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Bruk av egne erfaringer og stemme

4. Analyse

4.2 Elever som produsenter

4.2.1 Bruk av egne erfaringer og stemme

Com a finalidade de alcançar as metas traçadas e utilizar a rádio como elemento pedagógico e educacional, baseado na concepção de uma educação horizontal, dialógica e dialética, com aulas alegres, tendo em vista que aqueles educandos chegam à sala de aula após uma jornada cansativa de trabalho, utilizamos vários elementos para mantê-los interessados em continuar frequentando a escola e aprender não apenas a educação formal, mas a compreender as inter- relações presentes no micro e macro universos que estão inseridos. Dessa maneira, adotamos elementos do cotidiano como objeto na aprendizagem.

Um desses elementos foi a música, já que ela é presença constante no rádio. Desde já é importante observar que na rádio escolar alguns cuidados devem ser considerados antes de sua socialização. A seleção de uma peça musical é baseada na importância que ela terá para o aluno e a referência com seu mundo, ou quando se encontra nela qualquer co-relação.

Entre as diversas canções ouvidas escolhemos “pedras que cantam”47 para analisar com os estudantes, em ritmo de forró, estilo musical preferido entre eles, cuja letra aborda as diferenças sociais, como a fome e a casa própria, como constatamos em um de seus trechos: “quem é rico mora na praia, mas quem

trabalha nem tem onde morar. Quem não chora dorme com fome, mas quem tem nome joga a prata no ar”.

O forró como estilo musical surgia entre eles quase que de forma natural. Não é difícil imaginar os motivos da escolha. Como já mencionamos, de acordo com o perfil de nossos colaboradores, migrantes do interior de um Estado nordestino, no qual o ritmo citado é também um rito cultural para seus habitantes, pela representação simbólica que carrega em si e a proximidade da linguagem construída a partir dos hábitos, práticas, costumes e, em geral, da forma de vida do sertanejo, presente em muitas composições de artistas como Luiz Gonzaga, por exemplo, um dos cantores preferidos do grupo que trabalhamos.

Mesmo distante de seus lugares de origem e há muito tempo morando na capital, a maioria deles mantinha um vínculo afetivo bastante arraigado com o “mundo” de sua infância. Prova disso é que muitos faziam visitas frequentes aos familiares e amigos em sua cidade natal, mantendo-se vestígios culturais do passado. É importante lembrar também que o bairro de Felipe Camarão apresenta ainda peculiaridades interioranas, o que corrobora para um maior distanciamento dos hábitos culturais de seus habitantes, quando comparado com os da capital.

Todavia, sobre essa correlação música-contexto cultural-espacial, através dos quais se estabelecem as tramas cotidianas na vida dos sujeitos envolvidos na pesquisa, a letra de algumas canções de Luiz Gonzaga representam o significado dos laços que tecem a subjetividade, a simbologia dos sertanejos e o mundo da cidade grande.

Com a letra da canção Pedras que cantam em uma roda de conversa foram discutidas as relações sociais entre ricos e pobres, bem como as oportunidades que cada um tem conforme as condições econômicas. O conteúdo da música foi o mote para a discussão. Na rádio escolar, uma peça musical não pode se restringir ao entretenimento, mas incentivar provocações, indagação e debate nos grupos. Música como mero entretenimento, passa-tempo, as rádios comerciais já ofertam a todo custo.

Por outro lado, não é proveitoso elitizar o espaço musical da emissora com canções que não alcançarão o mundo intelectual, social e cultural do alunado. Música não é apenas para ser tocada, mas discutida, refletida; deve ser contextualizada. Também não se pode alimentar a equivocada concepção de que pessoas de baixa renda e escolaridade preferem ouvir composições de pouco apelo

criativo. A capacidade de fazer escolhas depende em boa parte, da dimensão do discernimento que cada pessoa desenvolve, e a educação é uma das principais condicionantes para alcançar essa compreensão. Dessa maneira, não se pode desperdiçar uma oportunidade como a rádio escolar para discutir o tema.

Em vários programas utilizamos a música, mas não para simplesmente preencher um espaço na grade de temas. Sua seleção era criteriosa e levávamos em consideração o lugar, o contexto e a importância dela naquele universo educacional. A intenção era oportunizar aos participantes estilos musicais que as emissoras comerciais, movidas pelos seus compromissos diversos, não socializavam para eles.

Não é educativo, também, impor padrões como o ideal. O educador deve levar para sua turma vários estilos musicais, oferecendo caminhos que possam escolher, de acordo com o que melhor convier aos sujeitos partícipes, sem preconceito ou apologia a qualquer estilo ou artista.

A música em sala de aula foi pensada permeada pelo conflito dialético entre beleza e efeito. O primeiro como apelo convidativo ao ouvir. O segundo como provocação à reflexão que os elementos musicais podem causar nas pessoas. É

mister entender que o espaço e o momento eram significantes para proporcionar,

embora que indiretamente, também outra opção musical.

Em outro momento, especialmente no programa de aniversário de Djalma Maranhão, seguindo as preferências, inserimos a música Cio da terra48, interpretada

por Milton Nascimento; observamos que os educandos ficaram atentos, ouvindo a canção, concentrados. Posteriormente, uma educanda que estava próxima a mim, falou em voz baixa: “que música bonita, professor”.

A utilização dos recursos citados é a “codificação de uma situação existencial que é a representação desta, com alguns de seus elementos constitutivos, em interação”. (FREIRE, 2005, p. 112). Consiste no uso de uma metodologia conscientizadora, que objetiva possibilitar a apreensão da realidade e a inserção dos sujeitos ao pensamento crítico, a partir da codificação (fotografia, vídeo, música, oralidade, cinema etc.) contextualizada com o universo daqueles que vivenciam aquela experiência.

O passo seguinte nesse processo, na concepção freiriana, é o momento da descodificação ou “a análise crítica da situação codificada”. (FREIRE, 2005, p. 112). Nela ocorrerá o que se chama de “cisão” entre o contexto abstrato e a realidade vivida por aqueles que dividem a experiência em grupo. Fato que se dará a tomada de consciência do real e passagem fundamental à emancipação.