio do rio Abaí, na ficção de Dalcídio Jurandir, é a mesma questão debatida no texto do Requerimento Apelo, assinado pelo vereador Paulino Pereira Lima. Dois discursos que registram o drama social das populações ribeirinhas, da Ilha de Marajó. As vozes de vários sujeitos – o autor, o narrador, o poeta e o povo, este último, representado pelo vereador – cruzam-se nos caminhos que apontam os problemas sociais do povo de Marajó. No entanto, entram em tensão quando o tema é liberdade. Se por um lado, recriadas no interior do discurso literário, a poesia e a música de Ramiro clamam por justiça e de liberdade; de outro lado, reconhecido e legitimado pelo poder instituído, seu único instrumento, o apelo do vereador registra a voz que se eleva no discurso da História em favor do povo, mas sem força para trazer à superfície as memórias subterrâneas, sufocadas pelo abandono. Nessa perspectiva, a leitura do entrelaçamento entre fantasia e realidade é possível sob a ótica de Antonio Candido ao considerar uma abertura para pensar a função da literatura:
Sob formas curtas e elementares, ou sob complexas formas extensas, a necessidade de ficção se manifesta a cada instante; aliás, ninguém pode passar um dia sem consumi-la. [...] E assim se justifica o interesse pela função dessas formas de sistematizar a fantasia de que a literatura é uma das modalidades mais ricas. A fantasia quase nunca é pura. Ela se refere
constantemente a alguma realidade: fenômeno natural, paisagem, sentimento, fato, desejo de explicação, costumes, problemas humanos
16Este documento está reproduzido conforme escrita original. Câmara Municipal de Soure. Requerimento/apelo.
etc. Eis por que surge a indagação sobre o vínculo entre fantasia e realidade,
que pode servir de entrada para pensar a função da literatura. Sabemos que um grande número de mitos, lendas e contos, são etiológicos, isto é, são um modo figurado ou fictício de explicar o aparecimento e a razão do ser do mundo físico e da sociedade. Por isso há uma relação curiosa entre a imaginação explicativa, que é a do cientista, e a imaginação fantástica, ou ficcional, ou poética, que é a do artista e do escritor (CANDIDO, 1972, p. 804- 805. Grifos meus).
O tempo reservou ao vereador Paulino Pereira Lima um lugar na história, entre pilhas de papéis amontoados no “canto” esquecido da história das vozes silenciadas, embora o seu discurso não tenha o poder de ferir, incomodar, criticar, como as chulas de Ramiro, na representação literária.
Dando prosseguimento à viagem pelo território imaginário da Ilha de Marajó, sigo as trilhas da memória, buscando preencher as frestas que, por ventura, foram deixadas ao longo deste percurso. Nesse sentido, a representação de Marajó surge sob a perspectiva de vozes ainda não registradas no percurso da tese. A reminiscência no discurso autobiográfico.