3. Les figures dels principals col·laboradors
3.2. Baltasar Samper: el músic incansable
O modelo biomédico é, actualmente, a representação da saúde e da doença dominante nas sociedades ditas ocidentais e representa a doença como um desvio do estado normal, que é determinado através da medida de variáveis antropométricas e biométricas. A doença (disease por distinção a illness) é provocada por causas naturais e a eliminação destas causas resulta na cura (cure por distinção de healing) e na melhoria do paciente (Engel 1977).
O modelo biomédico é caracterizado como ―científico‖, porque envolve regras e asserções que relevam da aplicação de métodos científicos. A doença apresenta-se como um fenómeno natural que precisa de explicação científica. Fundado sobre o método experimental positivista, ―il commande une médecine qui peut être qualifié de médecine des
spécifités: isoler des spécifités étiologiques, différencier des tableaux symptomatologiques,
administrer des spécialités chimiothérapiques qui, par leurs propriétés spécifiques, combattront frontalement les causalités pathogènes et feront disparaître les symptômes.‖ (Laplantine 2009 [1989]:303).
Descrito na generalidade por Colby e Van Den Berge (1961) no seu trabalho sobre as relações entre os ladinos de São Cristóbal e os índios de Zinacantan, no México, o modelo biomédico foi associado às etnias brancas. Mais tarde, Horacio Fabrega (1974, 1977) aprofundou a descrição do modelo e localizou-o em oposição ao modelo popular (folk). Para Fabrega (1974), o modelo biomédico é especialmente caracterizado pela profissionalização dos procedimentos.
A primeira descrição mais detalhada do modelo biomédico foi operada pelo psicólogo George Engel. Crítico acérrimo deste modelo, Engel (1977) acusa-o de ser reducionista e dualista. O reducionismo, segundo ele, revela-se pela ideia de que os fenómenos complexos derivam, em última instância, de um único princípio; o dualismo apoia-se na ideia segundo a qual o indívuo é dotado de um corpo e de uma mente que funcionam por princípios diferentes.
Fabrega havia já remetido para o facto de que a doença é um termo linguístico usado para referir um fenómeno ao qual qualquer membro de qualquer sociedade, em dado momento, esteve exposto (1972, citado por Engel 1977). Esta definição de doença remete para o seu carácter de construção social. Na definição do modelo biomédico constante na
crítica ao mesmo apoiando-se nesta mesma abordagem. Seguindo o preceito de Thomas Kuhn, segundo o qual a ciência é culturalmente construída, Gaines & Davis-Floyd demonstram como, não apenas o modelo biomédico, mas a biomedicina em si é construída: Primeiro, a biomedicina é ―a distinctive domain within a culture that features both specialized knowledge and distinct practices based on that knowledge; second, Biomedicine exhibits a hierarchical division of labor as well as guides or rules for action in its social and clinical encounters; third, as an internally cohesive system, Biomedicine reproduces itself through studies that confirm its already-established practices and, most salient, through apprenticeship learning-mentors tend to pass on to students what they are sure they already know. This self-reproduction is encapsulated in a term physicians themselves often use to refer to their knowledge system: "traditional medicine." Yet all biomedical practitioners are taught, and tend to believe, that Biomedicine is science-based.‖ (Gaines & Davis-Floyd 2004:97).
Robert Hahn e Atwood Gaines (1985, citados por Gaines & Davis-Floyd 2004:96) definiram a biomedicina com um sistema sociocultural, que consiste numa construção cultural e histórica dotada de crenças, regras e práticas que lhe dão consistência interna. O modelo biomédico é um modelo etnomédico como qualquer outro, e reflecte os valores e as normas dos seus criadores (Hahn & Gaines 1985, citados por Gaines & Davis-Floyd 2004:96). A sua reprodução social é assegurada pelos modos de circulação das representações que o constituem, especialmente através das relações de comunicação. Mais, Hahn e Gaines (1985, citados por Gaines & Davis-Floyd 2004:96) referem que a socialização
médica encarrega-se de convencer os jovens profissionais que estão envolvidos numa prática
científica de fundamentos inabaláveis, e as verdades são construídas a partir da replicação das ideias dos docentes para os alunos, isto é, as verdades reflectem-se como produtos de conhecimentos do tipo anedótico, que se apoiam especialmente nas experiências e nas visões dos docentes, que passam a mensagem do mito da intocabilidade. Nestes poderosos
processos formativos (cf. Byron Good (1998 [1994]) e na prática clínica, é usada uma ―teoria
empírica da linguagem‖ (Good & Good 1981), em que se acredita que o que é nomeado existe de forma independente, no mundo natural. A própria natureza – acredita-se – existe ―out there‖, independente da mente do conhecedor (Hahn & Gaines 1982). Este aspecto é comprovado pela recente démarche em apoiar o conhecimento numa medicina baseada na evidência. Mesmo esta evidência ―científica‖ é o resultado de construções forçadas, como o revelam inúmeras revisões sistemáticas, nomeadamente, devido à divergência metodológica dos estudos, visível essencialmente pela diversidade de instrumentos de medida utilizados,
pelos critérios de selecção dos indivíduos para a realização dos ensaios clínicos controlados e aleatórios e pela perspectiva biomédica utilizada (Heller & Page 2002; Woolf 1999).
Consequentemente, o modelo biomédico entende ―comme connaissance ―objective‖ ce qui relève [...] d‘une étude de représentations‖ (Laplantine 2009 [1989]:300). Através da nomeação e do diagnóstico, a linguagem médica ―affects and effects transformations of culturally perceived reality‖ (Gaines & Davis-Floyd 2004:97). Mais, como referem Hahn e Gaines (1985), visto que a biomedicina é um sistema cultural, então também é uma representação colectiva da realidade, e isto não implica que a realidade representada seja negada, ―which affects and is affected by what it represents. It is rather to emphasize a cultural distance, a transformation of reality; an ultimate reality cannot be known except by means of cultural symbol systems. Such systems are both models of and
for reality and action [Geertz 1973]. Our representations of reality are taken to be reality
though they are but transformations, refracted images of it‖ (citados por Gaines & Davis- Floyd 2004:97). Porém, a representação biomédica da realidade opera pela ilusão da sua separação desta mesma realidade, que é sempre social. Este ―princípio de separação‖, como referem Davis-Floyd e St. John (citados por Hahn & Gaines 1985, apud Gaines & Davis- Floyd 2004), constitui-se como uma economia linguística segundo a qual, as coisas são mais bem percebidas fora do seu contexto, isto é, isoladas dos factores contingenciais, as categorias obtêm o seu valor de verdades absolutas. Este é, segundo estes autores, o modelo biomédico de operar com a realidade. É pela classificação dos componentes do corpo, ou seja, pelo procedimento analítico das partes do organismo, que a biomedicina realiza a sua construção da realidade, que se traduz numa interpretação dos sintomas um a
um e na sua articulação em um diagnóstico. A elementarização da realidade é um princípio de
análise que a biomedicina transporta do laboratório para a realidade social. Esta obsessão analítica impede os profissionais de saúde de verem o todo, o holos, como, aliás, Bruno Latour e Steve Woolgar (1979) haviam reparado. Segundo Hahn e Gaines (1985), esta tendência separatista da biomedicina está relacionada com a industrialização, que colocou a máquina no centro da economia. A máquina tornou-se na metáfora do corpo e, a teoria dos sistemas veio tornar esta ideia mais lógica, devido à sua noção de micro e de macrossistemas, ou de sistemas dentro de sistemas.
Hahn e Gaines (1985) encontram também aqui a razão pela qual o indivíduo é denominado nas referências inscritas no hospital com os elementos administrativos da sua identidade. A referência ao doente da cama X, com o diagnóstico Y situa-o fora do
processo de tratamento e cura, tal e qual uma máquina que precisa de conserto, transformando o sujeito num malade-objet (cf. Bonvin 2007 [1993]).
As críticas ao modelo biomédico subiram de tom nos últimos anos. No final do século XX, Robert Hahn dizia que o modelo biomédico estava em crise, e que era necessário uma nova medicina, a que ele chamou a medicina antropológica (1996, citado por Comelles 1997:38). Na base dessa crise, situa-se o facto de o modelo biomédico não conseguir resolver algumas questões fundamentais relacionadas com a saúde e a doença: além de privilegiar uma visão reducionista, mecanicista e dualista, a biomedicina está sempre sujeita a uma avaliação negativa por parte dos indivíduos, que, quando não se sentem satisfeitos, reclamam da forma como são tratados, focando sobretudo aspectos da interacção e não tanto aspectos técnicos. O decurso da interacções clínicas é cada vez mais motivo para reclamação.21 No plano estritamente medicinal, o modelo não reconhece as
perturbações mentais como patologias, tem dificuldade em percepcionar e avaliar a dor e, sobretudo, não é eficaz contra a cronicidade. Além disso, como aliás havia demonstrado a corrente interpretativista da antropologia da saúde, a separação da biomedicina do modelo popular é simplesmente impossível (Fabrega & Manning 1973). François Laplantine concorda com esta ideia. Segundo ele, ―nous avons, en Occident, tellement intérioirisé le [...] mode de comprehension qui inscrit la maladie dans une logique du mal absolu et le l‘adversité que nous ne l‘apréhendons plus comme système de représentation possible, mais comme réalité et que nous avons de la peine, ne serait-ce qu‘à imaginer qu‘il puisse en exister un autre‖ (2009 [1989]:303). De acordo com George Engel, o ―imperativo cultural‖ de excluir o humano do científico fez cair a biomedicina num círculo vicioso, e, no centro deste círculo encontra-se a omissão ou a ignorância da função construtora da linguagem. Nas palavras de Engel (1997:527), ―from the beginning, those interested to understand what distinguishes being ―sick‖ from being ―well‖ have never not known the importance of verbal exchange as a primary source of the data needed to that task‖.
21 Em 4 de Dezembro de 2010, o jornal Público noticiava que, desde 2002, registaram-se mais de
mil queixas de negligência médica, à média de mais de 130 casos por ano. Há cinco anos, foi criada uma secção especializada neste tipo de queixas no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa, que recebe entre 50 e 60 queixas anualmente. No Conselho Disciplinar do Sul da Ordem dos Médicos (OM) estão pendentes entre 500 e 600 processos. (cf. Alexandra Campos & Mariana Oliveira ―Mais de mil queixas por erro e negligência na saúde foram feitas desde 2002‖, em
<http://www.publico.pt/Sociedade/mais-de-mil-queixas-por-erro-e-negligencia-na-saude-foram- feitas-desde-2002_1469459>).
O reconhecimento da centralidade da palavra no decurso das interacções terapêuticas é o ponto de partida para que se aborde a realidade clínica como uma construção social. Enquanto produção linguística, a saúde e a doença são formas mentais, de índole psicológica. Daí que, para compreendermos, de facto, a saúde e a doença temos que nos remeter sempre às suas condições psicossociais de produção, ao contexto.
O modelo biopsicossocial não nega a importância da dimensão biológica no campo da saúde. O corpo é o centro das atenções clínicas. A diferença é que este é elaborado pela sociedade, não é uma natureza dada (Scheper-Hughes & Lock 1987; Lock 1993).
O modelo biopsicossocial reconhece que as fronteiras entre a saúde e a doença estão longe de ser claras e nunca o serão, visto que a saúde e a doença são difusas, por força das considerações culturais, sociais e psicológicas sobre elas (Engel 1977:132). Por esta razão, os sintomas são o resultado de um conflito intrapsíquico e são sentidos pelo indivíduo como fazendo parte de uma câmara secreta dentro da sua mente. A experiência da doença – e não a doença – é a justificação de o indivíduo recorrer aos serviços de saúde, e, em última instância, o que ele procura é o alívio do seu sofrimento, que apenas ele consegue perceber (Laplantine 2009 [1989]:303-4). A doença não é sentida como um ser, mas sim como um sentimento entre a harmonia e a desarmonia em relação ao meio, é um sinal de um desequilíbrio social (Laplantine 2009 [1989]:304).
Na sua teoria sobre a enfermagem, Jean Watson (2007 [1988]) frisa a importância do contexto – simplesmente ignorado pela visão biomédica – traduzido pelo being-in-the-
world, ou o Da-sein, de Heidegger. Para Watson, as teorias fundadoras da enfermagem nem
sequer foram realizadas, e a enfermagem ―foi apanhada entre o paradigma da ciência médica com a sua visão da pessoa como um corpo e a ciência pesada [hard science] que dá ênfase ao controlo inultrapassável, ao rigor, ao objectivismo, à neutralidade dos valores, aos factos, aos procedimentos, aos conhecimentos, à tecnologia, etc.‖ (2007 [1988]:14, tradução nossa).
Recorrendo à dicotomia fundamental da filosofia sartriana, Watson alerta para o facto de a abordagem da enfermagem, sob a perspectiva biomédica, correr o risco de reduzir o ser humano ao para-si, ou à existência do indivíduo, obliterando o em-si, ou a essência do sujeito. Numa palavra: des-subjectivando-o. Para a biomedicina resta a existência, já que a essência não se expõe ao olhar clínico, no sentido em que este erigiu a medicina moderna (Watson 2007 [1988]).
Relacionando a constatação de Foucault com o Da-sein heideggeriano, e considerando que ―o ser-aí enquanto ente não é passível de demonstração. Nem sequer de mostração, [e que a] ligação primordial ao ser-aí não é a observação, mas o sê-lo,‖ (Heidegger 2003:41) conclui-se que a biomedicina foi construída sobre a existência do indivíduo e não sobre a essência do sujeito.
Na Carta sobre o Humanismo, Heidegger levanta a questão, que serve perfeitamente para confrontar a racionalidade biomédica com a essência do homem, tendo como referência o cuidado: ―Para onde se dirige ―o cuidado‖, senão no sentido de reconduzir o homem novamente para a sua essência? Que outra coisa significa isto, a não ser que o homem (homo) se torne humano (humanus)?‖ (1980 [1973]:46).