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De acordo com os conceitos apresentados anteriormente, identificaremos ou não as seis configurações interpretativas do agir presentes nos textos ou as seis figuras de ação interna e externas (BRONCKART, 2008d; BULEA, 2010, 2011; BULEA;LEURQUIN; CARNEIRO, 2013; BULEA; FRISTALON, 2004; PEIXOTO, 2011), concernentes às atividades do estagiário.

 Figuras de ação internas: o referente é o agir específico das pessoas autoconfrontadas (no caso desta pesquisa, os estagiários).

 Figuras de ação externas: o referente é o agir de outros protagonistas da situação de trabalho (no caso desta pesquisa, os alunos, orientadora-docente e professoras-regentes etc.).

Quadro 1 – Figuras de ação e seus referentes

FIGURAS DE AÇÃO REFERENTES

Internas Estagiários

Externas Estagiários, orientadora-docente, professoras-regentes Fonte: Elaborado pela autora.

A distinção entre figuras de ação internas e externas, no plano teórico, reexplora e amplia a distinção genérica feita por Bronckart entre ação interna e ação externa, conforme

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acabam de ser evocadas mais acima. A respeito desta diferença, Bulea e Bronckart (2012) assinalam que a configuração das representações no interior de cada um desses dois registros é multiforme, ou se realiza segundo diferentes modalidades:

[...] de uma parte, este processo mobiliza os recursos semiótico-discursivos diferenciados, que se distribuem segundo as formas interpretativas produzidas, comprovando a pluralidade das figuras de ação; de outra parte, parecem funcionar de maneira dividida, produzindo no interior do mesmo texto o entrelaçamento de uma rede interpretativa dupla.101 (BULEA; BRONCKART, 2012, tradução nossa).

No plano linguístico, as propriedades das figuras de ação externas são globalmente as mesmas que correspondem às figuras de ação internas, elas se diferenciam apenas com relação à coesão nominal, na medida em que estas figuras comportam as séries isotópicas expressas por meio de formas nominais (um aluno, os alunos, o grupo etc.) e por retomadas anafóricas constituídas de pronomes na terceira pessoa102 (BULEA; BRONCKART, 2012, tradução nossa).

Essas figuras de ação provêm, também, de escolhas, ao mesmo tempo temáticas e discursivas, na apreensão do agir, sendo que sua distribuição dependerá dos tipos de discurso que mobilizam e dos eixos temporais que as organizam. Isso mostra, afirma Bronckart (2008d, p. 174) que as ações assim construídas são como figuras interpretativas do agir e, ao mesmo tempo, como figuras discursivas especiais no sentido de que os tipos de dimensões apreendidas e suas modalidades de agenciamento são consubstanciais às tomadas de posição enunciativas, ou seja, uma determinada figura de ação requer um determinado tipo de discurso. A seguir, apresentaremos suas principais características:

 Figura de ação-ocorrência: constitui um registro do agir caracterizado por

uma contextualização muito acentuada, em torno do agir-referente e de elementos de natureza diversa que são apresentados sem ordem de importância aparente e, sem a marcação cronológica por meio dos

orgaꜜizadores teꜛporais. Ela “está calcada, ꜜotadaꜛeꜜte, ꜜa ideꜜtificação e ꜜa desigꜜação dos iꜜgredieꜜtes do agir sob o âꜜgulo de seu caráter particular”

(BULEA, 2010, p. 124). Do ponto de vista enunciativo, apresenta-se em

101[...] ce processus mobilise des ressources sémiotiques-discursives différeꜜciées, qui, d’uꜜe part, se distribueꜜt selon les formes interprétatives produites, ce dont témoigne la pluralité de figure d’actioꜜ; d’autre part seꜛbleꜜt foꜜctioꜜꜜer de ꜛaꜜière dédoublée, ce qui produit, à l’iꜜtérieur du ꜛêꜛe texte, l’eꜜchêvetreꜛeꜜt d’uꜜ double réseau interprétatif.

102[...] une différence dans le domaine de la cohésion nominale, dans la mesure où ces figures comportment des series isotopiques doꜜt l’origiꜜe est expriꜛée par uꜜe forꜛe ꜜoꜛiꜜale (uꜜ élève, les élèves, le groupe etc.) et les reprises anaphoriques sont constituées de pronoms à la troisième personne.

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segmentos de discurso interativo,103 no qual se inserem múltiplas ocorrências de discursos indiretos. Pelo fato dessa figura depender do discurso interativo, o conteúdo temático mobilizado é organizado em relação direta com os parâmetros físicos e actanciais da situação de interação, permanecendo, o eixo de referência temporal dessa mesma situação (com seus limites de início e de fim). Do ponto de vista das marcas de agentividade, o actante é regularmente designado pelo eu, o que indica sua forte implicação. Algumas ocorrências do pronome nós (ou do coletivo a gente) aparecem para retomar complexos identificáveis a partir do cotexto ou do contexto. Essa figura comporta, também, um grande número de relações predicativas indiretas; e comporta, ainda, inúmeras modalizações pragmáticas.

 Figura de ação-experiência: constitui-se de uma tomada da atividade sob o

ângulo da cristalização pessoal das múltiplas ocorrências das atividades vividas. Esta figura é descontextualizada com relação ao agir-referente específico e se apresenta como ação-tipo habitual. Ela apresenta uma espécie de sequência do estado atual da experiência do actante em razão da tarefa visada. Ela aparece quase que exclusivamente em segmentos do discurso interativo, no entanto, com um eixo de referência temporal não delimitado, marcado, principalmente, por advérbios (normalmente, sempre, frequentemente, de toda maneira) e por verbos no presente com valor genérico que tendem a reproduzir a ordem cronológica da atividade, indicando, também, seus pontos de bifurcação. Do ponto de vista agentivo, apresenta o cofuncionamento de várias formas pronominais (eu, tu, a gente) confirmando uma implicação fraca do actante.

 Figura de ação-canônica: consiste em uma tomada da atividade sob a forma

de construção teórica, apresentando uma lógica da tarefa apresentada contextualizada, de validação geral. Esta figura se organiza sob a forma de discurso teórico104, ou misto – teórico-interativo –, por uma sequência de

103Segundo Bulea e Bronckart (2012), o discurso interativo caracteriza-se (i) pela presença de frases não declarativas (interrogativas, imperativas, exclamativas; (ii) pela presença de unidades dêiticas que retomam para alguns objetos acessíveis aos interactantes ou ao espaço-tempo da interação (ostensivos, dêiticos espaciais e/ou temporais); (iii) pela presença de nomes próprios, bem como de pronomes e adjetivos de primeira e segunda pessoa do singular e do plural; (iv) pela presença de auxiliar de modo poder, bem como de outros auxiliares de valor pragmático do tipo querer, dever, ter de etc.

104De acordo com Bulea e Bronckar (2012), o discurso teórico se caracteriza: (i) pela ausência de frases não declarativas; (ii) pela ausência de unidades dêiticas que retornam para certos objetos acessíveis aos

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verbos conjugados no presente com valor genérico, evocando os atos cuja ordem tende a reproduzir a cronologia geral do agir com eixo de referência temporal, não delimitado e, só é raramente marcado por um advérbio do tipo

“ꜜorꜛalꜛeꜜte”. Neste tipo de figura, observa-se uma organização oracional

canônica recorrente, do tipo sujeito-verbo-complemento, assim como um encadeamento por justaposição de frases simples. Esta figura remete à ordem do procedimento e é totalmente descontextualizada, pois ignora as contigências e as particularidades das práticas e se apresenta como um protótipo do agir, mencionando os componentes e as condições necessárias e suficientes para a sua realização e não deixando espaço para nenhum imprevisto, para nenhuma bifurcação.

 Figura de ação-acontecimento passado: realiza-se pela delimitação e

extração (do passado) de um acontecimento marcante e ilustrativo da atividade por meio de uma história particular, às vezes de um incidente. Apresenta-se em segmentos de relato interativo105, o acontecimento relatado está distanciado da situação de interação por meio da criação de um eixo temporal anterior a essa situação (por exemplo, ontem), mas o actante ainda permanece implicado nele, tendo seu papel de ator marcado por meio da

recorrêꜜcia do “eu” e por ꜛeio das relações predicativas que iꜜdicaꜛ a

tomada de responsabilidade da tarefa e a realização de seus atos constitutivos. Esta figura se caracteriza, enfim, por uma estruturação dos fatos relatados relacionados ao esquema narrativo (situação inicial, complicação, resolução) que atribui à unidade extraída seu status de “acoꜜteciꜛeꜜto”.

 Figura de ação-definição: indica uma tomada da atividade enquanto objeto de

reflexão. Ao contrário das outras figuras, ela não tematiza nem os actantes nem a organização cronológica da atividade, mas reúne traços considerados pertinentes, suscetíveis de circunscrevê-la e diferenciá-la das outras atividades. Apresenta-se em segmentos de discurso teórico, mas ao inverso da ação canônica, as formas verbais mobilizadas não tematizam os atos ou os

interactantes ou ao espaço-tempo da interação; (iii) pela ausência de nomes próprios, bem como de pronomes e adjetivos de primeira e segunda pessoa do singular de valor claramente exofórico.

105De acordo com Bulea e Bronckart (2012), o relato interativo se caracteriza: (i) pela ausência de frases não declarativas; (ii) pela presença de organizadores temporais (advérbios, sintagmas proporcionais, coordenativos, subordinativos etc); (iii) pela presença de pronomes e adjetivos de primeira e segunda pessoa do singular e do plural que retomam diretamente os protagonistas da interação verbal, (iv) pela presença dominante de anafóricos pronominais, às vezes associados às anáforas nominais.

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gestos. Com um eixo de referência temporal não delimitado, a maioria das relações predicativas é constituída de orações de construções impessoais – e, eventualmente, mais um sintagma – (É, HÁ, TEM + SINTAGMA) e, assim, não trazem nem pronomes, nem verbos que denotem processos.

Figura de ação-performance106: caracteriza-se pela colocação em cena de vozes enunciativas que teatralizam o dizer do actante (o estagiário) ou de outros sujeitos (os alunos, professoras-docentes, orientadora-docente) em uma situação diferente do momento de enunciação. Apresenta-se em segmento de relato interativo. Normalmente, apresenta-se encaixada na figura de ação acontecimento passado e serve para ilustrar os procedimentos metodológicos do professor ou do aluno em situação de sala de aula.

Quadro 2 – Tipos de figuras de ação

Figuras de ação Propriedades

ação-ocorrência

discurso interativo; contextualizada;

relações predicativas indiretas; modalizações lógicas e deônticas; implicacação forte (estatuto de ator) eu.

ação-experiência

discurso interativo; descontextualizada; ação-tipo habitual;

implicação + fraca (ora o actante é agente, ora ator) tu, (eu, se).

ação-canônica

discurso teórico; a-contextualizada;

orações recorrentes (sujeito-verbo-complemento); implicação + fraca tu, a gente (genérico).

ação-acontecimento passsado

relato interativo; recorrência do eu; relações predicativas; implicação atestável eu.

ação definição

discurso teórico ou misto interativo-teórico a-contextualizada;

orações do tipo (é + sintagma (s)); implicação não marcada.

performance

relato interativo; vozes enunciativas; implicação não marcada. Fonte: Elaborado pela autora.

De acordo com Bronckart (2006), até agora os resultados comprovam que essas figuras dependem da natureza das tarefas realizadas, como também, das condições de

106Esta figura de ação foi identificada na tese de Peixoto (2011), intitulada, Representações do agir docente: análises de reconfigurações do agir no discurso do professor.

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produção verbal (trabalho prescritivo, real e representado), mas, sobretudo, dependem dos tipos discursivos mobilizados nos segmentos interpretativos. Por esta razão, este autor considera que essas figuras sejam, primeiramente, discursivas, levando-o a destacar seu papel decisivo e paradoxal. Decisivo, porque as interpretações da própria atividade estão condicionadas aos tipos de discurso mobilizados e, dependem do domínio que os interpretadores tenham desses diferentes tipos de discurso; paradoxal, porque, a capacidade do

iꜜtérprete coꜜstruir uꜛa represeꜜtação de “si” ativa as coꜜdições discursivas específicas,

supraordenada ou demarcada, nas tomadas de consciência verbalizadas.

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