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O estudo em questão aborda, à luz da Sociologia Econômica (GRANOVETTER, 1990), os aspectos econômicos e sociais que permeiam as relações de troca entre firmas dispostas em rede e que as levam à coevolução, umas em relação as outras e delas em relação à rede, tendo como alicerce para essa análise os preceitos da abordagem coevolucionária (KOZA, LEWIN, 1998; 1999; LEWIN, VOLBERDA, 1999; LEWIN, LONG, CARROLL, 1999).
De forma complementar, e com o intuito de contribuir para a teoria sobre redes e o estudo das relações interorganizacionais de cooperação, a pesquisa procurou também discutir o papel da configuração da rede e de suas práticas de governança nos efeitos coevolucionários identificados. O estudo foca, assim, nos processos transacionais da rede ao longo de sua evolução e nos aspectos de coevolução presentes nesse contexto.
Logo, ao se basear nos preceitos da Sociologia Econômica, a presente tese caminha para uma abordagem indutiva e processual, contrária à forma de análise abstrata e formal da economia clássica (STEINER, 2006). Desse modo, a partir do estudo do fenômeno, analisa diversas relações que o compõem, com base em suas particularidades e com vista a contribuir para sua generalização. A comparação e a redução de possíveis juízos de valor (que podem caracterizar este tipo de pesquisa) são, assim, tratados por meio do uso de dados de diversas fontes, bem como diferentes métodos de coleta de dados (STRAUSS, CORBIN, 2008).
Tal afirmação vem ao encontro do que a literatura diz sobre os estudos de redes que, por seu caráter multifacetado e evolucionário, aponta para a necessidade de diferentes unidades de análise (indivíduos, firmas, indústrias e nações) (OSBORN, HAGEDOORN, 1997), bem como diferentes tipos de pesquisa (estudo de caso, survey e análise de dados secundários). Tal fato caracteriza a emergência, segundo Osborn e Hagedoorn (1997), de uma era de desenvolvimento teórico integrativo que reconheça e leve em consideração a complexidade do
fenômeno. Logo, a área de estudo dos relacionamentos interorganizacionais, por se tratar de um campo amplo de análise e que exige tal diversidade de estratégias e métodos de pesquisa, requer, por parte do pesquisador, um delineamento claro daquilo que se pretende estudar, o que se pretende trazer nesta seção da tese.
O estudo, desse modo, tem como base a análise de processos que, segundo Oliver e Ebers (1998), envolvem a gestão e coordenação da rede ao longo de sua evolução. Aborda, nesse ínterim, a análise de resultados (OLIVER, EBERS, 1998), com foco nos efeitos coevolucionários que as firmas em rede podem obter diante das transações realizadas ao longo da evolução do arranjo, trazendo um olhar de processo para as transações econômicas presentes (processos transacionais). Adota também a visão de práticas de governança de rede, tomando como base o conjunto de decisões tomadas pelo grupo para alcance dos objetivos propostos.
No que diz respeito ao tipo de pesquisa, a tese se define como um estudo essencialmente qualitativo e descritivo, uma vez que busca aprofundar a compreensão do fenômeno de redes por meio da análise da relação da configuração da rede e de sua governança com a coevolução das firmas e destas com a rede. Justifica-se, assim, pela busca de melhor compreensão do fenômeno diante do fato de existir carência na literatura de conhecimento sistematizado sobre o tema.
A operacionalização da proposta se deu por meio de estudo de casos múltiplos para melhor entendimento do fenômeno de modo empírico, analisando-os em seu contexto real e, consequentemente, adquirindo maior benefício analítico (poder de argumentação) (YIN, 2001). Para Eisenhardt (1989, p. 534), “o estudo de caso é uma estratégia de pesquisa que foca sobre o entendimento de dinâmicas presentes dentro de cenários específicos”, o que torna a presente escolha adequada ao objeto de estudo, cuja intenção foi a investigação dos aspectos de coevolução em redes de cooperação interfirmas.
Quanto ao aspecto temporal, nota-se a predominância na literatura de estudos qualitativos e transversais, conforme afirmam Balestrin, Verschoore e Reyes Junior (2010) em um artigo sobre o estado da arte relacionado a estudos de cooperações interorganizacionais.
O elevado índice de estudos qualitativos no Brasil, somado ao pequeno número de estudos longitudinais (4,31%), pode ser resultado, pelo menos, de dois fatores: (1) a maioria das publicações está associada à pesquisa exploratória, podendo indicar que os estudos sobre o tema, no contexto brasileiro, se encontram ainda incipientes, principalmente ao serem comparados com as pesquisas internacionais, que surgiram com forte interesse ainda no final da década de 80; (2) seguir uma tendência dos estudos organizacionais brasileiros, conforme Rodrigues e Carrieri (2001) aproximadamente 70% das publicações na década de 90 correspondem a estudos qualitativos, salientando: “assim como os franceses ... os brasileiros também preferem as metodologias qualitativas” (Rodrigues & Carrieri, 2001, p. 93). (BALESTRIN, VERSCHOORE, REYES JUNIOR, 2010, p. 469).
Como apontamento a tal discussão, verifica-se que a presença maior de estudos transversais no âmbito brasileiro parece ter uma influência significativa de barreiras relacionadas, principalmente, à coleta de dados em série, necessária aos estudos longitudinais (LEWIN, LONG, CARROLL, 1999). Conforme afirmam Rodrigues e Child (2008), estudar a evolução de uma população requer coleta de informações que alcancem um espaço de tempo significativo da sua história, o que não é tão simples, mas que possibilita uma visão mais holística do fenômeno.
Logo, seguindo a abordagem evolucionária, com a intenção de investigar os processos transacionais ao longo do ciclo de vida da rede, a referida pesquisa caracteriza-se como transversal com enfoque longitudinal. Tal escolha decorre, principalmente, do tempo disponível para a realização do trabalho, constituindo uma limitação da pesquisa, mas que a pesquisadora procurou gerenciar ao longo da coleta de dados, investigando diversas fontes de informações (observações, entrevistas, documentos e bibliografias), o que possibilitou resgatar acontecimentos do passado. A ausência de informações sistematizadas por parte das redes estudadas também consistiu em um desafio enfrentado pela pesquisadora no campo.
De forma complementar, o estudo dos processos transacionais tem a intenção de estabelecer eventos como unidades de observação para compreender as relações existentes no arranjo e contribuir para um olhar longitudinal sobre o fenômeno, na medida em que ajuda os respondentes a se lembrarem com maior facilidade dos diversos aspectos que envolvem certa atividade (RING, VAN DE VEN, 1994); assim, segundo Ring e Van de Ven (1994), o envolvimento das partes em tais eventos faz com que elas relembrem todos os aspectos do processo, da negociação ao cumprimento dos compromissos estabelecidos entre elas, no que diz respeito a aspectos formais e informais ao longo do tempo.