1. Innledning
1.2 Bakgrunn for valg av tema
A rádio escolar apresenta várias possibilidades de trabalhos. Uma dessas é a inclusão sócio-digital. O veículo, por possuir características peculiares como a oralidade, permite a pessoas portadoras de necessidades especiais dividirem o mesmo espaço de ensino-aprendizagem, atuando nas diversas áreas, desde a produção dos programas até a apresentação. É possível um cego ser locutor, um deficiente físico ser redator, apresentador, etc. O rádio exige da fonte construtora da mensagem o uso de linguagem fácil, acessível e universal, para que o interlocutor compreenda o conteúdo ensinado.
Nesta pesquisa, trabalhamos com um aluno portador de necessidade especial, Marcos18. Vitimado por uma doença cerebral, teve comprometimento no desempenho natural das funções vitais, afetando diretamente a sua coordenação motora, deixando como sequela a dificuldade na fala. Como já foi dito anteriormente, na pesquisa aqui proposta, a concepção é diferente da compreensão das rádios baseadas no modelo comercial. Em vez de excluirmos o Marcos buscamos entendê- lo e, em seguida, conscientizar os demais colegas do problema daquele colaborador e, assim, com a compreensão do grupo, levar adiante as nossas atividades.
Dado o primeiro passo, tivemos que nos adensar na sua realidade e procurar conviver com ele durante as aulas e nas atividades complementares, como ida ao teatro, passeio em feiras etc., e tentar a familiarização com sua forma de falar. Era impossível, à primeira vista, compreender o que dizia, devido à interferência da doença na sua fala. Sem citar que ele, devido sua própria condição, tinha dificuldade de comunicação com os colegas, que inicialmente preferimos chamar de timidez.
A experiência com a rádio escolar como procedimento metodológico/educacional exige não só a conscientização dos envolvidos no processo para o reconhecimento das dificuldades de cada um e de todos, mas obriga a uma adaptação àquela realidade e a tomada de consciência de alguém não pertencente ao universo deles, como é o caso deste pesquisador. É importante observar a necessidade do educador em conhecer, com mais profundidade, o meio ambiente dos educandos, para fundamentar seu plano de atuação.
A rádio escolar vem apontar essa vertente para firmar o compromisso do educador, com respeito à cultura de seus colaboradores. A diversidade é uma palavra de ação, movimento, e as ondas do rádio devem irradiar, contagiar os seus ouvintes e participantes da importância que tem a discussão temática variada, centralizada na particularidade de cada sujeito. É a prática da universalidade dos discursos, privilegiando a individualidade dos participantes e ouvintes.
É importante ensinar o dever de se pronunciar, pois a palavra se refere a “obrigação” de falar, de ser atuante no processo. A neutralidade ou a omissão de opinião diante dos fatos não contribui para o avanço da realidade. A liberdade de expressão não é apenas um direito. Na rádio escolar ela se torna uma “exigência”,
urgência de pronúncia. É a oportunidade de desenvolver com os educandos o contraditório, a divergência de opinião que proporciona a convergência para a compreensão das ideias dos outros. Aprendendo a respeitar as concepções dos demais aprendem também a ter suas posições respeitadas.
Por este ponto de vista caminhamos para o entendimento geral do princípio da igualdade. Observamos que as opiniões são reflexos das práticas daqueles que as defendem. Assim, não só o pensamento estará sendo defendido, mas a forma de vida escolhida por aquele sujeito que expõe. Temos aí a aproximação do pensamento do campo ideário com o mundo diário. Essas vivências e experiências possibilitam as trocas entre eles e a homogeneização de seus mundos, entrecruzando-se.
É nesse turbilhão de pontos de vista que se assenta um dos objetivos da rádio escolar como espaço de educação, a socialização dessa diversidade de opiniões, que vai refletir o aprendizado baseado no conflito de pensamento, na dialética. Quanto mais claras ficam para os membros de um grupo as suas semelhanças, mais evidente se tornam as suas diferenças com os outros, reforçando a identidade do grupo.
Mas não só nisso. É também na similitude ideária que muitos se encontram e reencontram na proximidade daquilo que já conhecem, seja como relato de experiência de vida, seja como esclarecimentos de questões simples de rotina, ou uma conscientização sobre algo que poderia ser tão aparente, mas com o auxílio de um colega nessas discussões faz afinar sua forma de compreensão da realidade.
Dessa maneira, a presença do aluno Marcos no grupo mostrou que é possível a convivência e a aprendizagem entre pessoas diferentes. Sabe-se a dificuldade que isso implica se não for feito um trabalho de horizontalização do pensamento de igualdade, mostrado acima. Como havia uma proximidade dos saberes, e o Marcos não estava distante dos conhecimentos dos outros colaboradores o processo foi mais fácil. Esse fato chama atenção porque mesmo ele sendo uma pessoa que tinha certa “deficiência” causada por uma doença, o seu nível educacional em comparação com a turma era bom. O que por si só já o colocava na condição de igualdade e impedia, pelo lado da educação, um preconceito mais aguçado pelos seus pares.
Outro fator preponderante observado no caso do Marcos foi a sua timidez e reclusão individual. Era retraído, acanhado. Mas, diante de tal quadro, a mediadora logo atentou para a sua inclusão tanto social no grupo, quanto na exposição de suas ideias.
A outra possibilidade de inclusão, a digital, tinha como intenção o uso do computador como ferramenta para a produção de textos para os programas e como pesquisa via Internet. No entanto, observamos que devido ao nível de conhecimento dos alunos sobre a alfabetização não seria possível. Vimos que seria necessária, também, a alfabetização digital. Diante da falta de condições e do tempo disponível seria inviável com aquela turma.
A produção dos programas usando o computador exige a habilidade da transposição da linguagem escrita para o meio em questão, são códigos diferentes, e as pessoas cujas histórias de vida estávamos convivendo não tinham, até então, as condições favoráveis para tal objetivo. Percebemos que quadro, caderno, lápis e borracha, naquele momento e com aqueles sujeitos, seriam mais eficientes que o monitor, teclado, mouse e o del. Retornamos aos recursos tecnológicos já dominados por todos.
A rádio escolar deve ser pensada de acordo com as possibilidades e potencialidades do grupo componente. É provável que a utilização de elementos tecnológicos, como computador, software, gravador entre outros, para um público já familiarizado com esses programas, flua com maior rapidez, principalmente com os adolescentes já habituados ao seu uso. Mas para o nosso grupo não era possível. Não foi por isso que deixamos de encarar o desafio; afinal, quando o rádio surgiu não havia computador e gravador, por exemplo.
A linguagem falada era comum a todos e foi nela que nos centramos para entender o meio de comunicação como espaço de aprendizagem, alfabetização formal e do mundo. Da mesma forma que sua característica é a oralidade, o processo de produção está fundado na leitura e escrita, na transcrição das suas ideias para o papel, antes de propagá-las pela rádio. Ou seja, a palavra falada nasce em nós primeiro do que a escrita, no rádio a primeira vem depois da segunda. Como ensina Freire, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (1983, p. 11). A rádio escolar é uma possibilidade da formalização desse aprendizado.