3. Metode
3.3 Bearbeiding
19 de setembro, 14h.
uarta-feira. Hoje é o dia da abertura do 5º Curso para Gestantes. Dirijo-me ao espaço cultural e encontro três gestantes aguardando o curso iniciar no espaço que já está todo decorado, com o projetor de multimídia, o material a ser exposto e as pastas que seriam entregues às participantes, contendo folder e programação. A decoração consiste em corações de papel com mensagens relacionadas à situação de maternidade, tornando o ambiente bastante acolhedor. A dentista que participa da coordenação do curso me informa que foram distribuídos trinta convites através dos ACS e elas estavam com boa expectativa quanto à adesão das gestantes. O curso é organizado e coordenado por duas dentistas e uma enfermeira. Com a implantação da ESF, o dentista, que só realizava atividade educativa em escolas, foi um dos profissionais que ampliou seu olhar para o cuidado em saúde, extrapolando os muros do consultório odontológico e da circunscrição da boca. Aos poucos foram chegando as gestantes, que ao final totalizaram dez. O curso é iniciado com a fala de aluno de enfermagem que realiza dinâmica de apresentação, na qual foi identificado que a maioria das mulheres estava em sua primeira gestação. Durante o levantamento de expectativas referentes à participação no curso, as gestantes se mostraram interessadas em obter informações acerca da gravidez e aos cuidados com o bebê. Ao serem questionadas sobre a participação do homem no curso algumas comentaram que seria importante, mas consideraram que os homens teriam dificuldades de participar devido ao horário do trabalho. A tarde transcorreu com bastante entusiasmo por parte das gestantes. São muito comunicativas e interessadas nos assuntos abordados. A metodologia, que estimula a fala e participação, proporcionou a integração das mesmas. A enfermeira fala da importância do curso para consolidar as informações fornecidas no pré-natal e troca de experiências em virtude de ali ser um espaço coletivo. Os assuntos levantados pelas gestantes foram bastante diversificados: curiosidades da gravidez; cuidados com o bebê e questões referentes à laqueaduras. Deu para perceber que havia preocupação forte por parte daquelas que já tinham filhos em realizar laqueadura de trompas. Algumas eram bem jovens. A enfermeira tenta explicar os critérios para inserção no programa de laqueadura do SUS, mas não foram muito bem aceitos pelas gestantes. Durante essa discussão surgiram relatos de mitos em relação à vasectomia e às dificuldades em fazer o planejamento
familiar de forma mais natural. A enfermeira encerra a atividade fazendo um apelo às mulheres para mobilizarem mais gestantes para participarem do curso.
Foi possível perceber que o desenvolvimento do curso sinaliza para a abordagem da Educação Popular, mesmo que não estivesse explícito nos materiais impressos ou nas falas das facilitadoras. O curso se desenvolve possibilitando a participação ativa das mulheres nas ações de saúde, valorizando o diálogo, favorecendo o reconhecimento das usuárias enquanto sujeitos portadores de saberes sobre o processo saúde/doença/cuidado e de condições concretas de vida, em substituição ao monólogo das palestras nas quais se busca transferir conhecimentos.
ARTICULAÇÕES INTERDISCIPLINARES NO DESENVOLVIMENTO DA
EDUCAÇÃO EM SAÚDE
26 de setembro, 14h.
uarta-feira. Ao chegar na USF, dirijo-me ao espaço cultural, com o objetivo de continuar a observação do curso para gestantes. A condução da atividade de hoje está sob a responsabilidade do pessoal do NASF e algumas estagiárias do curso de serviço social (UFRN). O tema desenvolvido foi a autoestima e o protagonismo da gestante. A atividade seguiu a mesma metodologia do encontro anterior, com dinâmicas e discussões em grupo. A educadora física desenvolveu dinâmicas vivenciais com as gestantes. A assistente social, juntamente com a estagiária, realizou exposição dialogada sobre os direitos e deveres da gestante. Mais uma vez surge a discussão sobre o direito à laqueadura e as mulheres não concordam com os critérios estabelecidos, alegando que elas deveriam ter o direito de decidir. Mais uma vez os profissionais tentam esclarecer a importância de outros métodos contraceptivos. Nessa tarde, percebi que as mulheres estavam menos participativas do que na tarde anterior, talvez pelo fato de não conhecerem as expositoras e nem terem o mesmo vínculo que já vem sendo estabelecido com as profissionais da Unidade. A atividade é encerrada, como sempre, com um lanche que vai sendo servido pelas auxiliares. Observo que estas aparecem na atividade apenas na organização da logística e não participam do desenvolvimento do conteúdo do curso.
Desde o primeiro dia do curso eu fiquei refletindo sobre a não participação desses auxiliares no desenvolvimento das atividades educativas e me recordei que o mesmo
acontecia na minha Unidade e que, provavelmente, poderia se repetir nas demais. Seria uma questão importante para reflexão, haja vista o trabalho na ESF ser realizado em equipe e a educação em saúde estar no rol de atribuição comum a todos os profissionais (BRASIL 2011).
No entanto, é interessante salientar que essa situação ocorre de forma diferente na ação educativa em saúde bucal, na qual, o pessoal auxiliar já tinha uma participação bastante efetiva, mesmo antes da ESF. Eles participam das ações educativas tanto nas escolas como no consultório odontológico.
A presença do NASF nas ações educativas é muito importante, o que confere ampliação das trocas de saberes interdisciplinares. Com o apoio efetivo do NASF as ações coletivas podem se constituir em momentos propícios ao reconhecimento de situações singulares que demandem planejamento de ações para os públicos prioritários. Conforme o estabelecido em suas diretrizes, o NASF deve atuar conferindo ação interdisciplinar e intersetorial; educação permanente em saúde dos profissionais e da população; desenvolvimento da noção de território; integralidade, participação social, educação popular; promoção da saúde e humanização (BRASIL, 2010).
27 de setembro, 10:30h.
uinta-feira. Nesse dia eu estava programada para participar de uma reunião do NASF com uma das equipes da Unidade, porém a reunião foi cancelada. Então permaneci no espaço observando alguns ACS que estavam preparando uma apresentação para o restante da equipe. Eles estavam organizando uma apresentação do que planejaram para o desenvolvimento das práticas integrativas, em resposta a uma demanda da gestão central da SMS. Eles fizeram um mapeamento de todas as atividades que já realizam e apontaram algumas sugestões de melhoria e de ampliação. O planejamento seguia roteiro orientador fornecido na oficina que eles participaram, com os seguintes itens: a) fazer diagnóstico das atividades existentes; b) o que podemos fazer; c) o que queremos fazer; d) como fazer. Aos poucos foram chegando outros profissionais e eles aproveitaram para apresentar o resultado da discussão. De repente realizou-se ampla discussão com a participação de vários profissionais, cuja intenção era a de contribuir com o planejamento. Os profissionais concordaram com as propostas que os ACS fizeram de resgatar as parcerias já existentes na comunidade; discutiu-se a possibilidade de potencializar o grupo “Conviver para Melhor Viver” no sentido de proporcionar eventos com
danças e a retomada do uso da Educação Popular (defendida pelos ACS). Eu aproveitei para falar dos relatos das participantes do grupo “Conviver para Melhor Viver” que convergiam para as ideias levantadas no planejamento, no sentido de reforçar aquela sugestão. Dentre as propostas, os ACS haviam sugerido o incentivo ao cultivo de hortas domiciliares e registraram as contribuições dos colegas. Surgiu também uma proposta de incluir nas atividades coletivas orações ou algo relacionado à espiritualidade. Participaram dessa atividade alunos de enfermagem e de medicina, médicos, técnicos, uma professora de enfermagem que estava acompanhando os alunos e os ACS.
Durante a reunião e ao longo das nossas observações, percebemos que as atividades se desenvolvem a partir de uma articulação de conhecimentos técnicos que são desenvolvidos à luz das diversas habilidades e motivações, advindas das diversas subjetividades presentes na equipe: há um interesse maior dos ACS, por exemplo, nas atividades mais relacionadas ao envolvimento da comunidade e na perspectiva da Educação Popular, na qual há aproveitamento da cultura popular local. Para os demais profissionais, a adesão maior é em atividades mais normativas, como é o caso das reuniões do “Hiperdia” e o projeto “Bebê Sorrindo”. Entretanto, realizam também algumas atividades que incluem abordagem mais dialógica como é caso do CD Coletivo e o Curso para Gestante.
Observar esse encontro dos profissionais nos possibilitou compreender como se dá o planejamento das ações educativas desenvolvidas pela equipe e que a busca da participação de setores externos ao da saúde se dá quase sempre através de parcerias com as organizações não governamentais existentes no bairro. A busca pelos setores responsáveis por outras políticas públicas não apareceu durante as observações e nem naquela reunião de planejamento. Ao observar a discussão sobre as práticas integrativas, percebemos que foram relacionadas, em sua maioria, às práticas tradicionais de educação em saúde. O que poderia ser sugestivo de que há certo desconhecimento da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC).
A PNPIC destaca como principais práticas integrativas a Acupuntura, a Homeopatia, a Fitoterapia, entre outras. Foi publicada através das Portarias Ministeriais nº 971 em 03 de maio de 2006, e nº 1.600, de 17 de julho de 2006, atendendo às recomendações das Conferências Nacionais de Saúde e da Organização Mundial de Saúde (OMS). Foi uma política estabelecida a partir de experiências já desenvolvidas nos municípios e estados, norteada pela ideia de ampliação do acesso à atenção integral (BRASIL, 2006).
É importante salientar, portanto, que as práticas ditas integrativas ainda não são de fácil acesso à população usuária no serviço público, restando aos profissionais reforçarem as existentes na comunidade. Estas se dão na perspectiva da solidariedade e apoio social. Nesse cenário, cabe-nos valorizar o modo de organização da sociedade para enfrentar seus problemas no cotidiano e, nesse rol de atividades, encontram-se os grupos de orações, os grupos de danças, entre outras. Esses grupos podem ser potencializados no sentido de se constituírem em valiosos espaços de realização de educação em saúde.
Valla et al. (2008) ao discutirem essa temática ressaltam a importância de se apoiar essas ações e delas extrair aprendizados. Apoiados no pensamento de Milton Santos que enfatizava que as classes populares iriam apontar o caminho para a reconstrução do Brasil, esses autores ressaltam as diversas estratégias que a população lança mão para enfrentar seus problemas derivados da desigualdade e das iniquidades. Entre tais estratégias, o apoio social compreende os diversos recursos emocionais, materiais e de informação que os sujeitos recebem por meio de relações sociais: amigos, familiares, grupos e redes sociais. A teoria do apoio social trabalha com a ideia de que a origem da doença é emocional e sua resolução também se dá no campo das emoções, convergindo com a ideia da totalidade corpo/mente. É nessa discussão do apoio social que há uma ampliação da concepção de saúde-doença para além do biológico e se abre espaço para se introduzir a discussão do emocional e do cuidado integral na origem e resolução dos problemas de saúde (VALLA et al., 2008).
A INCLUSÃO DA AVALIAÇÃO DE SITUAÇÃO DE RISCO FAMILIAR NO