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Retomando o que já foi discutido, os soberanos são os que decidem sobre o estado de exceção e, para o caso específico do estado de exceção econômica, estão representados pelos referidos órgãos do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia. São os que estabelecem o que, de acordo com Agamben (2002; 2004; 2008), separa não apenas o que está dentro do que está fora, mas também o normal do caos, ou o desenvolvido economicamente do subdesenvolvido. E o aspecto crucial é a existência de um limiar entre eles.

Diante desse raciocínio, o momento de crise financeira de abrangência mundial pode ser compreendido dentro da ideia de estado de exceção em que as leis da economia são suspensas com a justificativa de sua recuperação, e a existência de certos países em desenvolvimento ou mesmo daqueles até então considerados desenvolvidos economicamente pode ser comparada com a figura do homo sacer. Incluídos precisamente por serem excluídos do sistema econômico. Como observado nas reportagens abaixo, em que a linha que separa o desenvolvido do não desenvolvido se mostra ainda mais borrada.

O aumento do índice de pobreza em países da UE é um dos aspectos que indica o movimento das fronteiras internas mesmo aos países desenvolvidos. São imagens que objetivam produzir o choque por mostrar um aspecto (ainda) raro, com características diferentes das que se imagina para um país rico. De acordo com Barthes (1984), a foto que produz a sensação de estranheza não traumatiza, mas mostra o improvável para determinado contexto e, com isso, se torna interessante.

A sensação de estranheza é então gerada por imagens que normalmente não fariam parte do imaginário, ainda mais se pensarmos em onde e por quem estão sendo mostradas. São imagens em nada estranhas para nós, mas são, sim, quando pensadas no local de onde foram tiradas. Belting (2011) propõe que as imagens externas são dadas, enquanto nossa memória corpórea/interna está ligada às nossas experiências de vida e, nesse sentido, talvez a estranheza seja ainda maior para o leitor que tem em si a experiência da pobreza em seu cotidiano, da vivência e da visualização de tais imagens no seu dia a dia. Tal como a romena que foi fotografada para retratar a pobreza europeia na matéria “países europeus redescobrem a pobreza”.

Continuando com Agamben (2002), uma das características essenciais da biopolítica moderna é sua necessidade de redefinir continuamente o limiar que articula e separa o que está

Fonte: Folha de S. Paulo, 02 de abril de 2011, p. A24

Fonte: Folha de S. Paulo, 10 de julho de 2011, p. B13

dentro do que está fora, o que é incluído do que é excluído. Contudo, numa postura ainda mais pessimista, o autor prevê que no século XXI tal característica será ainda mais acentuada, com fronteiras cada vez mais embaçadas e indefinidas.

Como observado nas reportagens acima, num contexto de crise, de estado de exceção econômico, é bem possível que a previsão de nosso autor faça sentido: cada vez mais há um redesenho, uma mobilidade e um deslocamento da linha que separa países entendidos como desenvolvidos dos (entendidos como) não desenvolvidos; cada vez mais há uma transformação nos critérios do que é ser desenvolvido e cada vez mais há uma busca pela separação completa entre esses mesmos grupos de países.

Como consequência, há a continuidade das políticas de criação de homini sacri econômicos e a opção dos meios de comunicação por mostrar uma crise marcada pela violência das manifestações, pelas mudanças na linha de pobreza mundiais e pela força dos que detêm o poder de definir o rumo das economias envolvidas.

Segundo Kossoy, “dentre as diferentes modalidades de informação transmitidas pelas mídias, as imagens constituem um dos sustentáculos da memória; e podem, também, ao mesmo tempo, constituírem instrumento de manipulação política e ideológica” (2007, p. 102) porque as imagens não só complementam as informações transmitidas pelas fontes escritas: elas enriquecem e abrem lugar para novos aspectos. Os novos aspectos aqui mostrados são os que envolvem as mudanças sociopolíticas em um mundo em crise.

Consequentemente, quando pensamos na ideia de Agamben de que

O totalitarismo moderno pode ser definido, nesse sentido, como a instauração, por meio do estado de exceção, de uma guerra civil legal que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sistema político. Desde então, a criação voluntária de um estado de emergência permanente (ainda que, eventualmente, não declarado no sentido técnico) tornou-se uma das práticas essenciais dos Estados contemporâneos, inclusive dos chamados democráticos (2004, p. 13)

estamos reafirmando a possibilidade e a pertinência da extensão de suas metáforas para a esfera econômica. Isso porque o mesmo acontece atualmente, seja para países que passam por crises permanentes como muitos da América Latina e que sempre foram eliminados do grupo dominante economicamente através de determinações do FMI e subjugados a suas regras, seja para os referidos países (Grécia, Portugal e Espanha) que na situação de estado de exceção

estabelecida pela União Europeia e pelo mesmo FMI provaram como a prática da exclusão continua essencial.

A foto acima tem uma peculiaridade referente ao tratamento escolhido pela revista Veja e que envolve o instrumento de manipulação citado por Kossoy (2007, p. 102) pois, embora o texto escrito apresente as manifestações como certo retrocesso (são definidas como “bandalheiras”) contra os avaliados benefícios dos planos de contenção da crise propostos pela UE e pelo FMI, a foto proporciona uma visualização do poder de eliminação e repressão que estrutura o estado de exceção.

Na composição dos textos escrito e visual, as tão conhecidas manifestações contrárias às medidas de austeridade são aqui transformadas em manifestações violentas contra o bem comum. É usual os meios de comunicação impressos usarem de artifícios – as fotografias – para dar um sentido de maior objetividade ao conteúdo, procurando provar que o que se fala tem uma relação com algum traço do fato em si. Contudo, é também usual que toda fotografia faz parte de um

Fonte: Veja, 28 de dezembro de 2011, pp. 134-135 Figura 10. O ano do incêndio grego

processo de escolhas e recortes (ITURRIZA; PELAZAS, 2001; BURKE, 2004; SONTAG, 2004).

Dentre as múltiplas leituras que podem ser feitas diante de uma fotografia, o retrato de mundo escolhido pela revista é o que defende a intervenção da polícia, os preceitos econômicos impostos como condição pelo FMI e pela UE. A revista Veja, por considerar que a Grécia, assim como os demais países homo sacers, é um local de caos a ser controlado, acaba por validar a proposta de Agamben de que o estado de exceção continua e que é base para a política ocidental, colocando em evidência mais uma vez as transformações sociopolíticas do mundo em crise e o estabelecimento do estado de exceção como solução para o caos.

Essa é a visão de mundo que a revista pretende passar e, dado que historicamente a imagem pode ser um instrumento para defender interesses, banalizar o motivo das manifestações é torná-las tão familiares quanto insignificantes (GRUZINSKI, 2001a), as manifestações ficam reduzidas a badernas sem motivo para tal. O risco é de deixarem de ter impacto, serem interessantes ou chocantes e gerarem o questionamento, apresentando sentidos, oferecendo enquadramentos sociais e institucionais homogêneos, reduzindo complexidades até que se tornem reconhecíveis e facilmente identificáveis pelo leitor.

Portanto, é possível dizer que os paradigmas de Agamben (2002) são coerentes com os elementos presentes na noção de Lotman (1996; 1998) de Semiosfera econômica, profundamente marcada por uma divisão entre centro e periferia. Ou, no caso dessa extensão de conceitos, entre soberanos e homini sacri, em constante processo de troca de lugar. De forma semelhante ao que acontece no referido centro, o que é considerado centro econômico também seria marcado por uma força de decisão de como são determinadas as condições de (não) funcionamento do resto do mundo, principalmente dentro da proposta de incluir o que está fora através de sua suspensão nesse ordenamento.

As matérias selecionadas deixam claro como tais fenômenos estão presentes na dinâmica entre as fotografias e os textos escritos, porque são tão constituintes não só da época atual, mas principalmente porque fazem parte de um mundo em crise, cenário em que mais se usa o recurso do estado de exceção e da exclusão.